UMA MENSAGEM PARA O CENTENÁRIO
de
morte do
BEM-AVENTURADO DOM JOÃO BATISTA
SCALABRINI
Solenidade de
Nosso Senhor Jesus Cristo,
Rei do Universo
Queridos Irmãos e Irmãs:
O ano de 2005 é um ano de graça e de
grande significado para a Família Scalabriniana, que compreende a Congregação
dos Missionários de São Carlos – Scalabrinianos, a Congregação das Missionárias
de São Carlos Borromeo – Scalabrinianas e o Instituto das Missionárias
Seculares Scalabrinianas.
Celebramos o primeiro centenário de
morte do Bem-aventurado João Batista Scalabrini, nascido
O Bem-aventurado João Batista
Scalabrini, Bispo de Piacenza de 1876 até 1905, ano de sua morte, foi
proclamado pela Igreja como Pai dos Migrantes, pela sua obra oportuna e
audaciosa a favor da multidão de italianos que emigravam, sobretudo aos países
do além oceano. J. B. Scalabrini intuiu a importância política, social e
religiosa do fenômeno migratório para as sociedades modernas. Quando, nesse
então, muitos pensavam que se tratasse apenas de um fato passageiro, ele já
previu sua dimensão global e permanente. Hoje, podemos ver como suas intuições
foram proféticas.
Sendo um bispo missionário preocupa-se
pela sorte de muitos compatriotas, que não tinham outra escolha a não ser
aquela de emigrar. Defende o direito de emigrar, e não de fazer emigrar;
defende aos emigrantes, freqüentemente vítimas dos “traficantes de carne
humana”. Percorre a Itália para denunciar as causas da emigração, para
sensibilizar a sociedade e a Igreja, e luta por uma lei justa. Preocupa-se,
sobretudo, por salvar a fé dos migrantes, por conservar sua língua e sua
cultura, e ao mesmo tempo, estimula a relação entre a Igreja e as sociedades
locais.

Homem de fé, também busca nas migrações os sinais do projeto de Deus. Segundo sua visão providencial, o mundo atordoado pelas migrações é o mundo ao qual se dirige o amor do Pai, o mundo em que o Pai, pela força unificadora do Espírito, continua construindo relações de solidariedade, de justiça e de paz. Tudo isto, tendo em vista “formar de todos os povos um só povo, de todas as famílias uma só família”. Este era o sonho de Scalabrini.
Depois
da visita aos emigrantes italianos nos Estados Unidos (1901), e no Brasil
(1904), o Bem-aventurado Scalabrini sente que a Igreja está chamada a fazer sua
a causa dos migrantes, sem distinção de nacionalidade, etnia e cultura, como
escreve no Memorial enviado ao Papa Pio X. É este o testamento espiritual de
João Batista Scalabrini, que ele confia à Igreja, como convite para encontrar
nas migrações, uma ocasião privilegiada para manifestar principalmente a sua
“catolicidade”.
Como filhos e filhas de Scalabrini,
nos tornamos migrantes com os migrantes, compartilhando com eles o caminho da
esperança, da solidariedade e da comunhão. Somos conscientes que nosso carisma
nos coloca no centro da missão, no coração mesmo da espiritualidade de comunhão
da Igreja. Em consequência, nos impulsiona a promover a comunhão entre as
diversidades e a reunir os filhos de Deus dispersos, especialmente os que vivem
mais intensamente o drama da emigração. Trata-se de uma missão aberta em todas
as dimensões, não só dirigida aos migrantes mas, ao mesmo tempo, também à
sociedade e à Igreja local. Estamos convencidos de que as migrações colocam em
discussão os próprios fundamentos da convivência civil e religiosa, e é um
espaço de provas, propício para revelar a civilização de uma sociedade e a
catolicidade da Igreja.
A Congregação dos
Missionários de São Carlos – Scalabrinianos é uma comunidade internacional de religiosos, irmãos e sacerdotes,
fundada no dia 28 de novembro de 1887, em Piacenza, pelo Bem-aventurado João
Batista Scalabrini. O mundo ao qual a Congregação está chamada a anunciar a
feliz mensagem de Cristo é aquele do mundo dos migrantes, em particular,
àqueles que por verdadeiras necessidades exigem um cuidado pastoral específico.
Os Scalabrinianos servem aos migrantes, em âmbito espiritual e social em 29
nações dos 5 continentes, através de centros de primeira acolhida e centros
culturais de formação, centros de estudos e de pesquisa, Institutos acadêmicos,
jornais e programas de rádio e televisão, jardim de infância, escolas
paroquiais e residências para terceira idade, casas para marinheiros, presença
em organismos eclesiásticos para as migrações, paróquias multiétnicas e missões
étnicas. O espírito que anima aos missionários em favor dos migrantes é a
promoção da comunhão entre os diversos grupos de migrantes, entre os migrantes
e a Igreja e as sociedades locais.
A Congregação das
Irmãs Missionárias do S. Carlos Borromeo - Scalabrinianas foi fundada em Piacenza, Itália, em 25 de outubro de
1895. Seu fundador é o Bem-aventurado João Batista Scalabrini e tem como
co-fundadores os servos de Deus, Padre José Marchetti e Madre Assunta
Marchetti. A Congregação possui sua Sede Geral em Roma – Itália. Está
constituída por seis províncias e desenvolve sua missão entre os migrantes em
25 países de quatro continentes. As Irmãs Missionárias Scalabrinianas realizam
sua missão através da catequese, a educação cristã, a pastoral da saúde, a ação
social e a pastoral das migrações; atuando em escolas, hospitais, orfanatos,
cárceres, centros de acolhida para adultos e crianças necessitadas, residências
para terceira idade, casas de formação, comunidades étnico-culturais, nas
paróquias, dioceses, conferências episcopais, organismos internacionais,
organizações civis, centros de promoção, centros de escuta e de acolhida para
os migrantes, e em centros de estudos e de documentação. Em resposta aos
desafios da mobilidade humana, e fiel ao carisma que a Igreja lhe confia, a
Congregação marca presença com o testemunho de vida consagrada e o serviço
evangélico e missionário aos migrantes, especialmente junto aos mais pobres e
necessitados. O espírito que a anima é o da comunhão universal, porque quer
tornar visível a vocação de seus membros, de reconhecer, amar e servir a Cristo
na pessoa dos migrantes.
Em 25 de julho de 1961, 56 anos
depois da morte do Bem-aventurado J. B. Scalabrini, reafirmando os passos de
sua espiritualidade, iniciou-se em Solothurn, Suíça, o Instituto das
Missionárias Seculares Scalabrinianas. Fundado num momento intenso de
migrações, e em contexto scalabriniano, o novo carisma da secularidade
consagrada da Família Scalabriniana obteve o reconhecimento definitivo da
Igreja, na Páscoa de 1990. Vivendo em pequenas comunidades internacionais,
laboratórios de novas relações, eucarísticas, as Missionárias – presentes na
Europa (Itália, Alemanha, Suíça) e na América Latina (Brasil e México) – querem
testemunhar que é possível, com o fermento do Evangelho, a acolhida e o diálogo
entre as diversidades, para transformar o mundo das relações com o dom da
comunhão. Sua missão, através da inserção profissional, em diversos ambientes
(no campo social, cultural, pastoral, escolar, médico-hospitalar, artístico) se
abre para a acolhida e estima dos migrantes e refugiados, envolvendo nos
caminhos do êxodo e de uma sensibilização mais ampla, a jovens e amigos de
todos lugares, culturas e religiões, que se encontram para realizar um
itinerário formativo nos Centros Internacionais J. B. Scalabrini.
Cada um de nossos Institutos oferece
sua contribuição específica. Porém, a todos nos une a paixão pelos migrantes e
os refugiados, e a todos nos une o sonho de uma nova sociedade onde os espaços
de pertença e participação sejam mais amplos, e aqueles de exclusão sejam
eliminados, para fazer “do mundo, a pátria do homem”. A todos nos une o serviço
pelo Reino, operante na história e no mundo dos migrantes.
As migrações, nesta época de globalização,
já não são uma realidade conjuntural, limitada e restrita, mas um fenômeno
amplo, estável e estrutural. Nas últimas décadas, o fenômeno dilatou-se
dramaticamente e as dinâmicas migratórias emergem impetuosamente em todo o
planeta.
Por razões demográficas, econômicas
e sociais, as migrações estão destinadas a crescer: num mundo cada vez mais
globalizado, no qual o movimento das pessoas faz parte da vida de cada um, o
objetivo final não é aquele de obstaculizar a mobilidade, mas administrá-la
melhor para atender o interesse de todos. Infelizmente, no concernente a
posição dos governos, em tema de imigração, atualmente em quase um 40% dos
países do mundo, adotam-se medidas restritivas para controlar as fronteiras e
poder com facilidade proceder com as expulsões.
Sendo assim, os migrantes são uma
categoria extremamente vulnerável, sujeitos a abusos e exploração: basta pensar
no fenômeno do “tráfico”, que não exclui nem as mulheres nem as crianças, e a
indústria ligada à introdução clandestina de migrantes. Por estes motivos, a
ONU publicou a Convenção Internacional dos Migrantes para tutelar os direitos
de todos os trabalhadores migrantes e de suas famílias, porém, a mesma ainda
não foi ratificada pelos grandes países receptores de migrantes. O mercado internacional
tem necessidade de “mão de obra barata”, de trabalho flexível, desprotegido e
sem segurança. Porém, “temos de insistir que os trabalhadores estrangeiros não
devem ser considerados como mercadoria ou mera força de trabalho, e portanto
não podem ser tratados como qualquer outro fator de produção. Cada migrante
goza de direitos fundamentais inalienáveis que devem ser respeitados em cada
caso”[1]. A precariedade no nível
econômico, quase sempre se torna mais problemática no nível social,
frequentemente, agravada por formas de intolerância e xenofobia. “Essa precária
situação de tantos estrangeiros, que deveria provocar a solida
riedade de todos,
causa ao contrário temores e medos em muitos, que sentem os imigrantes como um
peso, os vêem como suspeitos e os consideram como um perigo e uma ameaça. Isso
provoca, com frequência, manifestação de intolerância, de xenofobia e de
racismo”[2].
Além disso, no referente aos
acontecimentos internacionais, não podemos deixar de recordar o efeito do dia
11 de setembro de 2001. Depois do ataque às torres, aumentou-se o temor ao
terrorismo, de modo que os governos e partidos políticos estão aprovando leis
cada vez mais restritivas para controlar as fronteiras e manter a ordem e a
segurança. Na opinião pública, e não só nela, frequentemente, vincula-se a
imigração à criminalidade e ao terrorismo.
Porém, esta situação também demanda
por parte das instituições, uma maior consciência de que as migrações devem ser
governadas em perspectiva supranacional, com uma colaboração multilateral, para
todos os âmbitos, e não só no referente à segurança. Isto, também, porque as
migrações são o reflexo de um desequilíbrio mundial mais profundo, que causa e
origina os êxodos humanos. Trata-se de um sistema perverso que mantém áreas de
subdesenvolvimento e, portanto, obriga às pessoas a irem em busca das economias
mais desenvolvidas. “O fenômeno migratório suscita uma autêntica questão ética,
a qual diz respeito à busca de uma nova ordem econômica internacional para uma
mais justa distribuição dos bens da terra, que contribuiria não pouco para
reduzir e moderar os fluxos de uma numerosa parte das populações em
dificuldade”[3].
Ninguém pode ignorar que,
atualmente, nossas sociedades estão transformando-se irreversivelmente, em
sociedades multiétnicas, multiculturais e pluri-religiosas. Esta realidade,
protagonizada sobretudo pelas migrações, constitui uma provocação e um recurso
para a convivência social, bem como para a nova evangelização e a missão da
Igreja no mundo.
O Papa João Paulo II compreendeu
claramente seu significado para a Igreja e para o mundo. Na “Redemptoris
Missio” lemos: “Entre as grandes transformações do mundo contemporâneo, as
migrações produziram um novo fenômeno: os não cristãos chegam em grande número
aos países de antiga tradição cristã, criando novas ocasiões de comunicação e
intercâmbios culturais, esperando da Igreja o acolhimento, o diálogo, a ajuda,
numa palavra, a fraternidade” (RM 37), e também “o serviço, a participação, o
testemunho e o anúncio direto” (RM 82). Trata-se daqueles “mundos e novos
fenômenos sociais”, os “areópagos” que definem os novos âmbitos da missão “ad
gentes”.
Como sublinhou o Papa na última
mensagem por ocasião da Jornada Mundial das Migrações, os migrantes podem “dar
uma grande contribuição à construção da paz”[4].
Percorrendo os tempos, Scalabrini
semeou a esperança entre os “filhos da miséria e do trabalho”, vendo nos
migrantes as possíveis testemunhas da comunhão, fruto do Pentecostes, onde as
diferenças se harmonizam mediante o Espírito, e a caridade se faz autêntica na
aceitação do outro.

O século, recentemente iniciado, foi definido como o século do estrangeiro por excelência. Há estrangeiros que são obrigados a deixar suas terras e os grupos aos quais pertencem, por causa das perseguições ou das chamadas “limpezas étnicas”. Há estrangeiros que abandonam suas terras por causa da miséria e da fome, em busca desesperada do pão para sobreviver. São estes – os pobres, os famintos e os infelizes do chamado terceiro ou quarto mundo, privados do mínimo indispensável – os estrangeiros por excelência do século XXI, que chegarão às cidades da opulência de nosso ocidente, gritando seu desespero e o direito de compartilhar do seu bem-estar. Além da presença do estrangeiro refugiado ou faminto, o século recentemente iniciado, se caracterizará também pela figura do “eu” estrangeiro a si mesmo. Trata-se daquele sentimento de estranheza pelo qual a pessoa se percebe a si mesma como estrangeira, dentro da própria cultura de pertença, frente à qual deseja afirmar sua alteridade e transcendência.
Tempo do estrangeiro por excelência,
de quem permanece estranho àquilo que está perto (tenha esta proximidade o rosto
da língua ignorada, a terra desconhecida, os bens que faltam ou a identidade
transgredida), o século recentemente iniciado tem urgência de um novo
pensamento. É também um tempo oportuno e necessário, favorável e urgente, para
repensar a relação com o estrangeiro, descobrindo nele já não mais a dimensão
de ameaça, como historicamente vem acontecendo com frequência, mas como aquele
da sacralidade como acontece, ocasionalmente. Repensar quer dizer instituir um
pensamento a partir do estrangeiro, isto é, desde quem chega, onde o ser
estranho não é uma ameaça que deve ser rejeitada, mas uma palavra a ser
acolhida, e que uma vez acolhida, institui uma nova ética e um novo pensamento,
em cujo centro se ergue não o eu, com suas reivindicações de satisfações e de direitos,
mas o outro, com seu rosto que manifesta a Luz que vem do além.
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Pe. Isaia
Birollo, cs Superior Geral dos
Missionários de São Carlos, Scalabrinianos |
Ir. Maria do
Rosário Onzi, mscs Superiora geral das Irmãs
Missionárias de São Carlos, Scalabrinianas |
Adelia Firetti,
mss Responsável
Geral das
Missionárias Seculares Scalabrinianas |