ROMA
- 1999
SAGRADA CONGREGAÇÃO
PARA OS RELIGIOSOS
E INSTITUTOS SECULARES
Prot. nº P. 72 -1/80
A
Congregação dos Missionários de S. Carlos (Scalabrinianos) cuja casa geral se
encontra nessa cidade de Roma, tem como missão particular na Igreja o trabalho pastoral com os
migrantes.
De
acordo com as normas do Concílio Vaticano II e as outras disposições da Igreja,
elaborou, com empenho, um novo texto das Constituições chamado Regra de Vida,
que o Superior Geral, segundo o desejo expresso pelo Capítulo, apresentou a
Santa Sé, pedindo humildemente a aprovação.
Esta
Sagrada Congregação para os Religiosos e Institutos Seculares, depois de ter
confiado o texto ao estudo de Consultores e aguardado o parecer favorável do
Congresso, que se realizou no dia 11 do último mês de Setembro, com o presente
Decreto, o aprova e confirma, com as modificações estabelecidas pelo mesmo
Congresso, conforme o exemplar redigido em língua italiana, que está guardado
em seu Arquivo, tendo observado o que por Direito deve ser observado.
A Sagrada Congregação confia que os Missionários de São
Carlos, impelidos como por um novo impulso, continuarão a realizar, sempre com
maior dedicação, o seu apostolado específico, fiéis ao carisma do próprio
Instituto.
Roma, 4 de Novembro, festa de S. Carlos Borromeo, 1981.
CONGREGATIO
PRO INSTITUTIS VITAE CONSECRATAE
ET SOCIETATIBUS VITAE APOSTOLICAE
Dal Vaticano. 29 gennaio
1999.
Prol. nº. P. 72 – 1/09
Reverendo
Padre,
mi pregio comunicarle che abbiamo preso in esame le
modifiche proposte nelle Costituzioni
e nel Direttorio
del suo Istituto, da Lei
presentate a nome del XI Capitolo Generale recentemente celebrato.
Questa
Congregazione per gli Istituti di vita consacrata e le Societá di vita
apostolica approva e conferma le modifiche negli articoli delle Costituzioni e
prende nota delle modifiche nel Direttorio, secondo il testo che si conserva
nel suo Archivio.
Profitto della circostanza per
confermarle la mia cordiale stima nel Signore.
Eduardo Card. Martinez Somalo
Prefetto
Piergiorgio Silvano Nesti, C.P.
Segretario
________________________________
Reverendo P. Luigi Favero. cs
Superiore generale dei
Missionari di San Carlo - Scalabriniani
ROMA
PRIMEIRA PARTE
1. A
Congregação dos Missionários de São Carlos (escalabrinianos) é uma
comunidade apostólica de religiosos inserida na atividade Missionária, que Cristo
continua na Igreja para a realização do plano divino no mundo e na história1.
Esse plano foi revelado plenamente em Cristo, enviado pelo Pai “para anunciar a
Boa Nova aos Pobres 2” e para
que os filhos de Deus, dispersos, fossem reconduzidos à unidade 3.
Isso se manifesta ainda hoje nos acontecimentos, exigências e aspirações dos
homens 4.
O mundo, ao qual somos chamados a anunciar o Mistério da Salvação, é o dos migrantes. Para cumprir nossa missão partilhamos com eles da mesma vida e das vicissitudes da migração, a exemplo de Cristo que, “por sua encarnação, se ligou ao ambiente social, cultural em que viveu”
___________________
1 Cfr.
Ad Gentes 9
2 Lc. 4, 18
3 Jo. 11, 52
4 Cfr. Gaudium et Spes 11
5.
2. Essa é a missão que a Igreja nos confiou através de nosso fundador, o
Bispo de Piacenza João Batista Scalabrini (1839-1905): tornarnos migrantes com
os migrantes, para com eles construir, também através do testemunho de nossa vida
e de nossa comunidade, a Igreja, que em sua peregrina-ção terrena se associa
especialmente às classes mais pobres e abandona-das; ajudar outrossim os homens
a descobrir o Cristo nos irmãos migran-tes e perceber nas migrações um sinal da
vocação eterna do homem.
Com “a intuição dos fatos vindouros, própria das mentes superiores e dos corações grandes, ou antes, daqueles que o Senhor chama para tornarem-se instrumentos especiais e oportunos de seus profundos e misteriosos desígnios
_____________
5 Ad.
Gentes 10
providenciais no mundo”6, no dia 28 de
Novembro de 1887, com a aprova-ção de Leão XIII, ele fundou a nossa Congregação
como “Instituto Apostó-lico” de missionários, com o objetivo “de prover
principalmente a assistência espiritual dos italianos emigrados, mormente para
as Américas” 7, e a colocou sob o patrocínio de São Carlos, exemplo
de todas as virtudes que formam um verdadeiro apóstolo de Jesus Cristo 8.
Nessa obra vislumbrava “um meio eficaz para cumprir seus deveres episcopais
para o bem de tantos infelizes” 9, mesmo além dos confins da própria
diocese. Pensou, assim, nos italianos emigrados, unidos a ele, não só
pelos vínculos da fé, mas também pelos da pátria, ainda
__________________
6 G.
Toniolo, Lettera dell 1.11. 1911
7 Norme estratte dal
regolamento approvato dalla S. Congregazione de Propaganda Fide, 1892.
8 Cfr. G. B. Scalabrini, Ai Missionari per gli Italiani nelle Americhe,
15-3-1892.
9 Cfr. G. 8. Scalabrini, Il disegno di legge
sulla emigrazione
italiana, 1888.
mais por figurarem entre os mais pobres, os mais
isolados e abandonados, os menos protegidos l0.
Tal pobreza material e espiritual foi decisiva na visão
que ele teve dos migrantes, na maior parte dos casos “vítimas fáceis de
especulações desumanas” e de discriminações detestáveis, mas também nos casos
de melhor sucesso, sujeitos a “esquecer qualquer noção sobrenatural”11,
“num isolamento que, muitas vezes, é a morte do corpo e da alma” 12.
3. Também nesse campo ele obedecia
ao mandato apostólico de levar a mensagem evangélica aos mais pobres e
distantes: mandato que animou toda a sua ação e
esteve na origem das características de sua
pastoral, nas quais descobrimos as fontes de nosso
__________________
10 Cfr. G. B. Scalabrini, Memoriale alIa S. Sede sulla
commissione “pro emigratis
catholicis” 1905.
11 G. B. Scalabrini, l'Emigrazione
italiana in America, 1887.
12 G. B. Scalabrini, L'Italia all'estero, 1898.
espírito Missionário.
Promoveu a obra em beneficio dos surdosmudos, para comunicar a palavra de Deus às criaturas mais isoladas. Fez-se Apóstolo do Catecismo, instrumento fundamental para difundir a fé em todos os corações. Preocupouse pelas mondadeiras de arroz e sobretudo pela classe operária nascente, que ia se organizando à margem e mesmo contra a Igreja.
Essa sensibilidade apostólica alcançou as vibrações mais altas, quando se orientou para os migrantes.
Com a ajuda de seus missionários e de leigos de boa
vontade, idealizou, para eles, um plano de ação que corres-pondesse às suas
exigências humanas e sociais e os conduzisse, através de suas vicissitudes de
migrantes, embo-ra causadas por injustiças e desequilí-brios demográficos e
marcadas por sofrimentos e opressões, a contribuí-rem para a solidariedade de
todos os homens, o progresso social e principal-mente para a difusão da fé e da
unificação da família humana em Cristo 13.
Essa visão global levou-o a interessar-se por todos os migrantes, mesmo de outras nacionalidades, e se concreti-zou, quase como testamento espiritual, no projeto de criar na cúria romana uma comissão “pro emigratis catho-licis”.
4. Fiel às diretrizes apostólicas do
Fun-dador, nossa Congregação, durante decênios, trabalhou nas duas Améri-cas e
contribuiu eficazmente para a evolução positiva do fenômeno migra-tório.
Em seguida, ela foi chamada a reco-lher parcialmente a herança da obra com que o Bispo Jeremias Bonomelli, condividindo o espírito apostólico do nosso Fundador, havia prestado assis-tência aos migrantes na Europa. Além disso, estendeu sua missão a outros países onde a assistência às migrações
__________________
13 Cfr. G. B. Scalabrini,
Discorso al Catholic Club di New York,
1901.
se apresentava necessária e urgente.
Solicitada, depois, por prementes exi-gências pastorais, consciente de cor-responder ao espírito do Fundador, começou a trabalhar em migrações de diferentes nacionalidades, em migra-ções internas, como também entre a gente do mar. Enriqueceu-se, assim, de experiências novas de um vivifican-te pluralismo de opções.
5. O
mundo das migrações apresenta uma grande variedade de situações: alguns
grupos de migrantes conservam o desenvolvimento e a riqueza humana e cristã de
seu patrimônio de origem, tornando-se fator de progresso e enriquecimento para
a sociedade tanto civil como eclesiástica; outros, ainda hoje, vivem as vicissitudes da migração, nos
aspectos mais dolorosos e discri-minatórios; mesmo aqueles que conse-guiram uma
posição econômica satis-fatória, muitas vezes, permanecem em pobreza de
direitos, de reconhecimento, de capacidade de comunicação e sobretudo em
pobreza de fé e de reli-giosidade, mais penosas do que a própria pobreza
econômica. Em tal variedade de situações, permanecemos fiéis ao nosso fim
específico e continua- mente redescobrimos nosso carisma, pondo-nos a serviço
de quantos apresentem condições, exigências e aspirações análogas às que
moveram o Fundador a instituir a Congregação. Por isso, fiéis aos compromissos
que ele nos transmitiu, e em consonância com as realidades contemporâneas, dedicamo-nos a todos os que, em con-seqüência das
migrações, por verda-deiras necessidades, exigem uma assistência
pastoral específica. Portanto, tendo presente a vontade da Igreja, as intenções
do Fundador e as vicissi-tudes de nossa Congregação, entre os destinatários de
nossa missão, confir-mamos a escolha preferencial para os migrantes que mais
agudamente vivem o drama da migração.
É nosso empenho verificar, constantemente, se as obras já existentes e as que entendemos assumir correspondam à finalidade própria da Congregação e às suas necessidades vitais.
6. Cientes de que o Reino de Deus
se exprime através das realidades humanas e nelas se constrói, sabemos colher os
valores que caracterizam a vida dos migrantes e constituem o seu contributo
específico para a solidariedade de todos os povos e para a fraternidade
universal: as aspirações à dignidade, à participação, à justiça e à salvação
integral. Ao mesmo tempo, levamos em grande consideração o patrimônio
espiritual de pensamentos, tradições, cultura e religião que os migrantes
trazem consigo do lugar de origem, como também o patrimônio de valores do novo
ambiente no qual se inserem.
Para entender tais valores e orientá-los à construção do Reino de Deus e, ao mesmo tempo, para dar resposta às exigências da Congregação, que tem membros e destinatários de diferentes nacionalidades, pomos como funda-mento de nossa formação e de nosso apostolado um espírito autenticamente missionário. Ele nos torna inteiramente disponíveis, não apenas a trabalhar fora das fronteiras de nossa Pátria, como também a adquirir, caso falte a homogeneidade natural, uma afinidade espiritual, psicológica e lingüística com os migrantes confiados a nossos cuidados, seja qual for a sua origem. No plano de ação, a Congregação valoriza a homogeneidade natural e as afinidades adquiridas por seus membros, reconhecendo a conveniência e a eficácia pastoral de confiar, normal-mente, a assistência dos migrantes àqueles que falam sua língua e conhecem suas formas de cultura, as características da sua vida espiritual e sua mentalidade.
7. A própria finalidade apostólica de
nossa missão nos induz a
promover a salva-ção integral do homem. Por isso, além da assistência
espiritual, prestamos aos migrantes nossa ajuda humana, social e cultural:
denunciamos as causas dos males que os afligem e lutamos, ao mesmo tempo, para
eliminá-las e para promover a sua comunhão e participação na comunidade que os
acolhe.
Nessa tarefa consideramos importante a colaboração dos leigos, como, desde o início, nos ensinou o Fundador.
Acima de tudo, porém, nossa missão é a evangelização, que visa levar os migrantes à redescoberta da fé na própria vida. Daí a prioridade da catequese, necessária para uma fé mais profunda e personalizada e para a eficácia pastoral dos Sacramentos.
8. A multiplicidade de situações
concretas que devemos
enfrentar se traduz no pluralismo de métodos pastorais a serem definidos nas
diversas províncias e regiões. Ao mesmo tempo, a Congregação estabelece princípios e diretrizes gerais para garantir
a necessária unidade.
A nossa pastoral se insere na pastoral da Igreja local: com suas diretrizes harmonizamos nossas opções e méto-dos de ação, de forma que a pastoral do migrante se torne um projeto da própria Igreja local. Tal inserção, atua-da no respeito à nossa identidade apostólica, nos responsabiliza pela sensibilização do clero e dos leigos do lugar, sobre o valor e as exigências dos migrantes.
9. O Fundador quis que fôssemos uma comunidade apostólica,
e, precisamen-te, Congregação Religiosa para que estivessem asseguradas a
eficácia da nossa dedicação ao serviço dos mi-grantes e a estabilidade do
Instituto. De fato, a missão que recebemos da Igreja adquire sentido e é digna
de crédito se, ao anunciar a mensagem de Cristo, vivermos em comunhão com Ele e
com os irmãos. Por isso, escolhe-mos uma vida de comunhão, na prática dos
conselhos evangélicos, e nos propomos tornar-nos sinal de libertação e de salvação
para os mi-grantes e testemunho de fraternidade e unidade num mundo que, apesar
de tender para a unificação, permanece dividido por interesses e egoísmos.
10. As nossas comunidades têm um signi-ficado eminentemente apostólico, pois,
na unidade dos irmãos, manifestam a vinda do Senhor e são fonte de grande
energia para o apostolado 14.
Por sua ação e com sua presença, colaboram para transformar os relacio-namentos entre os homens no mundo da migração, dando, assim, contributo próprio à formação de uma humani-dade nova.
Elas se configuram à natureza reli-gioso-apostólica da Congregação e nos levam a colocar em comum os dons da natureza e da graça, para tudo pôr à serviço da missão. Convidam-nos a viver a fé, a esperança e a lei fundamental da
___________________
14 Cfr. Perfectae
Caritatis, 15
caridade nas circunstancias concretas, num estilo de vida que manifeste os bens superiores que nos reúnem.
Como a Igreja, da qual é parte viva, a nossa é, acima de tudo, comunidade de fé e de culto: constrói-se e perse-vera na oração, cujo ápice é a Euca-ristia, sinal eficaz de amor e de unida-de. A oração, de que nossa comunida-de continuamente se alimenta, é busca da união íntima com Deus e de sua vontade salvífica, em contínua revisão de nossa vida pessoal e comunitária.
Abraçando toda a realidade em que está inserida nossa
vida e a dos migrantes, juntamente com os nossos, oferece a Deus seus
sofrimentos, suas aspirações e realizações, em união com o sacrifício redentor
de Cristo: tende, assim, a tornar-se oração de um povo que, “enquanto peregrina
sobre a terra longe do Senhor, considera-se exilado, busca e visa as coisas do
alto” 15.
_________________
15 Lumen
Gentium, 6
11. Com os votos religiosos fazemos uma
escolha evangélica para viver plena-mente como Cristo viveu. Enquanto nos
desapegam dos bens terrenos, eles nos tornam disponíveis à nossa missão e nos
permitem contatos humanos mais profundos, em que a pobreza se revela como
riqueza, a castidade se transforma em fecundidade espiritual, e a obediên-cia
se torna serviço aos irmãos no amor de Cristo.
12. O Fundador, desde o início, deu particu-lar importância
à profissão da pobreza para nossa vida apostólica entre os mi-grantes. Muitos
deles vivem em situações de pobreza, de insegurança e de explo-ração; muitos
são dominados pela ganân-cia de riqueza, mesmo em detrimento da solidariedade
com os próprios semelhan-tes. A pobreza evangélica, enquanto nos conscientiza que somos membros do
Reino, onde toda a capacidade vem de Deus16, nos
__________________
16 II Cor. 3,5
faz sensíveis ao clamor dos pobres
e nos impele a denunciar
evangelicamente quantos são escravos do dinheiro e do poder; além disso, ela
nos torna testemunhas de libertação ante a sede de lucro e restitui ao trabalho
um sentido humano e digno.
A vontade de tornar efetivo nosso teste-munho de
pobreza individual e comuni-tária nos conclama a uma contínua con-versão de
mentalidade e de atitudes, e exige que coloquemos em comum os bens, não só como
sinal de nossa comunhão espiritual, mas também para que sirvam às necessidades
da Igreja e dos mais pobres.
No uso desses bens não nos inspiramos nos costumes
do ambiente, em que vive-mos, mas na conformidade ao despren-dimento
evangélico, que nos liberta da-quilo que possa impedir aos irmãos de
re-conhecerem em nós o espírito de Cristo: “mostrai sempre mais que vosso zelo igua-la
somente ao vosso desprendimento” 17.
_________________
17 G. B. Scalabrini, Discorso ai missionari partenti. 10.12.1890
O testemunho de pobreza patenteia-se também na administração dos bens temporais. Ela exige fidelidade e res-ponsabilidade, garante, dentro da Con-gregação, uma distribuição justa dos bens que constituem seu patrimônio e assume a função de serviço apostólico aos migrantes.
13. Com a castidade consagrada orienta-mos a Deus e aos irmãos todas as forças de amor de que somos capazes. Por ela, transformados numa misteriosa semelhança com Cristo, oferecemos aos irmãos um prenúncio da ressurreição. Para nós, Missionários para a migração, a castidade assume também um valor particular: torna-nos total-mente disponíveis aos migrantes, especialmente aos mais abandonados e aos que se sentem mais frustrados na busca da fraternidade e da comunicação, e se torna sinal, para os que vivem o ideal cristão, de um amor casto e fiel mesmo em condições de isolamento e separação.
14. Pela profissão de obediência
oferecemos a Deus, totalmente, a nossa vontade, para unirmo-nos de modo
mais sólido e seguro à sua vontade salvífica18 e, em espírito de fé,
guiados pelos superiores, nos dispomos ao serviço dos irmãos migrantes.
Assimilando
o espírito do Fundador, consideramos a obediência ao Papa, também em virtude do
voto, e aos Bispos, condição indispensável para viver a união com Cristo e com
os irmãos. Para conhecer a vontade de Deus a respeito de nossa vida e de nossa
ação missionária, colocamo-nos em atitude de busca comum, à luz da revelação,
dos ensinamentos da Igreja e do nosso Carisma. “O superior, sinal e vínculo de
comunhão, anima e guia essa bus- ca, e, quando for o caso, a conclui com uma decisão”19.
Assim,
tanto autoridade como liberdade individual se
põem ao serviço da
_________________
18 Crf.
Perfectae Caritatis, 14 - 19 Evangelica Testificatio, 25
missão, em espírito de confiante diálogo e de
corresponsabilidade, conforme o exemplo do Fundador, “devotado sem medida e sem
medida livre” 20.
15. A tal espírito a Congregação
adapta as estruturas de seu governo. Ele garante a função do pluralismo das
atividades pastorais nas diversas áreas geográfi-cas, para que o que é
particular, não prejudique mas concorra para a uni-dade, no âmbito do fim
específico21. Unidade e pluralismo são favorecidos pela adoção dos
critérios da colegiali-dade e de subsidiariedade, como tam-bém pela intensa
comunicação entre os diversos
organismos. Célula vital da Congregação é a comunidade local, em suas
diferentes modalidades. Ela vive em íntima união com a comunidade provincial, junto com a qual faz ama-
__________________
20 A.
Fogazzaro, Una visita a Mons. Scalabrini,
1905.
21 Cfr.
Lumen Gentium, 13.
durecer
opções mais adequadas à pró-pria missão e à vida espiritual de seus membros. A
Direção Geral é o elo visí-vel da fraternidade e o guia de nossa fidelidade ao
carisma da Congregação.
16. Nossa formação traduz na vida as linhas fundamentais da missão e da
natureza da Congregação. O religioso scalabriniano haure sua espiritualidade no
carisma do Fundador e na experiência vivida pela Congregação. Amadurece-a na
reflexão bíblica e teológica sobre o papel que sua atividade missionária assume
no plano divino da salvação. Chamado ao serviço dos migrantes das mais diversas
origens, ele assume um espírito de plena disponibilidade e adaptabilidade às
suas exigências, cultivando uma mentalidade universalística. Completa sua
formação com uma preparação psicológica, técnica e sobretudo pastoral, fundamentada
no conhecimento e na experiência prática da realidade humana, social e
religiosa das migrações.
17. Os jovens religiosos, animados pelo ideal scalabriniano,
aprofundam sua vocação em comunidades de formação que a Congregação, de acordo
com as normas da Igreja, constitui, segundo as próprias exigências específicas.
Para satisfazer tais exigências, uma vez estabelecidas e verificadas as condições indispensáveis no plano educacional e psicológico, ela se orienta para a instituição das próprias comunidades, de modo que os jovens possam tomar contato direto, pelo menos durante o período final da formação, com os problemas e a realidade viva dos migrantes, educar-se em ambiente comunitário plurinacional e adquirir as afinidades lingüísticas e culturais necessárias ao desenvolvimento do nosso apostolado específico.
18. O amor à Congregação e aos migran-tes, empenha todos, missionários co-munidades, a favorecer o surgir de novas
vocações, quer nos países de emigração como também nos de imi-gração, de tal
maneira que se realize a aspiração do Fundador, ou seja, ver, também entre os
filhos dos migrantes e de seus descendentes, florescer voca-ções missionárias
com a ajuda de nossa ação pastoral 22.
A vida e o desenvolvimento da Congre-gação são obra da graça e da doação com que todos os religiosos vivem a missão para os migrantes, conforme o carisma do Fundador.
19. Dom Scalabrini viu nos migrantes a imagem de Cristo 23 e nas
suas vicis-situdes um desafio à fé e à caridade dos cristãos e,
particularmente, dos missionários,
solicitados a sanar os
_________________
22 G. B. Scalabrini a P. F. Zaboglio,
9-11-1888: “se potremo
col
tempo formare sacerdoti i figli dei nostri emigrati, avre-
mo opera
per l' abbondatitssima messe.
23 Mt. 25,35: “Ero straniero e mi avete accolto”.
males
das migrações, em suas causas e conseqüências, e a descobrir o desígnio que
Deus realiza em todas as migrações, mesmo se causadas por in-justiças.
As migrações, aproximando os nume-rosos
componentes da família humana, visam a construção de um corpo social sempre
mais variado e amplo, destinado a prolongar e estender aquele encontro de povos
e raças que, enriquecido pelo dom do Espírito Santo no dia de Pentecostes, se
transformou em fraternidade eclesial.
Enquanto os sofrimentos que acompa-nham as
migrações exprimem as dores do parto de que nasce e se renova a Igreja peregrina,
as desigualdades e os desequilíbrios de que esses sofrimentos decorrem, como
conseqüência e manifestação, denunciam, por sua vez, as dilacerações que o
pecado causa na família humana e clamam dolorosa-mente por fraternidade.
Essa visão leva-nos a equiparar as
migrações àqueles acontecimentos bíblicos que marcam as etapas da fadigosa caminhada da humanidade rumo à
construção de um povo sem discri-minações e sem fronteiras, depositário do dom
de Deus e aberto à vocação eterna do homem: o caminho dos pa-triarcas que,
sustentados pela promes-sa, rumam a uma pátria futura; a libertação da
escravidão que, em virtu-de do êxodo, dá origem ao povo da Aliança; o exílio,
que põe o homem diante da relatividade de toda a meta atingida; a mensagem
universal dos profetas que denunciam como contrá-rias aos desígnios de Deus as
discrimi-nações, as opressões, as deportações, as dispersões e as perseguições:
as quais, porém, tornam-se veículo da mensagem de Salvação para todos os homens
e testemunham que, mesmo na sucessão caótica e contraditória dos acontecimentos
humanos, Deus continua a tecer o seu desígnio de salvação até a completa unificação
do universo em Cristo 24.
_________________
24 Cfr. Efes. 1,10; Col. 1,16
Herdeiros do espírito do Fundador, e dedicados à missão que ele nos con-fiou, somos estimulados a captar, nas vicissitudes dos migrantes, a particu-lar importância que adquire o convite dirigido a todos de considerarem-se peregrinos e estrangeiros nessa terra, segundo o exemplo dos Patriarcas.
O caminho dos migrantes torna-se, desta maneira, sinal vivo da vocação eterna, impulso contínuo àquela espe-rança que, indicando um futuro além do mundo presente, solicita sua trans-formação e superação.
Suas peculiaridades tornam-se insis-tente convite à fraternidade do Pente-costes, onde as diferenças são harmo-nizadas pelo Espírito e a caridade se faz autêntica na aceitação do “outro”.
Suas vicissitudes são o anúncio do mistério pascal, pelo
qual morte e ressurreição tendem à criação da nova humanidade, onde já não há
nem escravo, nem estrangeiro 25.
___________________
25 Cfr. Gal. 3,28; Col. 3,
11
A sua própria presença é símbolo de um povo novo, para o
qual toda a terra estrangeira é pátria e toda a pátria é terra estrangeira 26.
_________________
26
Cfr. Epist. ad Diognetum, 5
SEGUNDA PARTE
N.B. Os artigos impressos em
letras “modelo
italic” são normas de
diretório geral; os demais portanto fazem parte da Regra de Vida.
20. A Congregação dos Missionários de São
Carlos (Escalabrinianos) é um Institu-to religioso clerical de direito
pontifício. Os seus membros são chamados por Deus a participar da missão da
Igreja, ajudando os migrantes a descobrir e atuar o plano de salvação oculto em
suas vidas e nas migrações humanas.
21. A Congregação compõe-se de religio-sos: sacerdotes ou encaminhados ao
sacerdócio e irmãos missionários.
Na diversidade de ministérios e de fun-ções eles realizam a mesma missão. Todos os membros têm os mesmos direitos e os mesmos deveres, de acordo com as disposições da Igreja e da presente Regra de Vida.
22. Realizamos nossa missão anunciando a mensagem evangélica e
testemu-nhando-a pela consagração religiosa. Esta, enquanto nos une a “Cristo
que, virgem e pobre, remiu e santificou os homens pela obediência” 1,
torna mais eficaz a nossa palavra e a nossa vida totalmente disponível ao
serviço de Deus e dos irmãos migrantes.
23. Desempenhamos nossa missão em primeiro lugar em favor daqueles que, por
qualquer motivo, se encontram morando fora da própria pátria ou comunidade
étnica e por reais neces-sidades estão precisando de uma as-sistência pastoral
específica; exerce-mos, outrossim, nossa missão em prol dos que, em vista das
diferenças étni-cas e sócio-culturais, devidas às mi-grações internas, vivem em
situações análogas; por fim, em favor dos marinheiros.
24. Em nosso apostolado específico damos prioridade
à evangelização, em particu-
________________
1 Perfectae Caritatis, 1
lar à catequese, e trabalhamos para reunir os migrantes em comunidade de fé, de caridade e de culto, orientan-do sua vida cristã para a Eucaristia.
25. Para que a história das migrações com suas vicissitudes possa dar origem
a um mútuo enriquecimento humano e cristão, nossa missão, além de dirigir-se às
comunidades de chegada, estende-se também àquelas de onde partem os imigrantes.
26. A
Congregação tenciona colaborar com todos os que se esforçam para eliminar
situações de injustiça e para criar melhores condições de vida nos lugares de
origem dos migrantes, a fim de prevenir o fenômeno migratório em seus aspectos
negativos.
27. Propõe-se também sensibilizar a Igreja e a sociedade civil a acolher os migrantes
e adotar uma visão e solução cristã de seus problemas, para que, no superamento
das discriminações e na atuação da justiça e da caridade, eles sejam
considerados como pessoas e imagens de Cristo.
28. Para melhor prestar seus serviços aos migran-tes, a Congregação favorece
e promove o uso dos meios de comunicação social, preparando pessoas para esta
tarefa e colaborando com quantos atuam nesse setor com os mesmos objetivos.
29. No intuito de estudar e aprofundar o fenômeno migratório e os problemas
conexos, a Congre-gação institui Centros de Estudos para as migrações e para a
pastoral migratória. Eles desenvolvem atividades de documentação e de pesquisa,
de análise e de reflexão, quer sob o aspecto sociológico como também
teológico-pastoral. Sua natureza e finalidade são especi-ficadas em estatutos
próprios.
30. Assumimos o compromisso de atuali-zar continuamente a nossa ação
pasto-ral, para adequá-la às mutáveis exi-gências do fenômeno migratório e para
garantir a fidelidade à escolha prefe-rencial pelos migrantes mais
necessi-tados e, entre esses, para os que oferecem condições mais favoráveis à
dilatação do Reino de Deus.
Para uma contínua verificação e atualização dos métodos pastorais, os missionários devem refletir sobre o sentido de sua presença e ação no seio das comunidades dos migrantes.
Com eles captem toda a realidade humana social e religiosa, de forma que o trabalho apostólico corresponda à sua mentalidade, cultura e aspira-ções. Essa reflexão seja feita pelas comunidades locais em colaboração com a comunidade provincial e com os apropriados organismos de estudo e de pesquisa.
31. A nossa presença num lugar ou numa obra se prolonga até que a finalidade
específica da Congregação o exigir. Tarefas ou posições apostólicas, que não
estão incluídas direta-mente em nossa finalidade específica, poderão ser
mantidas ou assumidas como exceção, cabendo à Direção Provincial a apreciação e
à Geral a aprovação. Será contudo nosso dever transformar qualquer posição a
nós confiada em centro de irradiação apostólica e de soli-dariedade para com os
migrantes mais necessitados, bem como de promoção voca-cional.
32. Fiéis ao espírito e à vontade do Funda-dor, os missionários exercem seu
apostolado em perfeita união com o Papa e com os Bispos, sucessores dos
Apóstolos.
33. A Congregação promove o relaciona-mento e busca a colaboração com to-das
as pessoas e instituições, eclesiás-ticas ou leigas, que atuam no setor das
migrações.
34. Mediante entrosamento e formas apropriadas, será incentivada, em termos de
atividades concretas, a colaboração com a Congregação das Irmãs Missionárias de
São Carlos Borro-meo (Escalabrinianas), com as Missionárias Seculares
Escalabrinianas e com outros Insti-tutos religiosos para os migrantes ou que de
um modo ou outro estejam também empe-nhados no setor da mobilidade humana.
35. Os sacerdotes e os religiosos, que tencionam colaborar com os
missionários escalabrinia-nos, por um período de tempo não inferior a um ano,
serão aceitos em nossas comunidades, segundo acordos escritos entre o
requerente e o Superior da Província que o acolhe, prévio consenso do Ordinário
do qual o interessado depende e de acordo com o Ordinário do lugar.
36. Para os leigos que pretendem dedicar-se ao apostolado entre os migrantes,
a Congregação favorece oportunas formas de colaboração, a serem regulamentadas
sempre sob a responsa-bilidade dos superiores maiores e de acordo com as
exigências da justiça e da caridade.
37. A Congregação, por fim, promove e anima a colaboração em forma associada
de leigos desejosos em partilhar o carisma escalabri-niano.
a). A Comunidade Escalabriniana
38. Chamados por Deus à santidade em virtude do batismo, tendemos à per-feição
do amor para com Deus e o próximo, vivendo a nossa vocação mis-sionária em
comunidade de vida e na prática dos conselhos evangélicos, me-diante os votos
simples de pobreza, castidade e obediência. Na íntima co-munhão com Cristo e
com os irmãos, poderemos alcançar uma maturidade pessoal, humana e cristã, mais
com-pleta e uma atividade apostólica mais eficaz.
39. Nossa vida comunitária está a serviço da missão apostólica entre os
migran-tes. Ela será mais vital e fecunda, na medida em que souber captar em si
mesma e no mundo dos migrantes a presença de Deus e tornar seus os valores que
aí fermentam.
40. Escolhendo a forma de vida que o Filho de Deus - harmonizando
perfeita-mente contemplação e ação – abraçou, em obediência ao Pai, ao realizar
a salvação do mundo, nós também uni-mos a atividade apostólica ao contí-nuo
colóquio com Deus, na busca de sua vontade, dóceis ao Espírito Santo.
41. Responsáveis que somos cada um pela oração de todos e todos pela oração
de cada um, cultivamos assiduamente o espírito de oração, tanto na vida
comunitária como pessoal. Para alimentarmos este espírito e manifestá-lo em
formas concretas, consagramos diariamente um espaço adequado de tempo à oração
que “é parte mais viva, mais forte e mais eficiente do Apostolado”1.
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1 G. B. Scalabrini, Discorso
ai missionari partenti, 24 gennaio
1889.
42. A exemplo das comunidades apostólicas, que exprimiam a própria comunhão
perseverando na oração e na fração do pão, consideramos a Eucaristia e a oração
comum como que o centro e a expressão mais alta de nossa vida comunitária e a
fonte de nosso compromisso de evangelização.
43. Fiéis ao espírito do Fundador e imitando seu exemplo, nossa vida em
Cristo, se alimenta principalmente com a escuta da Palavra de Deus, o amor à
Eucaristia, e à Igreja, a devoção filial a Maria, Mãe de Cristo e da Igreja, e
o exercício responsável do ministério e da comunhão fraterna.
44. § 1. São empenhos cotidianos de oração de todo religioso: a celebração ou participação da Eucaristia, a Liturgia das Horas, a Meditação, que o Fundador propunha que fosse de pelo menos meia hora, o Terço ou outra prática de devoção mariana. São empenhos periódicos os