HOMEM DOS MIGRANTES E PARA
OS MIGRANTES
1. A MIGRAÇÃO VISTA POR SCALABRINI
B) O direito natural de migrar
D) A Migração, problema de toda a Igreja
3. OS MISSIONÁRIOS E AS MISSIONÁRIAS DE SÃO CARLOS PARA OS MIGRANTES
A) A Tarefa do estado e das classes dirigentes
D. Scalabrini afronta
o dramático problema das migrações em massa, que explodiu na Itália, no início
do seu espiscopado, com os espírito de pastor, que vê o rebanho se dispersar e
sente a necessidade de realizar a missão da Igreja, enviada a recolher, na
unidade, os filhos dispersos de Israel.
O Apóstolo dos
migrantes analisa o fenômeno, sob todos os aspectos: dimensões, causas,
conseqüências humanas, sociais e religiosas. Denuncia as injustiças e as
opressões, mas sabe ler no evento, um desígnio de Deus. Por isso, descobre a
missão da Igreja, para com os migrantes e o melhor método, para realizar, a
favor deles, a missão de evangelização e de promoção humana.
Ele mesmo se dispõe a
dar uma resposta conreta às exigências dos migrantes e funda duas Congregações
missionárias, uma masculina e outra feminina, de pessoas dedicadas missão,
mediante a consagração religiosa.
A missão
evangelizadora é completada com a obra da tutela e promoção humana, confiada
aos leigos, especialmente à Sociedade de São Rafael.
Vendo
os migrantes que partem na estação de Milão e os apelos dos diocesanos
migrantes, na América, questionam o espírito apostólico do Bispo de Placência.
A migração é um dos fatos mais importantes e determinantes da vida italiana
contemporânea. Impõe-se pelo número e tem um caráter permanente, que decorre de
inelutáveis necessidades econômicas.
A
necessidade pressupõe um direito, que não pode ser suprimido pelo Estado, ou
pelos centros de poder, e devem assegurar a liberdade de migrar, mas não a
liberdade de “fazer migrar”, por causa da especulação e aproveitamento.
O
migrante, sem orientação e tutela, está exposto a “infinitos males materiais e
morais” e presa facílima de especulação”. Abandonado a si mesmo, corre o risco
de perder a própria identidade cultural e religiosa.
Ao
contrário, se a migração for bem orientada e assistida, pode-se tornar
“instrumento da Providência que preside os destinos que é o aperfeiçoamento do
homem sobre a terra e a glória de Deus nos céus”. De fato, no desígnio da
Providência, a migração é destinada a aperfeiçoar “a união de todos os homens
de boa vontade, com Deus, por Jesus Cristo”.
“Eram migrantes”.
Há vários anos, em Milão,
fui expectador de uma cena que deixou em meu espírito, uma impressão de
profunda tristeza.
Passando pela estação, vi
a vasta sala, os pórticos laterais e a praça adjacente invadidos por trezentos
ou quatrocentos indivíduos, vestidos pobremente, divididos em diversos grupos.
Em suas faces bronzeadas pelo sol, sulcadas por rugas precoces que a privação costuma imprimir, transparecia o
tumulto dos afetos que agitavam seus corações, naquele momento. Eram velhos
curvados pela idade e pelas fadigas, homens na flor da virilidade, mulheres que
levavam após si ou carregavam ao colo suas crianças, pequenos e jovens todos
irmanados por um único pensamento, todos orientados para uma meta comum.
Eram migrantes. Pertenciam às várias províncias
da Alta Itália e esperavam, com ansiedade que o trem os levasse às margens do
Mediterrâneo e de lá para as longínquas Américas, onde esperavam encontrar a
fortuna, menos desfavorável, e a terra menos ingrata aos seus suores.
Aqueles pobrezinhos partiam. Alguns chamados
por parentes que os haviam precedido no êxodo voluntário, outros sem saber
precisamente para onde seriam levados, atraídos por aquele instinto forte que
faz os pássaros migrarem. Iam para a América, onde ouviam repetir, tantas vezes
que havia trabalho, bem pago, para quem tivesse braços vigorosos e boa vontade.
Eles, em lágrimas, tinham dito adeus ao povoado
natal, ao qual os ligava tantas lembranças agradáveis; mas, sem saudade
dispunham-se a abandonar a pátria. Pois eles não a conheciam, senão sob duas
formas odiosas: o alistamento e o cobrador de impostos. Para o deserdado, a
pátria é a terra que lhe dá o pão: lá longe, longe, esperavam encontrar o pão,
menos escasso, menos suado.
Parti comovido. Uma onda de pensamentos tristes
me amarguravam o coração. Quem sabe que cúmulo de desgraças e de privações,
faz parecer-lhes doce, um passo tão doloroso!... Quantos desenganas, quantas
novas dores lhes prepara o futuro incerto! Quantos sairão vitoriosos na luta
pela existência? Quantos sucumbirão, entre os tumultos das cidades ou no
silêncio das planícies inabitadas? quantos embora encontrando o pão do corpo,
sentirão a falta do pão da alma, não menos necessário que o primeiro, e
perderão numa vida toda material, a fé de seus pais?
Desde aquele dia, a mente me transportava
freqüentemente para aqueles infelizes, e aquela cena relembra sempre outra nao
menos desoladora, não presenciada, mas percebida nas cartas dos amigos e no
relacionamento com os viajantes. Eu os vejo desembarcados em terra
estrangeira, no meio de um povo que fala uma
língua que eles não entendem, vítimas fáceis da especulação desumana.
Vejo-os banhar com seus suores e com suas lágrimas, um solo ingrato, uma terra
que exala miasmas pestilentos; arrebentados pelas fadigas, consumidos pela
febre, a suspirar em vão, pelo céu da pátria distante e pela antiga miséria do
casebre nativo e finalmente sucumbir, sem que a saudade de seus caros os
console, sem que a palavra da fé lhes mostre o prêmio, que Deus prometeu aos
bons e aos desventurados. E aqueles que triunfam na rude luta pela existência,
ei-los lá do seu isolamento, esquecer completamente toda noção sobrenatural,
todo preceito da moral cristã e perdem cada dia mais o sentimento religioso,
não alimentado pelas práticas de piedade e deixam que os instintos brutais
tomem o lugar das aspirações mais elevadas.
Diante de tão lamentável estado de coisas, eu
me faço constantemente a pergunta: como remediar isto? E todas as vezes que me
acontece ler nos jornais, qualquer circular do governo que coloca as
autoridades e o público de sobreaviso, contra as artes de certos especuladores,
os quais fazem verdadeiros saques de escravos brancos, para empurrá-los, cegos
instrumentos de ávidas coças, longe da terra natal, com a ilusão de fáceis e
abundantes lucros; quando, das cartas dos amigos ou das relações dos viajantes
observo que os párias migrantes são os italianos, que os trabalhos mais vis,
se é que possa existir vileza no trabalho, são feitos por eles, que os mais
abandonados, e portanto os menos respeitados, são os nossos patriotas, que
milhares e milhares de nossos irmãos vivem, quase sem defesa da pátria
distante, objeto de prepoocias muitas vezes impunes, sem o conforto de uma
palavra amiga, confesso-o. a chama da vergonha sobe-me ao rosto.
Sinto-me humilhado na minha qualidade de
sacerdote e de italiano, e me pergunto de novo: como ajudá-los?
Também, há poucos dias, um distinto viajante me
trazia a saudação de várias famílias dos montes placentinos, acampados às
margens do Orenoco: Diga ao nosso Bispo que lembramos sempre e de seus
conselhos, que reze por nós e que nos mande um padre, porque aqui, se vive e se
morre como animais...
Aquela saudação dos filhos distantes soara para
mim como uma reprimenda...[1]
“Um dos
fatos mais importantes da vida moderna italiana”.
Um dos fatos mais importantes da vida moderna
italiana é a sua migração. Importante pelo número, pelas questões sociais que
envolve, pelo mal estar econômico que estimula. Segundo os cálculos
estatísticos, os italianos migrantes que vivem atualmente nas Repúblicas
Americanas ultrapassam o número de dois milhões. Mais de um milhão de
Repúblicas do Sul, quatrocentos mil aproximadamente no Brasil, e o resto nas
vastas partes da América e sobretudo ao Norte. Somente a cidade de Nova Iorque
conta 85 mil.
No decênio 1880-1890 ultrapassaram os confins do Reino, dois milhões de
habitantes — um milhão pela migração temporária, verdadeiro fluxo e refluxo de
pessoas que oferece aos trabalhos da Europa, a mão-de-obra inteligente e zelosa
dos nossos operários, que trazem para a pátria honra e dinheiro; e um milhão de
migração permanente — ou seja, gente que vai além-oceano, com a esperan ça,
quase sempre frustrada, de retornar e se espalha nas jovens Repúblicas
Americanas, ao Sul e ao Norte, nas cidades populosas, nos pampas desertos e nas
florestas virgens, levando em toda parte uma atividade, sempre apreciada e
considerada (...).
Estas cifras não têm necessidade de longo
comentário. Elas falam clara e rigorosamente, que no biênio 87-88 saiu maior
número de cidadãos do Reino da Itália, que da França, dos Países Baixos, da
Espanha, de Portugal, da Áustria, da Bélgica, da Dinamarca, da Suíça juntos.
Dizem que a nossa migração é o quádruplo
da Rússia, o triplo da Alemanha que tem
uma notável migração em alguns milhões, superior à do Reino Unido, que tem
colônias florescentes e negócios em todas as partes do mundo.[2]
“Um
fenômeno que tem todas as características de um fato permanente”.
As cifras expostas são enormes, mas o fenômeno
migratório parece não ter chegado ao seu ápice, pois, apesar das dificuldades colocadas pela lei
vigente, quase há dois anos, limita o traballio dos agentes de migração;
apesar dos desenganos e dos gritos de dor, que, de tanto em tanto, atravessando
o Atlântico, nos fazem estremecer e corar, enfim, malgrado as proibições
governatívas, o êxodo doloroso continua. O Senhores, acontece que a migraçao
italiana, que foi e continua sendo aumentada, especialmente pelas nossas
tristes condições agrárias, que foi e é estimulada, além das medidas, pelos
agentes de migração e pela necessidade de braços para substituir os escravos
libertados no Brasil, responde, po seu conjunto, a uma verdadeira necessidade
do povo italiano, e será em relação com o aumento anual da sua população.
Portanto, nao se trata de um fenômeno passageiro, mas de um fenômeno que tem
todas as características de um fato permanente. O italiano é um dos povos que
tem maior aumento anual de população. Aumenta, na proporção de onze ou doze
mil, superado nisto unicamente pela Holanda, que se avantaja pelo excedente dos nascimentos sobre as
mortes, de treze por mil.
É por isso que, apesar da considerável migração,
a população do Reino aumenta, e dentro de poucos anos, as nossas belas terras
terão um máximo de densidade.
Segundo cálculos exatos, aumentando a
população, como nos últimos vinte anos, os italianos dentro de um século, serão
cem milhões. Admitindo também, em conseqüência de uma ampla colonizaçao
interna, poder hospedar dentro dos limites do Reino, outros dez milhões, chegará assim a quarenta ou
cinqüenta milhões. Na Itália, se todas as suas regiões tivessem a densidade da
população da Lombardia — teremos sempre um imenso povo de outros cinquenta
milhões, que se espalhará, no século futuro, pelo mundo, impelido por uma força
à qual, em vão se resiste: a luta
pela sobrevivência. Cinqüenta milhões de italianos, ó senhores, dispersos sobre
a face da terra, como folhas arrebatadas por um turbilhão![3]
“A
migração é um fato natural e uma necessidade invencível”.
A migração é um fato natural e uma necessidade
invencível. É uma válvula de segurança, dada por Deus a esta sofrida sociedade.
É uma força conservadora, muito mais poderosa que todos os compressores morais
e materiais, inventados e colocados em ação pelos legisladores, para tutelar a
ordem pública e para garantir a vida e os bens dos cidadãos. É conhecido o
provérbio: maldita fome. Quem poderia reter um povo que desencadeia sob as
convulsões do ventre, se não tivesse a esperança de encontrar, em outro lugar,
o pão quotidiano?
Portanto, àqueles que, ao considerar as
misérias ocasionadas pela migração, exclamam serenamente: Por que, tanta gente
migra? É fácil responder. A migração, na quase totalidade dos casos, não é
prazer, mas uma necessidade invencível. Sem dúvida, existe, também, entre os
migrantes pessoas más, vagabundas e
viciadas. Estes são em número menor. A
grande maioria, para não dizer a totalidade dos que abandonam a pátria, para ir
para a longínqua América, não é desta têmpera. Não fogem da Itália, por aversão
ao trabalho, mas porque este lhes falta e não sabem como viver e manter a
própria família.
Um excelente homem, cristão exemplar de um
povoado de montanha, onde me encontrava, alguns anos atrás, em visita pastoral,
veio pedir-me uma bênção e uma pequena lembrança para si e para os seus, que
partiam para a América. Às minhas observações, ele colocou tão simples, quanto
doloroso dilema: ou roubar ou migrar.
Roubar não devo, nem quero, porque Deus e a lei
me proibem; ganhar aqui o pão para mim e para meus filhos não me é possível.
Que fazer então? Imigrar é o único recurso que me resta.
Não soube acrescentar nada. Abençoei-o
comovido, recomendando0 à proteção de Deus e me convenci, uma vez
mais, ser a migração uma necessidade que se impõe, como remédio supremo e
heróico, ao qual é necessário submeter-se, como o paciente submete-se àdolorosa
operação, para evitar a morte.
A religião e a migração, eis os dois únicos
meios que poderão, no futuro, salvar a sociedade de uma grande catástrofe. Uma
enviando a outros continentes o excesso da população, a outra consolando, com
caras esperanças, a desesperada dor dos infelizes.[4]
b) O DIREITO NATURAL DE MIGRAR
“Um
direito sagrado”.
Aqueles que desejariam impedir ou limitar a
migração, em nome de considerações patrióticas e econômicas, e os que a
desejam, em nome de uma mal compreendida liberdade, abandonada a si mesma e sem
guia, ou não raciocinam absolutamente, ou raciocinam como egoístas e como
despreocupados. De fato, impedindo-a, transgride-se um sagrado direito humano;
abandonando-a a si mesmo, torna-se ineficaz. Os primeiros esquecem que os
direitos do homem são inalienáveis e que o homem tem direito de ir em busca do
seu bem-estar, onde mais lhe agrada. Os segundos, que a migração, força
centrífuga, pode se tornar, quando bem orientada, uma poderosa força
centrípeta. De fato, além de trazer alívio aos que ficam, com a redução de
concorrência dos braços e com novas aberturas ao comércio, torna-se de grande
proveito, conquistando influências e devolvendo sob mil formas, os tesouros de
atividade subtraídos momentaneamente, a nação (...).
Discutir teoricamente se a migração é um bem ou
um mal é inútil, sendo suficiente à minha finalidade constatar a sua existência.
Depois das pesquisas que fiz, para recolher dados estatísticos e os fatos que
servem de base para este meu breve trabalho, e nas conversas familiares,
percebi uma grande confusão de idéias, sobre este assunto, não só entre a
burguesia e os particulares, mas também entre jornalistas e pessoas que se
dedicam ao Estado. Estas considerações, não são inteiramente inoportunas.
rincipalmente os proprietários de terras, onde
a migração dos camponeses é mais numerosa, preocupados por este repentino
empobrecimento de braços, que se traduz em um adequado aumento de recompensa,
para os que ficam, levaram ao Governo suas queixas e por meio de deputados e
de associações, pediram providências, “para sanar e limitar este virus moral,
esta deserção, que despoja o pais de braços e de capitais frutíferos, que faz
romper os pactos coloniais e deixa após de si a apatia e a insubordinação sem
nenhuma vantagem, para os migrantes. Os camponeses desprovidos de capitais e de
conhecimentos serão sempre e em todo lugar proletários. E a miséria da qual
tentam fugir, abandonando a pária, acompanhá-los-á, como a sombra a seu corpo,
acrescida de novas necessidades e pelo isolamento”. (Atos parlamentares, sessão
de 12 de fevereiro de 1879).
Como cada um pode facilmente perceber, estas
razões e estes conselhos se inspiram mais no interesse dos abastados que ficam,
que nas necessidades dos míseros que são forçados a partir. Se a autoridade
lhes desse fácil ouvido e baseasse sua obra em tais sugestões, faria coisa
inútil, injusta e danosa. Inútil, porque nunca chegaria a suprimir a migração.
Injusta, porque injusto e tirânico é todo ato que coloca obstáculo ao livre
exercício de um direito. Danosa, porque a migração tomaria outro rumo, que não
o natural, como aconteceu todas as vezes que o governo, por um mal entendido
espírito de patriotismo, tornou difícil a migração.[5]
“A migração
deve ser espontânea”.
Se os agentes de migração fossem, como parece
acreditar o deputado De Zerbi na sua relação, nada mais que simples intermediário,
isto é, homens de confiança entre as várias Sociedades de Navegação e os
migrantes e limitassem o seu trabalho a dar esclarecimentos sobre o modo e
sobre o tempo dos embarques; e as agências, apenas simples sucursais dos
escritórios centrais de Navegação, não haveria motivo de preocupação. A sua
ação, embora supérflua, em grande número de casos (pois que aqueles conhecimentos
poder-se-ia obter, por quem tivesse interesse, nas vias e praças públicas)
também não seria, danosa. Poderia também, às vezes, ser favorável aos
migrantes. Se os agentes fossem orientados, para ajudar os duvidosos, e
mostrassem aos pobres sedentos pela miséria, os riachos americanos frescos e
estimulantes, como aqueles que no inferno dantesco, faziam extasiar mestre
Adão, não seria um fim de mundo, e podez-se-ia fechar um olho e dizer-lhe com Manzoni: vá, vá, pobre engordurado, não serás tu aquele que desfalcará Milão.
Mas a faculdade de fazer alistamento é bem diferente.
Os agentes, que usavam destes expedientes quando eram proibidos pelas
circulares ministeriais, imaginem se não desejarão lançar mão, ainda mais
amplamente, quando por lei será um
direito! Como ecn. seqüência natural, as catástrofes, lamentadas rio passado,
aumentam à medida da liberdade
outorgada, pois a experiência de uma parte neutraliza a sede insaciável de
lucro, e a ignorância da outra, ou não conhece a sorte de quem os precederam,
ou esperam ser mais afortunados.
As penas aplicadas pela nova lei, para os
agentes de migração são severas, e isto é bom. Não serão nunca excessivas
contra quem, mais torpe que o ladrão e mais cruel que o homicida, empurra
tantos infelizes para a ruína. Quantos destes, arrancados de suas casas por
falsas promessas, foram para além do oceano em lugares inabitáveis, enleados
por mil dificuldades insuperáveis, felizes, se no final conseguem encontrar um
pedaço de terra, para morrer em paz! Quantos abandonados em praias desertas,
sem roupa e sem pão, considemram grande ventura poder retornar, com o coração
desesperado, à terra natal![6]
“Liberdade
de migrar, não de fazer migrar”.
Liberdade de migrar, mas não de fazer migrar,
porque tanto é boa a migração espontânea, quanto é danosa a forçada. Boa, se
espontânea, sendo uma das grandes leis providenciais, que presidem os destinos
dos povos e o seu progresso econômico e moral. Boa, porque é uma válvula de
segurança social; porque abre caminhos floridos da esperança, e algumas vezes,
da riqueza, aos deserdados. Porque civiliza as mentes do povo, pelo contato
com outras leis e outros costumes. Porque leva a luz do evangelho e da
civilização cristã aos bárbaros e idólatras e eleva os destinos humanos,
alargando o conceito de pátria, além dos confins materiais e políticos, fazendo
pátria do homem, o mundo.
É ruim, se forçada, porque substitui a
verdadeira necessidade pela fúria de lucros imediatos, ou um mal entendido
espírito de aventura. Porque, despovoando exageradamente e sem necessidade o
solo pátrio, em vez de ser um alívio e uma segurança, torna-se um prejuízo e um
perigo, criando maior número de inadaptados e desiludidos. Enfim é ruim, porque
desvia a migração das suas correntes naturais, que são as mais proveitosas e as
menos perigosas, e porque a experiência nos ensina ser causa de grandes
catástrofes, que podem e devem ser impedidas por um governo civil e previdente.[7]
“Quão
amargo o pobre pão do migrante!”
Os perigos que traz consigo tal migração são inúmeros
e igualmente inúmeros são os males que a afligem.
Quando eu, há dez anos, acolhi o grito de dor
dos nossos pobres migrantes, em um pequeno escrito, que teve eco no coração de
todos os bons e apossou-se de todas as classes de pessoas tão consenso de
pensamentos e de obras, eu estava longe de grande o cúmulo de males e de
perigos aos quais se expüe o pobre migrante. Tudo, tudo conspira contra ele,
seus males freqüentemente começam antes do âxodo do humilde casebre, sob a
forma de um agente de migração que determina a sua partida, atraindo-a uma
falsa conquista da riqueza e endereçando-o para onde agrada e convém ao agente
e não para o interesse do migrante. Seguem-se os males ao longo da viagem,
freqüentemente desastrosa, e os acompanham na sua chegada aos lugares
infestados de doenças terríveis, nos trabalhos aos quais, muitas vezes não se
sente apto, sob as ordens de patrões desumanos, por causa da sede insaciável de
ouro, ou pelo hábito de considerar o trabalhador um ser inferior. Assim os
males se agravam sob mil ciladas que a maldade lhes prepara, em países
estrangeiros dos quais ignoram a língua e os costumes, num isolamento, que
freqüentemente causa a morte do corpo e da alma.
Posso citar numerosos fatos que demonstram
quantas lágrimas banham e quanto sal tem o pobre pão dos migrantes, atraidos
por vãs esperanças ou por falsas promessas. Encontram uma ilíada de
sofrimentos, o abandono, a fome e não poucas vezes a morte onde acreditavam
encontrar um paraíso, colorido pela miragem da necessidade: viram o Eldorado,
sem pensar que o “simum” violento da realidade desfaz em um momento, as
encantadas cidades dos Sonhos! Infelizes extenuados pelo cansaço por causa do
clima, pelos insetos, caem desconsolados sobre a gleba fecundada, por seus
suores, à margem de florestas virgens, que souberam cultivar não para si, nem
para os seus filhos, atingidos pelo micróbio fatal e doce da saudade, talvez
sonhando com a pátria, que não soube dar-lhe nem o pão, suplicando em vão ao
ministro da santa religião de seus pais, que lhes suavize os terrores da agonia
com as imortais esperanças da fé.
O quadro não é feliz, mas é a história
verdadeira de milhares de nossos patriotas migrantes, como pude colher das
relações dos meus missionários e como me é escrita e narrada por quem foi testemunha
e participante daqueles tristíssimos êxodos.
Porém, não desejo ser mal entendido ou parecer
pessimista. As tristes coisas acenadas não podem ser ditas a respeito de todos
os nossos migrantes. Muitíssimos deles encontraram nos países hospitaleiros,
pão suficiente, muitos bem-estar, alguns, riquezas, e no seu conjunto formam
colônias das quais a mãe pátria pode se orgulhar. Mas são também muitíssimos os
desgraçados e em grande parte o são por causa de sua ignorância e por nosso
descuido.[8]
“Males
infinitos, tanto materiais, quanto morais”.
Os perigos que aguardam os migrantes são tantos
e tão numerosos que dificilmente um homem, também atencioso, poderia escapar
totalmente deles. Que dizer então dos pobres camponeses, que, ignorantes de
tudo, confiam em pessoas, que não vêem no migrante senão coisa a ser
desfrutada?
Aqueles que lêem jornais devem ter em mente um
certo número de fatos ora torpes, ora trágicos, sempre tristes, nos quais os nossos
pobres irmãos que migram, aparecem como vítimas.
Alguns anos atrás, os diários públicos falaram
de duzentos ou trezentos migrantes, que ao chegar ao porto de embarque, não
sei, se de Gênova ou de Nápoles, souberam que seu dinheiro, ajuntado quem sabe
com que dificuldade, talvez com a venda dos últimos móveis, acabaram nas mãos
de um embusteiro. Por tanto, lágrimas, gritos, imprecações e depois o retorno
ao povoado nativo, às custas do Estado.
No início do inverno de 1873, chegou a Nova
Iorque, um navio com muitas famílias de camponeses do Abruzzo que foram
embarcados pelos agentes de migração, com a promessa de serem levados a Buenos
Aires, onde ansiosamente os esperavam parentes e amigos. Aqueles infelizes, que
tinham sofrido muito durante a travessia, encontram-se em outro lugar,
esgotados, bem longe da meta de sua viagem e sem meios, para prossegui-la.
Estas podem ser exceções. Regra geral é o modo
como é feito seu transporte. Despachados pior que animais, em números muito
maior do que permitiriam os regulamentos e a capacidade dos navios, eles fazem
aquele longo e penoso trajeto, literalmente amontoaos, com sério problema
moral e de saúde.
Que dizer da sorte ainda mais lamentável que os
espera, quando chegam à meta suspirada? Freqüentemente enganados com artes
dissimuladas, iludidos por mil promessas mentirosas, constrangidos pelas
necessidades, se vinculam, com contratos que são uma verdadeira escravidão e as
crianças encaminhadas para a mendicância, para o caminho do delito e as
mulheres jogadas no abismo da desonra.
As vastas e incultas terras da América do Sul,
do Brasil, do Chile foram cedidas com contrato aos migrantes ou diretamente
pelos governos, ou pelas sociedades particulares, que consquistaram a
propriedade para fins de especulação. E depois de um certo número de anos,
mediante o pagamento de taxas convenientes, o camponês torna-se proprietário do
solo fecundado com o próprio suor. Portanto os colonos armam sua tenda naqueles
terrenos incultos, que freqüentemente transformam em sorridentes e férteis campos.
Os camponeses, na maioria das vezes, de uma mesma região e algumas vezes de um
mesmo povoado, batizam, lá longe, com o nome do lugar de origem, o lugar onde a
Providência os lançou.
Se estes agrupamentos podem reduzir os perigos
da migração, formando menos triste e mais segura a vida, podem também, se não
forem bem orientados, ser causa de infinitos males, tanto materiais quanto
morais. Nossos pobres camponeses correm perigo de serem mandados pelos
especuladores a acabar sua vida, em terrenos estéreis e lugares nocivos, mal
defendidos dos animais ferozes e de índios. Todas estas coisas já se
verificaram mais de uma vez e sobre as quais a imprensa e a opinião pública
repetidamente se comoveram.[9]
“Presa
fácil da especulação”.
Para onde se dirige esta massa de pessoas, esta
enchente de sangue italiano?
É doloroso dizer, mas a maior parte dela não
sabe para onde vai. Para eles, a América é o país, para onde se dirigem os que
deixam a pátria, em busca de fortuna. Ao Sul ou ao Norte, nas zonas temperadas
ou tropicais, em climas sadios ou pestilentos, em terras férteis ou mais
estéreis do que as que abandonaram, em certtros populosos ou em regiões
desertas, eles não sabem. Vão para a América, e não poucas vezes com a
agravante de um contrato assinado em branco que coloca, a sua pessoa, o seu
trabalho a disposição de um patrão qualquer.
Foi assim que os agentes de migração mandaram
um considerável número de migrantes para o Brasil, para substituir a
mão-de-obra que já era insuficiente para a agricultura, tomando-se completamente
deficiente, com a abolição da escravidão. Foi assim que, em Nova Iorque, o
chamado sistema dos patrões, condenado com um Bill pelo Senado dos Estados
Unidos, aglomerou um ilimitado número de migrantes, atraídos para lá por mil
promessas, desfrutados indignamente e depois abandonados, para deixar lugar aos
recém-chegados, novas vítimas de torpes lucros. Finalmente, foi assim que no
Chile, para silenciar muitos outros casos, encontraram o abandono e a miséria
mais de mil de nossos compatriotas, seduzidos a irem para lá, por alegres
mentiras. E como a ignorância e a pobreza tornam nossos compatriotas vítimas
fáceis para os agentes de migração, assim lá longe, o isolamento e a miséria
os tornam presas fáceis da especulação, sempre e por toda a parte, sem
entranhas de piedade, lá mais que em qualquer outro lugar. Por isso, em lugar
de trabalho apto e bem recompensado, em vez de abundante e sadia comida,
aqueles infelizes encontram um trabalho rude, quando o encontram, uma
recompensa que, comparada com os esforços, os perigos, ao encarecimento dos
gêneros de primeira necessidade, é irrisória, pois encontram o melhor alimento
pago a alto preço, freqüentemente com a privação de quanto significa vida
civilizada.[10]
“Perdem o
sentimento da nacionalidade e o sentimento da fé”.
Quem pode descrever os perigos que encontram
nossos pobres migrantes a respeito da vida religiosa? Na imensa maioria, eles
vivem lá, sem nunca verem o rosto de um padre e a cruz de uma torre. Portanto, abandonados
a si mesmos, ou caem no indiferentismo mais desolador ou abandonam a fé de seus
pais. Aperta-me o coração só de pensar. Segundo cálculos oficiais, em sessenta
anos, migraram, em uma grande república Americana, quarenta milhões de
católicos. Ora, supondo que vinte milhões, o que nunca se verificou, tenham
voltado à pátria, os católicos residentes lá, tendo presente os nascimentos e
as mortes, deveriam atingir a cifra de mais ou menos vinte milhões. Ao
contrário, segundo o último recenseamento eclesiástico, o seu número, não
chega, oito milhões. Onde foram parar os outros doze milhões?
Perderam o sentimento da nacionalidade e com
ele, coisa que aperta o coração só de pensar, o sentimento da fé católica. Caem
vítimas da propaganda protestante, vítimas infelizes das seitas, lá mais ativas
e numerosas, que em outros lugares. Ah! senhores, permitam a um Bispo chorar
diante de vós tanta desventura! A privação do pão espiritual que é a palavra de
Deus, a impossibilidade de se reconciliarem com Ele, a falta de culto e de
todo estímulo ao bem, exerce uma influência mortífera sobre a moral do povo.
Também o homem instruído está sujeito a tal perigo, mas em menor grau, porque
sua educação, sua cultura, o conhecimento teórico da Religião, ajudam de algum
modo, a salvá-lo do gelo da indiferença, podendo ele senão de outra forma,
associar-se com o pensamento, aos divinos mistérios, que se celebram em outros
lugares e nutrir a mente, com leituras morais. Mas o pobre filho da gleba,
como poderia ascender a pensamentos assim elevados? Para ele, mais que para os
outros, o conceito da religião é inseparavelmente unido ao do Templo e do
Padre. Onde todo o aparato religioso sensível se cala, ele pouco a pouco se
esquece dos seus deveras para com Deus, e a vida cristã no seu espírito enfraquece
e morre. Mas não morre nele a sede da verdade, o desejo do infinito. “O homem,
diz um moderno filósofo incrédulo, tem naturalmente necessidade de Religião e
de Culto. Ele é religioso por natureza, como por natureza é racional, ou melhor ainda ele é religioso porque é
racional”. Esta necessidade é tanto mais sentida quanto menos é possível
satisfazê-la. Isto se toca com a mão, em meio aos nossos migrantes, também lá
onde, por falta de padre, reina soberano o
materialismo mais desprezível. Imaginai quanto esta necessidade deva ser
viva naqueles — e são a maioria que ainda experimentam a dignidade do próprio
ser, ouvem ainda os apelos de sua
consciência.[11]
“Abandonados,
longe, sem sombra de assistência religiosa”.
Os pobres camponeses que migram, quando não
morrem pelo caminho, ou não sucumbem pelas privações ou pelo desgosto de se
verem enganados, pode-se dizer que são abandonados, lá longe, sem sombra de
assistência religiosa. É mais fácil imaginar que descrever o seu estado.
Os padres na América não são muito numerosos, e
os poucos que existem, quase sempre desconhecendo a nossa língua, não poderiam,
nem mesmo cumprir, como desejariam, os seus deveres pela simples razão que não
seriam compreendidos pelos migrantes. Penso que, pelos migrantes estarem
dispersos nas intermináveis superfícies, o sacerdote não poderia visitá-los,
senão algumas vezes, rapidamente. Por isso o italiano que vive na América, é,
geralmente falando, quase constrangido a levar uma vida pior que pagã, sem missa,
sem sacramentos, sem orações públicas, sem culto, sem palavra de Deus, o que é
já muito se batizarem seus filhos. Ora, é claro que semelhante estado de coisas
deve conduzir insensivelmente aqueles infelizes a uma terrível indiferença em
matéria de religião e a um materialismo embrutecedor (...).
Devemos lembrar-nos de que, na América faltam
muitas vezes templos e sacerdotes católicos, a propaganda protestante ou massônica,
conforme os lugares, nada deixa a desejar. Lá onde a voz do ministros de Deus não
chega, chegam os folhetos descrentes, os romances imorais, os opúsculos e os
livros das seitas. Portanto, se de um lado falta toda ajuda religiosa, do outro
são abundantes as insídias contra a fé de nossos pobres compatriotas que, ou
por interesse ou por ignorância de levianos, deixam-se levar pelos apóstolos
do erro.[12]
“A maior
parte dos males poderia ser evitada”.
O que mais entristece em tudo isto, é o
pensamento de que a maior parte dos males religiosos, morais, econômicos, aos
quais a nossa migração se expõe, poderiam ser evitados ou muito diminuidos, se
as classes dirigentes, na Itália, fossem conscientes dos deveres que as ligam
aos irmãos expatriados, porque as imensas terras da América não são tão nocivas
de não poderem oferecer à nossa migração um canto tranqüilo. Nem todas as
terras são assim tomadas pela especulação, são férteis e pode-se fazer
contrato que assegure um justo salário aos trabalhadores. Tudo depende de saber
orientar a nossa migração. Mas quando se faz isto na Itália?
Quando se falou ao migrante: Ide, este ou
aquele contrato que vos é oferecido, estas e aquelas regiões que vos indicam,
ocultam tais emboscadas. São sem garantia, insalubres, estéreis; ou também
sendo férteis, são totalmente fora de qualquer meio de comunicação possível,
tão segregada de todo convívio humano, que o fruto de vossas fadigas não poderá
ser vendido, ricos e ao mesmo tempo pobres? Quando, se faz isto na Itália? Ao
contrário, grita-se um pouco e se geme sob o açoite de algum acontecimento que
naqueles nossos irmãos ofende o nosso amor próprio nacional, grita-se tem
compaixão e também se reclama, alguma medida ao Governo. E depois? Tudo
silencia, tudo se cobre com o esquecimento, tudo volta à calma. A interminável
calma da onda que oculta a vítima e prepara as novas![13]
“A
migração é um bem e um mal”.
É indubitavelmente um bem, fonte de bem estar
para quem vai e para quem fica, verdadeira válvula de segurança social, aliviando
o solo do excesso da população, abrindo novos caminhos ao comércio e às
indústrias, fundindo e aperfeiçoando as civilizações, alargando o conceito de
pátria, além dos limites materiais, fazendo do mundo a pátria do homem; mas é
sempre um gravíssimo mal, individual e patriótico, quando se deixa caminhar
assim sem lei, sem freio, sem direção, sem tutela eficaz: não forças vivas e
inteligentes ordenadas à conquista do bem-estar individual e social, mas forças
que se chocam e freqüentemente se destróem reciprocamente, atividade
desfrutada, em prejuízo e vergonha do país de origem. Não águas capazes de fecundar, mas torrentes sem
leito, que perdem o tesouro de suas águas por entre as pedras e os abrolhos,
quando não arrastam os campos já fecundados.[14]
“É
instrumento da Providência também através de catástrofes”.
A migração é lei da natureza. O mundo físico,
como o mundo humano estão submetidos a esta força que move e mistura, sem destruir, os elementos da vida, que
transporta organismos nascidos em um determinado lugar e os semeia no espaço,
transformando-os e aperfeiçoando-os de modo a renovar em cada instante o
milagre da criação.
Migram as sementes nas asas dos ventos, migram
as plantas de continente a continente, levadas pelas correntes das águas, migram
os pássaros e os animais e, mais que todos, migra o homem ora em forma
coletiva, ora em forma isolada, mas sempre lnstru mento daquela Providência que
preside e guia os destinos humanos, também através de catástrofes, para a meta,
que é o aperfeiçoa. mento do homem, sobre a terra e a glória de Deus nos céus.
Isto nos diz a Revelação divina, isto nos
ensinam a história e a biologia moderna, e é só alcançando esta tríplice fonte
da verdade, que poderemos deduzir as leis reguladoras do fenômeno migratório e
estabelecer os preceitos de sabedoria prática, que deve discipliná-los, em toda
sua rica variedade de formas.[15]
“A
grandeza religiosa e moral da causa dos migrantes”.
A grandeza religiosa e moral da causa dos
nossos migrantes italianos, e a grandeza política e material desse hospitaleiro
país que (como me dizia há poucos dias o insígne Presidente da República)
abre-lhes a dois batentes, as portas da hospitalidade. São duas grandezas
feitas para se confundirem em uma só e para manifestar ao século vinte, os
segredos de uma nova era, onde não poderá faltar nem as bênçãos de Deus, nem as
conquistas da civilização (...).
Percorri uma parte considerável da vossa
gloriosa pátria e admirei com alegria misteriosa, que me entusiasmava, os
grandes desígnios de Deus sobre a América. Celebrando o quarto centenário de
Cristóvão Colombo, fui convidado a fazer conferências sobre isto, na Itália,
pela simples razão de que a família de Colombo pertencia à minha querida
Diocese de Placência, embora ele tivesse nascido em Gênova.
Uma destas conferências se intitulava: “Os
desígnios de Deus sobre a América”. Pois bem, aquilo que eu pensava então, vi
confirmado, durante a minha feliz estada entre vós, na minha longa viagem,
pelos vários Estados da União.[16]
“Matura-se
a união de todos os homens de boa vontade, com Deus, por Jesus Cristo”.
Aqui portanto, um dia, se a inércia, se a
ignorância dos caminhos de Deus, se o repouso sobre os triunfos conquistados,
se a opressão de santas aspirações, não desviarem os povos do plano divino,
todas as nações terão gerações numerosas, ricas, felizes, morais, religiosas,
as quais, cada uma conservando embora as caracteríscas próprias de sua
nacionalidade, serão estreitamente unidas.
Desta terra de bênçãos elevar-se-ão inspirações,
desenvolver-se-ão princípios, desdobrar-se-ão novas forças misteriosas, que virão
regenerar, reavivar o velho mundo, ensinando-lhe a verdadeira economia da
liberdade, da fraternidade, da igualdade, ensinando-lhe que povos diferentes,
pela origem podem muito bem, conservar sua língua, sua existência nacional
própria, embora sendo política e religiosamente unidos, sem barreiras para
ciúmes e divisões, sem exércitos, para se empobrecerem e se destruírem uns aos
outros (...).
Eu espero, sim, á senhores, eu o espero.
Porque, enquanto o mundo se agita deslumbrado, pelo seu progresso, enquanto o
homem se exalta com suas conquistas sobre a matéria e manda como senhor na
natureza, desentranhando o solo, subjugando o raio, confundindo as águas dos
oceanos com os cortes dos ístimos, suprimindo as distâncias; enquanto os povos
caem, ressurgem, e se repovoam; enquanto as raças se misturam, se estendem e
se confundem, através dos rumores das nossas máquinas, para além deste trabalho
febril de todas estas obras gigantescas e não sem elas, amadurece na terra uma
obra bem mais ampla, bem mais nobre, bem mais sublime: a união com Deus, por
Jesus Cristo de todos os homens de boa vontade.[17]
“A Igreja
Católica vitoriosa e pacificadora”.
Os servidores de Deus que trabalham
inconscientemente para cumprir os seus desígnios são numerosos, em todos os
tempos, mas nas grandes épocas históricas de renovação social são muito mais do que se conhece, mais do que se pensa:
eles são inumeráveis. O fim supremo da humanidade pré-fixado pela providência
não é a conquista da matéria, por meio da ciência mais ou menos avançada, e
nem mesmo a formação dos grandes povos nos quais se encarna hora por hora o
gênio da força, do saber, da riqueza, não; mas a união das almas, em Deus, por
meio de Jesus Cristo e do seu representante visível, o Romano Pontífice. Os
obstáculos que ainda se opõem ao altíssimo desígnio, desaparecerão pouco a
pouco, e virá o dia, e virá antes de tudo neste vosso grande e glorioso país,
no qual as nações conhecerão onde está a verdadeira grandeza, sentirão
necessidade de retornar ao Pai e retornarão.
Que dia será aquele, senhores! Dia feliz, no
qual todas as inflexões, todas as vozes, em diferentes línguas, elevarão ao Onipotente
o cântico de louvor e de ação de graças. O sol da verdade resplandecerá mais
luminoso e o arco-íris da paz se curvará sobre a terra, em todas as suas
admiráveis cores. Será como um arco de triunfo sob o qual a Igreja Católica
passará vitoriosa e pacificadora, atraindo a si o mundo moderno; e a
sociedade, voltando a ser cristã, continuará na ordem e na justiça, a trilhar o
cami. nho da verdadeira liberdade, da verdadeira civilização, do verda. deiro
progresso.
Apressemos, com votos, com orações, com obras,
aquele dia abençoado![18]
“A antiga
piedade está se despertando”.
Estou comovido sobretudo por quanto vi na minha
longa peregrinação. Vi conservada a fé católica, em meio a dificuldades, sem
número, nas fazendas, do grande Estado de São Paulo; vi a fé das colônias do
Paraná e faço votos que também nas cidades da América Latina, se imite as
cidades da América do Norte. Lá, surgem igrejas italianas em todas as cidades.
Os nossos Missionários as assistem com outros religiosos. A piedade antiga está
se despertando; a credibilidade e a consideração junto às autoridades aumenta
cada dia, verificando-se, uma vez mais que, onde um apóstolo ergue a cruz, a
civilização surge espontânea e o bem-estar material aumenta.[19]
“Onde estiver o povo
que trabalha, e sofre aí está a Igreja” que tem a missão de “evangelizar os
filhos da miséria e do trabalho”. A atividade da Igreja não se volta só para os
infiéis, mas também, para os católicos expostos ao perigo de se tornarem
infiéis causa da migração.
É necessário intervir
ativa e imediatamente, porque “o futuro religioso e moral das populações
migrantes depende daquela porção de religião e de moralidade” que deve ser logo
preservada, como a herança mais preciosa de seu patrimônio cultural e
espiritual. São necessários “heróis que vão evangelizar”, em condições
perigosas mas não menos difíceis dos missionários, para os infiéis.
A preservação e a
valorização do patrimônio espiritual exigem a conservação da cultura étnica:
“religião e pátria se completam, obra de amor e de redenção”.
A pastoral dos
migrantes deve ter presente este princípio. Tanto os missionários, quanto as
Igrejas de acolhida devem respeitar a identidade cultural e a religiosidade
própria do migrante. Portanto, deve ser concedida ao missionário a liberdade de
ministério, sob a orientação do bispo, que sabiamente dirige a inserção dos
migrantes, na Igreja local, respeitando os ritmos normais e não forçando, antes
do tempo, uma assimilação que destruiria valores milenares de re1igião e de
tradição.
A migração não é
problema só da Igreja de partida, nem só da Igreja de destino; antes, sendo
fenômeno e problema universal, é problema da Igreja universal. Portanto
delineia-se a necessidade uma coordenação entre as Igrejas particulares, que
só pode partir do centro. O problema é semelhante ao da atividade missionária
“ad gentes”: como para esta, existe a Congregação de Propagação da Fé, assim
para os migrantes católicos de todas as nações, constata-se a necessidade de
instituir uma Comissão própria, ou menos uma comissão central, na Cúria Romana.
“Onde
está o povo que trabalha e sofre, aí está a Igreja”.
A igreja de Jesus Cristo, que impeliu os
operários evangélicos entre os povos mais bárbaros e nos lugares mais
inabitáveis não esqueceu e não esquecerá nunca a missão que lhe foi confiada
por Deus, de evangelizar os filhos da miséria e do trabalho. Ela, com coração
inquieto, olhará sempre para tantas pobres almas que, em um isolamento forçado,
vão perdendo a fé de seus pais e, com ela, todo sentimento de educação cristã e
civil. Onde está o povo que trabalha e sofre, aí está a Igreja, porque a Igreja
é a mãe, a amiga, a protetora do povo e terá para ele uma palavra de conforto,
um sorriso, uma bênção.[20]
“A Igreja
está suscitando um novo e consolador despertar”.
É um novo, maravilhoso, consolador despertar
que a Igreja está suscitando, em favor dos pobres e dos deserdados e mil vezes
bendito quem souber colaborar, nesta obra de regeneração religiosa e social.
Como grita o Apóstolo: quando goza um membro, todos os membros gozem; e se um
membro sofre, todos os membros ajudem a aliviá-lo.
Se o passado foi triste, se ate ontem os nossos
irmãos foram deixados entregues a si mesmos, lá nas infindáveis planícies da
América, entre os Andes, nas Cordilheiras Rochosas, à margem dos vastos lagos
do Norte, ao longo dos rios da Prata, do Amazonas, do Orenoco e do Mississipi,
nas costas dos mares e até nos bosques, a caridade cristã e a hodierna
civilização nos impõem a colocar fim, a um estado de coisas tão deplorável e
indigno de uni povo grande e generoso.
A luta que eu proponho ao pensamento e à ação
do clero e do laicato italiano é grande, nobre, intencional, gloriosa, e nela poderão
encontrar um digno lugar tanto o óbulo da viúva, quanto a oferta do rico, a
humilde atividade das almas mais tranqüilas, como o ímpeto generoso dos
espíritos mais ardentes.[21]
“Os
infelizes, verdadeiramente infelizes”.
Ecoa dentro de mim dolorosamente, até agora, a
voz de um pobre camponês lombardo, vindo a Placência há dois anos, do extremo
vale do Tibagy no Brasil, para me pedir, em nome da numerosa colônia, um
Missionário. “Ah, Padre, dizia-me, com voz comovida, se soubesse quanto temos
sofrido! quanto temos chorado, junto ao leito de nossos caros moribundos, que
nos pediam consternados um padre.., e não poder tê-lo. Oh Deus, nós não, não
podemos mais viver, não podemos mais viver assim”. E o pobrezinho continuava,
com rude, mas eloqüente linguagem, a narrar-me cenas verdadeiramente dolorosas.
Eu confesso: nunca, como naquele momento desejei o vigor dos meus vinte anos,
nunca lamentei, como então, a impossibilidade de trocar a cruz de ouro do Bispo
por aquela de madeira do missionário para voar em auxílio daqueles infelizes,
verdadeiramente infelizes, porque aos outros perigos para eles, se acrescenta
o de cair no abismo do desespero.[22]
“Estamos
aqui como animais”.
Na sessão da Câmara dos Deputados, de 12 de
fevereiro de 1879, o deputado Antonibon, entre outras desoladoras notícias sobre
as condições dos nossos migrantes na América, lia uma carta de um colono
vêneto, que, como conclusão de uma ilíade de sofrimentos, dizia: estamos aqui
como animais; vive-se e morre-se, sem padre, sem professores e sem médicos.
Ora, cartas iguais a esta, neste ano recebi
quase uma centena de pais de famílias, suplicando a obra protetora do meu Instituto.
E não somente cartas me foram enviadas, mas mensageiros vindos especialmente de
várias partes do Brasil, a fim de advogar mais calorosamente, com a palavra, a
causa deles. Daquelas pobres cartas não gramaticais e rabiscadas com
assinaturas ilegíveis, e da palavra vibrante daqueles mensageiros transpareciam
a necessidade do padre e do professor. Necessidade, que se fazia perceber,
tanto mais fortemente, quanto maior a prosperidade material das colônias.
Todas terminavam com as desoladoras palavras do pobre migrante vêneto; estamos
aqui, como animais; vive-se e morre-se, sem padre, sem professores e sem
médicos, as três formas sob as quais se apresenta ao raciocínio do pobre, a
sociedade civil.
Com meu Instituto de padroado, procuro exatamente satisfazer a estas três grandes necessidades huma