QUARTA PARTE

HOMEM DOS HOMENS E PARA OS HOMENS

 

 

1.  A AÇÃO CATÓLICA... 2

2.  A QUESTÃO OPERÁRIA... 5

3.  A QUESTÃO ROMANA... 10

a) AS RAZÕES PROFUNDAS DO CONCILIATORISMO... 10

b) AS RAZÕES HISTÓRICAS DA QUESTÃO ROMANA... 12

c)  AS VIAS DA CONCILIAÇÃO... 14

4.  HUMANISMO CRISTÃO... 17

a)  AMOR À VERDADE.. 18

b)  REALISMO E COERÊNCIA... 19

c) DEVOTO SEM MEDIDA E SEM MEDIDA LIVRE.. 20

d) A AMIZADE.. 24

e)  O AMOR PELO BELO... 25

 

 

 

 

D. Scalabrini quis ser homem do seu tempo, não um sonhador nostálgico de épocas passadas e irreversíveis, mas no passo da história, atento aos sinais dos tempos, conhecedor realista dos problemas e das exigências dos contemporâneos, voltado a preparar um  futuro mais humano e conforme ao desígnio de Deus, na história.

Afrontou com coragem, energia e solidez as principais “questões”  do tempo. A época do associacionismo teve nele um estusiasmado sustentador das associações católicas, apesar de discordar da ideologia política de quem queria monopolizar a Ação Católica.

A sociedade ia se descristianizando rapidamente; urgia “reconduzir  Cristo à sociedade”. Eram condições indispensáveis: união e densidade de forças, atividade corajosa, dependência dos Pastores enquanto a ação católica é apostolado, não política.

O maior obstáculo à unidade era a questão Romana que impedia com a proibição à participação dos católicos às eleições políticas um influxo incisivo sobre os centros de poder e de legislaçao os anti-clericais tinham mão livre, na tentativa de demolir o sentido cristão do povo. A preocupação pastoral ditou ao bispo de Placência, não uma atitude de protesto, mas a busca da conciliação entre dois sentimentos igualmente legítimos: religião e pátria. A Igreja deve ser livre, tanto interna como externamente, para exercer  o seu poder que é todo espiritual, e os seus direitos que são a evangelização e a caridade.

A conciliação é um ideal que abraça todos os aspectos da vida de Scalabrini. Ele concilia o realismo da história, vivida com o amor intrépido  à verdade, a liberdade e a franqueza do diálogo, com a obediência o amor por tudo o que de belo e bom Deus colocou à disposição, na criação, com a amizade dos homens.

 

 

 

1.  A AÇÃO CATÓLICA

 

Iluminismo, racionalismo, materialismo e anticlericalismo afasram Cristo da sociedade; é necessário promover um movimento de retorno, especialmente entre o povo. Só na união está a força e só na organização, a união é eficiente.

O associacionismo está para se tornar exclusivo dos inimigos da Igreja: em vez de chorar, é necessário mexer-se, sair a campo e agir, sob a guia do Papa e dos Bispos.

 

 

“Jesus Cristo foi afastado da sociedade.”

 

Os modernos incrédulos, já persuadidos de não poderem der­rubar, como desejariam, o trono de Jesus Cristo, pensaram em con­finar este Rei das almas, este invisível Soberano do universo, en­tre as paredes do templo, afastando-o de todas as dependências da vida, particular como pública. Eles usaram todas as artes, recor­eram todos os meios, para conseguir o diabólico intento e infelizmente, em grande parte, por culpa da indolência dos bons, con­seguiram.

Jesus Cristo foi pouco a pouco afastado da escola, dos costu­mes, das famílias, da sociedade. Mas (...) quando Jesus Cristo se afastou, nos demos conta de que fora afastada a alma que vivificava tudo, percebemos que ao edifício científico, doméstico e social, veio a faltar o fundamento; percebemos que estávamos à beira de um abismo!

Tinham dito: cada escola que se abre é um cárcere que se fecha e depois, os inimigos da Igreja não encontraram conventos e castelos suficientes para conter o número sempre crescente de deliqüentes. Tinham dito: o catecismo nas escolas é uma ofensa à liberdade de pensamento e, uma vez substituído pelo manual dos direitos do homem e depois por um livro de deveres naturais, nos quais não se falava em Deus, criaram os novos Espartanos, as bombas de dinamite com as quais a sociedade deverá combater a última batalha. Tinham dito: a ciência leiga purificará o ambiente e injetará sangue novo nas veias da crescente geração e as estatísticas dos suicídios, dos duelos, dos adultérios, os malogros fraudulentos, os assaltos a bancos, a imoralidade pública, os delitos mais atrozes fizeram calar bem depressa, nos lábios, os hinos festivos dissolvidos pela nova moral, sem Deus.

Na família, as ruínas do tálamo conjugal, a paz perdida, os filhos rebeldes têm demonstrado com muita eloqüência que só o crucifixo pode proteger o lar.[1]

 

“Reconduzir Jesus Cristo na sociedade.”

 

À vista do abismo que está diante de nós, nos faz voltar atrás horrorizados, e todos sentimos, instintivamente, a necessidade de um movimento de retorno às santas tradições de nossos pais e de nos­sas mães: o abalo do edifício, a poeira das ruínas provocam medo e sentimos todos a necessidade de restabelecer o equilíbrio, recolo­cando-lhe a base que é Jesus Cristo.

Ora, é exatamente esta a finalidade da ação católica: promo­ver com uma organização conveniente às exigências dos tempos, um movimento de retorno, já penetrado na consciência de todos os honestos: reconduzir Jesus Cristo à escola, aos costumes, à família e à sociedade.

Portanto, a nossa finalidade não é a de fazer política como gostariam de dar a entender os nossos adversários. Nós queremos, antes de tudo, fazer obra de saneamento moral, e depois prover às necessidades de ordem econômica que respondam especialmente às legítimas aspirações das classes operárias. Os aproveitadores do pobre povo fizeram até agora magníficas promessas, que não cumpriram.

Prometeram pão e justiça e hoje faltam ao povo pão e justiça. Nós queremos, exatamente para o bem do povo, organizar ins­tituições benéficas, estender a ajuda mútua, favorecer a indústria, facilitar o comércio, fecundar as obras de caridade, mais oportu­nas para os nossos dias. Queremos, sobretudo, que a religião dos nossos pais seja respeitada, que seja respeitada a sua vontade, que seja respeitado o dia do Senhor, que sejam respeitados os nossos direitos, os sagrados direitos da igreja e do seu Supremo Chefe, os direitos de todos.

Queremos que o sacerdócio seja tido em devida consideração, que a juventude cresça informada, por sólidos princípios e mori­gerada, que o bem público seja administrado por homens íntegros tementes a Deus.

Queremos a verdadeira grandeza da nossa pátria, por isso queremos a liberdade do bem e não do mal, queremos que acabe a má impre­nsa, que semeia erros e vomita blasfêmias, que sejam removidos os escandalos públicos que o povo não seja mais enganado e traído.

Queremos abrir à criança aquele livro, que ensina a ser cristão e cidadão; queremos dizer ao operário que ele, também nesta terra, jamais será feliz, seguindo as máximas do socialismo, mas que go­zará pelo menos uma amostra antecipada da verdadeira felicidade, seguindo as máximas do Evangelho; queremos dizer aos governan­tes que o Senhor não protege os Estados, inutilmente se afadigam aqueles que têm a sorte nas mãos. Em uma palavra, queremos que a sociedade tome a ser, nas suas leis, nas suas instituições, nos seus costumes, na sua vida pública, aquilo que deve ser verdadeiramente, isto é, cristã.[2]

 

“Devemos nos organizar, devemos nos unir.”

 

A necessidade da ação católica é, portanto, urgente e evidente, mas para que seja verdadeiramente eficaz, convém que seja disci­p1inada e concorde.

Sim, devemos nos organizar, devemos nos unir, porque só na união está a força, só a união é o segredo da vitória.

Daqui a importância e a necessidade das associações católicas e dos comitês paroquiais.

Não repetirei aquilo que vos disse em outras ocasiões a este respeito, seja em particular que em público, tanto oralmente, como por escrito. Direi antes aquilo que quer o Papa, intérprete seguro da vontade divina (...).

Ele quer que todas as paróquias da itália tenham seu comitê católico, e este comitê, sem dúvida, deve estabelecer-se, em cada paróquia da diocese placentina, e não só deve estabelecer-se mas uma vez estabelecido, deve manter-se e manter-se operoso.

Desta vez minha palavra não é palavra de exortação, mas palavra de ordem: dirijo-a principalmente a vós, meus veneráveis cooperadores, na salvação das almas, porque principalmente a vós papa dirige em tom solene aquelas graves palavras: “Nas atuais condições da Igreja os sacerdotes devem assumir também este ofício e dirigir os grupos e as almas dos fiéis abertamente e de acordo com a autoridade e exemplo.”

Eu que conheço suficientemente a vossa filial devoção e per­feita docilidade ao Vigário de Jesus Cristo, em todas as coisas, não duvido que vos colocareis, se não haveis já colocado à obra, com vontade enérgica e resoluta.

Fora, ó meus queridos, às discussões, às desconfianças, aos temores.[3]

 

“Soou a hora de agir.”

 

Os filhos do trabalho constituem, em todos os países do mun­do, a massa da população. Portanto, informar os operários sobre o espírito essencialmente pacífico e salutar do cristianismo, é o mes­mo que salvar a sociedade civil.

Os operários, são eles os prediletos da Igreja, que, no Artífice de Nazaré, reconhece e venera o próprio Fundador (...).

Enquanto nos alegramos vivamente porque, em alguns lugares da vossa Diocese, e especialmente nesta nossa Placência, tais socie­dades foram já instituídas e pedimos ao Senhor que abençoe os ilustres eclesiásticos e leigos que as promoveram. Dirigimo-nos a vos todos, ó queridos e venerandos co-irmãos, e vos repetimos ser nosso vivíssimo desejo que, em cada Paróquia ou onde o número dos paroquianos for muito pequeno, ao menos nos pontos principais de cada vicariato, a associação dos operários seja formada, se organize e floresça em operosidade, número e concórdia (...).

O socialismo que, impaciente por atirar-se sobre a presa, se agita e brame e com seus rugidos, faz tremer o mundo, é voz do céu, a nos avisar que soou a hora de agir, que, inutilmente, vos iludis de poderdes salvar-vos e a vossos filhos e as vossas coisas. sem colocar um dique seguro à força da enchente. E qual será este dique, senão a união geral e compacta de todos os filhos do povo, educados na escola do Evangelho? (...).

Associação e ação católica: eis a característica dos verdadeiros filhos da Igreja, em nossos tempos; associação e ação, que têm por finalidade secundar em tudo os desejos do Vigário de Jesus Cristo, de restituir à Igreja e ao seu Chefe augusto a necessária liberda­de, à Itália a grandeza, a prosperidade e a paz, retornando cristãs as famílias, cristãs as prefeituras, cristãs as escolas, cristãs as leis, cristão o povo; sobretudo os operários cristãos (...).

Para atingir mais facilmente este fim, contribuem admiravel­mente os Comitês Paroquiais, que nós vos recomendamos, em ou­tras ocasiões, e sobre os quais novamente voltamos a insistir. Oh!, de quantos bens eles são fecundos! Seja vossa maior preocupação a de estabelecê-los nas paróquias, seja vosso propósito fazer parte deles. A bênção de Deus não pode faltar às instituições abencoadas por seu Vigário!

Unamo-nos, unamo-nos. O que não conseguiriam, se colocassem todos juntos, todos unidos, os italianos que conservaram a fé?

Oh! se em toda Itália surgissem os comitês paroquiais e em vez de apenas dois mil, que já existem fossem dez mil, quantas, çomo se calcula, são as paróquias todas, quem pode duvidar da grandeza dos resultados que se obteriam em favor da religião e da pátria?[4]

 

“Os católicos saiam do seu retiro.”

 

Os católicos saiam do seu retiro, cerrados em numerosas falan­ges, ergam voltadas para o sol, esplêndidas e respeitadas, as suas bandeiras, discutam, proponham, resolvam, combatam, trabalhem. E este sopro animador penetrou, graças a Deus, também entre nós.

Ainda não se apagou o eco das vozes que ressoaram aplau­dindo nos fraternos encontros de Alseno, de Bedônia, de Claraval. Vimos, em pouco tempo, graças à dedicação de zelosos párocos, murgirem vários comitês católicos. Já temos círculos de juventude, oratórios festivos, associações operárias, instituições de crédito.

Mas tudo isto, digamos logo e digamo-lo claro, é muito pouco diante da necessidade da hora presente.[5]

 

“É necessário que o sacerdote saia do templo.”

 

Devemos persuadir-nos que hoje não basta o que bastava tem­pos atrás. Tempos novos, novas realizações; a novas chagas, novos remédios; a novas artes de guerra, novos sistemas de defesa. Hoje, como vos disse outras vezes, é necessário que o sacerdote, especialmente o pároco, saia do templo, se quiser exercer uma ação salutar no templo. Porém, entendamo-nos: saia do templo, mas depois de ter haurido luz e conforto da piedade e da oração; saia do templo, mas tendo sempre o olhar voltado para o templo; saia do templo, mas como o sol que sai de sua tenda, resplandecente da luz de Peus e do fogo da caridade que ilumina, aquece, fecunda (...).

O ódio, a paixão, o zelo áspero, ou irrefletido da excitação, não devem brotar d’alma e do vosso coração sacerdotal contra os homens, mas a caridade que sofre, geme e se entristece, pela culpe cometida pelo homem e que o arrasta e arruína (...).

É com estes sentimentos, ó meus veneráveis irmãos, que deve­mos entrar no campo da ação católica. Devemos, entrar por ser, hoje, principal e essencialmente, tarefa nossa. Quem pensasse de outra forma, daria prova de grande leviandade e de pouca reflexão, para não dizer, de pouca fé.

Não nos iludamos. Se não fizermos, os outros farão, sem nós e contra nós. Também, se nos acusarem de fins secundários e de finalidade mundanas.

A acusação antes de a nós foi feita a Jesus Cristo, que em­bora ensinasse a dar a César o que é de César, foi chamado de sedutor da plebe. Convençamo-nos de que é impossível cumprir o próprio dever e estar em paz com todos.[6]

 

“Recomendo-vos, a juventude.”

 

Recomendo-vos de novo, a juventude. Agora que, com amável atenção e solícito cuidado, admitindo as crianças à primeira comu­nhão, tendes certamente cumprido o vosso dever, mas a missão do pároco não termina aqui, antes é aqui que começa a ser mais grave, porque é daqui que as paixões começam a despertar no co­ração dos jovens. É daqui que os erros, os preconceitos, os escân­dalos, as seduções do mundo começam colocar a sua virtude àdura prova. Oh, ai dele, se o pároco fosse tão descuidado e sem coração, que o deixasse entregue a si mesmo!

Na medida do possível, é necessário estar a seu lado, é ne­cessário iluminá-los, sustentá-los, encorajá-los, incentivá-los ao bem, conversando, conservando unido à Igreja e às práticas religiosas.

O meio mais fácil é o de instituir, junto ao comitê paroquial, a secção jovem. Entre nós, vários já fizeram a experiência e com feliz êxito. Exorto-vos todos a imitarem o exemplo.

Encontrareis por isso dificuldades, mas sereis recompensados com grandes consolações. Se não, para silenciar outros motivos, como alimentar, depois diante do mesmo comitê estas outras asso­ciacões católicas, também estas tão necessárias?

Para mantê-las florescentes e operosas, será muito útil que cada Vigário forâneo designe algum sacerdote idôneo, para que, algumas vezes no ano, faça reuniões familiares, percorrendo as vá­rias paróquias do Vicariato. Melhor ainda, se o mesmo Vigário fo­râneo quisesse assumir este compromisso.[7]

 

“Dependência dos pastores.”

 

Para que a nossa ação seja e possa dizer-se verdadeiramente católica, recordemo-nos de proceder, em tudo e sempre, com disci­plina. Os soldados não queiram andar na frente dos capitães. Especialmente em nosso campo, a disciplina é tudo. Sem disciplina, ou seja, sem a dependência total, rigorosa, constante dos fiéis aos seus pastores, o fácil ultrapassar do zelo individual gera desconten­tamento e discórdia, divide e enfraquece a boa vontade, desvia e desgosta os bons e polui com o veneno dissolvente do amor próprio, tanto as razões de quem manda, como de quem obedece.[8]

 

“Estreita dependência ao princípio hierárquico.”

 

Entendendo que nada se faça senão na mais estreita depen­dência ao princípio hierárquico, o laicato católico, se quiser ser instrumento de salvação nas mãos de Deus, deve ficar no seu de­vido lugar. Na Igreja, ele não é capitão, mas, soldado; não é mes­tre, mas discípulo; não é pastor, mas ovelha, e os seus olhos de­vem estar fixos no Bispo e ainda mais no Bispo dos Bispos, o Ro­mano Pontífice, em ninguém mais. Não conhecemos Paulino, ignoramos Melézio, não queremos nem os “se”, nem os “mais, nem exce­ções, nem reservas, nem subentendidos de nenhuma espécie.

Deus nunca abençoa as obras que não forem antes abençoadas por seus legítimos representantes. Um comitê paroquial que agisse contra ou sem a aprovação de um pároco, um Comitê diocesano que se permitisse tomar a mínima iniciativa, ou tentasse o mínimo ato de independência do próprio Bispo, deixaria, por isso mesmo, de ser católico e receberia imediatamente a nossa condenação.[9]

 

“217 Comitês paroquiais.”

 

Aconselhado pelo egrégio Conde Paganuzzi e persuadido de fazer a coisa mais agradável à vossa Santidade, venho trazer a vosso conhecimento em breve notícia, a IV Reunião Regional dos Católicos da Emília, realizada aqui sob minha presidência, nos dias 14 e 15 de junho do corrente ano.

Seja pela intervenção de quase todos os Bispos da região, seja pelo numeroso comparecimento do clero e do povo às reuniões, não podia ter sido mais solene.

Depois da minha carta pastoral de 16 de outubro de 1896 (da qual agora lhe envio a cópia) constituiram-se nesta minha Dio­cese, além das sessões jovens, as associações operárias etc., du­zentos e dezessete Comitês paroquiais, e todos estavam largamente representados naquela reunião.

Era também representada largamente a classe eclesiástica da cidade e da Diocese, verdadeiramente exemplar e digna de todos os encômios, nisto, como em todo o resto.

Tudo aconteceu com serenidade e máxima ordem. As delibe­rações tomadas sobre a Organização Católica, a Boa Imprensa, as eleições administrativas e políticas, a fundação e incremento das Caixas Rurais etc..., foram sumamente práticas e oportunas e o que é mais importante, informadas por aquele espírito de franca submissão aos Bispos, especialmente hoje, tão necessária e tão dese­jada por Vossa Santidade.[10]


 

 

2.  A QUESTÃO OPERÁRIA

 

O advento do socialismo ateu e anárquico faz tremer Igreja e Estado, mas é “voz de Deus”.

Ao socialismo ateu faça-se frente com ação social cristã, em vez de uma estéril condenação, que golpearia, também os “justos lados” do socialismo.

À propaganda marxista, que seduz as massas trabalhadoras, deve-se contrapor o conhecimento dos problemas sociais e das impli­cações morais e religiosas que deles derivam e atuar com iniciativas que correspondem às reais e legítimas exigências dos camposes,  dos operários, dos proletários. É uma obra de justiça e de e de reivindicação social, inspirada pela caridade, para ser realizada na concórdia por todas as classes. Salvar a classe operária é salvar o povo.

 

“Causas que fizeram surgir o socialismo.”

 

Há tempos que a sociedade está nas mãos das forças anárquicas. Abalada toda autoridade, afrouxados os vínculos sociais e fa­miliares negados, esvaídos ou desligados os princípios religiosos, que santificam o sofrimento humano, a vida social está se tornan­do cada dia mais selvagem, na qual cada um se movimenta por própria conta, por seu interesse e o bem de um torna-se o mal do outro, explicando deste modo e atuando o cruel programa con­tido na sentença do filósofo escocês: O homem é o lobo dos homens.

Daí a febre dos lucros imediatos, a exaustiva conquista do poder, a inveja do bem alheio, que se torna incentivo, para suplan­tar para enganar, para burlar, para quebrar o freio e suprimir todo o obstáculo, que se interpõe aos desejos e aos prazeres mdi­viduais, meta única da sociedade atéia e materialista.

A estes enormes males juntou-se, e a cada ano se agrava, o aguilhão da diferença econômica, pungente para todos, insupor­para o povo, ao qual a perda dos confortos da fé e da es­perança cristã, a conquista de novos direitos e a consciência da própria força, fazem sentir mais vivamente a indigência em que vive e o torna crente e ardente neófito de toda novidade.

A tanto mal-estar econômico e baixeza moral, acrescentai o poder do forte capital, tão forte e desmedido, na atual organiza ção social e industrial, que atrai, sem riscos e sem esforços, gran­de parte dos empregados, qual árvore gigantesca que rouba, com seus inúmeros tentáculos e com suas densas ramificações, o ali­mento, o ar e a luz das plantas menores que definham a seus pés, e encontrareis as causas que fizeram surgir e reforçaram o socialismo.

Recrutando os seus prosélitos nas oficinas, nos campos, nas universidades, entre a nobreza e o povo, especialmente entre o povo, em poucos anos ele formou um exército imponente. Todos os humildes, os oprimidos, os deserdados sentem-se atraídos pela esperança de melhorarem, como todas as almas rebeldes e todos os impacientes que querem, a todo custo, mudar a ordem atual das coisas. A eles vão se ajuntando depois (e talvez são mais temíveis, e certamente os mais apreciados) como aliados, ou como filiados, os que sentem mais viva compaixão, para com os infelizes, mais forte e mais repelente a náusea pela corrupção, que penetra os organismos políticos e chegam ao ápice: e mal podem tolerar, sem protestos, as injustiças sociais, a ociosidade bem alimentada de pou­cos, a miséria dos trabalhadores e reunidos, em um único indivíduo, a riqueza, o poder e a indignidade.[11]

 

“Experiência pessoal.”

 

O que vos direi é fruto da experiência pessoal. Antes que dos livros, aprendi, vendo tantas chagas sociais e tantas misérias, so­bre as quais, por dever sacrossanto, derramei o bálsamo da fé e os socorros da caridade. Desde os primeiros anos de sacerdócio, nos meses livres dos cuidados escolares, exerci o sagrado ministério, em várias aldeias da minha diocese natal e tive a possibilidade de observar de perto, a vida dos campos, nas suas várias formas e nos seus diversos graus de bem-estar, os pactos coloniais e seus efeitos econômicos e morais.

Passeava por aqueles campos produtivos (propriedade de um rico senhor, conhecido no fausto da beneficência citadina), fecun­dados por uma população laboriosa, que contava com um tanto por cento de preguiçosos e entrava naqueles barracos úmidos, com um verdadeiro aperto no coração.

Também fui pároco, por vários anos, em um subúrbio da mi­nha Como.

Contava entre os meus paroquianos, alguns milhares de ope­rários da seda, tecelães, fiandeiras, tintureiros. Naqueles anos pude também ver de perto a mísera condição dos operários, mísera em mesma e pelas contingências às quais estão sujeitos. Como re­percutia neles, cada crise política ou econômica, também distante, ae parava, ou diminuía o movimento industrial! Como sentiam, cada pequeno acontecimento da vida! Uma doença, por exem­plo, uma desgraça acidental que diminuisse a sua atividade diária! estas pequenas paradas que tiravam, cada uma, um pedaço de pão à pobre mesa, sobrevinham, de tanto em tanto, as grandes cri­ses industriais, que suspendiam todo o trabalho. Nestes casos era miséria, a fome, no sentido estrito da palavra, apenas mascarada por algum tempo, pelo crédito do comerciante, ou por uma anteci­pação do salário, pelo industrial. Então era uma corrida ofegante dos homens, em busca de trabalho, das mulheres, para pedir ajuda.

Oh, que dias tristes, quando visitando os enfermos, eu não ouvia, subindo por aquelas pobres escadas, o som seco, e quase ritmico do tear! Triste sobre todos os pontos, porque com a miséria entrava, freqüentemente a desordem e a desonra das famílias.

E vendo todas aquelas misérias, ouvindo os seus lamentos e conhecendo aqueles infatigáveis industriais, injustamente acusados explorar os pobres e aquele rico proprietário bom e benemérito, que tinha os campos contaminados pela pelagra, parecia-me que o mal não estivesse, tanto na vontade de cada homem, quanto no modo como o trabalho era organizado, e pensava que teria sido a bem, para todos, poder encontrar condições mais justas.[12]

 

“Os postulados do socialismo.”

 

Se o trabalho valoriza o capital, por que não deverá ter maior participação dos trabalhadores, ao menos até o ponto de lhes ga­rantir alimento suficiente, sadio e seguro?

Se o trabalho é uma lei física e um dever moral, por que não deveria tornar-se um direito legal?

Se a instrução é um dever, por que não se deixa o tempo ao operário, para se instruir, limitando a idade e as horas de trabalho?

Se a higiene é um dever social, por que se permite, sem a devida cautela, trabalhos que envenenam e encurtam a vida?

Por que não se assegura, contra as eventuais desgraças, a vicia do trabalhador e não se providencia de maneira decorosa, sua ve­lhice impotente?

Assim eu pensava e assim teríeis pensado muitos de vós, à vista e ao contato com as misérias sociais.

Pois bem, aquelas perguntas, em parte cuidadosamente já tra­duzidas em leis, através de recente trabalho parlamentar, contêm exatamente alguns postulados do socialismo.

Portanto, existe nestes postulados uma parte de verdadeiro, de justo, que todos os bons devem aceitar e utilizá-los, quanto lhes é dado atuar, não porque o bom e o justo não mudam de natu­reza por serem propostos também pelos maus e associados ao mal, mas também tirar ao mesmo mal e ao falso, sua maior força de expansão, a qual consiste, em ser bebido juntamente com a ver­dade e no asumir só por isto, o aspecto de justiça.

Portanto, não nos deixemos impor pelos nomes e pelas apa­rências das coisas.

Examinemos, com seriedade, os postulados do socialismo, opo­nhamo-nos à sua ação, com a certeza de que temos de estar com a verdade a ação social católica e seja ela remédio reconstituinte da sociedade.[13]

 

“A questão econômica se transforma em moral, política e religiosa.”

 

O socialismo moderno, considerado em si mesmo, é uma ques­tão econômica, porém como acontece com todas as questões que devem ser aplicadas ao indivíduo ou à coletividade, se entrelaça com outras e muda a natureza e a forma, pois que o homem é uma unidade e tudo o que se refere a sua inseparável unidade, se entrelaça, funde-se, complica-se de modo a refletir os multiformes aspectos, sob os quais pode-se apresentar o mesmo homem.

Isto acontece com a questão social. Econômica na sua essência, transforma-se em moral, política e religiosa, nas suas imediatas conseqüências.

De fato, a fórmula comum do socialismo, do comunismo e do coletivismo, as três seitas principais, nas quais se dividem Os socialistas, é tudo aquilo que produz a riqueza (isto é capital, ter­ras, instrumentos de trabalho) é propriedade do Estado, que dis­tribui os frutos, segundo alguns, com perfeita igualdade, segundo outros, conforme a necessidade de cada um.

Ora, esta fórmula social, para poder ser atuada, deve ferir a humanidade, nos seus constitutivos mais íntimos e substanciais e nos seus afetos mais caros, que são precisamente a religião, a famíli­a e a liberdade individual.

De fato, o socialismo moderno, embora essencialmente econômico pela estrita conexão que existe entre todas as questões teórico-práticas, referentes ao homem, não pode prescindir da religião.

É bem verdade que os socialistas, seja por indiferença real, seja por tática, não falam de religião, nunca ou quase nunca, e poucas vezes, invocam o exemplo de Jesus Cristo e dos primeiros cristãos como precursor de sua doutrina o primeiro e como praticantes ­os segundos. Mas tudo isto não nos deve enganar, a respeito de seus sentimentos, para com a religião. Sua proveniência revolucionária ­seu fundamento científico, de fato, materialista o faz in­trinsecamente irreligioso. “Nem Deus nem Mestre”, escreveu Blanqui no cabeçalho do seu jornal e estes dois conceitos informam por si mesmos todo o socialismo.[14]

 

“Buscar as causas e encontrar os remédios oportunos.”

 

O presente estado da questão social e o progressivo difundir-se das idéias puramente socialista, ou afins, na nossa cidade, nos povoados nos campos, deve tornar mais ativa e mais adequada à necessidade de vossa obra, também no campo social.

Ora, tal trabalho para ser verdadeiramente eficaz e não exacerbar ­o mal que se quer curar, requer antes de tudo, prudência, serenidade de espírito, imparcialidade no julgamento, igualdade de e consciência de conhecimento do que se deve combater, como o que é justo conceder.

Portanto, atualizai os vossos estudos, irmãos caríssimos, e colocai-vos à altura de rebater (falando a mesma linguagem deles) os sofismas, com os quais os livros, jornais e conferencistas de propaganda ­socialista estão imbuindo as mentes dos operários e dos camponeses.

Eu quis dar-vos o exemplo com estas admoestações que devem ser para vós um incitamento e uma indicação.

E assim, como aquilo que os socialistas dizem não é de todo o mal, e eu vo-lo demonstrei, e a eficácia de sua propaganda está exatamente na constatação de um fato doloroso, isto é, na crescente miséria da maioria, em meio a uma verdadeira exuberância de pro­dução agrícola e industrial, que faria supor um aumento das rique­zas, assim vós deveis colocar toda a vossa obra em levantar as causas desse fato e na busca de oportunos remédios, aceitando e aconselhando mais práticos, sem se deixar levar, ou sustentar pela mente dos outros.

Efetivamente, demonstrareis que aquele tanto de verdadeira mente bom que existe no socialismo é conforme às máximas do evangelho e é susceptível de atuação, sem a destruição da socie­dade, ou, é verdadeiramente inútil, ou desproporcional ao fim que se propõe.

 

“Formas modernas de fazer o bem ao próximo.”

 

Dedicai todos os vossos cuidados às associações de várias for­mas e objetivos que florescem entre nós, pois o espírito de associa­ção aumenta e estreita os vínculos de fraternidade humana, supre à fraqueza dos indivíduos e repara os golpes imprevistos da des­ventura: o irmão ajudado pelo irmão é como uma cidade fortifi­cada. Longe de contrariar este novo espírito de associação, que se expande e penetra por tudo, continuai a secundá-lo e fazei o pos­sível para orientá-lo por caminhos retos quando a inexperiência, ou os maus conselhos, tentam desviá-lo.

Abençoai, outrossim, todas as obras de previdência e de ajuda mútua e fazei-vos defensor delas. A ajuda mútua e a previdência são duas formas modernas de fazer o bem ao próximo que reu­nem, ao mesmo tempo, os benefícios da caridade e os da educa­ção, enquanto tornando-os participantes do ato benéfico e benefi­cente, prepara-os a pensarem no futuro, a serem providentes e previdentes.

Uma das chagas do campo é a usura, exercida sob forma de antecipação de gêneros alimentícios, de sementes, de dinheiro para a compra do gado, e assim por diante.

O fornecedor é pago, ou com um juro fixo muito alto, ou na forma mais proveitosa para ele, com uma determinada quantia de produtos.

Assim, o bom e o melhor dos proveitos dos pobres colonos vai para enriquecer tais fornecedores, e que pela necessidade, ou por uma desgraça, é constrangido a recorrer a eles, vê em poucas horas evaporarem os seus magros rendimentos e dificilmente estará em condições de se refazer e de equilibrar o seu pobre balanço.

Contra um tal estado de coisas, são eficazes remédios as so­ciedades cooperativas de produção, de consumo e de mútuo segu­ro, já experimentadas, com bons resultados, na Itália e fora dela e sobretudo os Bancos católicos e as Caixas rurais, que fornecem s pequenos agricultores o capitalzinho necessário, por juros razoáveis.

Aconselhai tais instituições e favorecei-as o mais possível onde existem e encorajai as pessoas de bem e inteligentes, pois, como observou justamente D. Ketteler, o ilustre Bispo da Magonza (que estudou por primeiro, a questão operária do ponto de vista católico) ­em outros tempos, os senhores dotavam a igreja de conventos e instituições públicas de caridade; hoje fariam coisa mais agradá­vel a Deus, colocando-se à testa de associações operárias, de pro­dução, de cooperação e de consumo para melhorar as condições dos operários, pois, em substância, a obra de beneficência é obra de caridade.[15]

 

“Instituí nos seminários cátedras agrícolas.”

 

Alguns de vós já intervieram para resolver as divergências não raras entre patrões e camponeses e eu mesmo convosco, nas visi­tas pastorais, me ocupei para eliminar usos e ônus de outros tempos.

Continuai neste caminho, com prudente firmeza e não permitais, porquanto depender de vós, que abusos e imoralidades venham tornar mais pesada e dolorosa a vida dos trabalhadores e dos pobres.

Podeis conseguir outros benefícios, para os colonos, estudando para eles as novas descobertas e sistemas agrícolas, que quase sem gastos e sem maiores esforços, aumentam de muito, a produção dos campos (...).[16]

Nestes vinte anos, vi muitas propriedades paroquiais anteriormente quase improdutivas, transformadas em vinhedos e campos férteis por louvável iniciativa dos párocos e a seu exemplo, ter­ritórios inteiros vivificados e fecundados, por um trabalho mais intenso e racional. Instituí, com esta finalidade, entre outras, gosta­ria que o que foi obra de poucos, fosse obra de muitos, no futuro nos seminários diocesanos, cátedras agrícolas, para que possam oferecer ao clero jovem, os conhecimentos que os coloquem em posição de proporcionar às populações que lhes serão confiadas um dia, junto ao pão da alma, o do corpo. Entretanto, não será difícil, para quem o desejar, aprender nos livros as poucas noções necessárias, para dar aos camponeses, freqüentemente apegados aos ve­hos costumes, as oportunas sugestões e as indicações práticas, fáceis de serem compreendidas e aplicadas, e que são o resultado de longos estudos e de experiências difíceis. Utilíssimas para esse fim são também as Conferências agrárias e eu as recomendo vivamente.[17]

 

“Fazei obra de reivindicação social.”

 

Acenei-vos, sumariamente, algumas necessidades econômicas dos nossos campos e os relativos remédios, tido como bons em vários lugares; mas o mal é multiforme e os remédios devem ser adaptados e modificados, conforme os tempos, os lugares, as pes­soas e aplicados, sempre com grande prudência, nunca com fins partidários. Não deveis esquecer que sois pais espirituais de todas as almas confiadas aos vossos cuidados, e as vossas intervenções em negócios fora da igreja, e que julgais de utilidade pública, não deve reacender iras ou partidos, mas unir a todos, no santo pensa mento de fazer o bem, em favor dos miseráveis.

São também postulados do socialismo moderno os seguintes: limitação da jornada de trabalho, o salário mínimo dos trabalha­dores fixado por lei, o direito ao trabalho, o direito à greve e assim por diante. Ora, todos estes postulados, tomados em si mes­mos, abstratamente, são bons e não contradizem em nada, nem as leis divinas, nem as humanas. São da mesma natureza aqueles sobre os homens retos, sobre a pensão dos operários, sobre a reorganiza­ção do trabalho para as mulheres e as crianças, sobre a higiene nas fábricas, que já foram traduzidos em leis, também por nós e que não deixarão de dar ótimos frutos (...).

O meus amados cooperadores, vossa ação, porém, será mais útil e prática, se aplicada não aos quesitos de índole geral, mas aos particulares e locais, pois diariamente tendes debaixo dos olhos, dando vosso trabalho e o vosso conselho, para aliviar a miséria, cooperando para acabar com abusos e injustiças, ensinando aos ignorantes muitas coisas úteis e belas, sem jamais vos cansar (...).

O mal que aflige a sociedade não é, como dizem os socialis­tas, puramente econômico, mas sobretudo moral e não consiste uni­camente na organização social, mas também e mais, nos indivíduos.

Portanto vós, ó meus queridos párocos, advertindo os indiví­duos à observância da caridade evangélica e dos preceitos da re­ligião, fazeis obra de reivindicação social, pois a salvação da so­ciedade está antes na regeneração religiosa e moral dos indivíduos, e o resto virá por si.[18]

 

“Encíclica admirável.”

 

Ministro de paz entre os povos e Vigário de um Deus de amor, que se fez Pai dos miseráveis e dos abandonados, o Papa tem por estes, sem distinção de raças, costumes, de religião, os cuidados mais afetuosos, a solicitude mais delicada, porque eles têm alor necessidade de socorro e proteção.

Infelizmente, estes pertencem atualmente, às classes operárias. Precioso instrumento nas mãos de outros, poderoso fator da riqueza para os outros, às vezes, em nossos dias, falta aos operários o necessário para viver e, enquanto o desenvolvimento comercial e industrial de um povo, o bem-estar econômico de uma nação, é, ao menos na metade, fruto do seu trabalho, ele não é convidado a participar deste bem-estar. Daqui resulta vivo antagonismo entre proprietários e os operários, o descontentamento ameaçador das classes trabalhadoras, estimulado nos círculos internacionais, pe­las paixões políticas, que se traduzem, hoje, em parciais rebeliões e em greves, mas que poderia de um momento a outro, estourar em vasto incêndio (...).

O Papa define claramente quais são as diversas responsabili­dades nesta questão; denuncia a propósito, as doutrinas catastrófi­cas, e indica os meios a serem aplicados. Não me atrevo tentar teassumir este estupendo, entre os estupendos documentos da sabedor~ia e da caridade do atual Pontífice; Leão XIII não se limita a pregar caridade aos ricos e a resignação aos operários. Na sua admirável Encíclica, existe algo mais. Com seu penetrante olhar, disseram outros, ele aprofundou a questão operária e percebeu que se nesta classe ferve o ímpeto da revolta, não é toda sua a culpa. A injustiça nas legislações, a avidez dos lucros fizeram do operário um escravo do trabalho, que luta com o presente, desconfiado do futuro, desgastando as forças e a vida para conseguir um pão in­suficiente, para matar-lhe a fome.[19]

 

“É uma obra de justiça que convém iniciar.”

 

A criança, curvada desde os primeiros anos, pela fadiga, cres­ce triste e alquebrada; a mulher ocupada desde as primeiras horas da manhã, até altas horas da noite, não tem mais tempo para cuidar da pobre filhinha que por isso cresce sem afeto e sem moralidade. Portanto, é uma obra de justiça, que convém iniciar, se quiser restituir a confiança e com a confiança, a tranqüilidade à classe operária. Se os operários têm deveres, têm também direitos e estes direitos convém que a sociedade os tutele para eles, se não quiser ter que tutelar-se deles, por causa da violência (...).

Obrigatória é a missão dos católicos de estudarem as questões sociais e de se interessarem vivamente, por elas. O mesmo Santo Padre não debilitado nem pela idade, nem pelas lutas diárias, dá-nos o exemplo.

E um novo campo que ele aponta ao zelo é a atividade de seus filhos. Trata-se de fazer o contrário daquilo que a revolução faz. Esta procura arrancar da Igreja as multidões e principalmente os operários. Agora, é necessário robustecer as mentes e os corações, com as grandes verdades do Evangelho.

Unicamente aqui, queira-se ou não, este é o remédio ao mal presente, e o preventivo àqueles piores que nos ameaçam. Avante, pois com as máquinas, com as indústrias, com as descobertas, com as conquistas da ciência.

Que o homem progrida, também a preço de duras fadigas; que procure melhorar em todos os campos e sob todas as formas, a condição da própria existência. Alegro-me de coração, porque tudo isto, enfim, não leva senão à glorificação da obra de Deus.[20]

 

“Missão de paz e de regeneração social.”

 

O que nós, homens da Igreja, pedimos, é que o Evangelho seja chamado a dirigir estas transformações econômicas e indus­triais; e que a prática sincera de sua lei purifique e nobilite os progressos materiais, de modo que não fomentem nas várias clas­ses, os instintos brutais e não se tomem assim motivos de discór­dias e de lutas fratricidas.

E cabe precisamente a nós, homens de Igreja, esta missão de paz e de regeneração social, a nós mais que aos outros, que rece­bemos de Deus os meios e o mandato. Eu gostaria que isso fosse entendido por todos os membros de meu clero. Em nossos dias é quase impossível reconduzir a classe operária à Igreja, se­não conservarmos com ela, relação contínua fora da Igreja. O vene­ráveis Irmãos, devemos sair do templo, se quisermos exercer uma ação salutar no templo. E devemos, outrossim, ser homens de nos­so tempo. Certas formas novas de propaganda, ou melhor renova­das, usadas com êxito pelos adversários, não devem nos assustar. Devemos viver a vida do povo, aproximando-nos dele através da imprensa, das associações, dos comitês, da sociedade de ajuda mú­tua, das conferências públicas, dos congressos, dos círculos operá­rios, dos patronatos para crianças, com toda a obra de beneficência particular e pública.

Combatamos com vivo ardor, os preconceitos, mas, com o mes­mo calor, sustentemos os interesses e secundemos as legítimas aspirações, porém cuidando bem de não alimentar ilusões, e muito mais de excitá-las ao desprezo das classes abastadas, ou dirigentes. Antes, procuremos aproximar o mais possível estas classes e torná­-las amigas. A exemplo dos católicos de outras nações, tornemo-nos senhores do movimento atual, colocando-nos à frente, agindo e não os colocando à parte, criticando.

Meus queridos, o mundo caminha e nós não devemos ficar para trás, por qualquer dificuldade de formalismo ou ditame de mal-entendida prudência. Recordemo-nos se isto não se fará conosco. Far-se-á sem nós e contra nós.[21]

 

“A concórdia de todas as classes.”

 

Meus caríssimos placentinos.

É com a mais viva dor que vos dirijo a palavra desta vez.

O afeto sincero e profundo que me une a vós e que, em vinte e três anos de vida episcopal, nos acontecimentos ora alegres e ora tristes, nunca diminuiu, dá-me o direito de vos falar, como pai, aos próprios filhos.

Chorei e rezei por todos vós, nestes dias e oxalá me fosse possível aproximar-me de cada um, de socorrer-vos em vossas ne­cessidades, confortar-vos, com a palavra de esperança e de fé e restituir aos vossos espíritos, a calma que o sofrimento e as excitações do momento vos fizeram perder.

O mal-estar econômico, o encarecimento dos alimentos, a falta de trabalho vos roubaram a habitual serenidade de vida, que sempre fora o orgulho da nossa cidade, e daqueles males tendes al­suma desculpa.

Mas, agora que as vossas solicitações foram atendidas, que as Autoridades municipais e políticas fizeram todo o possível para vir ao encontro das necessidades mais urgentes, e prometer-vos maior facilidade, para o futuro, agora, ulterior resistência aumentaria os males, já tão graves e as vítimas, já demais numerosas.

Meus queridos filhos! Pensai nas dolorosas conseqüências de uma luta na cidade. Pensai nos mortos e nos feridos; nas famílias que perdem os seus caros e voltai, vos suplico, em nome de Deus, à calma.

A concórdia entre todas as classes é o meio mais seguro, para remediar esta condição de coisas que todos, unanimemente, deploramos.

Na amargura da hora presente, conforta-me o pensamento de que a palavra de vosso Pastor, que nunca vos foi desagradável encontre também desta vez, o caminho dos vossos corações e os recomponha na paz.[22]

 

“A obra dos ceifadores de arroz.”

 

Na memoranda reunião das Associações Católicas, realizada no Episcopado no dia 4 de julho p.p. eu, como perene lembrança, propus, com o consentimento do meu venerado e zeloso co-irmão de Bobbio, a constituição de um comitê, que tivesse por fim a assistência aos jovens e às jovens que durante alguns meses, no ano, levados na maioria das vezes, pela miséria, migram da nossa diocese, em grupos e vão às planícies piemontesas e lombardas,         g para a colheita e descascamento de arroz.

A proposta foi acolhida com aplausos gerais. Pessoas merecedo­ras de todos os elogios e de toda a confiança, seja da diocese Placentina, seja das limítrofes de Bobbi, Lodi, Pavia responderam prontas e de boa vontade ao apelo.

Trata-se de uma obra de caridade insigne e de máxima importância. De fato são muito graves os perigos e os males, os quais estes pobrezinhos vão ao encontro; perigos e males morais e físicos, fáceis de se imaginar.

Urge pensar no remédio, urge prover para que os míseros, e o não caiam vítimas dos cobiçosos especuladores, para que sejam imunizados contra as armadilhas colocadas à sua fé, para que te­nham tempo a maneira de santificar o domingo, para que a sua moralidade seja tutelada, para que suas fadigas sejam melhor re­compensadas, enfim, para que longe da família, encontrem defesa, proteção e conforto.

Para conseguir tão nobre objetivo é necessário antes de tudo conhecer quantos sao, em cada paróquia, os jovens e as jovens que se encontram nestas condições.

Portanto, pedimos a gentileza de completar, com a maior diligência possível, a folha anexa e devolver-me assinada.[23]

                                


 

3.  A QUESTÃO ROMANA

 

A conciliação entre “trabalho e capital, liberdade e autori­dade, igualdade e ordem”, devem ser adotadas também entre a Igreja e o Estado.

O homem tem o direito e o dever de amar a religião e a pá­tria. O conflito entre estes dois sentimentos provoca gravíssimos danos à religião e inquietantes problemas de consciência. A “funesta discórdia” deve acabar o mais depressa possível, “sobretudo, para o bem das almas.”

A usurpação dos legítimos direitos deve ser condenada; o usurpad­or deve reparar, a liberdade do Papa deve ser restituída, integralmente. Mas, em um regime parlamentar, não se pode esperar do Estado reparação e cura se no Parlamento não entram homens ho­nestos e corretos, que levem a sério o verdadeiro interesse do povo e o representem, na sua identidade de povo tradicional e culturalmen­te católico. Sonhar com uma restauração milagrosa é anti-histó­rico, pedi-la a estranhos seria fatal.

Só a participação dos católicos na vida política da nação pode preparar a conciliação entre a Santa Sé e a Itália e remover os obstáculos políticos à liberdade da evangelização. A recristianização ­é o único móvel da atitude de Dom Scalabrini nos confrontos com as questões políticas e sociais da época.

 

 

a) AS RAZÕES PROFUNDAS DO CONCILIATORISMO

 

“A razão reconciliada com a fé, a natureza com a graça.”

 

Deus quer (...). Quer que a razão reconciliada com a fé, a natureza com a graça, a terra com o céu, a obra das criaturas com os direitos do Criador. Quer que o trabalho e capital, liberdade e autoridade, igualdade e ordem, fraternidade e paternidade, conservaçã­o e progresso, se unam e se ajudem também eles, como contrapostos harmoniosos. Quer que todos os elementos da civilização, ciência, letras, artes e indústrias, todo o legítimo interesse, toda le­gítima aspiração tenham na religião, na Igreja, no Papado, impulso normas, socorro, elevação, consagração divina.[24]

 

“Religião e pátria.”

 

A pátria terrena e a pátria celeste. Oh, sim amemos a primeira Ela é um dom de Deus. Amá-la, procurar a sua prosperidade e gran­deza entra no sublime preceito da caridade, ordenado pelo evangelho, mas para amá-la verdadeiramente, associemos ao seu amor, o amor pela religião que nos guia à pátria eterna.

Religião e pátria! Estes dois supremos amores de nossos avós, estas duas aspirações de todo coração amável, devem, como filhas do mesmo Pai, dar-se o beijo da paz, devem amar-se e ajudar-se reciprocamente. O que Deus uniu, o homem não separe.[25]

 

“A Itália sinceramente reconciliada com a Sé Apostólica.”

 

Religião e Pátria: estas duas supremas aspirações de toda alma gentil se entrelaçam e se completam, nesta obra de amor e de redenção, que é a proteção do fraco e se fundem num acordo admi­rável. As miseráveis barreiras levantadas pelo ódio e pela ira de­saparecem, todos os braços se estreitam, por caloroso afeto, os lá­bios, se abrem em atitude de sorriso e de beijo, e, tolhida toda a distinção de classe ou de partido, aparece nela, embelezada pelo esplendor cristão, a sentença: homem, irmão dos homens (...).

Possa a Itália, sinceramente reconciliada com a Sé Apostólica esti­mular suas antigas glórias e acrescentar-lhe outra imperecível, unin­do seus luminosos caminhos da civilização e do progresso, também para seus filhos distantes.[26]

 

“Santíssimos amores: o amor da religião e o amor da pátria.”

 

Depois da má administração, que fizeram de nossa mísera pátria, os que usurparam o privilégio de se chamarem amantes, seria mesmo necessário uma boa dose de desfaçatez, para chamar inimigos do país a nós, que nos opusemos a todos os vexames à prepotência, às iniqüidades, às explorações, aos crimes que a le­varam ao estado da presente indigência. Estas são acusações ri­dículas. Nós merecemos muito mais, o nome dos bons italianos, quanto menos nos misturamos às proezas de quem traiu e arruinou a Itália.

Santíssimos amores: o amor da religião e o amor da pátria.

São dois grandes e nobres ideais. Ligados ao nosso primeiro choro, morrerão, como o nosso último suspiro, mas os impulsos ge­nerosos de um não devem sufocar as sublimes aspirações do outro.

A justiça não pode ser suprimida pelo patriotismo. Os destinos ­de uma pátria, que se deve conservar, não podem prevalecer sobre os destinos imortais que nos esperam, nem estes podem ser conseguidos, sem os meios necessários que a sociedade deve ofere­cer-nos, pela observância das leis que Deus deu aos homens, para seu bem presente e futuro.[27]

 

“A fé se extingue sempre mais.”

 

Nenhuma coerência de princípios, nenhum conhecimento dos tempos, nenhuma direção uniforme e segura. Uma confusão, um bizantismo que não se pode descrever (...).  Enquanto isso, a fé se extingue sempre mais, a caridade sempre mais se esfria e sempre mais cresce o ódio do laicato contra o Clero. As conseqüências só podem ser fatais e quem sabe por quanto tempo devemos rê-las.[28]

 

“Uma febre que causa tormentos.”

 

A mim permanece outra febre: é a que provêm da vista de tantos que, se vão distanciando da Igreja, por obra de quem deveria procurar aproximá-los. Vós sabeis quanto esta febre causa tor­mentos (...). Verdadeiramente é curioso! Os católicos devem ficar fora do Parlamento e depois se promovem e se recomendam petiçõe­s a serem enviadas ao Parlamento! Será isto coerência? eu não compreendo.[29]

 

“Tranqüilizar a consciência.”

 

Compreendo muito bem, Santo Padre, toda a dificuldade da coisa, todavia peço a Deus que conceda à Vossa Santidade as luzes e forças necessárias, para aproveitar o momento e não permi­tir que deixeis escapar a ocasião que agora se vos oferece, natura­líssima, de fazer aquilo que, cedo ou tarde, deverá ser feito, e de tranqüilizar a consciência de tantos pobres operários, camponeses, empregados; a consciência de todos aqueles, que motivados pelas condições em que se encontrarão obrigados a transgredir a proibição da S. Sé, proibição que eu não sei como pode ser de novo publicada, no atual estado de coisas, sem tirar aquela boa fé que os toma mais desculpáveis, diante de Deus e sem encontrar aborrecimentos de todo tipo, da parte do poder civil. Calo-me, por­que humanamente falando, esta é a única via que permanece para reivindicar, com alguma esperança de conseguir, os sacrossantos direitos da Igreja e da S. Sé Apostólica. 7

 

“Desejamos que cesse o funesto desentendimento,sobretudo para o bem das almas.”

 

Padre Beatíssimo, não somente falastes de paz, mas ainda in­dicastes à Itália os meios seguros para consegui-la. De fato, vós declarastes que a Igreja Católica, sociedade perfeita e jurídica, que possui em si mesma a virtude de tornar felizes os povos e as na­ções, de todos os tempos, não deve sujeitar-se a nenhum poder ter­reno, mas gozar da mais absoluta liberdade, com a razão conclu­siva que igual independência e liberdade deve gozar seu supremo guia, o vigário de Jesus Cristo, o legítimo sucessor do Príncipe dos Apóstolos!

Tolhida esta independência e es