QUINTA PARTE

HOMEM DOS MIGRANTES E PARA OS MIGRANTES

 

 

1. A MIGRAÇÃO VISTA POR SCALABRINI. 1

A) As dimensões e as causas. 2

B) O direito natural de migrar. 4

C) As conseqüências. 5

D) O desígnio de Deus. 8

 

2. A IGREJA E AS MIGRAÇÕES.. 9

A) A presença da Igreja.. 10

B)  Religião e Pátria.. 12

C) Pastoral fos Migrantes. 13

D) A Migração, problema de toda a Igreja.. 19

 

3. OS MISSIONÁRIOS E AS MISSIONÁRIAS DE SÃO CARLOS PARA OS MIGRANTES   25

A) A Fundação.. 25

B) Na Igreja e para a Igreja.. 32

C) Espírito Missionário.. 36

D) Vida Religiosa.. 39

 

4.  OS LEIGOS E A MIGRAÇÃO... 46

A) A Tarefa do estado e das classes dirigentes. 46

B) A Sociedade de São Rafael. 50

 

 

 

 

 

 

HOMEM DOS MIGRANTES E PARA OS MIGRANTES

 

D. Scalabrini afronta o dramático problema das migrações em massa, que explodiu na Itália, no início do seu espiscopado, com os espírito de pastor, que vê o rebanho se dispersar e sente a necessidade de realizar a missão da Igreja, enviada a recolher, na unidade, os filhos dispersos de Israel.

O Apóstolo dos migrantes analisa o fenômeno, sob todos os aspectos: dimensões, causas, conseqüências humanas, sociais e religiosas. Denuncia as injustiças e as opressões, mas sabe ler no evento, um desígnio de Deus. Por isso, descobre a missão da Igreja, para com os migrantes e o melhor método, para realizar, a favor deles, a missão de evangelização e de promoção humana.

Ele mesmo se dispõe a dar uma resposta conreta às exigências dos migrantes e funda duas Congregações missionárias, uma masculina e outra feminina, de pessoas dedicadas missão, mediante a consagração religiosa.

A missão evangelizadora é completada com a obra da tutela e promoção humana, confiada aos leigos, especialmente à Sociedade de São Rafael.

 

 

 

1. A MIGRAÇÃO VISTA POR SCALABRINI

 

Vendo os migrantes que partem na estação de Milão e os apelos dos diocesanos migrantes, na América, questionam o espírito apostólico ­do Bispo de Placência. A migração é um dos fatos mais importantes e determinantes da vida italiana contemporânea. Impõe-se pelo número e tem um caráter permanente, que decorre de inelutáveis ­necessidades econômicas.

A necessidade pressupõe um direito, que não pode ser suprimido pelo Estado, ou pelos centros de poder, e devem assegurar a liberdade de migrar, mas não a liberdade de “fazer migrar”, por causa da especulação e aproveitamento.

O migrante, sem orientação e tutela, está exposto a “infinitos males materiais e morais” e presa facílima de especulação”. Abandonado ­a si mesmo, corre o risco de perder a própria identidade cultural e religiosa.

Ao contrário, se a migração for bem orientada e assistida, pode-se tornar “instrumento da Providência que preside os destinos que é o aperfeiçoamento do homem sobre a terra e a glória de Deus nos céus”. De fato, no desígnio da Providência, a migração é destinada a aperfeiçoar “a união de todos os homens de boa vontade, com Deus, por Jesus Cristo”.

 

 

a) AS DIMENSÕES E AS CAUSAS

 

“Eram migrantes”.

 

Há vários anos, em Milão, fui expectador de uma cena que deixou em meu espírito, uma impressão de profunda tristeza.

Passando pela estação, vi a vasta sala, os pórticos laterais e a praça adjacente invadidos por trezentos ou quatrocentos indivíduos, vestidos pobremente, divididos em diversos grupos. Em suas faces bronzeadas pelo sol, sulcadas por rugas precoces que a privação costuma imprimir, transparecia o tumulto dos afetos que agitavam seus corações, naquele momento. Eram velhos curvados pela idade e pelas fadigas, homens na flor da virilidade, mulheres que levavam após si ou carregavam ao colo suas crianças, pequenos e jovens to­dos irmanados por um único pensamento, todos orientados para uma meta comum.

Eram migrantes. Pertenciam às várias províncias da Alta Itália e esperavam, com ansiedade que o trem os levasse às margens do Mediterrâneo e de lá para as longínquas Américas, onde esperavam encontrar a fortuna, menos desfavorável, e a terra menos ingrata aos seus suores.

Aqueles pobrezinhos partiam. Alguns chamados por parentes que os haviam precedido no êxodo voluntário, outros sem saber precisamente para onde seriam levados, atraídos por aquele instinto forte que faz os pássaros migrarem. Iam para a América, onde ouviam repetir, tantas vezes que havia trabalho, bem pago, para quem tivesse braços vigorosos e boa vontade.

Eles, em lágrimas, tinham dito adeus ao povoado natal, ao qual os ligava tantas lembranças agradáveis; mas, sem saudade dispunham-se a abandonar a pátria. Pois eles não a conheciam, senão sob duas formas odiosas: o alistamento e o cobrador de im­postos. Para o deserdado, a pátria é a terra que lhe dá o pão: lá longe, longe, esperavam encontrar o pão, menos escasso, menos suado.

Parti comovido. Uma onda de pensamentos tristes me amar­guravam o coração. Quem sabe que cúmulo de desgraças e de pri­vações, faz parecer-lhes doce, um passo tão doloroso!... Quantos desenganas, quantas novas dores lhes prepara o futuro incerto! Quantos sairão vitoriosos na luta pela existência? Quantos sucum­birão, entre os tumultos das cidades ou no silêncio das planícies inabitadas? quantos embora encontrando o pão do corpo, sentirão a falta do pão da alma, não menos necessário que o primeiro, e perderão numa vida toda material, a fé de seus pais?

Desde aquele dia, a mente me transportava freqüentemente para aqueles infelizes, e aquela cena relembra sempre outra nao menos desoladora, não presenciada, mas percebida nas cartas dos amigos e no relacionamento com os viajantes. Eu os vejo desem­barcados em terra estrangeira, no meio de um povo que fala uma  língua que eles não entendem, vítimas fáceis da especulação desu­mana. Vejo-os banhar com seus suores e com suas lágrimas, um solo ingrato, uma terra que exala miasmas pestilentos; arrebenta­dos pelas fadigas, consumidos pela febre, a suspirar em vão, pelo céu da pátria distante e pela antiga miséria do casebre nativo e final­mente sucumbir, sem que a saudade de seus caros os console, sem que a palavra da fé lhes mostre o prêmio, que Deus prometeu aos bons e aos desventurados. E aqueles que triunfam na rude luta pela existência, ei-los lá do seu isolamento, esquecer completamente toda noção sobrenatural, todo preceito da moral cristã e perdem cada dia mais o sentimento religioso, não alimentado pelas práticas de piedade e deixam que os instintos brutais tomem o lugar das aspirações mais elevadas.

Diante de tão lamentável estado de coisas, eu me faço cons­tantemente a pergunta: como remediar isto? E todas as vezes que me acontece ler nos jornais, qualquer circular do governo que colo­ca as autoridades e o público de sobreaviso, contra as artes de certos especuladores, os quais fazem verdadeiros saques de escra­vos brancos, para empurrá-los, cegos instrumentos de ávidas co­ças, longe da terra natal, com a ilusão de fáceis e abundantes lucros; quando, das cartas dos amigos ou das relações dos viajantes observo que os párias migrantes são os italianos, que os traba­lhos mais vis, se é que possa existir vileza no trabalho, são feitos por eles, que os mais abandonados, e portanto os menos respeitados, são os nossos patriotas, que milhares e milhares de nossos irmãos vivem, quase sem defesa da pátria distante, objeto de prepo­ocias muitas vezes impunes, sem o conforto de uma palavra amiga, confesso-o. a chama da vergonha sobe-me ao rosto.

Sinto-me humilhado na minha qualidade de sacerdote e de italiano, e me pergunto de novo: como ajudá-los?

Também, há poucos dias, um distinto viajante me trazia a sau­dação de várias famílias dos montes placentinos, acampados às margens do Orenoco: Diga ao nosso Bispo que lembramos sempre e de seus conselhos, que reze por nós e que nos mande um padre, porque aqui, se vive e se morre como animais...

Aquela saudação dos filhos distantes soara para mim como uma reprimenda...[1]

 

“Um dos fatos mais importantes da vida moderna italiana”.

 

Um dos fatos mais importantes da vida moderna italiana é a sua migração. Importante pelo número, pelas questões sociais que envolve, pelo mal estar econômico que estimula. Segundo os cál­culos estatísticos, os italianos migrantes que vivem atualmente nas Repúblicas Americanas ultrapassam o número de dois milhões. Mais de um milhão de Repúblicas do Sul, quatrocentos mil aproximadamente no Brasil, e o resto nas vastas partes da América e sobretudo ao Norte. Somente a cidade de Nova Iorque conta 85 mil.

No decênio 1880-1890 ultrapassaram os confins do Reino, dois milhões de habitantes — um milhão pela migração temporária, ver­dadeiro fluxo e refluxo de pessoas que oferece aos trabalhos da Europa, a mão-de-obra inteligente e zelosa dos nossos operários, que trazem para a pátria honra e dinheiro; e um milhão de migração permanente — ou seja, gente que vai além-oceano, com a esperan ça, quase sempre frustrada, de retornar e se espalha nas jovens Repúblicas Americanas, ao Sul e ao Norte, nas cidades populosas, nos pampas desertos e nas florestas virgens, levando em toda parte uma atividade, sempre apreciada e considerada (...).

Estas cifras não têm necessidade de longo comentário. Elas falam clara e rigorosamente, que no biênio 87-88 saiu maior número de cidadãos do Reino da Itália, que da França, dos Países Baixos, da Espanha, de Portugal, da Áustria, da Bélgica, da Dina­marca, da Suíça juntos. Dizem que a nossa migração é o quádruplo da Rússia, o triplo da Alemanha que tem uma notável migração em alguns milhões, superior à do Reino Unido, que tem colônias florescentes e negócios em todas as partes do mundo.[2]

 

“Um fenômeno que tem todas as características de um fato permanente”.

 

As cifras expostas são enormes, mas o fenômeno migratório parece não ter chegado ao seu ápice, pois, apesar das dificulda­des colocadas pela lei vigente, quase há dois anos, limita o traba­llio dos agentes de migração; apesar dos desenganos e dos gritos de dor, que, de tanto em tanto, atravessando o Atlântico, nos fazem estremecer e corar, enfim, malgrado as proibições governatí­vas, o êxodo doloroso continua. O Senhores, acontece que a mi­graçao italiana, que foi e continua sendo aumentada, especialmente pelas nossas tristes condições agrárias, que foi e é estimulada, além das medidas, pelos agentes de migração e pela necessidade de bra­ços para substituir os escravos libertados no Brasil, responde, po seu conjunto, a uma verdadeira necessidade do povo italiano, e será em relação com o aumento anual da sua população. Portanto, nao se trata de um fenômeno passageiro, mas de um fenômeno que tem todas as características de um fato permanente. O italiano é um dos povos que tem maior aumento anual de população. Au­menta, na proporção de onze ou doze mil, superado nisto unica­mente pela Holanda, que se avantaja pelo excedente dos nascimentos sobre as mortes, de treze por mil.

É por isso que, apesar da considerável migração, a população do Reino aumenta, e dentro de poucos anos, as nossas belas terras terão um máximo de densidade.

Segundo cálculos exatos, aumentando a população, como nos últimos vinte anos, os italianos dentro de um século, serão cem milhões. Admitindo também, em conseqüência de uma ampla colo­nizaçao interna, poder hospedar dentro dos limites do Reino, outros dez milhões, chegará assim a quarenta ou cinqüenta milhões. Na Itália, se todas as suas regiões tivessem a densidade da população da Lombardia — teremos sempre um imenso povo de outros cinquenta milhões, que se espalhará, no século futuro, pelo mundo, impelido por uma força à qual, em vão se resiste: a luta pela sobrevivência. Cinqüenta milhões de italianos, ó senhores, dispersos sobre a face da terra, como folhas arrebatadas por um turbilhão![3]

 

“A migração é um fato natural e uma necessidade invencível”.

 

A migração é um fato natural e uma necessidade invencível. É uma válvula de segurança, dada por Deus a esta sofrida sociedade. É ­uma força conservadora, muito mais poderosa que todos os compressores morais e materiais, inventados e colocados em ação pelos legisladores, para tutelar a ordem pública e para garantir a vida e os bens dos cidadãos. É conhecido o provérbio: maldita fome. Quem poderia reter um povo que desencadeia sob as convul­sões do ventre, se não tivesse a esperança de encontrar, em outro lugar, o pão quotidiano?

Portanto, àqueles que, ao considerar as misérias ocasionadas pela migração, exclamam serenamente: Por que, tanta gente migra? É fácil responder. A migração, na quase totalidade dos casos, não é prazer, mas uma necessidade invencível. Sem dúvida, existe, também, entre os migrantes pessoas más, vagabundas e viciadas.  Estes são em número menor. A grande maioria, para não dizer a totalidade dos que abandonam a pátria, para ir para a longínqua América, não é desta têmpera. Não fogem da Itália, por aversão ao trabalho, mas porque este lhes falta e não sabem como viver e manter a própria família.

Um excelente homem, cristão exemplar de um povoado de montanha, onde me encontrava, alguns anos atrás, em visita pastoral, veio pedir-me uma bênção e uma pequena lembrança para si e para os seus, que partiam para a América. Às minhas observações, ele colocou tão simples, quanto doloroso dilema: ou roubar ou migrar.

Roubar não devo, nem quero, porque Deus e a lei me proibem; ganhar aqui o pão para mim e para meus filhos não me é possí­vel. Que fazer então? Imigrar é o único recurso que me resta.

Não soube acrescentar nada. Abençoei-o comovido, recomendando0 à proteção de Deus e me convenci, uma vez mais, ser a migração uma necessidade que se impõe, como remédio supremo e heróico, ao qual é necessário submeter-se, como o paciente submete-se àdolorosa operação, para evitar a morte.

A religião e a migração, eis os dois únicos meios que pode­rão, no futuro, salvar a sociedade de uma grande catástrofe. Uma enviando a outros continentes o excesso da população, a outra con­solando, com caras esperanças, a desesperada dor dos infelizes.[4]

 

 

b) O DIREITO NATURAL DE MIGRAR

 

“Um direito sagrado”.

 

Aqueles que desejariam impedir ou limitar a migração, em nome de considerações patrióticas e econômicas, e os que a desejam, em nome de uma mal compreendida liberdade, abandonada a si mesma e sem guia, ou não raciocinam absolutamente, ou raciocinam como egoístas e como despreocupados. De fato, impedindo-a, transgride-se um sagrado direito humano; abandonando-a a si mesmo, torna-se ine­ficaz. Os primeiros esquecem que os direitos do homem são inaliená­veis e que o homem tem direito de ir em busca do seu bem-estar, onde mais lhe agrada. Os segundos, que a migração, força centrífuga, pode se tornar, quando bem orientada, uma poderosa força centrípeta. De fato, além de trazer alívio aos que ficam, com a redução de concorrên­cia dos braços e com novas aberturas ao comércio, torna-se de grande proveito, conquistando influências e devolvendo sob mil formas, os tesouros de atividade subtraídos momentaneamente, a nação (...).

Discutir teoricamente se a migração é um bem ou um mal é inútil, sendo suficiente à minha finalidade constatar a sua existên­cia. Depois das pesquisas que fiz, para recolher dados estatísticos e os fatos que servem de base para este meu breve trabalho, e nas conversas familiares, percebi uma grande confusão de idéias, so­bre este assunto, não só entre a burguesia e os particulares, mas também entre jornalistas e pessoas que se dedicam ao Estado. Estas considerações, não são inteiramente inoportunas.

rincipalmente os proprietários de terras, onde a migração dos camponeses é mais numerosa, preocupados por este repentino empobrecimento de braços, que se traduz em um adequado aumento de recompensa, para os que ficam, levaram ao Governo suas quei­xas e por meio de deputados e de associações, pediram providên­cias, “para sanar e limitar este virus moral, esta deserção, que despoja o pais de braços e de capitais frutíferos, que faz romper os pactos coloniais e deixa após de si a apatia e a insubordinação ­sem nenhuma vantagem, para os migrantes. Os camponeses desprovidos de capitais e de conhecimentos serão sempre e em todo lugar proletários. E a miséria da qual tentam fugir, abandonando a pária, acompanhá-los-á, como a sombra a seu corpo, acrescida de novas necessidades e pelo isolamento”. (Atos parlamentares, sessão de 12 de fevereiro de 1879).

Como cada um pode facilmente perceber, estas razões e estes conselhos se inspiram mais no interesse dos abastados que ficam, que nas necessidades dos míseros que são forçados a partir. Se a autoridade lhes desse fácil ouvido e baseasse sua obra em tais su­gestões, faria coisa inútil, injusta e danosa. Inútil, porque nunca chegaria a suprimir a migração. Injusta, porque injusto e tirânico é todo ato que coloca obstáculo ao livre exercício de um direito. Danosa, porque a migração tomaria outro rumo, que não o natural, como aconteceu todas as vezes que o governo, por um mal entendi­do espírito de patriotismo, tornou difícil a migração.[5]

 

“A migração deve ser espontânea”.

 

Se os agentes de migração fossem, como parece acreditar o deputado De Zerbi na sua relação, nada mais que simples inter­mediário, isto é, homens de confiança entre as várias Sociedades de Navegação e os migrantes e limitassem o seu trabalho a dar esclarecimentos sobre o modo e sobre o tempo dos embarques; e as agências, apenas simples sucursais dos escritórios centrais de Navegação, não haveria motivo de preocupação. A sua ação, em­bora supérflua, em grande número de casos (pois que aqueles co­nhecimentos poder-se-ia obter, por quem tivesse interesse, nas vias e praças públicas) também não seria, danosa. Poderia também, às vezes, ser favorável aos migrantes. Se os agentes fossem orientados, para ajudar os duvidosos, e mostrassem aos pobres sedentos pela miséria, os riachos americanos frescos e estimulantes, como aqueles que no inferno dantesco, faziam extasiar mestre Adão, não seria um fim de mundo, e podez-se-ia fechar um olho e dizer-lhe com Manzoni: vá, vá, pobre engordurado, não serás tu aquele que desfalcará Milão.

Mas a faculdade de fazer alistamento é bem diferente. Os agentes, que usavam destes expedientes quando eram proibidos pe­las circulares ministeriais, imaginem se não desejarão lançar mão, ainda mais amplamente, quando por lei será um direito! Como ecn. seqüência natural, as catástrofes, lamentadas rio passado, aumentam à medida da liberdade outorgada, pois a experiência de uma parte neutraliza a sede insaciável de lucro, e a ignorância da outra, ou não conhece a sorte de quem os precederam, ou esperam ser mais afortunados.

As penas aplicadas pela nova lei, para os agentes de migra­ção são severas, e isto é bom. Não serão nunca excessivas contra quem, mais torpe que o ladrão e mais cruel que o homicida, em­purra tantos infelizes para a ruína. Quantos destes, arrancados de suas casas por falsas promessas, foram para além do oceano em lugares inabitáveis, enleados por mil dificuldades insuperáveis, fe­lizes, se no final conseguem encontrar um pedaço de terra, para morrer em paz! Quantos abandonados em praias desertas, sem roupa e sem pão, considemram grande ventura poder retornar, com o coração desesperado, à terra natal![6]

 

“Liberdade de migrar, não de fazer migrar”.

 

Liberdade de migrar, mas não de fazer migrar, porque tanto é boa a migração espontânea, quanto é danosa a forçada. Boa, se espontânea, sendo uma das grandes leis providenciais, que presidem os destinos dos povos e o seu progresso econômico e moral. Boa, porque é uma válvula de segurança social; porque abre ca­minhos floridos da esperança, e algumas vezes, da riqueza, aos de­serdados. Porque civiliza as mentes do povo, pelo contato com outras leis e outros costumes. Porque leva a luz do evangelho e da civilização cristã aos bárbaros e idólatras e eleva os destinos humanos, alargando o conceito de pátria, além dos confins mate­riais e políticos, fazendo pátria do homem, o mundo.

É ruim, se forçada, porque substitui a verdadeira necessidade pela fúria de lucros imediatos, ou um mal entendido espírito de aventura. Porque, despovoando exageradamente e sem necessidade o solo pátrio, em vez de ser um alívio e uma segurança, torna-se um prejuízo e um perigo, criando maior número de inadaptados e desiludidos. Enfim é ruim, porque desvia a migração das suas correntes naturais, que são as mais proveitosas e as menos perigosas, e porque a experiência nos ensina ser causa de grandes catástrofes, que podem e devem ser impedidas por um governo civil e previdente.[7]

 

 

c) AS CONSEQÜÊNCIAS

 

“Quão amargo o pobre pão do migrante!”

 

Os perigos que traz consigo tal migração são inúmeros e igualmente inúmeros são os males que a afligem.

Quando eu, há dez anos, acolhi o grito de dor dos nossos pobres migrantes, em um pequeno escrito, que teve eco no coração de todos os bons e apossou-se de todas as classes de pessoas tão consenso de pensamentos e de obras, eu estava longe de grande o cúmulo de males e de perigos aos quais se expüe o pobre migrante. Tudo, tudo conspira contra ele, seus males freqüentemente começam antes do âxodo do humilde casebre, sob a forma de um agente de migração que determina a sua partida, atraindo-a uma falsa conquista da riqueza e endereçando-o para onde agrada e convém ao agente e não para o interesse do migrante. Seguem-se os males ao longo da viagem, freqüentemente desastrosa, e os acompanham na sua chegada aos lugares infestados de doenças terríveis, nos tra­balhos aos quais, muitas vezes não se sente apto, sob as ordens de patrões desumanos, por causa da sede insaciável de ouro, ou pelo hábito de considerar o trabalhador um ser inferior. Assim os males se agravam sob mil ciladas que a maldade lhes prepara, em países estrangeiros dos quais ignoram a língua e os costumes, num isolamento, que freqüentemente causa a morte do corpo e da alma.

Posso citar numerosos fatos que demonstram quantas lágri­mas banham e quanto sal tem o pobre pão dos migrantes, atraidos por vãs esperanças ou por falsas promessas. Encontram uma ilíada de sofrimentos, o abandono, a fome e não poucas vezes a morte onde acreditavam encontrar um paraíso, colorido pela miragem da necessidade: viram o Eldorado, sem pensar que o “simum” violento da realidade desfaz em um momento, as encantadas cidades dos Sonhos! Infelizes extenuados pelo cansaço por causa do clima, pelos insetos, caem desconsolados sobre a gleba fecundada, por seus suores, à margem de florestas virgens, que souberam cultivar não para si, nem para os seus filhos, atingidos pelo micróbio fatal e doce da saudade, talvez sonhando com a pátria, que não soube dar-lhe nem o pão, suplicando em vão ao ministro da santa religião de seus pais, que lhes suavize os terrores da agonia com as imortais espe­ranças da fé.

O quadro não é feliz, mas é a história verdadeira de milhares de nossos patriotas migrantes, como pude colher das relações dos meus missionários e como me é escrita e narrada por quem foi tes­temunha e participante daqueles tristíssimos êxodos.

Porém, não desejo ser mal entendido ou parecer pessimista. As tristes coisas acenadas não podem ser ditas a respeito de todos os nossos migrantes. Muitíssimos deles encontraram nos países hospitaleiros, pão suficiente, muitos bem-estar, alguns, riquezas, e no seu conjunto formam colônias das quais a mãe pátria pode se orgulhar. Mas são também muitíssimos os desgraçados e em gran­de parte o são por causa de sua ignorância e por nosso descuido.[8]

 

“Males infinitos, tanto materiais, quanto morais”.

 

Os perigos que aguardam os migrantes são tantos e tão nume­rosos que dificilmente um homem, também atencioso, poderia esca­par totalmente deles. Que dizer então dos pobres camponeses, que, ignorantes de tudo, confiam em pessoas, que não vêem no migrante senão coisa a ser desfrutada?

Aqueles que lêem jornais devem ter em mente um certo nú­mero de fatos ora torpes, ora trágicos, sempre tristes, nos quais os nossos pobres irmãos que migram, aparecem como vítimas.

Alguns anos atrás, os diários públicos falaram de duzentos ou trezentos migrantes, que ao chegar ao porto de embarque, não sei, se de Gênova ou de Nápoles, souberam que seu dinheiro, ajuntado quem sabe com que dificuldade, talvez com a venda dos últimos móveis, acabaram nas mãos de um embusteiro. Por tanto, lágrimas, gritos, imprecações e depois o retorno ao povoado nativo, às custas do Estado.

No início do inverno de 1873, chegou a Nova Iorque, um navio com muitas famílias de camponeses do Abruzzo que foram embarcados pelos agentes de migração, com a promessa de serem levados a Buenos Aires, onde ansiosamente os esperavam parentes e amigos. Aqueles infelizes, que tinham sofrido muito durante a traves­sia, encontram-se em outro lugar, esgotados, bem longe da meta de sua viagem e sem meios, para prossegui-la.

Estas podem ser exceções. Regra geral é o modo como é feito seu transporte. Despachados pior que animais, em números muito maior do que permitiriam os regulamentos e a capacidade dos na­vios, eles fazem aquele longo e penoso trajeto, literalmente amon­toaos, com sério problema moral e de saúde.

Que dizer da sorte ainda mais lamentável que os espera, quan­do chegam à meta suspirada? Freqüentemente enganados com artes dissimuladas, iludidos por mil promessas mentirosas, constrangidos pelas necessidades, se vinculam, com contratos que são uma verdadeira escravidão e as crianças encaminhadas para a mendicância, para o caminho do delito e as mulheres jogadas no abismo da desonra.

As vastas e incultas terras da América do Sul, do Brasil, do Chile foram cedidas com contrato aos migrantes ou diretamente pelos governos, ou pelas sociedades particulares, que consquistaram a propriedade para fins de especulação. E depois de um certo nú­mero de anos, mediante o pagamento de taxas convenientes, o camponês torna-se proprietário do solo fecundado com o próprio suor. Portanto os colonos armam sua tenda naqueles terrenos incul­tos, que freqüentemente transformam em sorridentes e férteis cam­pos. Os camponeses, na maioria das vezes, de uma mesma região e algumas vezes de um mesmo povoado, batizam, lá longe, com o nome do lugar de origem, o lugar onde a Providência os lançou.

Se estes agrupamentos podem reduzir os perigos da migração, formando menos triste e mais segura a vida, podem também, se não forem bem orientados, ser causa de infinitos males, tanto materiais quanto morais. Nossos pobres camponeses correm perigo de serem mandados pelos especuladores a acabar sua vida, em terrenos estéreis e lugares nocivos, mal defendidos dos animais ferozes e de índios. Todas estas coisas já se verificaram mais de uma vez e sobre as quais a imprensa e a opinião pública repetidamente se comoveram.[9]

 

“Presa fácil da especulação”.

 

Para onde se dirige esta massa de pessoas, esta enchente de sangue italiano?

É doloroso dizer, mas a maior parte dela não sabe para onde vai. Para eles, a América é o país, para onde se dirigem os que deixam a pátria, em busca de fortuna. Ao Sul ou ao Norte, nas zonas temperadas ou tropicais, em climas sadios ou pestilentos, em terras férteis ou mais estéreis do que as que abandonaram, em cert­tros populosos ou em regiões desertas, eles não sabem. Vão para a América, e não poucas vezes com a agravante de um contrato assinado em branco que coloca, a sua pessoa, o seu trabalho a disposição de um patrão qualquer.

Foi assim que os agentes de migração mandaram um conside­rável número de migrantes para o Brasil, para substituir a mão-de-obra que já era insuficiente para a agricultura, tomando-se comple­tamente deficiente, com a abolição da escravidão. Foi assim que, em Nova Iorque, o chamado sistema dos patrões, condenado com um Bill pelo Senado dos Estados Unidos, aglomerou um ilimitado nú­mero de migrantes, atraídos para lá por mil promessas, desfrutados indignamente e depois abandonados, para deixar lugar aos recém-che­gados, novas vítimas de torpes lucros. Finalmente, foi assim que no Chile, para silenciar muitos outros casos, encontraram o abandono e a miséria mais de mil de nossos compatriotas, seduzidos a irem para lá, por alegres mentiras. E como a ignorância e a pobreza tornam nossos compatriotas vítimas fáceis para os agentes de migração, assim lá lon­ge, o isolamento e a miséria os tornam presas fáceis da especulação, sempre e por toda a parte, sem entranhas de piedade, lá mais que em qualquer outro lugar. Por isso, em lugar de trabalho apto e bem recompensado, em vez de abundante e sadia comida, aqueles infelizes encontram um trabalho rude, quando o encontram, uma recompensa que, comparada com os esforços, os perigos, ao enca­recimento dos gêneros de primeira necessidade, é irrisória, pois en­contram o melhor alimento pago a alto preço, freqüentemente com a privação de quanto significa vida civilizada.[10]

 

“Perdem o sentimento da nacionalidade e o sentimento da fé”.

 

Quem pode descrever os perigos que encontram nossos pobres migrantes a respeito da vida religiosa? Na imensa maioria, eles vivem lá, sem nunca verem o rosto de um padre e a cruz de uma torre. Portanto, abandonados a si mesmos, ou caem no indiferentismo mais desolador ou abandonam a fé de seus pais. Aperta-me o coração só de pensar. Segundo cálculos oficiais, em sessenta anos, migraram, em uma grande república Americana, quarenta milhões de católicos. Ora, supondo que vinte milhões, o que nunca se veri­ficou, tenham voltado à pátria, os católicos residentes lá, tendo presente os nascimentos e as mortes, deveriam atingir a cifra de mais ou menos vinte milhões. Ao contrário, segundo o último recenseamento eclesiástico, o seu número, não chega, oito milhões. Onde foram parar os outros doze milhões?

Perderam o sentimento da nacionalidade e com ele, coisa que aperta o coração só de pensar, o sentimento da fé católica. Caem vítimas da propaganda protestante, vítimas infelizes das seitas, lá mais ativas e numerosas, que em outros lugares. Ah! senhores, permitam a um Bispo chorar diante de vós tanta desventura! A privação do pão espiritual que é a palavra de Deus, a impossibil­idade de se reconciliarem com Ele, a falta de culto e de todo estímulo ao bem, exerce uma influência mortífera sobre a moral do povo. Também o homem instruído está sujeito a tal perigo, mas em menor grau, porque sua educação, sua cultura, o conhecimento teórico da Religião, ajudam de algum modo, a salvá-lo do gelo da indiferença, podendo ele senão de outra forma, associar-se com o pensamento, aos divinos mistérios, que se celebram em outros lugares ­e nutrir a mente, com leituras morais. Mas o pobre filho da gleba, como poderia ascender a pensamentos assim elevados? Para ele, mais que para os outros, o conceito da religião é inseparavel­mente unido ao do Templo e do Padre. Onde todo o aparato religioso sensível se cala, ele pouco a pouco se esquece dos seus deveras para com Deus, e a vida cristã no seu espírito enfra­quece e morre. Mas não morre nele a sede da verdade, o desejo do infinito. “O homem, diz um moderno filósofo incrédulo, tem naturalmente necessidade de Religião e de Culto. Ele é religioso por natureza, como por natureza é racional, ou melhor ainda ele é religioso porque é racional”. Esta necessidade é tanto mais sentida quanto menos é possível satisfazê-la. Isto se toca com a mão, em meio aos nossos migrantes, também lá onde, por falta de padre, reina soberano o materialismo mais desprezível. Ima­ginai quanto esta necessidade deva ser viva naqueles — e são a maioria que ainda experimentam a dignidade do próprio ser, ouvem ainda os apelos de sua consciência.[11]

 

“Abandonados, longe, sem sombra de assistência religiosa”.

 

Os pobres camponeses que migram, quando não morrem pelo caminho, ou não sucumbem pelas privações ou pelo desgosto de se verem enganados, pode-se dizer que são abandonados, lá longe, sem sombra de assistência religiosa. É mais fácil imaginar que des­crever o seu estado.

Os padres na América não são muito numerosos, e os poucos que existem, quase sempre desconhecendo a nossa língua, não po­deriam, nem mesmo cumprir, como desejariam, os seus deveres pela simples razão que não seriam compreendidos pelos migrantes. Penso que, pelos migrantes estarem dispersos nas intermináveis su­perfícies, o sacerdote não poderia visitá-los, senão algumas vezes, rapidamente. Por isso o italiano que vive na América, é, geralmente falando, quase constrangido a levar uma vida pior que pagã, sem missa, sem sacramentos, sem orações públicas, sem culto, sem pa­lavra de Deus, o que é já muito se batizarem seus filhos. Ora, é claro que semelhante estado de coisas deve conduzir insensivel­mente aqueles infelizes a uma terrível indiferença em matéria de religião e a um materialismo embrutecedor (...).

Devemos lembrar-nos de que, na América faltam muitas vezes templos e sacerdotes católicos, a propaganda protestante ou massô­nica, conforme os lugares, nada deixa a desejar. Lá onde a voz do ministros de Deus não chega, chegam os folhetos descrentes, os ro­mances imorais, os opúsculos e os livros das seitas. Portanto, se de um lado falta toda ajuda religiosa, do outro são abundantes as insídias contra a fé de nossos pobres compatriotas que, ou por interesse ou por ignorância de levianos, deixam-se levar pelos após­tolos do erro.[12]

 

“A maior parte dos males poderia ser evitada”.

 

O que mais entristece em tudo isto, é o pensamento de que a maior parte dos males religiosos, morais, econômicos, aos quais a nossa migração se expõe, poderiam ser evitados ou muito diminuidos, se as classes dirigentes, na Itália, fossem conscientes dos deveres que as ligam aos irmãos expatriados, porque as imensas terras da América não são tão nocivas de não poderem oferecer à nossa migração um canto tranqüilo. Nem todas as terras são as­sim tomadas pela especulação, são férteis e pode-se fazer contrato que assegure um justo salário aos trabalhadores. Tudo depende de saber orientar a nossa migração. Mas quando se faz isto na Itália?

Quando se falou ao migrante: Ide, este ou aquele contrato que vos é oferecido, estas e aquelas regiões que vos indicam, ocultam tais emboscadas. São sem garantia, insalubres, estéreis; ou também sendo férteis, são totalmente fora de qualquer meio de comunicação possível, tão segregada de todo convívio humano, que o fruto de vossas fadigas não poderá ser vendido, ricos e ao mesmo tempo pobres? Quando, se faz isto na Itália? Ao contrário, grita-se um pouco e se geme sob o açoite de algum acontecimento que naqueles ­nossos irmãos ofende o nosso amor próprio nacional, grita-se tem compaixão e também se reclama, alguma medida ao Governo. E depois? Tudo silencia, tudo se cobre com o esquecimento, tudo volta à calma. A interminável calma da onda que oculta a vítima e prepara as novas![13]

 

 

d) O DESÍGNIO DE DEUS

 

“A migração é um bem e um mal”.

 

É indubitavelmente um bem, fonte de bem estar para quem vai e para quem fica, verdadeira válvula de segurança social, aliviando o solo do excesso da população, abrindo novos caminhos ao co­mércio e às indústrias, fundindo e aperfeiçoando as civilizações, alargando o conceito de pátria, além dos limites materiais, fazendo do mundo a pátria do homem; mas é sempre um gravíssimo mal, individual e patriótico, quando se deixa caminhar assim sem lei, sem freio, sem direção, sem tutela eficaz: não forças vivas e inteli­gentes ordenadas à conquista do bem-estar individual e social, mas for­ças que se chocam e freqüentemente se destróem reciprocamente, atividade desfrutada, em prejuízo e vergonha do país de origem. Não águas  capazes de fecundar, mas torrentes sem leito, que perdem o tesouro de suas águas por entre as pedras e os abrolhos, quando não arrastam os campos já fecundados.[14]

 

“É instrumento da Providência também através de catástrofes”.

 

A migração é lei da natureza. O mundo físico, como o mundo humano estão submetidos a esta força que move e mistura, sem destruir, os elementos da vida, que transporta organismos nascidos em um determinado lugar e os semeia no espaço, transformando-os e aperfeiçoando-os de modo a renovar em cada instante o milagre da criação.

Migram as sementes nas asas dos ventos, migram as plantas de continente a continente, levadas pelas correntes das águas, mi­gram os pássaros e os animais e, mais que todos, migra o homem ora em forma coletiva, ora em forma isolada, mas sempre lnstru mento daquela Providência que preside e guia os destinos humanos, também através de catástrofes, para a meta, que é o aperfeiçoa. mento do homem, sobre a terra e a glória de Deus nos céus.

Isto nos diz a Revelação divina, isto nos ensinam a história e a biologia moderna, e é só alcançando esta tríplice fonte da verdade, que poderemos deduzir as leis reguladoras do fenômeno migratório e estabelecer os preceitos de sabedoria prática, que deve discipliná-los, em toda sua rica variedade de formas.[15]

 

“A grandeza religiosa e moral da causa dos migrantes”.

 

A grandeza religiosa e moral da causa dos nossos migrantes italianos, e a grandeza política e material desse hospitaleiro país que (como me dizia há poucos dias o insígne Presidente da Repú­blica) abre-lhes a dois batentes, as portas da hospitalidade. São duas grandezas feitas para se confundirem em uma só e para ma­nifestar ao século vinte, os segredos de uma nova era, onde não poderá faltar nem as bênçãos de Deus, nem as conquistas da ci­vilização (...).

Percorri uma parte considerável da vossa gloriosa pátria e admi­rei com alegria misteriosa, que me entusiasmava, os grandes desígnios de Deus sobre a América. Celebrando o quarto centenário de Cris­tóvão Colombo, fui convidado a fazer conferências sobre isto, na Itália, pela simples razão de que a família de Colombo pertencia à minha querida Diocese de Placência, embora ele tivesse nascido em Gênova.

Uma destas conferências se intitulava: “Os desígnios de Deus sobre a América”. Pois bem, aquilo que eu pensava então, vi confir­mado, durante a minha feliz estada entre vós, na minha longa viagem, pelos vários Estados da União.[16]

 

“Matura-se a união de todos os homens de boa vontade, com Deus, por Jesus Cristo”.

 

Aqui portanto, um dia, se a inércia, se a ignorância dos ca­minhos de Deus, se o repouso sobre os triunfos conquistados, se a opressão de santas aspirações, não desviarem os povos do plano divino, todas as nações terão gerações numerosas, ricas, felizes, mo­rais, religiosas, as quais, cada uma conservando embora as caracterís­cas próprias de sua nacionalidade, serão estreitamente unidas.

Desta terra de bênçãos elevar-se-ão inspirações, desenvolver-se-ão princípios, desdobrar-se-ão novas forças misteriosas, que vi­rão regenerar, reavivar o velho mundo, ensinando-lhe a verdadeira economia da liberdade, da fraternidade, da igualdade, ensinando-lhe q­ue povos diferentes, pela origem podem muito bem, conservar sua língua, sua existência nacional própria, embora sendo política e religiosamente unidos, sem barreiras para ciúmes e divisões, sem exércitos, para se empobrecerem e se destruírem uns aos outros (...).

Eu espero, sim, á senhores, eu o espero. Porque, enquanto o mundo se agita deslumbrado, pelo seu progresso, enquanto o homem s­e exalta com suas conquistas sobre a matéria e manda como senhor na natureza, desentranhando o solo, subjugando o raio, confundin­do as águas dos oceanos com os cortes dos ístimos, suprimindo ­as distâncias; enquanto os povos caem, ressurgem, e se repovoam; ­enquanto as raças se misturam, se estendem e se confundem, através dos rumores das nossas máquinas, para além deste trabalho febril de todas estas obras gigantescas e não sem elas, amadurece na terra uma obra bem mais ampla, bem mais nobre, bem mais sublime: a união com Deus, por Jesus Cristo de todos os homens de boa vontade.[17]

 

“A Igreja Católica vitoriosa e pacificadora”.

 

Os servidores de Deus que trabalham inconscientemente para cumprir os seus desígnios são numerosos, em todos os tempos, mas nas grandes épocas históricas de renovação social são muito mais do           que se conhece, mais do que se pensa: eles são inumerá­veis. O fim supremo da humanidade pré-fixado pela providência não é a conquista da matéria, por meio da ciência mais ou menos av­ançada, e nem mesmo a formação dos grandes povos nos quais se encarna hora por hora o gênio da força, do saber, da riqueza, não; mas a união das almas, em Deus, por meio de Jesus Cristo e do seu representante visível, o Romano Pontífice. Os obstáculos que ainda se opõem ao altíssimo desígnio, desaparecerão pouco a pouco, e virá o dia, e virá antes de tudo neste vosso grande e glorioso país, no qual as nações conhecerão onde está a verdadeira grandeza, sentirão necessidade de retornar ao Pai e retornarão.

Que dia será aquele, senhores! Dia feliz, no qual todas as inflexões, todas as vozes, em diferentes línguas, elevarão ao Onipotente o cântico de louvor e de ação de graças. O sol da verdade resplandecerá mais luminoso e o arco-íris da paz se curvará sobre a terra, em todas as suas admiráveis cores. Será como um arco de triunfo sob o qual a Igreja Católica passará vitoriosa e pa­cificadora, atraindo a si o mundo moderno; e a sociedade, voltando a ser cristã, continuará na ordem e na justiça, a trilhar o cami. nho da verdadeira liberdade, da verdadeira civilização, do verda. deiro progresso.

Apressemos, com votos, com orações, com obras, aquele dia abençoado![18]

 

“A antiga piedade está se despertando”.

 

Estou comovido sobretudo por quanto vi na minha longa peregrinação. Vi conservada a fé católica, em meio a dificuldades, sem número, nas fazendas, do grande Estado de São Paulo; vi a fé das colônias do Paraná e faço votos que também nas cidades da América Latina, se imite as cidades da América do Norte. Lá, surgem igrejas italianas em todas as cidades. Os nossos Missionários as assistem com outros religiosos. A piedade antiga está se desper­tando; a credibilidade e a consideração junto às autoridades au­menta cada dia, verificando-se, uma vez mais que, onde um após­tolo ergue a cruz, a civilização surge espontânea e o bem-estar ma­terial aumenta.[19]


 

 

2. A IGREJA E AS MIGRAÇÕES

 

“Onde estiver o povo que trabalha, e sofre aí está a Igreja” que tem a missão de “evangelizar os filhos da miséria e do trabalho”. A atividade da Igreja não se volta só para os infiéis, mas também, para os católicos expostos ao perigo de se tornarem infiéis causa da migração.

É necessário intervir ativa e imediatamente, porque “o futuro re­ligioso e moral das populações migrantes depende daquela porção de religião e de moralidade” que deve ser logo preservada, como a herança mais preciosa de seu patrimônio cultural e espiritual. ­São necessários “heróis que vão evangelizar”, em condições perigosas mas não menos difíceis dos missionários, para os infiéis.

A preservação e a valorização do patrimônio espiritual exigem a conservação da cultura étnica: “religião e pátria se completam, obra de amor e de redenção”.

A pastoral dos migrantes deve ter presente este princípio. Tanto os missionários, quanto as Igrejas de acolhida devem respeitar a identidade cultural e a religiosidade própria do migrante. Portanto, deve ser concedida ao missionário a liberdade de ministério, sob a orientação do bispo, que sabiamente dirige a inserção dos migrantes, na Igreja local, respeitando os ritmos normais e não forçando, antes do tempo, uma assimilação que destruiria valores milenares de re1igião e de tradição.

A migração não é problema só da Igreja de partida, nem só da Igreja de destino; antes, sendo fenômeno e problema univer­sal, é problema da Igreja universal. Portanto delineia-se a necessida­de uma coordenação entre as Igrejas particulares, que só pode partir do centro. O problema é semelhante ao da atividade missionária “ad gentes”: como para esta, existe a Congregação de Propagação da Fé, assim para os migrantes católicos de todas as nações, constata-se a necessidade de instituir uma Comissão própria, ou  menos uma comissão central, na Cúria Romana.

 

 

a) A PRESENÇA DA IGREJA

 

“Onde está o povo que trabalha e sofre, aí está a Igreja”.

 

A igreja de Jesus Cristo, que impeliu os operários evangélicos entre os povos mais bárbaros e nos lugares mais inabitáveis não esqueceu e não esquecerá nunca a missão que lhe foi confiada por Deus, de evangelizar os filhos da miséria e do trabalho. Ela, com coração inquieto, olhará sempre para tantas pobres almas que, em um isolamento forçado, vão perdendo a fé de seus pais e, com ela, todo sentimento de educação cristã e civil. Onde está o povo que trabalha e sofre, aí está a Igreja, porque a Igreja é a mãe, a amiga, a protetora do povo e terá para ele uma palavra de conforto, um sorriso, uma bênção.[20]

 

“A Igreja está suscitando um novo e consolador despertar”.

 

É um novo, maravilhoso, consolador despertar que a Igreja está suscitando, em favor dos pobres e dos deserdados e mil vezes bendito quem souber colaborar, nesta obra de regeneração religiosa e social. Como grita o Apóstolo: quando goza um membro, todos os membros gozem; e se um membro sofre, todos os membros aju­dem a aliviá-lo.

Se o passado foi triste, se ate ontem os nossos irmãos fo­ram deixados entregues a si mesmos, lá nas infindáveis planícies da América, entre os Andes, nas Cordilheiras Rochosas, à margem dos vastos lagos do Norte, ao longo dos rios da Prata, do Ama­zonas, do Orenoco e do Mississipi, nas costas dos mares e até nos bosques, a caridade cristã e a hodierna civilização nos impõem a colocar fim, a um estado de coisas tão deplorável e indigno de uni povo grande e generoso.

A luta que eu proponho ao pensamento e à ação do clero e do laicato italiano é grande, nobre, intencional, gloriosa, e nela poderão encontrar um digno lugar tanto o óbulo da viúva, quanto a oferta do rico, a humilde atividade das almas mais tranqüilas, como o ímpeto generoso dos espíritos mais ardentes.[21]

 

“Os infelizes, verdadeiramente infelizes”.

 

Ecoa dentro de mim dolorosamente, até agora, a voz de um pobre camponês lombardo, vindo a Placência há dois anos, do extremo vale do Tibagy no Brasil, para me pedir, em nome da­ numerosa colônia, um Missionário. “Ah, Padre, dizia-me, com voz comovida, se soubesse quanto temos sofrido! quanto te­mos chorado, junto ao leito de nossos caros moribundos, que nos pediam consternados um padre.., e não poder tê-lo. Oh Deus, nós não, não podemos mais viver, não podemos mais viver assim”. E o pobrezinho continuava, com rude, mas eloqüente linguagem, a narrar-me cenas verdadeiramente dolorosas. Eu confesso: nunca, como naquele momento desejei o vigor dos meus vinte anos, nunca lamentei, como então, a impossibilidade de trocar a cruz de ouro do Bispo por aquela de madeira do missionário para voar em auxílio daqueles infelizes, verdadeiramente infelizes, porque aos outros pe­rigos para eles, se acrescenta o de cair no abismo do desespero.[22]

 

“Estamos aqui como animais”.

 

Na sessão da Câmara dos Deputados, de 12 de fevereiro de 1879, o deputado Antonibon, entre outras desoladoras notícias so­bre as condições dos nossos migrantes na América, lia uma carta de um colono vêneto, que, como conclusão de uma ilíade de so­frimentos, dizia: estamos aqui como animais; vive-se e morre-se, sem padre, sem professores e sem médicos.

Ora, cartas iguais a esta, neste ano recebi quase uma centena ­de pais de famílias, suplicando a obra protetora do meu Ins­tituto. E não somente cartas me foram enviadas, mas mensageiros vindos especialmente de várias partes do Brasil, a fim de advogar mais calorosamente, com a palavra, a causa deles. Daquelas pobres cartas não gramaticais e rabiscadas com assinaturas ilegíveis, e da palavra vibrante daqueles mensageiros transpareciam a necessidade do padre e do professor. Necessidade, que se fazia perceber, tanto mais fortemente, quanto maior a prosperidade material das colô­nias. Todas terminavam com as desoladoras palavras do pobre migrante vêneto; estamos aqui, como animais; vive-se e mor­re-se, sem padre, sem professores e sem médicos, as três formas sob as quais se apresenta ao raciocínio do pobre, a sociedade civil.

Com meu Instituto de padroado, procuro exatamente satisfazer a estas três grandes necessidades huma