TERCEIRA PARTE

 

TERCEIRA PARTE.. 1

HOMEM DA PALAVRA E PARA A PALAVRA... 1

1.  PASTOR.. 1

a)  Uma nova pastoreidade. 2

b) A visita pastoral. 5

c) A Pregação da Palavra. 7

d) Educação cristã e instrução religiosa. 10

e) A Família. 13

f) O Domingo, dia da Palavra e do Pão.. 14

2.  APÓSTOLO DO CATECISMO... 17

a) O Primado da Catequese. 17

b) A necessidade do Catecismo.. 19

c) As escolas e os mestres da doutrina cristã. 21

d) A Pedagogia catequética. 24

e) Um catecismo para todos. 27

3.  OS SURDOS-MUDOS.. 27

 

 

 

HOMEM DA PALAVRA E PARA A PALAVRA

 

Scalabrini declara explicitamente, que as suas iniciativas apos­tólicas mais características (catequese, visitas pastorais, emigrantes, surdos-mudos) não são senão o cumprimento daquele mandato mis­sionário de Cristo: “IDE E ENSINAI”. É o homem do Kerigma, do anúncio missionário do evangelho.

Na diocese de Placência adota-se um novo estilo pastoral, mar­cado pela administração intensa da palavra e dos sacramentos, guia­do por uma ardente “sede das almas” e caracterizado pelo contato direto, com o povo de todas as classes, em todos os lugares.

Cinco visitas pastorais realizadas pessoalmente, em mais de tre­zentas paróquias, três sínodos diocesanos, setenta cartas pastorais são uma prova concreta da sua aspiração de tornar-se tudo para todos, para ganhar todos para Cristo.

Convicto de que a formação religiosa é o grande meio para a educação cristã, dá à catequese o primado, na evangelização e na recristianização de uma sociedade, em rápida descristianização, por causa do anticlericalismo, do racionalismo e do materialismo. Faz-se, portanto, pioneiro do novo movimento catequético, chamando ao ministério da catequese milhares de leigos, buscando fazer dos pais, os primeiros catequistas dos filhos, no seio da família “igreja do­méstica”, onde se reza e se lê o evangelho.

O “ai de mim se não evangelizar!” encontra expressões realís­ticas, na instrução dos surdo-mudos, no ideal evangélico, não se limitando aos deficientes físicos, de dar ouvido aos surdos, e a pa­lavra aos mudos, mas na recuperação da sacralidade da festa, dia da celebração alegre e comunitária do banquete da palavra e do pão eucarístico.

 

 

1.  PASTOR

 

“O bem das almas acima de tudo” é o objetivo da sua ação e da atividade sacerdotal e episcopal; à salvação dos homens estão subordinadas escolhas e comportamentos. O apóstolo não pode per­manecer fechado no templo. Como o bom Pastor sai da tenda, sai da sacristia, vai em busca das ovelhas, dispersas nas planícies e nos mon­tes, para “pregar a todos Jesus Cristo e este crucificado”, pronto a dar a vida, pródigo de todas as forças físicas e morais.

“A fé vem do ouvir e o ouvido é atingido pela palavra de Cristo”. Cristo é o Verbo. “A palavra de Cristo não é menos que o seu corpo.” “A Igreja, sem a mensagem da vida, seria uma utopia, o sacrifício, sem a palavra, seria uma comemoração ineficaz.”

A instrução, sem a educação é estéril; Papa, bispos, sacerdotes e pais têm o direito e o dever inalienável de educar. A família, segunda alma da humanidade, é o lugar da primeira educação cristã. O dia festivo é o tempo da instrução e da educação da fé; o mo­mento no qual todas as famílias se tornam uma só família e ante­cipam a Jerusalém celeste.

 

 

a)  Uma nova pastoreidade

 

“Guardei aqueles que me destes.”

 

Rezai também por mim neste dia, vigésimo aniversário da mi­nha consagração, como bispo de vossas almas. Sinto mais do que nunca, o peso da responsabilidade que tenho por vós diante de Deus. Rezai, ó meus bons e caríssimos filhos, para que Ele me conceda a graça de vos amar, sempre como vos amo, e que, che­gando ao fim da minha vida, ao restituir-vos a Ele, eu lhe possa dizer com serena confiança: Pai, guardei aqueles que me destes, e nenhum deles se perdeu![1]

 

“Ganhar todos para Cristo, eis a constante, a suprema aspiração da minha alma.”

 

Seis lustros já se passaram, desde que esta escolhida porção do rebanho de Cristo fora confiada aos meus cuidados e um dia, que pode não estar longe, deverei dar-lhe justas contas dela. Pode­rei dizer-lhe com voz firme e serena: Senhor, guardei aqueles que me destes, e nenhum deles se perdeu, por minha culpa?

Terrível pensamento, que continuamente me vem à mente, e que me aperta, me incita a reparar, com uma visita geral, deli­gentíssima, as faltas e os defeitos do meu, não breve, governo episcopal.

Portanto, anuncio-vos, meus irmãos e filhos, que estabeleci em­preender pessoalmente a sexta visita pastoral, a todas e a cada uma das paróquias da diocese.

Se devesse olhar a minha idade, certamente espantar-me-ia, mas é tão vivo em mim o desejo de rever-vos ainda uma vez e de vos dirigir minha palavra de pastor e de pai, que toda dificuldade parece-me nada, e a fadiga parece-me leve.

De resto, não confio em mim mesmo, consciente que estou, da minha insuficiência, mas no auxilio do supremo Pastor Jesus Cristo; d’Ele que se dirigia às cidades e vilas, evangelizando e curando toda a enfermidade do povo, que depois de regar a terra com seu suor, deu o sangue e a vida por suas amadas ovelhas.

Portanto, irei a vós, em nome de Deus, queridos; e irei, para anunciar-vos a sua vontade, para alertar-vos sobre as verdades eternas, para vos prevenir de veneno do erro, para corrigir, se ainda existem abusos, para reconduzir ao rebanho a ovelha perdida, para invocar sobre a cabeça de vossos filhos as bênçãos dos céus, para orar convosco pelo repouso eterno de vossos queridos falecidos, para levar a todos o conforto ao espírito e animar-vos ao bem.

Serei feliz, se no final da visita puder na verdade repetir com o apóstolo: Fiz-me tudo para todos, para ganhar todos para Cristo. Ganhar todos para Cristo, .eis a constante, a suprema aspiração da minha alma.[2]

 

“O bem das almas acima de tudo.”

 

Fizestes muito bem dizer claramente as coisas como são e não me ofende em nada terdes enviado minha carta, onde oportuno crestes mandá-la; sabeis que nada tenho oculto aos meus superiores. Somente o amor próprio está um pouquinho ressentido, tratando-se de cartas confidenciais a um amigo do coração, como sois vós, e por­tanto jogastes tudo abaixo, como se costuma dizer, com simplicidade.

De resto, a verdade, a justiça, o bem das almas sobretudo, eis a minha, como a vossa ambição.

Não desanimemos caro amigo; calma, fortaleza e oração, olhar fixo em Jesus Cristo e confiantes n’Ele só.[3]

Escrevi a quem tínhamos combinado, muitas vezes e sempre forte e alto, talvez muito alto. Disse-lhe até que logo deverá en­contrar-se diante de Deus e prestar contas do exército das almas, que estão se perdendo e das dores inefáveis causadas aos Bispos, os quais já não têm mais liberdade de palavra, nem de ação, por­que subjugados pela intromissão dos leigos, encorajados e premia­dos, por quem deveria freá-los, e mais pelo habitual partido fari­saico, tolerado, e mais fortalecido no ato que está decompondo a ordem hierárquica, instituída por Jesus Cristo etc. (...)

Sigo a minha estrada, profundamente persuadido de que os Bispos fiéis e respeitosos já não são aqueles que, por mal enten­dido respeito, fomentam certos enganos e talvez se valham deles, mas aqueles e são poucos, pobres tolos! que sacrificam sua paz, seu futuro e tudo, para que o Santo Padre perceba o engano e a Igreja seja livre das desastrosas conseqüências dos erros.[4]

Infelizmente, as coisas vão mal e muito mal. Todos vêem, mas ninguém pensa no remédio! Não se tem mesmo senão que espe­rar em Deus. Agora nem o soar das trombetas basta para sacudir do sono os dorminhocos e derrubar as últimas ilusões; deixemos as coisas um pouco para ele. Nós vamos em frente tranqüilos e pensemos em salvar o maior número de almas possível. Não nos poderá faltar o amor dos bons e a recompensa de Deus.[5]

Para mim “não existe salvação senão em Deus. Tornar-nos frades, tornar-se Savonarola? Seria coisa boa, a primeira, para quem tem a verdadeira vocação, gloriosa a segunda, para quem se sente cha­mado, mas talvez a melhor coisa seja não fazer nada, procurando, com maior empenho possível, promover a glória de Deus e o bem das almas, certos de que, se soubermos calar e sofrer, veremos o auxílio de Deus.

Por enquanto, trabalhemos, rezemos e esperemos tempos melhores.[6]

 

“Senhor, tende piedade do pastor, piedade do rebanho!”

 

Meus filhos queridos, escutai a voz de quem não busca, não deseja, não quer senão vosso bem. Disse-vos mais vezes e me é doce repeti-lo, que incessante objeto de consolação e de alegria é para mim, a vossa fé, a vossa piedade, o vosso devoto e sin­cero apego à Igreja; não posso dissimular; por dever de cons­ciência devo dizer-lhe, ai de mim se calasse! O mal está também entre nós, e muito grave. O Placência! O cidade predileta, pensa na fé de teus pais, vê como decaíste de tua antiga grandeza! Quem te traiu? quem te reduziu a isto? Já que vejo muitos, entre os teus muros, que vivem esquecidos de todo o dever que a fé lhes impõe; que a ultrajam com satânicas blasfêmias e continuamente ofendem a Deus, com uma vida pagã, de fato: profanam os seus dias santos, dão-se à leitura de livros e jornais blasfemos; hostilizam a Igreja e os ministros fiéis; deixam-se levar como crianças, por todo vento de doutrina, apenas lhe seja anunciada com charlatã gravidade e com ignorante orgulho, por homens astutos e turbu­lentos. Por favor, que fazeis, meus filhos? Então são estas as obras de vossa fé? É assim que respondeis aos benefícios, que abundan­temente, recebestes do céu? Vergonha vossa, vergonha de vossa ci­dade! Não vedes que assim agindo, vos revoltais com louco orgu­lho contra o Onipotente, que contristais vossos santos Patronos e a mesma Mãe de Deus e vossa Mãe, Maria Santíssima? Senhor, escutai o gemido da minha alma, profundamente amargurada! Porque me conservastes neste tempo de aberração e de delito? Quando se acabarão estes dias de agitação e de profanações sacrí­legas? Senhor, tende piedade do pastor, piedade do rebanho!

Porém, em meio às dores, não faltam as consolações. Meus queridos, é conforto, o pensamento de que no céu há quem sabe quanto sofremos e que antes de nós sofreu tudo isso: o nosso di­vino Chefe e Mestre. É conforto, é balsamo suavíssimo, a consciên­cia de sofrer pela justiça e de sofrer, sem ódio, antes, com amor, a quem nos persegue, para que se converta e viva.[7]

 

“Requer-se tais Pastores em nossos dias.”

 

O pároco, como bem sabeis, é o devedor de todos, sempre pronto a ajudar a todos. Deve-se, todavia, evitar dois excessos opostos.

Falemos praticamente, como convém a um pai.

Alguns se dedicam tão intensamente à salvação dos outros, a tal ponto de perder pouco a pouco o espírito, terminando por per­der-se a si mesmo, sem ganhar os outros. Recordem-se que poderão ser úteis aos outros, só na medida em que forem úteis a si mes­mos. Por isso, cultivem, antes de tudo, a piedade, “porque a piedade é útil a tudo”, mas especialmente às obras do ministério. Meditem a palavra de Cristo Senhor. “Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer unido à videira, assim tam­bém vós, se não permanecerdes em mim” (Jo 15,12). Por isso nun­ca descuidem de si mesmos, mas sejam solícitos pela própria san­tificação (...).

Outros, em vez, se estabelecem em suas casas paroquiais, como negociantes nas suas lojas. Se solicitados estão imediatamente à disposição, não descuidam da instrução dos fiéis presentes; mas para o restante, nenhum zelo os move. Não pensam nas necessi­dades e nos perigos das suas ovelhas; descuidam por imprudência tempestiva, pusilanimidade ou indolência, os meios necessários. Estes homens podem ser comparados às bandeiras levantadas bem à vista, sobre torres, que não flutuam e nem se encrespam ao sopro dos ventos. Deles fala o profeta. “Não se preocuparam com a ruína de Israel (Am 6,6). Não deve ser assim a vida de um pastor. Recordai bem o que ordenou o pai de família a seu servo: “vai pelos caminhos e trilhas e obriga-os a entrar” (Lc 14,21-24).

Tais Pastores cheios de zelo é o que absolutamente se requer, em nossos dias.[8]

 

“Saí da sacristia, mas saí para santificar.”

 

Veneráveis irmãos e meus queridos cooperadores, primeira­mente fortalecei-vos sempre mais, no espírito de vossa vocação. Prossegui corajosos, nas vossas fadigas paroquiais, que não devem ser premiadas pelo mundo, mas sim por Aquele que vos chamou à honra inestimável de ser revestido de sua divina Pessoa, na obra da salvação das almas. Redobrai a operosidade e a vigilância, fa­lai claro e alto, a fim de precaver os vossos rebanhos das artes dos sedutores. Especialmente neste tempo, promovei com todo o zelo a instrução, a piedade do povo. Saí também, como se costuma dizer hoje, da sacristia, mas com a mente e o coração e cheios do Espírito Santo, saí para santificar. Os sacrifícios de vosso santo ministério são grandes, enormes, hoje, que ele é tão atravessado por todo tipo de obstáculo, mas eles, até os mais leves, são todos contados no céu: portanto, paciência e coragem![9]

 

“Saiamos de nossas tendas!”

 

Hoje, como se expressa um insigne literato moderno, não é mais permitido ficar indolentes, em nossas casas, suspirando e cho­rando, quando o fogo da descrença e da imoralidade se dilata e ameaça destruir (como o fogo humano pode fazer) a arca da fé, de nossas regiões; portanto, saiamos de nossas tendas e, antes de tudo, recordemo-nos de que não temos outras armas senão a fé e a caridade. Entremos com estas armas, conforme nos permitem as leis civis e a consciência de católicos, na vida pública, sem nos preocupar­mos com partidos políticos, prontos a morrer, antes que pactuar com a falsidade e a injustiça. Entremos na vida pública, não como inimigos do poder constituído, mas incansáveis adversários do mal, onde ele estiver; entremos, como homens da ordem, que seguindo o exemplo de Cristo e da sua Igreja, sabem tolerar também o mal; mas, nunca aprová-lo ou fazê-lo.[10]

 

“A Visita Pastoral e a celebração do Sínodo.”

 

Vós sois a nossa alegria e a nossa coroa; nem o perigo de catástrofes, nem violência de circunstâncias imprevistas, nem tribu­lações de nenhuma espécie conseguirão separar-nos de vós; com Jesus Cristo, Pastor eterno das nossas almas, possamos dizer, em verdade, quando chegar o tempo: “Pai, aqueles que me destes eu os guardei e nenhum deles se perdeu” (...).

A tristeza dos tempos, a subversão das paixões, a audácia dos partidos (não devemos iludir-nos), produziram gravíssimos males em outras partes e não deixaram intacta a nossa Diocese (...).

Um certo espírito de egoísmo e de interesse procura invadir também as classes menos abastadas e impeli-las a lucros ilícitos. Que mais? A geração crescente é fascinada pela risonha mentira, procura todos os meios para arrancá-la, se possível, de todo jugo menos daquele das paixões. Ah! nós estamos atravessando um período da história que poderia ser fatal para a salvação de muitos! E nos constrange, no mais vivo da alma “que nossos bons filhos tenham que se livrar de todos os laços, neste tenebroso século e consigam conservar-se constantes, no caminho da verdade e da justiça.

Sem dúvida, ó diletíssimos, isto acontecerá se a fé não ces­sar de reinar em vossos corações; se, em toda ocasião, vos conser­vais dóceis aos cuidados maternos e prescrições da Igreja, se pen­sardes, sempre que, um dia, de nada valerão os aplausos do mun­do, de nada servirá a proteção dos grandes, as riquezas acumula­das, em prejuízo da caridade; mas que somente uma alma sem pecado, uma consciência reta e justa diante de Deus, uma vida resignada e cheia de boas obras terão direito à recompensa eterna (...)

A vós, veneráveis irmãos, pupila dos nossos olhos e sustento de nossa fraqueza, não faremos outra recomendação, senão esta: lede e meditai assiduamente, sem nunca vos cansardes, tudo aquilo de que de comum acordo convosco, prescrevemos no Sínodo, há pouco realizado, sendo nossa intenção que ele entre plenamente em vigor em toda a diocese, no próximo dia 15 de outubro.

Quanto mais conformardes vossa conduta, com este código, tanto mais santificareis a vós mesmos e aos outros, e atraireis, so­bre vós e sobre os outros as bênçãos de Deus (...).

A sagrada Visita Pastoral e a celebração do Sínodo, eis por­tanto, veneráveis irmãos e diletíssimos filhos, dois graves e impor­tantíssimos deveres de nosso ministério Pastoral, com o auxílio de Deus, felizmente realizados.[11]

 

“Sem nos perdermos no passado, mas preparando o futuro.”

 

Mil vezes obrigado, pela sua cortez e edificante carta. Pare­ce-me que o Espírito Santo lhe concedeu o senso de Cristo, para conhecer tão rápida e tão bem, o estado de sua Diocese.

O clero, que vive isolado nas montanhas, em geral, é bom, sem pretensões, devotado ao Bispo. Mais que da correção e de atos autoritários, necessita de encorajamento e de impulsos amáveis para fazer o bem, segundo os tempos. Não terá preocupações pelo seu clero.

Sim, venerável co-irmão, é necessário, sem nos perdermos no passado, mas preparando o futuro, despertar nas gerações jovens, o espírito cristão, meio arruinado, em grande parte pelos adultos. Não será difícil, se Deus lhe conceder a graça de fazer aquilo que pensa. A onda religiosa de espírito cristão, por meio dos jovens cristãos recolhidos nos oratórios, poderá penetrar nas famílias. Estas são sempre sensibilíssimas ao bem que se faz a seus filhos. Cuidar das crianças e dos doentes, eis os dois meios, para ganhar todos para Deus. É o que repito aos párocos da minha diocese.[12]

 

“Instaurar tudo, em Cristo.”

 

É absolutamente necessário colocar Deus a frente da sociedade; reconduzir os homens a Jesus Cristo, caminho, verdade e vida; convocá-los à Igreja, mãe, mestra, tutora e defensora de todo o direito e de toda autoridade legítima; é necessário educar cristãmente a juventude, santificar a família, restabelecer a norma das prescrições e costumes cristãos, o equilíbrio entre as diversas clas­ses sociais, caminhar na profissão franca e aberta da fé, exercitar-se em toda obra da caridade, sem nenhuma atenção para consigo mes­mo e vantagens terrenas; é necessário, em uma palavra, instaurar tudo em Cristo. Este é o remédio para os nossos males; nisto está o segredo da grandeza e da força que garantem a paz e a prospe­ridade, quer nas famílias, como nas nações.[13]

 

“Estarei disposto até ao sacrifício da vida.”

 

Não abuseis mais da bondade, paciência e longanimidade di­vina; não vos iludais mais; sacudi-vos de vosso sono de morte, reentrai em vós mesmos, retomai à consciência, reconciliai-vos com Deus. Esta é a oração de vosso pastor e pai que, sinceramente vos ama. Tende, ó meus caros, piedade de vós mesmos; temei que che­gue o dia, no qual, para vossa extrema infelicidade, procurareis tempo para a penitência, sem poder encontrá-lo. Se ouvirdes hoje a voz do Senhor, atendei-a logo. Assusta-vos, talvez o número e a gravidade das culpas? Ou temeis que Deus, tão ofendido por vós, não vos acolha amorosamente? Ah! se eu, mísera criatura despro­vido como sou de toda virtude, agora tanto me consumo pelo de­sejo de vosso bem, que estou disposto ao sacrifício da vida, para ver-vos retornar à casa do vosso Pai celeste, como não anseia Ele apertar-vos ao peito, Ele que é o Deus bom, clemente e miseri­cordioso, Ele que nos declara não querer a morte do pecador, mas que se converta e viva? Coragem, portanto! Vencei todo temor, ó caríssimos, e estai certos da ajuda divina.

Tornando-vos outra vez, amigos de Deus, herdeiros do paraíso, experimentareis, nesta vida a paz dos justos e, na outra a alegria dos eleitos.[14]

 

 

b) A visita pastoral

 

“Iremos pregar, com toda simplicidade, Jesus Cristo e Este crucificado.”

 

Não espereis de nós sublimidade de eloqüência, artifícios do saber humano; iremos pregar com toda simplicidade, Jesus Cristo e Este crucificado. Jesus Cristo é o caminho, a verdade e a vida, Jesus Cristo, sem conhecimento do qual, em vão nos afadigare­mos para alcançar a salvação; Jesus Cristo, sua imensa caridade, os seus mistérios, a sua Doutrina, o magistério infalível da sua Igreja, eis o que irá animar e aumentar a vossa fé. Oh! a fé! Quan­to, ó diletíssimos, não deveis almejá-la! (...)

Procuraremos, como é nosso dever, despertar em todos vós, esta fé; a fé viva e operosa, com a qual os santos venceram o mundo e alcançaram o reino; a fé que aniquila os prazeres da carne e do sangue, que dissipa com sua luz, as trevas da razão humana, que faz ver as coisas, não pela aparência, mas na sua realidade; aquela fé, que nos é escudo e couraça, para resistir e combater, fortes contra os príncipes das trevas e contra as ini­qüidades espirituais; enfim aquela fé, como alimento quotidiano, corrobora com a graça, todas as potências da alma e forma, no dizer de São Paulo, a vida do justo. O justo vive da fé.[15]

 

“Iremos a vós em nome de Deus.”

 

Alimentemos nossa firme confiança, que o orvalho do céu des­cerá copioso, para fecundar nossas humildes fadigas e as vossas, ó veneráveis irmãos.

Que na ilustre Igreja Placentina se veja em breve, reflorescer de nova beleza a pureza dos costumes, a modéstia, a religião, a paz e particularmente, deveis espargir, ao nosso redor, o bom odor de Cristo. Sim, uma saudável esperança sustenta e nos promete, com a visita que estamos para iniciar, o despertar do sentimento católico, a observância dos dias festivos, o devido respeito aos sa­grados templos, a freqüência às solenidades da Igreja, aos Sacra­mentos, às escolas de doutrina cristã, o apego à gloriosa e infalível Sede de Pedro e ao seu digníssimo Sucessor, o Grande, o Angélico, o Imortal Pio IX, finalmente a caridade, vínculo de perfeição, alma da alma, germe e fundamento de toda virtude cristã.

Portanto, em nome de Deus, não confiando nada em nossas forças, mas tudo esperando da graça de seu Santo Espírito, nós iremos, ó filhos queridos, esperando, para vossa salvação, todo o bem do Senhor Nosso Jesus Cristo, que é o sustento dos Bispos e de sua Igreja: é a tocha que os ilumina, é o fogo que os aquece, que lhes comunica a palavra da vida, que os anima a anunciá-la aos povos, sem hesitação, sem temor, com toda a franqueza.

Felizes de nós, se nos for concedido poder consumar de tal modo a nossa carreira e assim poder dar testemunho do evangelho da graça (At 20), santificando-vos a todos e vivendo em contínua expectativa do tremendo juízo de Deus.[16]

 

“A mais doce consolação.”

 

Para dispor, convenientemente, os fiéis a esta sagrada visita, ordeno que a mesma seja precedida, em cada paróquia, por um retiro espiritual, ou ao menos por um tríduo, com pregação ex­raordinária.

Nada poupeis, meus veneráveis cooperadores, para que indo, possa dispensar o pão dos anjos a todos os meus filhos, às crianças da primeira comunhão, àqueles que estão às portas da eternidade, a todos, sem exceção.

Será esta, meus irmãos e filhos, a mais querida, a mais doce consolação que podereis oferecer ao vosso bispo, em meio aos in­cessantes cuidados e às grandes preocupações do seu pastoral ministério.

Recomendo-me de novo às vossas orações e antecipando com votos mais ardentes o momento de abraçar a todos em Jesus Cristo, vos concedo com efusão do mais intenso afeto, a bênção pastoral.[17]

 

“Estou aqui para fazer-me tudo para todos.”

 

Ide, disse Jesus Cristo a seus apóstolos, pregai aos povos, en­sinando-lhes a observar todas as coisas que vos prescrevi. E os apóstolos, obedientes àquela voz, foram passando de cidade em ci­dade, de aldeia em aldeia, de povoado em povoado, onde encon­travam seguidores do crucificado, para levar a todos a luz da verda­de e a vida da graça.

Sucessor, embora indigno, dos Apóstolos, eis-me novamente no meio de vós, filhos caríssimos. Oh! como vos revejo com sumo prazer, depois de tantos anos! Recordo ainda, com alegria, das provas de bondade que me destes ao pisar em vosso povoado. Estas provas quisestes renová-las, comemorando minha chegada entre vós, com sinais da mais viva satisfação. Agradeço-vos, caros filhos, e vos agradeço em nome de Jesus Cristo, do qual sou apenas um humilde representante. Não olheis o homem, que é muito fraco e doente, mas sim precisamente aquele que ele representa e em cujo nome ele age e cujas graças está pronto a dispensar-vos, haurindo-as dos tesouros da Igreja (...).

Eu vim para trazer-vos a paz, para abençoar as vossas famí­lias, os vossos negócios, os vossos campos, o túmulo dos vossos mortos. Estou aqui para fazer-me tudo para todos. Para falar aos adultos, com o coração cheio de afeto paterno, para invocar o divino Espírito Santo sobre a cabeça das crianças, na Confirma­ção; para consolar os aflitos, para promover de todos os modos, a glória de Deus e a salvação das almas.[18]

 

“Vossas almas são tão caras a mim, quanto me é cara a minha alma.”

 

Com a consciência tranqüila, com a recuperação da paz, o coração fortalecido na mesa do Cordeiro Divino, será mais doce, ó meus caros filhos, unir-vos ao vosso Bispo, nas santas funções, que irá celebrar. Nós iremos juntos onde repousam as cinzas dos vossos caros pais, irmãos, esposas, filhos, parentes, amigos, todos os vossos conterrâneos e prostados sobre aquela terra santa, entre a melancolia e o sublime silêncio dos túmulos, imploraremos de Deus o eterno repouso, aos vossos falecidos.

Vós, ó pais, conduzireis à igreja os vossos filhos para que eu marque suas tenras frontes com o sagrado Crisma e faça descer sobre eles o Espírito Santo, que os replene, com seus múltiplos dons, a fim de que não sejam contaminados e estragados pela corrupção.

Quando eu interrogar, ó pais, os vossos filhos sobre as coisas que todo cristão deve saber, para ser digno do nome que traz e para se salvar, servos-à gratificante ouvi-los responder, com satis­fação, as minhas perguntas.

Se algum de vossos filhos tiver necessidade de maior instru­ção, fareis em vosso coração, na presença de Deus, o santo pro­pósito de vigiar daqui por diante, com maior solicitude sua for­mação religiosa, acompanhando-o sempre ao Catecismo...

Que santo dia será para todos vós, ó meus queridos, aquele que passareis, em companhia de vosso Bispo, quando o passardes, na alegria do Senhor e em oração. Fazei que tenha o conforto ao pensar que também, desta vez, a minha visita fez um pouco de bem às vossas almas, que me são tão caras, quanto me é cara a minha alma. Eu não procuro senão as almas, não quero senão as almas de meus filhos e que nenhuma delas se perca.[19]

 

“Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas me conhecem.”

 

Fomos colocados pelo Espírito Santo, embora imerecidamente, no governo desta, por tantos títulos ilustre e gloriosa diocese Pia­zentina, e não pensamos, veneráveis irmãos e diletíssimos filhos, senão em vós e na salvação de vossas almas, que para obtê-la, Deus nos é testemunha, daremos de bom grado, se for necessário, o sangue e a vida.

Tardava muito ao coração amoroso do pai, ver seus filhos com os próprios olhos; tardava muito à solicitude do pastor, co­nhecer de perto todo o seu rebanho. Louvado seja o Senhor! Fi­nalmente, nossos votos se concretizaram.

Agora podemos dizer que não existe parte, ainda que remota, desta mística vinha, que não conheçamos completamente; pode­mos, a exemplo do príncipe e modelo dos pastores, Jesus Cristo, repetir com toda a verdade: conheço as minhas ovelhas, e as mi­nhas ovelhas me conhecem; podemos afirmar aquilo que São Paulo almejava dizer aos fiéis de Roma; com jubilo eu vim a vós, por vontade de Deus, e convosco me senti confortado.[20]

 

“Encontramos em vós a consolação da fé.”

 

Enfim, confortamo-nos por ter encontrado em vós, ó diletíssi­mos, aquelas consolações que o apóstolo tanto apreciava, as con­solações da fé (...)

Argumento desta fé, foi, antes de tudo, ver acor­rerem aos tribunais de penitência e aproximarem-se para receber, por nossas mãos o Sacramento Eucarístico, pessoas de ambos os sexos, de todas as condições, de todo grau, jovens, crianças (...)

Demonstração desta fé foi o empenho de todos em participa­rem das orações públicas, deixando de boa vontade os trabalhos e negócios; na assistência devota às funções sagradas; no escutar, com religiosa avidez, a palavra, que várias vezes ao dia, tanto nas paróquias como nos oratórios públicos e em qualquer ocasião pro­picia, não nos omitimos de anunciá-la, com liberdade evangélica, e com toda simplicidade, admoestando paternalmente a permane­cerem firmes na fé e a caminharem de maneira digna de Deus, agradando a Ele, em todas as coisas, produzindo frutos de toda boa obra e crescendo na sua ciência.

Demonstração de fé, a paciente diligência que percebemos em todos, nos mestres e mestras da Doutrina Cristã, em inculcar nas crianças, com os primeiros rudimentos da fé, o santo temor de Deus; a sábia urgência dos bons pais em enviar seus filhos à Igreja, para esta finalidade; no conduzi-los diante de nós, com transportes de viva alegria, para que fossem marcados com o santo crisma, o sinal dos fortes.

Demonstração de fé, o fato de termos encontrado, em geral, as Igrejas restauradas ou embelezadas, ou também em fase de cons­trução, pela esplêndida liberalidade e pia generosidade dos fiéis, que unidos aos seus pastores, zelosos e solícitos na decoração da casa de Deus, não pouparam sacrifícios para dotá-las de alfaias, de sagrados adornos, de preciosas obras, de nobres trabalhos.

Demonstração de fé, finalmente, o fato de vir-nos ao encontro, com grande festa, em cada povoado, que visitamos: o prostar-se, devotamente, quando passávamos, para serem abençoados; o acom­panhar-nos, por longo trecho, à nossa partida, não obstante, o mais das vezes, a aspereza e dificuldades dos caminhos, o desencadear-se das chuvas, a cheia dos rios, as intempéries e os incômodos da estação.

Grato, recordamos a eficacíssima ajuda que, na sua admirável operosidade e submissão, nos prestaram continuamente os incansá­veis filhos de S. Vicente de Paulo, precedendo-nos, em quase todas as trezentas e sessenta e cinco paróquias da Diocese, como anjos de Deus, a preparar-nos o caminho para dar ao nosso povo, aciência da  salva-ção, para remissão dos seus pecados. O fruto ver­dadeiramente copiosíssimo, que recolhemos da sagrada visita, devemos, em grande parte, a eles; devemo-lo a estes dignos operários do Evangelho; como devemos também ao nosso clero, seja regular que secular, que na mesma feliz ocasião, exerceram o santo ministé­rio da palavra.[21]

 

“Visitei a Diocese pela terceira vez”

 

Pela terceira vez, segundo a possibilidade, visitei a Diocese inspecionando 308 paróquias, administrei várias vezes durante o ano o Sacramento da Confirmação, preguei a palavra de Deus e cum­pri os deveres de Bispo.

Nesta terceira visita pastoral, subi ao monte Pena localizado a 1.700 metros acima do nível do mar. Aqueles lugares montanho­sos são habitados, durante nove meses do ano, por cerca de tre­zentos operários, extremamente pobres, que serram lenha, prepa­ram o carvão e fazem outros trabalhos do gênero; habitam debaixo de azinheiras seculares, protegendo-se das intempéries, sob seus ramos, e nunca, ou quase nunca, se beneficiam da assistência espiritual de um sacerdote. A única casa rústica que ali existe, foi transformada du­rante aquele tempo, em palácio episcopal e catedral. Permanecendo ali, por quatro dias, confortei, com a palavra e as obras de pie­dade essa porção abandonada do meu rebanho, que muito me ale­grou com a simplicidade da fé e dos costumes. Eminentíssimo Pa­dre, onde falta a obra dos homens, superabunda a graça de Deus, em favor dos fiéis que buscam Deus, com coração puro e boa vontade.

Consagrei 28 igrejas, algumas das quais totalmente novas, outras restauradas e embelezadas. Além disso, abençoei 18 consertos de sinos, na maior parte das vezes, subindo nas torres.

Havia necessidade urgente de prover muitas paróquias rurais, de cemitérios, aptos segundo as prescrições da lei.

Toda vez que se apresentou a oportunidade, não deixei de recomendar isto à autoridade civil competente, tanto pública, quan­to particularmente; não foi em vão, porque neste triênio abençoei 35 novos cemitérios, aptos e dispostos conforme as prescrições canô­nicas e sinodais.[22]

 

“Um trabalho superior as minhas forças.”

 

Quando retornei da Visita Pastoral, depois de uma ausência de várias semanas, encontro a vossa caríssima; há muito a desejava e podeis imaginar, quanto prazer me trouxe.

Estou contente em saber que estais bem, graças a Deus; eu também gozo de boa saúde, apesar das contínuas fadigas. Visitei em três semanas 20 paróquias das montanhas mais altas, fazendo a cavalo algumas centenas de milhas. Como nos sentimos bem, em meio àquela gente de fé, longe dos barulhos e dos mexericos do mundo!

Partirei durante a semana para Borgotaro e continuarei as vi­sitas, durante o mês de julho.[23]

Esta é a 123ª Paróquia que visito neste ano; é coisa de louco, mas quero recuperar o tempo perdido no ano passado. Minha saú­de, graças a Deus, está sempre ótima. Dizem que me rejuvenesço. Sim, é a Juventude da flor que de manhã nasce bela e cheia de vida e à tarde fenece. Mas pouco importa, contanto que se chegue onde estamos destinados.[24]

Pretender não ter incômodos, em nossa idade, é um pouco demais, o organismo se desgasta e nós nos aproximamos, a passos largos, do último passo. Enquanto isso fala-se, prega-se, escreve-se, cavalga-se, anda-se, suase, trabalha-se para, ao menos, agradar ao Senhor.[25]

Com vivíssima alegria, recebo aqui, onde me encontro, em Visita Pastoral, a vossa gentilíssima de 2 do corrente e vos agradeço pelo vosso afeto. grande coração e alma generosa. Estes trapalhões de jornalistas me pintaram moribundo, enquanto a minha indisposição não foi senão uma pequena febre de 24 horas, que me surpreen­deu exatamente no retorno de uma fadigante visita às paróquias dos montes Apeninos. Foram fadigas de todos os tipos, que paguei com três ou quatro dias de repouso e depois retomei o meu curso. Não sei me moderar, nem consigo me adaptar ao pensamento de mudar de método, porém devo fazê-lo.

Os anos passam; 64, as fadigas se fazem sentir, as necessida­des se tornam mais graves, a maré socialista sobe e tudo me per­suade e me impulsiona a um trabalho superior às minhas fraque­zas físicas e morais e vamos em frente, em nome do Senhor, até que posso.[26]

 

 

c) A Pregação da Palavra

 

“O verbo Divino se fez Homem e veio, Palavra inefável, falar aos homens.”

 

Filhos caríssimos, a palavra de Deus devemos antes de tudo, ouvi-la. E por que? Exatamente porque é palavra de Deus; por­que palavra d’Ele, que é nosso Criador, nosso Legislador, nosso Soberano, nosso Mestre, nosso Senhor, nosso Pai; porque sobre­tudo, sua palavra é verdade, verdade por essência, verdade abso­luta, verdade suprema, imutável, eterna; porque depois da SS. Eu­caristia, não existe sobre a terra nada que possa igualar, pela excelência, nobreza, santidades e grandeza a esta mesma palavra.

Os livros santos nos dizem que, desde toda a eternidade, Deus, contemplando a Si mesmo, pronuncia uma palavra, e esta palavra vas­ta, como sua imensidão, infinita como o seu ser, eficaz como sua onipotência, é a expressão viva, substancial, adequada de tudo aquilo que Ele é; é o seu Verbo, é a segunda Pessoa da augustíssima Trindade. Este Verbo divino se fez homem e veio, Palavra inefável, dizer aos homens a palavra de vida eterna.[27]

 

“A palavra de Deus é tão necessária quanto a fé.”

 

A fé, meus queridos, é o mais precioso de todos os tesouros, nascente de todas as graças, fundamento de todas as virtudes, raiz da nossa justificação, porta do céu. Mas como se pode ter esta fé? Mediante a palavra de Deus. Isto ensina expressamente o Após­tolo, dizendo: “Quem é aquele que, invocando o Senhor será sal­vo? Aquele que primeiramente, acreditou. Mas como acreditará, nas verdades da fé, se não as conhece? E como as conhecerá, se não há quem as explique?” Portanto, a fé de Cristo deve ser ouvida, e a escuta vem pela palavra pregada por Cristo.

“Fé deve ser ouvida: audição vem da palavra de Cristo.” Disto segue que se obtém a fé pela escuta da palavra de Deus; a pa­lavra de Deus é tão necessária, quanto a fé.

Sim, meus queridos, esta é a estrada que, via de regra, Deus estabeleceu para salvar os que n’Ele crêem. Poderia salvá-los por outras vias; pela via das aparições celestes, pela via das inspira­ções divinas, pela via dos milagres, e assim por diante. Foi do seu agrado, salvá-los por meio da pregação.[28]

 

“A palavra de Jesus Cristo não é menos que seu corpo.”

 

Devemos ouvi-la, acolhendo-a, não como palavra do homem, mas como palavra de Deus. Dizei-me, irmãos, disse Sto. Agostinho, qual destas coisas parece-vos ter maior dignidade: a palavra de Deus ou o corpo de Jesus Cristo?

Se quiserdes dizer a verdade, certamente deveis convir que a palavra de Jesus Cristo não é aos olhos de vossa fé, nada me­nos valiosa e digna de estima que o corpo de Cristo. A palavra de Deus não é menos que o Corpo de Cristo. Ora, se assim é, como é de fato, se não é menor nem menos salutar, nem menos divina que o Corpo de Cristo, a sua palavra, é fácil compreender que devemos ouvi-la com atenção, com respeito, com firme propósito de praticá-la.

Deve ser ouvida com atenção, de modo que, no dizer do mes­mo santo doutor, a diligência que usamos, quando nos é dado o Corpo de Cristo, para que nenhuma migalha caia por terra, de­vemos usá-la com a palavra divina, cuidando bem que, enquanto pensamos ou falamos de outra coisa, nenhuma delas se perca e caia fora do nosso coração. Este não é um vão escrúpulo, porque (conclui o santo, com termos que fazem tremer), porque não é me­nos culpado quem ouve negligentemente a palavra de Deus, que aquele que, por sua negligência, deixa cair por terra, uma mínima partícula do Corpo de Cristo. Não nos esqueçamos pois, ó carís­simos, que enquanto o pregador nos fala do púlpito, ou do altar, Jesus Cristo nos fala do céu; o som das palavras atinge nossos ouvidos por fora, mas o mestre está dentro, e por isso, ainda mais que os ouvidos do corpo, devemos abrir os ouvidos do espírito à sua palavra. Ele nos fará compreender de modo misterioso, mas claríssimo, aquilo que quer de nós.[29]

 

“A eficácia da palavra está unida à divindade do mistério.”

 

A palavra de Deus nada perde do seu valor e permanece sempre palavra de Deus, também nos lábios do mais ínfimo dos sacerdotes, legitimamente enviado, contanto que não ultrapasse os limites da ortodoxia; contanto que ele não tenha renunciado à fé, o Verbo de Deus se obriga a passar por sua boca, como sobre o altar se obriga a passar pelas mãos do ministro, também se o mais imperfeito.

Um celebre orador diz que Deus escolheu o homem para ilu­minar, evangelizar, instruir, santificar os homens, mas não quis que a eficácia destes ministérios confiados ao homem, dependesse da virtude, da santidade do homem, caso contrário, os homens se tornariam devedores ao homem de sua santificação e de sua sal­vação. A eficácia da palavra de Deus, notai-o bem, ó caríssimos, é ligada, não aos dotes pessoais, não ao talento e nem mesmo à san­tidade do ministro, mas à divindade do ministério, à palavra do homem, enquanto ele falar de Jesus Cristo, e em nome de Jesus Cristo, ou antes, enquanto Jesus Cristo fala através do homem.[30]

 

“A palavra evangélica é como uma carta enviada pelo Pai.”

 

A palavra evangélica é como uma carta enviada pelo Pai ce­leste. Ora, um filho devotado não fica a considerar se o papel é bom ou ruim, se as letras são nítidas ou manchadas, sem dúvida, vai imediatamente àquilo que o pai lhe disse. Portanto, também a respeito da pregação, não se deve prestar atenção a quem fala, ou ao modo como fala, mas unicamente às verdades que anuncia. Então vosso ânimo será tomado pelo mais afetuoso e profundo respeito. (...)

A palavra de Deus deve fazer de nós, cristãos de coração e de obras! Então deve primeiramente, transformar-se em afeto. De­vemos não só entender a verdade, mas devemos amá-la e não só amá-la, mas também praticá-la. A verdade se transforma em cari­dade, como ensina o Apóstolo. O sinal que a palavra divina pro­duziu em nós o seu fruto, são as obras, porque se a fé, sem a caridade é morta, a caridade, sem as obras não é caridade. Deus, quando fala, nos dá a conhecer o que devemos praticar, mas ao mesmo tempo, nos ajuda a praticar o que conhecemos.[31]

 

“A Igreja sem a pregação eucarística seria uma sociedade de utópicos.”

 

Eis o significado da vossa pregação. Aqui está toda a salva­ção e a prosperidade da Igreja. Fruto desta pregação é o deixar atrás a infância, viver e caminhar pelos caminhos da prudência. Que seria da Igreja, sem a pregação eucarística?

Uma religião, sem sacrifício, uma sociedade de utópicos, uma casa construída sobre a areia; Cristo mesmo se tornaria uma fábula, um mito.[32]

 

“O sacrifício sem a palavra seria uma comemoração ineficaz.”

 

Cristo na eucaristia é a força e a sabedoria de Deus, e nós pregamos Cristo, força e sabedoria de Deus. Refleti sobre o con­ceito de pregação. Cristo, instituindo o sacrifício e consagrando o sacerdote, disse: Fazei isto em minha memória. (lCor 11). Com seu mesmo modo de agir, uniu a pregação ao sacrifício: o sacrifício sem a palavra seria uma comemoração ineficaz. Sabeis com que su­blime a divina eloqüência, Cristo falou aos apóstolos, na última ceia, antes e depois da instituição da eucaristia. Os apóstolos con­tinuaram a pregação (...).  Dedicavam-se à pregação da palavra e os fiéis, escutando-os perseveravam na participação da fração do pio, na comunidade (...).

O divino fundador da Igreja ordenou aos apóstolos, e neles a nós, o ministério da pregação: pregai a todos o evangelho. Depois da instituição da Eucaristia: Fazei isto em minha memória. Aquilo que me vedes fazer, recordai-o com a renovação do sacrifício, e conservai viva a minha memória no coração dos fiéis, com a vossa pregação. O reino de Cristo se aperfeiçoa mediante a Eucaristia, e vós, eleitos a cooperar com esta ação divina, deveis aplicar-vos incessantemente à pregação eucarística, para dilatar e consolidar o reino de Deus. Esta pregação nunca foi tão necessária como em nossos dias, dos quais o profeta poderia dizer “a mesa do Senhor foi desprezada”.

Por que? Porque o dom de Deus é pouco conhecido: a gran­deza de Cristo, neste sacramento, é grandeza de amor; em outras palavras: porque raramente se prega Cristo no seu sacramento. Talvez alguns culparão os tempos, os erros que se difundem, os escritos ímpios, os novos escândalos que se multiplicam a cada dia: acusarão as profanações, a crassa indiferença, a diminuição da fé em muitos. Mas onde nascem estes males, senão da falta de pre­gação? Escutai o apóstolo Paulo: A fé vem pela pregação, e a pregação se exerce pela palavra de Cristo (Rm 10,17).[33]

 

“A pregação e o sacrifício eucarístico: os dois poderes com que Cristo vos revestiu.”

 

Ponderai a profecia da Sabedoria: “Anunciarei o teu nome, aos meus irmãos, louvar-te-ei, em meio a assembléia.” (Si 21).

Cristo realiza a profecia, não com a sua boca, mas com a nos­sa; com a vossa pregação e com o sacrifício eucarístico. São os dois poderes com que Cristo vos revestiu. (...)  Mediante o sacerdócio e o banquete eucarístico o esplendor de Cristo será como uma luz: Tornou a estender e “esquadrinhou a terra, olhou e as nações se dispersaram, as montanhas seculares se despedaçaram, se inclinaram os cumes do mundo”. Eis a vitória e a conquista da terra, prometida por Cristo: ainda não vemos o mundo conquistado; mas levantai os olhos e olhai os campos que já loureja a ceifa.[34]

 

“Na pregação uni o útil ao agradável.”

 

Nesta mesa, Cristo uniu o útil ao agradável; útil porque, como diz o poeta, revigora o homem perdido pelos encantos do fruto proibido, com um alimento melhor; vence o veneno da serpente com o sagrado sangue. Doce, porque exclama a esposa, “seus fru­tos são minha delícia.”

Uni os dois aspectos na vossa pregação; o útil com uma ex­plicação adequada do mistério eucarístico, segundo a analogia da fé, confirmando-a, com a autoridade dos Padres e dos Doutores; o doce, apoiando os vossos argumentos também em razões funda­das, hauridas das ciências.

Não deveis deixar-vos desencorajar pelo temor de que os fiéis, não compreendam. A compreensão dos mistérios não é fruto da inteligência natural, mas da luz da fé, que Deus infunde na ocasião da pregação, abrindo-lhes os corações. Depois de tanto ouvir, tor­nam-se inteligíveis também aqueles pontos que, a princípio, pare­ciam menos acessíveis, exatamente, porque se pregava raramente.

Fostes iniciados neste compromisso desde a vossa juventude; mas, talvez, poucos progrediram neste campo, não prestando aten­ção às palavras de Cristo: Esta é a vida eterna: que te conheçam, único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo que enviaste.” (Jo 17,3). Enganar-nos-emos se, contentando-nos com um conhecimento me­díocre, nos limitássemos a apresentar ao povo, sempre leite e nun­ca alimento sólido. A eucaristia é ao mesmo tempo, o leite para as crianças e alimento para os fortes, o pão dos robustos. Portanto, falemos aos cristãos da sabedoria escondida no mistério.

Estudai sobretudo Cristo e o seu sacramento; não preguemos somente o Cristo, concebido pela obra do Espírito Santo, nascido da Virgem Maria, que padeceu, morreu, ressuscitou, subiu aos céus, para ser nosso advogado junto ao Pai; mas preguemos também o Cristo, que cada dia perdoa os pecados, com a oblação de si mes­mo e se torna, para todos nós, sabedoria de Deus, justificação, re­denção; preguemos o Cristo que habita em nós, até a consumação do mundo, o Cristo que vive no Sacramento e que tudo atrai a si. Cristo não é uma aparição que logo desaparece, mas é Jesus Cristo ontem, hoje e sempre.[35]

 

“Não é a palavra de Deus que alguns pregam, mas a palavra do homem.”

 

Talvez nunca se pregou tanto, como no momento atual, mas porque o fruto que decorre da pregação é tão pouco?

Comumente costuma-se culpar os ouvintes; a bem da verdade, acontece muitas vezes, que a mística semente cai em uma terra ingrata, onde pedras e espinhos impedem que germine e cresça até a maturidade. Mas talvez a culpa não é também, freqüentemente, de quem vai semeando no campo do Senhor?

Sim, infelizmente, ó irmãos! é inútil disfarçar; muitas e mui­tas pregações tornam-se infrutíferas, porque já não é a palavra de Deus que alguns pregam, mas a palavra do homem. Quer-se ostentar, escreve um ilustre orador, uma ciência moderna, quer-se surpreender e maravilhar os ouvintes, com artifícios de retórica, com jogos de memória, com uma série interminável de nomes, com citações de autores de todos os tipos, com uma eloqüência jorna­lística, com alusões que aguçam a curiosidade doentia do povo, com o ardor vertiginoso da recitação (já entrevista por S. Jerônimo) com a pose teatral, com a força dos pulmões, com gritos que ofen­dem e martirizam os ouvidos. Mas eu não me cansarei nunca de estigmatizar tal eloqüência, aquela eloqüência que hoje se desejaria colocar em voga, com grande detrimento das almas, com grande descrédito da pregação; aquela eloqüência, rica de figuras e pobre de pensamentos, fecunda de expressões e estéril de sentimentos, faustosa aparência de uma opulência enganadora. Serve-se do sa­grado ministério de instruir e da palavra da verdade, para men­digar a adulação, lisonjear os ouvidos e deixar em paz as paixões; em vez de pregar Jesus Cristo, prega somente a si mesmo; tal elo­qüência é vã ostentação de espíritos levianos, de almas profanas, que se perdem em doutrinas vagas, em frívolas descrições, em pin­turas muito delicadas, em conceitos extravagantes, em períodos cir­culares, em palavras, em frases afetadas, em artícios, em flores, em ornamentos, que o gosto mais indulgente perdoaria, apenas em um romance, mas a verdade santa é obrigada a se envergonhar, como uma honesta matrona, ao ver-se coberta com as vestes de uma bailarina; aquela eloqüência que profana na substância, não menos que na forma, rebaixa o ministro sacro até o comediante, e a comédia, o ministério divino.