a) AS RAZÕES PROFUNDAS DO CONCILIATORISMO
b) AS RAZÕES HISTÓRICAS DA QUESTÃO ROMANA
c) DEVOTO SEM MEDIDA E SEM MEDIDA LIVRE
D. Scalabrini quis ser
homem do seu tempo, não um sonhador nostálgico de épocas passadas e
irreversíveis, mas no passo da história, atento aos sinais dos tempos, conhecedor
realista dos problemas e das exigências dos contemporâneos, voltado a preparar
um futuro mais humano e conforme ao
desígnio de Deus, na história.
Afrontou com coragem,
energia e solidez as principais “questões”
do tempo. A época do associacionismo teve nele um estusiasmado
sustentador das associações católicas, apesar de discordar da ideologia
política de quem queria monopolizar a Ação Católica.
A sociedade ia se
descristianizando rapidamente; urgia “reconduzir Cristo à sociedade”. Eram condições indispensáveis: união e
densidade de forças, atividade corajosa, dependência dos Pastores enquanto a
ação católica é apostolado, não política.
O maior obstáculo à
unidade era a questão Romana que impedia com a proibição à participação dos
católicos às eleições políticas um influxo incisivo sobre os centros de poder e
de legislaçao os anti-clericais tinham mão livre, na tentativa de demolir o
sentido cristão do povo. A preocupação pastoral ditou ao bispo de Placência,
não uma atitude de protesto, mas a busca da conciliação entre dois sentimentos
igualmente legítimos: religião e pátria. A Igreja deve ser livre, tanto interna
como externamente, para exercer o seu
poder que é todo espiritual, e os seus direitos que são a evangelização e a
caridade.
A conciliação é um
ideal que abraça todos os aspectos da vida de Scalabrini. Ele concilia o
realismo da história, vivida com o amor intrépido à verdade, a liberdade e a franqueza do diálogo, com a obediência
o amor por tudo o que de belo e bom Deus colocou à disposição, na criação, com
a amizade dos homens.
Iluminismo,
racionalismo, materialismo e anticlericalismo afasram Cristo da sociedade; é
necessário promover um movimento de retorno, especialmente entre o povo. Só na
união está a força e só na organização, a união é eficiente.
O
associacionismo está para se tornar exclusivo dos inimigos da Igreja: em vez de
chorar, é necessário mexer-se, sair a campo e agir, sob a guia do Papa e dos
Bispos.
“Jesus Cristo foi afastado da sociedade.”
Os modernos incrédulos,
já persuadidos de não poderem derrubar, como desejariam, o trono de Jesus
Cristo, pensaram em confinar este Rei das almas, este invisível Soberano do
universo, entre as paredes do templo, afastando-o de todas as dependências da
vida, particular como pública. Eles usaram todas as artes, recoreram todos os
meios, para conseguir o diabólico intento e infelizmente, em grande parte, por
culpa da indolência dos bons, conseguiram.
Jesus Cristo foi pouco a
pouco afastado da escola, dos costumes, das famílias, da sociedade. Mas (...)
quando Jesus Cristo se afastou, nos demos conta de que fora afastada a alma que
vivificava tudo, percebemos que ao edifício científico, doméstico e social,
veio a faltar o fundamento; percebemos que estávamos à beira de um abismo!
Tinham dito: cada escola
que se abre é um cárcere que se fecha e depois, os inimigos da Igreja não
encontraram conventos e castelos suficientes para conter o número sempre
crescente de deliqüentes. Tinham dito: o catecismo nas escolas é uma ofensa à
liberdade de pensamento e, uma vez substituído pelo manual dos direitos do
homem e depois por um livro de deveres naturais, nos quais não se falava em
Deus, criaram os novos Espartanos, as bombas de dinamite com as quais a
sociedade deverá combater a última batalha. Tinham dito: a ciência leiga
purificará o ambiente e
injetará sangue novo nas veias da crescente geração e as estatísticas dos
suicídios, dos duelos, dos adultérios, os malogros fraudulentos, os assaltos a
bancos, a imoralidade pública, os delitos mais atrozes fizeram calar bem
depressa, nos lábios, os hinos festivos dissolvidos pela nova moral, sem Deus.
Na família, as ruínas do tálamo conjugal, a paz
perdida, os filhos rebeldes têm demonstrado com muita eloqüência que só o crucifixo
pode proteger o lar.[1]
“Reconduzir
Jesus Cristo na sociedade.”
À vista do abismo que está diante de nós, nos
faz voltar atrás horrorizados, e todos sentimos, instintivamente, a necessidade
de um movimento de retorno às santas tradições de nossos pais e de nossas
mães: o abalo do edifício, a poeira das ruínas provocam medo e sentimos todos a
necessidade de restabelecer o equilíbrio, recolocando-lhe a base que é Jesus
Cristo.
Ora, é exatamente esta a finalidade da ação
católica: promover com uma organização conveniente às exigências dos tempos,
um movimento de retorno, já penetrado na consciência de todos os honestos:
reconduzir Jesus Cristo à escola, aos costumes, à família e à sociedade.
Portanto, a nossa finalidade não é a de fazer
política como gostariam de dar a entender os nossos adversários. Nós queremos,
antes de tudo, fazer obra de saneamento moral, e depois prover às necessidades
de ordem econômica que respondam especialmente às legítimas aspirações das
classes operárias. Os aproveitadores do pobre povo fizeram até agora magníficas
promessas, que não cumpriram.
Prometeram pão e justiça e hoje faltam ao povo
pão e justiça. Nós queremos, exatamente para o bem do povo, organizar instituições
benéficas, estender a ajuda mútua, favorecer a indústria, facilitar o comércio,
fecundar as obras de caridade, mais oportunas para os nossos dias. Queremos,
sobretudo, que a religião dos nossos pais seja respeitada, que seja respeitada
a sua vontade, que seja respeitado o dia do Senhor, que sejam respeitados os
nossos direitos, os sagrados direitos da igreja e do seu Supremo Chefe, os
direitos de todos.
Queremos que o sacerdócio seja tido em devida
consideração, que a juventude cresça informada, por sólidos princípios e morigerada,
que o bem público seja administrado por homens íntegros tementes a Deus.
Queremos a verdadeira grandeza da nossa pátria,
por isso queremos a liberdade do bem e não do mal, queremos que acabe a má
imprensa, que semeia erros e vomita blasfêmias, que sejam removidos os
escandalos públicos que o povo não seja mais enganado e traído.
Queremos abrir à criança aquele livro, que
ensina a ser cristão e cidadão; queremos dizer ao operário que ele, também
nesta terra, jamais será feliz, seguindo as máximas do socialismo, mas que gozará
pelo menos uma amostra antecipada da verdadeira felicidade, seguindo as máximas
do Evangelho; queremos dizer aos governantes que o Senhor não protege os
Estados, inutilmente se afadigam aqueles que têm a sorte nas mãos. Em uma
palavra, queremos que a sociedade
tome a ser, nas suas leis, nas suas instituições, nos seus costumes, na sua
vida pública, aquilo que deve ser verdadeiramente, isto é, cristã.[2]
“Devemos
nos organizar, devemos nos unir.”
A necessidade da ação católica é, portanto,
urgente e evidente, mas para que seja verdadeiramente eficaz, convém que seja
discip1inada e concorde.
Sim, devemos nos organizar, devemos nos unir,
porque só na união está a força, só a união é o segredo da vitória.
Daqui a importância e a necessidade das
associações católicas e dos comitês
paroquiais.
Não repetirei aquilo que vos disse em outras
ocasiões a este respeito, seja em particular que em público, tanto oralmente,
como por escrito. Direi antes aquilo que quer o Papa, intérprete seguro da
vontade divina (...).
Ele quer que todas as paróquias da itália
tenham seu comitê católico, e este comitê, sem dúvida, deve estabelecer-se, em
cada paróquia da diocese placentina, e não só deve estabelecer-se mas uma vez
estabelecido, deve manter-se e manter-se operoso.
Desta vez minha palavra não é palavra de
exortação, mas palavra de ordem: dirijo-a principalmente a vós, meus veneráveis
cooperadores, na salvação das almas, porque principalmente a vós papa dirige em
tom solene aquelas graves palavras: “Nas atuais condições da Igreja os
sacerdotes devem assumir também este ofício e dirigir os grupos e as almas dos
fiéis abertamente e de acordo com a autoridade e exemplo.”
Eu que conheço suficientemente a vossa filial
devoção e perfeita docilidade ao Vigário de Jesus Cristo, em todas as coisas,
não duvido que vos colocareis, se não haveis já colocado à obra, com vontade
enérgica e resoluta.
Fora, ó meus queridos, às discussões, às
desconfianças, aos temores.[3]
“Soou a
hora de agir.”
Os filhos do trabalho constituem, em todos os
países do mundo, a massa da população. Portanto, informar os operários sobre o
espírito essencialmente pacífico e salutar do cristianismo, é o mesmo que
salvar a sociedade civil.
Os operários, são eles os prediletos da Igreja,
que, no Artífice de Nazaré, reconhece e venera o próprio Fundador (...).
Enquanto nos alegramos vivamente porque, em
alguns lugares da vossa Diocese, e especialmente nesta nossa Placência, tais
sociedades foram já instituídas e pedimos ao Senhor que abençoe os ilustres
eclesiásticos e leigos que as promoveram. Dirigimo-nos a vos todos, ó queridos
e venerandos co-irmãos, e vos repetimos ser nosso vivíssimo desejo que, em cada
Paróquia ou onde o número dos paroquianos for muito pequeno, ao menos nos
pontos principais de cada vicariato, a associação dos operários seja formada,
se organize e floresça em operosidade, número e concórdia (...).
O socialismo que, impaciente por atirar-se
sobre a presa, se agita e brame e com seus rugidos, faz tremer o mundo, é voz
do céu, a nos avisar que soou a hora de agir, que, inutilmente, vos iludis de
poderdes salvar-vos e a vossos filhos e as vossas coisas. sem colocar um dique
seguro à força da enchente. E qual será este dique, senão a união geral e compacta
de todos os filhos do povo, educados na escola do Evangelho? (...).
Associação e ação católica: eis a
característica dos verdadeiros filhos da Igreja, em nossos tempos; associação e
ação, que têm por finalidade secundar em tudo os desejos do Vigário de Jesus
Cristo, de restituir à Igreja e ao seu Chefe augusto a necessária liberdade, à
Itália a grandeza, a prosperidade e a paz, retornando cristãs as famílias,
cristãs as prefeituras, cristãs as escolas, cristãs as leis, cristão o povo;
sobretudo os operários cristãos (...).
Para atingir mais facilmente este fim,
contribuem admiravelmente os Comitês Paroquiais, que nós vos recomendamos, em
outras ocasiões, e sobre os quais novamente voltamos a insistir. Oh!, de
quantos bens eles são fecundos! Seja vossa maior preocupação a de
estabelecê-los nas paróquias, seja vosso propósito fazer parte deles. A bênção
de Deus não pode faltar às instituições abencoadas por seu Vigário!
Unamo-nos, unamo-nos. O que não conseguiriam,
se colocassem todos juntos, todos unidos, os italianos que conservaram a fé?
Oh! se em toda Itália surgissem os comitês
paroquiais e em vez de apenas dois mil, que já existem fossem dez mil, quantas,
çomo se calcula, são as paróquias todas, quem pode duvidar da grandeza dos resultados
que se obteriam em favor da religião e da pátria?[4]
“Os
católicos saiam do seu retiro.”
Os católicos saiam do seu retiro, cerrados em
numerosas falanges, ergam voltadas para o sol, esplêndidas e respeitadas, as
suas bandeiras, discutam, proponham, resolvam, combatam, trabalhem. E este
sopro animador penetrou, graças a Deus, também entre nós.
Ainda não se apagou o eco das vozes que
ressoaram aplaudindo nos fraternos encontros de Alseno, de Bedônia, de
Claraval. Vimos, em pouco tempo, graças à dedicação de zelosos párocos,
murgirem vários comitês católicos. Já temos círculos de juventude, oratórios
festivos, associações operárias, instituições de crédito.
Mas tudo isto, digamos logo e digamo-lo claro,
é muito pouco diante da necessidade da hora presente.[5]
“É
necessário que o sacerdote saia do templo.”
Devemos persuadir-nos que hoje não basta o que
bastava tempos atrás. Tempos novos, novas realizações; a novas chagas, novos
remédios; a novas artes de guerra, novos sistemas de defesa. Hoje, como vos
disse outras vezes, é necessário que o sacerdote, especialmente o pároco, saia
do templo, se quiser exercer uma ação salutar no templo. Porém, entendamo-nos:
saia do templo, mas depois de ter haurido luz e conforto da piedade e da
oração; saia do templo, mas tendo sempre o olhar voltado para o templo; saia do
templo, mas como o sol que sai de sua tenda, resplandecente da luz de Peus e do
fogo da caridade que ilumina, aquece, fecunda (...).
O ódio, a paixão, o zelo áspero, ou irrefletido
da excitação, não devem brotar d’alma e do vosso coração sacerdotal contra os
homens, mas a caridade que sofre, geme e se entristece, pela culpe cometida
pelo homem e que o arrasta e arruína (...).
É com estes sentimentos, ó meus veneráveis
irmãos, que devemos entrar no campo da ação católica. Devemos, entrar por ser,
hoje, principal e essencialmente, tarefa nossa. Quem pensasse de outra forma,
daria prova de grande leviandade e de pouca reflexão, para não dizer, de pouca
fé.
Não nos iludamos. Se não fizermos, os outros farão,
sem nós e contra nós. Também, se nos acusarem de fins secundários e de
finalidade mundanas.
A acusação antes de a nós foi feita a Jesus
Cristo, que embora ensinasse a dar a César o que é de César, foi chamado de
sedutor da plebe. Convençamo-nos de que é impossível cumprir o próprio dever e
estar em paz com todos.[6]
“Recomendo-vos,
a juventude.”
Recomendo-vos de novo, a juventude. Agora que,
com amável atenção e solícito cuidado, admitindo as crianças à primeira comunhão,
tendes certamente cumprido o vosso dever, mas a missão do pároco não termina
aqui, antes é aqui que começa a ser mais grave, porque é daqui que as paixões
começam a despertar no coração dos jovens. É daqui que os erros, os
preconceitos, os escândalos, as seduções do mundo começam colocar a sua
virtude àdura prova. Oh, ai dele, se o pároco fosse tão descuidado e sem
coração, que o deixasse entregue a si mesmo!
Na medida do possível, é necessário estar a seu
lado, é necessário iluminá-los, sustentá-los, encorajá-los, incentivá-los ao
bem, conversando, conservando unido à Igreja e às práticas religiosas.
O meio mais fácil é o de instituir, junto ao
comitê paroquial, a secção jovem. Entre nós, vários já fizeram a experiência e
com feliz êxito. Exorto-vos todos a imitarem o exemplo.
Encontrareis por isso dificuldades, mas sereis
recompensados com grandes consolações. Se não, para silenciar outros motivos,
como alimentar, depois diante do mesmo comitê estas outras associacões
católicas, também estas tão necessárias?
Para mantê-las florescentes e operosas, será
muito útil que cada Vigário forâneo designe algum sacerdote idôneo, para que,
algumas vezes no ano, faça reuniões familiares, percorrendo as várias
paróquias do Vicariato. Melhor ainda, se o mesmo Vigário forâneo quisesse
assumir este compromisso.[7]
“Dependência
dos pastores.”
Para que a nossa ação seja e possa dizer-se
verdadeiramente católica, recordemo-nos de proceder, em tudo e sempre, com
disciplina. Os soldados não queiram andar na frente dos capitães.
Especialmente em nosso campo, a disciplina é tudo. Sem disciplina, ou seja, sem
a dependência total, rigorosa, constante dos fiéis aos seus pastores, o fácil
ultrapassar do zelo individual gera descontentamento e discórdia, divide e
enfraquece a boa vontade, desvia e desgosta os bons e polui com o veneno
dissolvente do amor próprio, tanto as razões de quem manda, como de quem
obedece.[8]
“Estreita
dependência ao princípio hierárquico.”
Entendendo que nada se faça senão na mais estreita
dependência ao princípio hierárquico, o laicato católico, se quiser ser
instrumento de salvação nas mãos de Deus, deve ficar no seu devido lugar. Na
Igreja, ele não é capitão, mas, soldado; não é mestre, mas discípulo; não é
pastor, mas ovelha, e os seus olhos devem estar fixos no Bispo e ainda mais no
Bispo dos Bispos, o Romano Pontífice, em ninguém mais. Não conhecemos Paulino,
ignoramos Melézio, não queremos nem os “se”, nem os “mais, nem exceções, nem
reservas, nem subentendidos de nenhuma espécie.
Deus nunca abençoa as obras que não forem antes
abençoadas por seus legítimos representantes. Um comitê paroquial que agisse
contra ou sem a aprovação de um pároco, um Comitê diocesano que se permitisse
tomar a mínima iniciativa, ou tentasse o mínimo ato de independência do próprio
Bispo, deixaria, por isso mesmo, de ser católico e receberia imediatamente a
nossa condenação.[9]
“217
Comitês paroquiais.”
Aconselhado pelo egrégio Conde Paganuzzi e
persuadido de fazer a coisa mais agradável à vossa Santidade, venho trazer a
vosso conhecimento em breve notícia, a IV Reunião Regional dos Católicos da
Emília, realizada aqui sob minha presidência, nos dias 14 e 15 de junho do
corrente ano.
Seja pela intervenção de quase todos os Bispos
da região, seja pelo numeroso comparecimento do clero e do povo às reuniões,
não podia ter sido mais solene.
Depois da minha carta pastoral de 16 de outubro
de 1896 (da qual agora lhe envio a cópia) constituiram-se nesta minha Diocese,
além das sessões jovens, as associações operárias etc., duzentos e dezessete
Comitês paroquiais, e todos estavam largamente representados naquela reunião.
Era também representada largamente a classe
eclesiástica da cidade e da Diocese, verdadeiramente exemplar e digna de todos
os encômios, nisto, como em todo o resto.
Tudo aconteceu com serenidade e máxima ordem.
As deliberações tomadas sobre a Organização Católica, a Boa Imprensa, as
eleições administrativas e políticas, a fundação e incremento das Caixas Rurais
etc..., foram sumamente práticas e oportunas e o que é mais importante,
informadas por aquele espírito de franca submissão aos Bispos, especialmente
hoje, tão necessária e tão desejada por Vossa Santidade.[10]
O advento do
socialismo ateu e anárquico faz tremer Igreja e Estado, mas é “voz de Deus”.
Ao socialismo ateu
faça-se frente com ação social cristã, em vez de uma estéril condenação, que
golpearia, também os “justos lados” do socialismo.
À propaganda marxista,
que seduz as massas trabalhadoras, deve-se contrapor o conhecimento dos
problemas sociais e das implicações morais e religiosas que deles derivam e
atuar com iniciativas que correspondem às reais e legítimas exigências dos
camposes, dos operários, dos
proletários. É uma obra de justiça e de e de reivindicação social, inspirada
pela caridade, para ser realizada na concórdia por todas as classes. Salvar a
classe operária é salvar o povo.
“Causas
que fizeram surgir o socialismo.”
Há tempos que a sociedade está nas mãos das forças
anárquicas. Abalada toda autoridade, afrouxados os vínculos sociais e familiares
negados, esvaídos ou desligados os princípios religiosos, que santificam o
sofrimento humano, a vida social está se tornando cada dia mais selvagem, na
qual cada um se movimenta por própria conta, por seu interesse e o bem de um
torna-se o mal do outro, explicando deste modo e atuando o cruel programa contido
na sentença do filósofo escocês: O homem é o lobo dos homens.
Daí a febre dos lucros imediatos, a exaustiva
conquista do poder, a inveja do bem alheio, que se torna incentivo, para suplantar
para enganar, para burlar, para quebrar o freio e suprimir todo o obstáculo,
que se interpõe aos desejos e aos prazeres mdividuais, meta única da sociedade
atéia e materialista.
A estes enormes males juntou-se, e a cada ano
se agrava, o aguilhão da diferença econômica, pungente para todos, insuporpara
o povo, ao qual a perda dos confortos da fé e da esperança cristã, a conquista
de novos direitos e a consciência da própria força, fazem sentir mais vivamente
a indigência em que vive e o torna crente e ardente neófito de toda novidade.
A tanto mal-estar econômico e baixeza moral,
acrescentai o poder do forte capital, tão forte e desmedido, na atual organiza
ção social e industrial, que atrai, sem riscos e sem esforços, grande parte
dos empregados, qual árvore gigantesca que rouba, com seus inúmeros tentáculos
e com suas densas ramificações, o alimento, o ar e a luz das plantas menores
que definham a seus pés, e encontrareis as causas que fizeram surgir e
reforçaram o socialismo.
Recrutando os seus prosélitos nas oficinas, nos
campos, nas universidades, entre a nobreza e o povo, especialmente entre o
povo, em poucos anos ele formou um exército imponente. Todos os humildes, os oprimidos,
os deserdados sentem-se atraídos pela esperança de melhorarem, como todas as
almas rebeldes e todos os impacientes que querem, a todo custo, mudar a ordem
atual das coisas. A eles vão se ajuntando depois (e talvez são mais temíveis, e
certamente os mais apreciados) como aliados, ou como filiados, os que sentem
mais viva compaixão, para com os infelizes, mais forte e mais repelente a
náusea pela corrupção, que penetra os organismos políticos e chegam ao ápice: e
mal podem tolerar, sem protestos, as injustiças sociais, a ociosidade bem
alimentada de poucos, a miséria dos trabalhadores e reunidos, em um único
indivíduo, a riqueza, o poder e a indignidade.[11]
“Experiência
pessoal.”
O que vos direi é fruto da experiência pessoal.
Antes que dos livros, aprendi, vendo tantas chagas sociais e tantas misérias,
sobre as quais, por dever sacrossanto, derramei o bálsamo da fé e os socorros
da caridade. Desde os primeiros anos de sacerdócio, nos meses livres dos
cuidados escolares, exerci o sagrado ministério, em várias aldeias da minha
diocese natal e tive a possibilidade de observar de perto, a vida dos campos,
nas suas várias formas e nos seus diversos graus de bem-estar, os pactos
coloniais e seus efeitos econômicos e morais.
Passeava por aqueles campos produtivos
(propriedade de um rico senhor, conhecido no fausto da beneficência citadina),
fecundados por uma população laboriosa, que contava com um tanto por cento de
preguiçosos e entrava naqueles barracos úmidos, com um verdadeiro aperto no
coração.
Também fui pároco, por vários anos, em um
subúrbio da minha Como.
Contava entre os meus paroquianos, alguns
milhares de operários da seda, tecelães, fiandeiras, tintureiros. Naqueles
anos pude também ver de perto a mísera condição dos operários, mísera em mesma
e pelas contingências às quais estão sujeitos. Como repercutia neles, cada
crise política ou econômica, também distante, ae parava, ou diminuía o
movimento industrial! Como sentiam, cada pequeno acontecimento da vida! Uma
doença, por exemplo, uma desgraça acidental que diminuisse a sua atividade
diária! estas pequenas paradas que tiravam, cada uma, um pedaço de pão à pobre
mesa, sobrevinham, de tanto em tanto, as grandes crises industriais, que
suspendiam todo o trabalho. Nestes casos era miséria, a fome, no sentido
estrito da palavra, apenas mascarada por algum tempo, pelo crédito do
comerciante, ou por uma antecipação do salário, pelo industrial. Então era uma
corrida ofegante dos homens, em busca de trabalho, das mulheres, para pedir
ajuda.
Oh, que dias tristes, quando visitando os
enfermos, eu não ouvia, subindo por aquelas pobres escadas, o som seco, e quase
ritmico do tear! Triste sobre todos os pontos, porque com a miséria entrava,
freqüentemente a desordem e a desonra das famílias.
E vendo todas aquelas misérias, ouvindo os seus
lamentos e conhecendo aqueles infatigáveis industriais, injustamente acusados
explorar os pobres e aquele rico proprietário bom e benemérito, que tinha os
campos contaminados pela pelagra, parecia-me que o mal não estivesse, tanto na
vontade de cada homem, quanto no modo como o trabalho era organizado, e pensava
que teria sido a bem, para todos, poder encontrar condições mais justas.[12]
“Os
postulados do socialismo.”
Se o trabalho valoriza o capital, por que não
deverá ter maior participação dos trabalhadores, ao menos até o ponto de lhes
garantir alimento suficiente, sadio e seguro?
Se o trabalho é uma lei física e um dever
moral, por que não deveria tornar-se um direito legal?
Se a instrução é um dever, por que não se deixa o tempo ao operário, para se
instruir, limitando a idade e as horas de trabalho?
Se a higiene é um dever social, por que se
permite, sem a devida cautela, trabalhos que envenenam e encurtam a vida?
Por que não se assegura, contra as eventuais
desgraças, a vicia do trabalhador e não se providencia de maneira decorosa, sua
velhice impotente?
Assim eu pensava e assim teríeis pensado muitos
de vós, à vista e ao contato com as misérias sociais.
Pois bem, aquelas perguntas, em parte
cuidadosamente já traduzidas em leis, através de recente trabalho parlamentar,
contêm exatamente alguns postulados do socialismo.
Portanto, existe nestes postulados uma parte de
verdadeiro, de justo, que todos os bons devem aceitar e utilizá-los, quanto
lhes é dado atuar, não porque o bom e o justo não mudam de natureza por serem
propostos também pelos maus e associados ao mal, mas também tirar ao mesmo mal
e ao falso, sua maior força de expansão, a qual consiste, em ser bebido
juntamente com a verdade e no asumir só por isto, o aspecto de justiça.
Portanto, não nos deixemos impor pelos nomes e
pelas aparências das coisas.
Examinemos, com seriedade, os postulados do
socialismo, oponhamo-nos à sua ação, com a certeza de que temos de estar com a
verdade a ação social católica e seja ela remédio reconstituinte da sociedade.[13]
“A
questão econômica se transforma em moral, política e religiosa.”
O socialismo moderno, considerado em si mesmo,
é uma questão econômica, porém como acontece com todas as questões que devem ser
aplicadas ao indivíduo ou à coletividade, se entrelaça com outras e muda a
natureza e a forma, pois que o homem é uma unidade e tudo o que se refere a sua
inseparável unidade, se entrelaça, funde-se, complica-se de modo a refletir os
multiformes aspectos, sob os quais pode-se apresentar o mesmo homem.
Isto acontece com a questão social. Econômica
na sua essência, transforma-se em moral, política e religiosa, nas suas
imediatas conseqüências.
De fato, a fórmula comum do socialismo, do
comunismo e do coletivismo, as três seitas principais, nas quais se dividem Os
socialistas, é tudo aquilo que produz a riqueza (isto é capital, terras,
instrumentos de trabalho) é propriedade do Estado, que distribui os frutos,
segundo alguns, com perfeita igualdade, segundo outros, conforme a necessidade
de cada um.
Ora, esta fórmula social, para poder ser
atuada, deve ferir a humanidade, nos seus constitutivos mais íntimos e
substanciais e nos seus afetos mais caros, que são precisamente a religião, a família
e a liberdade individual.
De fato, o socialismo moderno, embora
essencialmente econômico pela estrita conexão que existe entre todas as
questões teórico-práticas, referentes ao homem, não pode prescindir da
religião.
É bem verdade que os socialistas, seja por
indiferença real, seja por tática, não falam de religião, nunca ou quase nunca,
e poucas vezes, invocam o exemplo de Jesus Cristo e dos primeiros cristãos como
precursor de sua doutrina o primeiro e como praticantes os segundos. Mas tudo
isto não nos deve enganar, a respeito de seus sentimentos, para com a religião.
Sua proveniência revolucionária seu fundamento científico, de fato,
materialista o faz intrinsecamente irreligioso. “Nem Deus nem Mestre”,
escreveu Blanqui no cabeçalho do seu jornal e estes dois conceitos informam por
si mesmos todo o socialismo.[14]
“Buscar
as causas e encontrar os remédios oportunos.”
O presente estado da questão social e o
progressivo difundir-se das idéias puramente socialista, ou afins, na nossa
cidade, nos povoados nos campos, deve tornar mais ativa e mais adequada à
necessidade de vossa obra, também no campo social.
Ora, tal trabalho para ser verdadeiramente
eficaz e não exacerbar o mal que se quer curar, requer antes de tudo,
prudência, serenidade de espírito, imparcialidade no julgamento, igualdade de e
consciência de conhecimento do que se deve combater, como o que é justo
conceder.
Portanto, atualizai os vossos estudos, irmãos
caríssimos, e colocai-vos à altura de rebater (falando a mesma linguagem deles)
os sofismas, com os quais os livros, jornais e conferencistas de propaganda socialista
estão imbuindo as mentes dos operários e dos camponeses.
Eu quis dar-vos o exemplo com estas
admoestações que devem ser para vós um incitamento e uma indicação.
E assim, como aquilo que os socialistas dizem
não é de todo o mal, e eu vo-lo demonstrei, e a eficácia de sua propaganda está
exatamente na constatação de um fato doloroso, isto é, na crescente miséria da
maioria, em meio a uma verdadeira exuberância de produção agrícola e
industrial, que faria supor um aumento das riquezas, assim vós deveis colocar
toda a vossa obra em levantar as causas desse fato e na busca de oportunos
remédios, aceitando e aconselhando mais práticos, sem se deixar levar, ou
sustentar pela mente dos outros.
Efetivamente, demonstrareis que aquele tanto de
verdadeira mente bom que existe no socialismo é conforme às máximas do
evangelho e é susceptível de atuação, sem a destruição da sociedade, ou, é
verdadeiramente inútil, ou desproporcional ao fim que se propõe.
“Formas
modernas de fazer o bem ao próximo.”
Dedicai
todos os vossos cuidados às associações de várias formas e objetivos que
florescem entre nós, pois o espírito de associação aumenta e estreita os
vínculos de fraternidade humana, supre à fraqueza dos indivíduos e repara os
golpes imprevistos da desventura: o irmão ajudado pelo irmão é como uma cidade
fortificada. Longe de contrariar este novo espírito de associação, que se
expande e penetra por tudo, continuai a secundá-lo e fazei o possível para
orientá-lo por caminhos retos quando a inexperiência, ou os maus conselhos,
tentam desviá-lo.
Abençoai, outrossim, todas as obras de
previdência e de ajuda mútua e fazei-vos defensor delas. A ajuda mútua e a
previdência são duas formas modernas de fazer o bem ao próximo que reunem, ao
mesmo tempo, os benefícios da caridade e os da educação, enquanto tornando-os
participantes do ato benéfico e beneficente, prepara-os a pensarem no futuro,
a serem providentes e previdentes.
Uma das chagas do campo é a usura, exercida sob
forma de antecipação de gêneros alimentícios, de sementes, de dinheiro para a
compra do gado, e assim por diante.
O fornecedor é pago, ou com um juro fixo muito
alto, ou na forma mais proveitosa para ele, com uma determinada quantia de
produtos.
Assim, o bom e o melhor dos proveitos dos
pobres colonos vai para enriquecer tais fornecedores, e que pela necessidade,
ou por uma desgraça, é constrangido a recorrer a eles, vê em poucas horas
evaporarem os seus magros rendimentos e dificilmente estará em condições de se
refazer e de equilibrar o seu pobre balanço.
Contra um tal estado de coisas, são eficazes
remédios as sociedades cooperativas de produção, de consumo e de mútuo seguro,
já experimentadas, com bons resultados, na Itália e fora dela e sobretudo os
Bancos católicos e as Caixas rurais, que fornecem s pequenos agricultores o
capitalzinho necessário, por juros razoáveis.
Aconselhai tais instituições e favorecei-as o
mais possível onde existem e encorajai as pessoas de bem e inteligentes, pois,
como observou justamente D. Ketteler, o ilustre Bispo da Magonza (que estudou
por primeiro, a questão operária do ponto de vista católico) em outros tempos,
os senhores dotavam a igreja de conventos e instituições públicas de caridade;
hoje fariam coisa mais agradável a Deus, colocando-se à testa de associações
operárias, de produção, de cooperação e de consumo para melhorar as condições
dos operários, pois, em substância, a obra de beneficência é obra de caridade.[15]
“Instituí
nos seminários cátedras agrícolas.”
Alguns de vós já intervieram para resolver as
divergências não raras entre patrões e camponeses e eu mesmo convosco, nas visitas
pastorais, me ocupei para eliminar usos e ônus de outros tempos.
Continuai neste caminho, com prudente firmeza e
não permitais, porquanto depender de vós, que abusos e imoralidades venham
tornar mais pesada e dolorosa a vida dos trabalhadores e dos pobres.
Podeis conseguir outros benefícios, para os
colonos, estudando para eles as novas descobertas e sistemas agrícolas, que
quase sem gastos e sem maiores esforços, aumentam de muito, a produção dos
campos (...).[16]
Nestes vinte anos, vi muitas propriedades
paroquiais anteriormente quase improdutivas, transformadas em vinhedos e campos
férteis por louvável iniciativa dos párocos e a seu exemplo, territórios
inteiros vivificados e fecundados, por um trabalho mais intenso e racional.
Instituí, com esta finalidade, entre outras, gostaria que o que foi obra de
poucos, fosse obra de muitos, no futuro nos seminários diocesanos, cátedras
agrícolas, para que possam oferecer ao clero jovem, os conhecimentos que os
coloquem em posição de proporcionar às populações que lhes serão confiadas um
dia, junto ao pão da alma, o do corpo. Entretanto, não será difícil, para quem
o desejar, aprender nos livros as poucas noções necessárias, para dar aos
camponeses, freqüentemente apegados aos vehos costumes, as oportunas sugestões
e as indicações práticas, fáceis de serem compreendidas e aplicadas, e que são
o resultado de longos estudos e de experiências difíceis. Utilíssimas para esse
fim são também as Conferências agrárias e eu as recomendo vivamente.[17]
“Fazei
obra de reivindicação social.”
Acenei-vos, sumariamente, algumas necessidades
econômicas dos nossos campos e os relativos remédios, tido como bons em vários
lugares; mas o mal é multiforme e os remédios devem ser adaptados e
modificados, conforme os tempos, os lugares, as pessoas e aplicados, sempre
com grande prudência, nunca com fins partidários. Não deveis esquecer que sois
pais espirituais de todas as almas confiadas aos vossos cuidados, e as vossas
intervenções em negócios fora da igreja, e que julgais de utilidade pública,
não deve reacender iras ou partidos, mas unir a todos, no santo pensa mento de
fazer o bem, em favor dos miseráveis.
São também postulados do socialismo moderno os
seguintes: limitação da jornada de trabalho, o salário mínimo dos trabalhadores
fixado por lei, o direito ao trabalho, o direito à greve e assim por diante.
Ora, todos estes postulados, tomados em si mesmos, abstratamente, são bons e
não contradizem em nada, nem as leis divinas, nem as humanas. São da mesma
natureza aqueles sobre os homens retos, sobre a pensão dos operários, sobre a
reorganização do trabalho para as mulheres e as crianças, sobre a higiene nas
fábricas, que já foram traduzidos em leis, também por nós e que não deixarão de
dar ótimos frutos (...).
O meus amados cooperadores, vossa ação, porém,
será mais útil e prática, se aplicada não aos quesitos de índole geral, mas aos
particulares e locais, pois diariamente tendes debaixo dos olhos, dando vosso
trabalho e o vosso conselho, para aliviar a miséria, cooperando para acabar com
abusos e injustiças, ensinando aos ignorantes muitas coisas úteis e belas, sem
jamais vos cansar (...).
O mal que aflige a sociedade não é, como dizem
os socialistas, puramente econômico, mas sobretudo moral e não consiste unicamente
na organização social, mas também e mais, nos indivíduos.
Portanto vós, ó meus queridos párocos,
advertindo os indivíduos à observância da caridade evangélica e dos preceitos
da religião, fazeis obra de reivindicação social, pois a salvação da sociedade
está antes na regeneração religiosa e moral dos indivíduos, e o resto virá por
si.[18]
“Encíclica
admirável.”
Ministro de paz entre os povos e Vigário de um
Deus de amor, que se fez Pai dos miseráveis e dos abandonados, o Papa tem por
estes, sem distinção de raças, costumes, de religião, os cuidados mais
afetuosos, a solicitude mais delicada, porque eles têm alor necessidade de
socorro e proteção.
Infelizmente, estes pertencem atualmente, às
classes operárias. Precioso instrumento nas mãos de outros, poderoso fator da
riqueza para os outros, às vezes, em nossos dias, falta aos operários o
necessário para viver e, enquanto o desenvolvimento comercial e industrial de
um povo, o bem-estar econômico de uma nação, é, ao menos na metade, fruto do
seu trabalho, ele não é convidado a participar deste bem-estar. Daqui resulta
vivo antagonismo entre proprietários e os operários, o descontentamento
ameaçador das classes trabalhadoras, estimulado nos círculos internacionais, pelas
paixões políticas, que se traduzem, hoje, em parciais rebeliões e em greves,
mas que poderia de um momento a outro, estourar em vasto incêndio (...).
O Papa define claramente quais são as diversas
responsabilidades nesta questão; denuncia a propósito, as doutrinas catastróficas,
e indica os meios a serem aplicados. Não me atrevo tentar teassumir este
estupendo, entre os estupendos documentos da sabedor~ia e da caridade do atual
Pontífice; Leão XIII não se limita a pregar caridade aos ricos e a resignação
aos operários. Na sua admirável Encíclica, existe algo mais. Com seu penetrante
olhar, disseram outros, ele aprofundou a questão operária e percebeu que se
nesta classe ferve o ímpeto da revolta, não é toda sua a culpa. A injustiça nas
legislações, a avidez dos lucros fizeram do operário um escravo do trabalho,
que luta com o presente, desconfiado do futuro, desgastando as forças e a vida
para conseguir um pão insuficiente, para matar-lhe a fome.[19]
“É uma
obra de justiça que convém iniciar.”
A criança, curvada desde os primeiros anos,
pela fadiga, cresce triste e alquebrada; a mulher ocupada desde as primeiras
horas da manhã, até altas horas da noite, não tem mais tempo para cuidar da
pobre filhinha que por isso cresce sem afeto e sem moralidade. Portanto, é uma
obra de justiça, que convém iniciar, se quiser restituir a confiança e com a
confiança, a tranqüilidade à classe operária. Se os operários têm deveres, têm
também direitos e estes direitos convém que a sociedade os tutele para eles, se
não quiser ter que tutelar-se deles, por causa da violência (...).
Obrigatória é a missão dos católicos de
estudarem as questões sociais e de se interessarem vivamente, por elas. O mesmo
Santo Padre não debilitado nem pela idade, nem pelas lutas diárias, dá-nos o
exemplo.
E um novo campo que ele aponta ao zelo é a
atividade de seus filhos. Trata-se de fazer o contrário daquilo que a revolução
faz. Esta procura arrancar da Igreja as multidões e principalmente os
operários. Agora, é necessário robustecer as mentes e os corações, com as
grandes verdades do Evangelho.
Unicamente aqui, queira-se ou não, este é o
remédio ao mal presente, e o preventivo àqueles piores que nos ameaçam. Avante,
pois com as máquinas, com as indústrias, com as descobertas, com as conquistas
da ciência.
Que o homem progrida, também a preço de duras
fadigas; que procure melhorar em todos os campos e sob todas as formas, a
condição da própria existência. Alegro-me de coração, porque tudo isto, enfim,
não leva senão à glorificação da obra de Deus.[20]
“Missão
de paz e de regeneração social.”
O que nós, homens da Igreja, pedimos, é que o
Evangelho seja chamado a dirigir estas transformações econômicas e industriais;
e que a prática sincera de sua lei purifique e nobilite os progressos
materiais, de modo que não fomentem nas várias classes, os instintos brutais e
não se tomem assim motivos de discórdias e de lutas fratricidas.
E cabe precisamente a nós, homens de Igreja,
esta missão de paz e de regeneração social, a nós mais que aos outros, que recebemos
de Deus os meios e o mandato. Eu gostaria que isso fosse entendido por todos os
membros de meu clero. Em nossos dias é quase impossível reconduzir a classe
operária à Igreja, senão conservarmos com ela, relação contínua fora da
Igreja. O veneráveis Irmãos, devemos sair do templo, se quisermos exercer uma
ação salutar no templo. E devemos, outrossim, ser homens de nosso tempo. Certas
formas novas de propaganda, ou melhor renovadas, usadas com êxito pelos
adversários, não devem nos assustar. Devemos viver a vida do povo,
aproximando-nos dele através da imprensa, das associações, dos comitês, da
sociedade de ajuda mútua, das conferências públicas, dos congressos, dos
círculos operários, dos patronatos para crianças, com toda a obra de
beneficência particular e pública.
Combatamos com vivo ardor, os preconceitos,
mas, com o mesmo calor, sustentemos os interesses e secundemos as legítimas
aspirações, porém cuidando bem de não alimentar ilusões, e muito mais de
excitá-las ao desprezo das classes abastadas, ou dirigentes. Antes, procuremos
aproximar o mais possível estas classes e torná-las amigas. A exemplo dos
católicos de outras nações, tornemo-nos senhores do movimento atual,
colocando-nos à frente, agindo e não os colocando à parte, criticando.
Meus queridos, o mundo caminha e nós não
devemos ficar para trás, por qualquer dificuldade de formalismo ou ditame de mal-entendida
prudência. Recordemo-nos se isto não se fará conosco. Far-se-á sem nós e contra
nós.[21]
“A
concórdia de todas as classes.”
Meus caríssimos placentinos.
É com a mais viva dor que vos dirijo a palavra
desta vez.
O afeto sincero e profundo que me une a vós e
que, em vinte e três anos de vida episcopal, nos acontecimentos ora alegres e
ora tristes, nunca diminuiu, dá-me o direito de vos falar, como pai, aos
próprios filhos.
Chorei e rezei por todos vós, nestes dias e
oxalá me fosse possível aproximar-me de cada um, de socorrer-vos em vossas necessidades,
confortar-vos, com a palavra de esperança e de fé e restituir aos vossos
espíritos, a calma que o sofrimento e as excitações do momento vos fizeram
perder.
O mal-estar econômico, o encarecimento dos
alimentos, a falta de trabalho vos roubaram a habitual serenidade de vida, que
sempre fora o orgulho da nossa cidade, e daqueles males tendes alsuma
desculpa.
Mas, agora que as vossas solicitações foram
atendidas, que as Autoridades municipais e políticas fizeram todo o possível
para vir ao encontro das necessidades mais urgentes, e prometer-vos maior
facilidade, para o futuro, agora, ulterior resistência aumentaria os males, já
tão graves e as vítimas, já demais numerosas.
Meus queridos filhos! Pensai nas dolorosas
conseqüências de uma luta na cidade. Pensai nos mortos e nos feridos; nas
famílias que perdem os seus caros e voltai, vos suplico, em nome de Deus, à
calma.
A concórdia entre todas as classes é o meio
mais seguro, para remediar esta condição de coisas que todos, unanimemente,
deploramos.
Na amargura da hora presente, conforta-me o
pensamento de que a palavra de vosso Pastor, que nunca vos foi desagradável
encontre também desta vez, o caminho dos vossos corações e os recomponha na
paz.[22]
“A obra
dos ceifadores de arroz.”
Na memoranda reunião das Associações Católicas,
realizada no Episcopado no dia 4 de julho p.p. eu, como perene lembrança,
propus, com o consentimento do meu venerado e zeloso co-irmão de Bobbio, a
constituição de um comitê, que tivesse por fim a assistência aos jovens e às
jovens que durante alguns meses, no ano, levados na maioria das vezes, pela
miséria, migram da nossa diocese, em grupos e vão às planícies piemontesas e
lombardas, g para a colheita e
descascamento de arroz.
A proposta foi acolhida com aplausos gerais.
Pessoas merecedoras de todos os elogios e de toda a confiança, seja da diocese
Placentina, seja das limítrofes de Bobbi, Lodi, Pavia responderam prontas e de
boa vontade ao apelo.
Trata-se de uma obra de caridade insigne e de
máxima importância. De fato são muito graves os perigos e os males, os quais
estes pobrezinhos vão ao encontro; perigos e males morais e físicos, fáceis de
se imaginar.
Urge pensar no remédio, urge prover para que os
míseros, e o não caiam vítimas dos
cobiçosos especuladores, para que sejam imunizados contra as armadilhas
colocadas à sua fé, para que tenham tempo a maneira de santificar o domingo,
para que a sua moralidade seja tutelada, para que suas fadigas sejam melhor recompensadas,
enfim, para que longe da família, encontrem defesa, proteção e conforto.
Para conseguir tão nobre objetivo é necessário
antes de tudo conhecer quantos sao, em cada paróquia, os jovens e as jovens que
se encontram nestas condições.
Portanto, pedimos a gentileza de completar, com
a maior diligência possível, a folha anexa e devolver-me assinada.[23]
A conciliação entre
“trabalho e capital, liberdade e autoridade, igualdade e ordem”, devem ser
adotadas também entre a Igreja e o Estado.
O homem tem o direito
e o dever de amar a religião e a pátria. O conflito entre estes dois
sentimentos provoca gravíssimos danos à religião e inquietantes problemas de consciência.
A “funesta discórdia” deve acabar o mais depressa possível, “sobretudo, para o
bem das almas.”
A usurpação dos
legítimos direitos deve ser condenada; o usurpador deve reparar, a liberdade
do Papa deve ser restituída, integralmente. Mas, em um regime parlamentar, não
se pode esperar do Estado reparação e cura se no Parlamento não entram homens
honestos e corretos, que levem a sério o verdadeiro interesse do povo e o
representem, na sua identidade de povo tradicional e culturalmente católico. Sonhar
com uma restauração milagrosa é anti-histórico, pedi-la a estranhos seria
fatal.
Só a participação dos
católicos na vida política da nação pode preparar a conciliação entre a Santa
Sé e a Itália e remover os obstáculos políticos à liberdade da evangelização. A
recristianização é o único móvel da atitude de Dom Scalabrini nos confrontos
com as questões políticas e sociais da época.
a) AS RAZÕES PROFUNDAS DO CONCILIATORISMO
“A razão reconciliada com a fé, a natureza com
a graça.”
Deus quer (...). Quer que a razão reconciliada
com a fé, a natureza com a graça, a terra com o céu, a obra das criaturas com
os direitos do Criador. Quer que o trabalho e capital, liberdade e autoridade,
igualdade e ordem, fraternidade e paternidade, conservação e progresso, se
unam e se ajudem também eles, como contrapostos harmoniosos. Quer que todos os
elementos da civilização, ciência, letras, artes e indústrias, todo o legítimo
interesse, toda legítima aspiração tenham na religião, na Igreja, no Papado,
impulso normas, socorro, elevação, consagração divina.[24]
“Religião
e pátria.”
A pátria terrena e a pátria celeste. Oh, sim
amemos a primeira Ela é um dom de Deus. Amá-la, procurar a sua prosperidade e
grandeza entra no sublime preceito da caridade, ordenado pelo evangelho, mas
para amá-la verdadeiramente, associemos ao seu amor, o amor pela religião que
nos guia à pátria eterna.
Religião e pátria! Estes dois supremos amores
de nossos avós, estas duas aspirações de todo coração amável, devem, como
filhas do mesmo Pai, dar-se o beijo da paz, devem amar-se e ajudar-se
reciprocamente. O que Deus uniu, o homem não separe.[25]
“A Itália
sinceramente reconciliada com a Sé Apostólica.”
Religião e Pátria: estas duas supremas
aspirações de toda alma gentil se entrelaçam e se completam, nesta obra de amor
e de redenção, que é a proteção do fraco e se fundem num acordo admirável. As
miseráveis barreiras levantadas pelo ódio e pela ira desaparecem, todos os
braços se estreitam, por caloroso afeto, os lábios, se abrem em atitude de
sorriso e de beijo, e, tolhida toda a distinção de classe ou de partido,
aparece nela, embelezada pelo esplendor cristão, a sentença: homem, irmão dos
homens (...).
Possa a Itália, sinceramente reconciliada com a
Sé Apostólica estimular suas antigas glórias e acrescentar-lhe outra
imperecível, unindo seus luminosos caminhos da civilização e do progresso,
também para seus filhos distantes.[26]
“Santíssimos
amores: o amor da religião e o amor da pátria.”
Depois da má administração, que fizeram de
nossa mísera pátria, os que usurparam o privilégio de se chamarem amantes,
seria mesmo necessário uma boa dose de desfaçatez, para chamar inimigos do país
a nós, que nos opusemos a todos os vexames à prepotência, às iniqüidades, às
explorações, aos crimes que a levaram ao estado da presente indigência. Estas
são acusações ridículas. Nós merecemos muito mais, o nome dos bons italianos,
quanto menos nos misturamos às proezas de quem traiu e arruinou a Itália.
Santíssimos amores: o amor da religião e o amor
da pátria.
São dois grandes e nobres ideais. Ligados ao
nosso primeiro choro, morrerão, como o nosso último suspiro, mas os impulsos generosos
de um não devem sufocar as sublimes aspirações do outro.
A justiça não pode ser suprimida pelo
patriotismo. Os destinos de uma pátria, que se deve conservar, não podem
prevalecer sobre os destinos imortais que nos esperam, nem estes podem ser
conseguidos, sem os meios necessários que a sociedade deve oferecer-nos, pela
observância das leis que Deus deu aos homens, para seu bem presente e futuro.[27]
“A fé se
extingue sempre mais.”
Nenhuma coerência de princípios, nenhum
conhecimento dos tempos, nenhuma direção uniforme e segura. Uma confusão, um
bizantismo que não se pode descrever (...).
Enquanto isso, a fé se extingue sempre mais, a caridade sempre mais se
esfria e sempre mais cresce o ódio do laicato contra o Clero. As conseqüências
só podem ser fatais e quem sabe por quanto tempo devemos rê-las.[28]
“Uma
febre que causa tormentos.”
A mim permanece outra febre: é a que provêm da
vista de tantos que, se vão distanciando da Igreja, por obra de quem deveria
procurar aproximá-los. Vós sabeis quanto esta febre causa tormentos (...).
Verdadeiramente é curioso! Os católicos devem ficar fora do Parlamento e depois
se promovem e se recomendam petições a serem enviadas ao Parlamento! Será isto
coerência? eu não compreendo.[29]
“Tranqüilizar
a consciência.”
Compreendo muito bem, Santo Padre, toda a dificuldade
da coisa, todavia peço a Deus que conceda à Vossa Santidade as luzes e forças
necessárias, para aproveitar o momento e não permitir que deixeis escapar a
ocasião que agora se vos oferece, naturalíssima, de fazer aquilo que, cedo ou
tarde, deverá ser feito, e de tranqüilizar a consciência de tantos pobres
operários, camponeses, empregados; a consciência de todos aqueles, que
motivados pelas condições em que se encontrarão obrigados a transgredir a
proibição da S. Sé, proibição que eu não sei como pode ser de novo publicada,
no atual estado de coisas, sem tirar aquela boa fé que os toma mais
desculpáveis, diante de Deus e sem encontrar aborrecimentos de todo tipo, da
parte do poder civil. Calo-me, porque humanamente falando, esta é a única via
que permanece para reivindicar, com alguma esperança de conseguir, os
sacrossantos direitos da Igreja e da S. Sé Apostólica. 7
“Desejamos
que cesse o funesto desentendimento,sobretudo para o bem das almas.”
Padre Beatíssimo, não somente falastes de paz,
mas ainda indicastes à Itália os meios seguros para consegui-la. De fato, vós
declarastes que a Igreja Católica, sociedade perfeita e jurídica, que possui em
si mesma a virtude de tornar felizes os povos e as nações, de todos os tempos,
não deve sujeitar-se a nenhum poder terreno, mas gozar da mais absoluta
liberdade, com a razão conclusiva que igual independência e liberdade deve
gozar seu supremo guia, o vigário de Jesus Cristo, o legítimo sucessor do
Príncipe dos Apóstolos!
Tolhida esta independência e es