HOMEM DA IGREJA E PARA A IGREJA
a) PEDRA FUNDAMENTAL DA IGREJA
c) PAI A QUEM SE DEVE OBEDECER
c) ANEL DA HIERARQUIA ECLESIÁSTICA
e) IGREJA UIVERSAL E IGREJA PARTICULAR
a) O MINISTÉRIO SACERDOTAL.. 29
b) A SANTIDADE DO SACERDOTE.. 32
e) A PROMOÇÃO DAS VOCAÇÕES.. 38
A eclesiologia de Scalabrini
deve ser lida à luz das conquistas teológicas de sua época, codificadas nas
duas constituições do Concílio Vaticano I, mas já animadas pelos fermentos precursores
do Vaticano II, não suficientemente expressos no primeiro Concílio Vaticano por
causa de sua forçada interrupção.
Nas numerosas páginas
dedicadas à Igreja, convém elucidar os pontos da eclesiologia corrente, que o
Bispo escolheu como princípio inspirador da vida e da ação episcopal. Num
quadro substancialmente vertical da eclesiologia, estão ressaltados a concepção
da Igreja como extensão da Encarnação de Cristo, continuação de sua vida terrena,
sua manifestação permanente, entre os homens, família de Deus, corpo de Cristo,
comunhão dos Santos.
São
elementos que iluminam a “paixão” de Scalabrini pela Igreja, pela Igreja
universal, da qual sente a total solicitude e pela Igreja particular, amada
como esposa, zelosamente defendida ias ingerências estranhas
(“extra-hierárquicas”), em base a um conto de episcopado mais teologal que
jurídico: o bispo é o mediar da graça.
Baseado na doutrina do Concílio Vaticano 1, a atenção do Autor se concentra
sobre as “prerrogativas” do Papa: primado e infabilidade, com o amor e orgulho
de filho que sente como própria a glória do Pai e com a fé do Cristão, que no
Papa glorifica Cristo. Fé e amor se traduzem em obediência filial, não servil,
nem aduladora.
Scalabrini “sabe que é
bispo” e reivindica para si a autoridade divina, modelada sobre “bispo das
nossas almas”. A autoridade é serviço, paternidade, dedicação, responsabilidade
e co-responsabilidade “para a glória de Deus e a salvação das almas,” para os
“interesses de Jesus Cristo e da Igreja”. A mesma natureza sacramental da
Igreja é expressa na hierarquia. O “princípio hierárquico” é garantia da
transmissão da graça, mediante os canais instituidos por Cristo:Papa, bispo,
sacerdote.
O leigo
é mais beneficiário que protagonista, mas também ele sacerdote e apóstolo,
mediador do bispo e do sacerdote no mundo, como o bispo é mediador de Deus e
do Papa junto aos presbíteros e leigos.
A doutrina da “mediação”, isto
é, do bispo, único mediador legítimo entre o Papa e os fiéis, hoje
redimensionada, é sustentada por D. Scalabrini, para afirmar e defender o
princípio, colocado praticamente em discussão pela corrente “intransigente”,
que no campo da consciência, o único legislador e juiz competente é o Papa para
a Igreja universal e, para a Igreja particular o bispo, em comunhão com o Papa.
A pertença e a união à
Igreja, isto é, o conjunto de todos os cristãos eclesiásticos e leigos não é
fruto de mera “sujeição”, mas se realiza plenamente, mediante a “tríplice união
de fé, de comunhão, de obediência” ao Papa e à Igreja, que assegura a união de
vida e de graça com a cabeça: Cristo.
A Igreja é a extensão da
Encarnação, ao longo dos séculos, continuação da obra do Redentor, retrato de
Cristo, prolongamento do Pentecostes, corpo de Cristo.
A Igreja é mãe,
como tal devemos amá-la, abandonando-nos em seus braços com filial confiança.
A Igreja é Santa na
doutrina, nos sacramentos, nas leis, é mãe de santidade e
comunhão dos santos.
A Igreja é una na fé, na
comunhão, na doutrina, nos meios de salvação. Ë a família de Deus, a cidade de
Deus. É una, mas várias: um atentado à sua unidade não reconhecer a variedade
dos carismas e das funções. É una na caridade, fundamentada sobre a verdade que
não pode ser traída, nem calada.
A Igreja é mestra infalível,
imutável na fidelidade, às verdades, da fé, dinâmica na fidelidade ao
Espírito. Esposa do Cordeiro, é rainha,
a quem se deve obedecer, se quiser obedecer a Cristo, também a preço da própria
vida e do sacrifício das próprias idéias. Sua lei é a caridade, sua vida é o
amor. Quem não ama e não perdoa, não está com a Igreja.
a) CONTINUAÇÃO DA ENCARNAÇÃO ()
“A Igreja é a
extensão da Encarnação no decorrer dos séculos.”
Igreja é a extensão moral da Encarnação, no decorrer dos Séculos. Assim como em Cristo, a humanidade e a divindade, embora distintas, são intimamente unidas e inseparáveis, assim a Igreja, que O representa, continua a sua obra, produz os mesmos efeitos sobre-humanos; é ao mesmo tempo divina e humana. Mais claramente: a Igreja considerada quanto ao seu fim é uma sociedade espiritual, destinada à santificação e salvação eterna das almas; tem todavia uma parte material, visível e externa, principalmente em razão dos membros que a compõem, isto é, dos homens que não são puros espíritos, mas seres compostos de alma e de corpo. Como a missão reparadora do Homem-Deus, entendida como resgate e salvação das almas, foi sob as formas corpóreas e sensíveis da encarnação, pregação, paixão, morte, ressurreição, assim em formas materiais e sensíveis, Ele quis ligar os atos de sua religião e os meios ordinários de santificação: culto, magistério, Sacramentos. Por isso nesta sociedade religiosa discerne-se uma parte espiritual, definida como alma da Igreja. É a que vivifica, informa e encaminha todos os membros místicos e coloca-os em comunicação com seu Divino Chefe e entre si, e opera aquela feliz reciprocidade de méritos e de riquezas, chamada comunhão dos Santos, que abraça todos os justos e amigos de Deus, não só peregrinos no mundo, mas também os que, superada a carreira mortal, já chegaram à pátria, ou temporaneamente estão detidos no Purgatório, purificando-se de suas culpas.
Desta comunhão dos Santos faz parte tudo o que a Igreja possui de interno
e espiritual: a fé, a caridade, a esperança, os dons da graça, os carismas, os
frutos do Divino Espírito e todos os tesouros celestes, que pelos méritos de
Cristo Redentor e de seus servos, lhe são derivados.
A outra parte forma o corpo da Igreja, que consiste no que ela tem de visível e externo, ou seja, as sociações dos congregados, culto, ministério do ensino, em sua ordem e diretrizes externas.
A maneira como estas duas partes essenciais, que constituem a Igreja, são
inseparavelmente unidas entre si, como o é a alma ao corpo, assim entre membro
e membro, pela caridade deve reinar tal harmonia e reciprocidade de serviços
que visibilizem a imagem da unidade, da qual consta o indivíduo físico, como o
descreve o Apóstolo dizendo que “de Cristo cabeça, todo o corpo coordenado e
unido por conexões que estão ao seu dispor, trabalhando cada um conforme a
atividade que lhe é própria, — efetua esse crescimento, visando sua plena
edificação na caridade.”[1]
“A Igreja é a
verdadeira imagem do seu fundador.”
A vida da Igreja emana. diretamente de um princípio divino, que informa e
governa o seu organismo humano, a totalidade dos fiéis, no qual se posiciona,
sublimando-a. Assim, a sociedade de natureza inteiramente diversa das outras,
porque sociedade terrena--celeste, portanto verdadeira imagem do seu Fundador,
Homem e Deus ao mesmo Tempo.
Ela é quase viva encarnação de Cristo na terra, uma continuação de sua
vida mortal; Jesus Cristo difundido e comunicado, em toda a sua plenitude. De
fato a vida da Igreja é radicalmente o espírito de Deus, segundo o apóstolo:
Embora muitos, somos um só corpo em Cristo: este tudo opera num mesmo Espírito.[2]
“A Igreja é a
continuação perpétua da obra do Redentor.”
A Igreja é a depositária e a dispensadora dos Sacramentos, continuação perpétua
da obra do Redentor e do Santificador dos homens, sobre a terra. A Igreja tem
as chaves deste canal; por meio dos Sacramentos, Ela haure do seio de Deus a
graça santificante e derrama-a na alma do cristão (Is 44,3). Que dom inestimável,
fez-nos Jesus Cristo, ao fundar aqui na terra a sua Igreja e em ter-nos feito
crescer no seu seio? É no seu seio que Ele distribui seus carismas. Objeto de
suas complacências, pupila de seus olhos, palpitar do seu Coração, a Igreja é
sua única pomba, a única sua perfeita esposa e irmã ao mesmo tempo (cant.
passim). Saiu do seu lado aberto, purpureada com seu divino sangue; é santa e
imaculada (Ef 6,25).
Oh! Igreja, oh! Igreja, quanto sois querida de Jesus! Felizes somos nós por
sermos teus filhos! Na Igreja temos tudo o que pode nos guiar à salvação
eterna; fora dela, obscuridade, desolação e morte.[3]
“Jesus Cristo
se retratou na sua Igreja.”
Na criação do universo Deus estampou rastros de sua glória, sobretudo na
criação do homem que é seu chefe. Ele o fez à imagem viva de seu Ser. Jesus
Cristo retratou-se na sua Igreja. Fez o mundo das almas à sua imagem, deu-lhe a
unidade, Porque é uno; a santidade porque Ele é santo, a autoridade, porque Ele
é o Senhor, a universalidade porque Ele é o Deus imenso, a perpetuidade,
porque é o Deus eterno. Como criando os mundos ele Colocou em atividade a força
de atração, em torno da qual gravita tudo num centro comum, assim, na criação
da Igreja Ele difundiu Sua graça, esta lei de atração espiritual, que também
faz gravitar a alma para Aquele, que é o centro comum das inteligências: Deus.
Colocou na Igreja a sua graça, força profunda que lhe imprime o movimento e
a vida.[4]
“Os destinos de
Cristo e da Igreja são inseparáveis.”
Os destinos de Cristo e de sua esposa são inseparáveis. O que acontece ao
corpo físico e material de Jesus Cristo é prenúncio do que acontece e sempre
acontecerá, ao seu corpo espiritual e místico, que é a Igreja. O corpo de
Cristo foi entregue às injúrias, aos flagelos, às pancadas; e às injúrias, às
pancadas, aos flagelos é entregue a Igreja freqüentemente. O corpo de Jesus
Cristo foi suspenso na cruz, agonizou, morreu, foi sepultado; e crucificada,
agonizante e quase moribunda aparece, às vezes, a Igreja. Vede: Jesus Cristo
sai do sepulcro glorioso, impassível, imortal, exatamente do sepulcro em que
seus inimigos acreditam tê-lo sepultado para sempre; e neste momento em que os
hodiernos inimigos acreditam apagar para sempre a Igreja católica, ei-la
erguendo-se mais gloriosa, mais forte, mais bela do que nunca.[5]
“A Igreja é um
Pentecostes prolongado.”
A Igreja católica teve sua origem no Pentecostes, e por isso ela é um
Pentecostes permanente, através dos séculos. Assistida continuamente pelo
Espírito Santo, faz ouvir a todos sua respeitável voz; prega as mesmas
verdades, ordena os mesmos preceitos. Alguns inclinam profundamente a fronte,
adoram e obedecem. Outros, ao contrário, ridicularizam-na e se orgulham de não
crer. Por que tal diferença? Por que muitos em nossos dias, mancham sua língua
e sua pena, com erros e blasfêmias inacreditáveis e perdem a fé? É porque, seus
corações estão manchados. Tal é a sentença infalível de Jesus Cristo (...) a
luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas que a luz, por isso suas
obras são más. É da corrupção que nasce a incredulidade.[6]
“Somos em Jesus
Cristo, um só Corpo.”
Somos em Jesus Cristo um só corpo, e como no corpo humano, nem todos os
membros têm a mesma atividade, assim cada membro da Igreja não exerce a mesma função.
No corpo humano, a cabeça é colocada no alto, domina todos os membros,
anima-os, dirige-os e os governa. Na Igreja, como corpo místico de Jesus Cristo
(...) o Romano Pontífice, cabeça visível deste grande Corpo, tem o governo
supremo e universal sobre todos os membros, que se unem a ele. Existem os
Bispos, subordinados ao Romano Pontífice, mas governantes supremos da parte do
rebanho católico que dele, pastor Universal, receberam para cuidar e dir-se-ia
os olhos deste mesmo corpo. Seguem-se os sacerdotes e os outros ministros
inferiores que são, por assim dizer, os braços. Por último todos os fiéis que
são a plenitude e o complemento.
Surge assim uma corrente que, partindo do papa, chega ordenada e
hierarquicamente até o último camponês, que enquanto conduz penosamente o
arado, no seu campo e tem o espírito de Jesus Cristo, sente-se unido, do mesmo
modo que nos sentimos unidos nós mesmos, na fé, na caridade, na obediência ao
Papa e à Igreja. Oh! quanto desejaríamos que vos deliciásseis freqüentemente,
com estes pensamentos, tão belos e comoventes! E não é maravilhoso e comovente
o fato desta imensa família de fiéis espalhados por todo o mundo, que recitam o
mesmo credo, que se alegram com as mesmas esperanças, que freqüentam os mesmos
Sacramentos, que reconhecem o mesmo sacerdócio, que oferecem o mesmo sacrifício,
que obedecem à mesma lei, que ouvem a mesma voz do Pai comum? (...)
E não é doce para vós, ó pobrezinhos, nossos filhos amadíssimos quando vos
recolheis, nos dias festivos, no templo, para assistir aos divinos mistérios,
não é doce saber que estais em comunhão com todo o mundo, todos filhos da
mesma mãe, que todos igualmente, sem distinção de nascimento, de grau e de
educação, todos chamados a ganharem, com o
exercício das boas obras, a mesma bem-aventurada imortalidade? Não é bom
para vós, saber-vos em comunhão de afetos não só com a Igreja, que combate aqui
na terra, as gloriosas batalhas do Senhor, mas com aquela que exulta triunfante
no céu? Saber que aquilo que acreditais é o mesmo que acreditaram todas as
gerações, em todos os séculos? (...)
Oh! Salve, una, santa, católica, apostólica Igreja! Tu Mestra, tu rainha,
tu mãe, tu Corpo místico de Jesus
Cristo, vivo nos séculos. De ti vem nossa salvação, nossa glória, nossa paz,
nossa alegria, nossa felicidade, nossa vida. Ouviremos a ti nossa mestra,
obedecer-te-emos nossa soberana, amar-te-emos nossa mãe, ajudar-te-emos e te
defenderemos, como o corpo, do qual somos os membros.[7]
“Olhemos a face
de nossa Mãe!”
Somos filhos da Igreja Católica; isto não deveria ser suficiente para nos fazer vibrar? Olhemos no rosto a nossa Mãe, e envergonhemo-nos de ter feito até agora tão pouco por Ela!
O que é Ela? É a obra do milagre, é ela mesma, um milagre. Milagre
extraordinário na sua origem, milagre singular na sua propagação, milagre
permanente na sua duração. De fato, como nasceu? Nasceu, por força de milagres,
sem o mínimo apoio humano, apesar dos esforços de todo o inferno fremente ao
redor do seu berço e apesar dos imensos obstáculos, inacreditáveis, insuperáveis
por força humana. Sustentada unicamente pelo braço de Deus, não obstante todas
as potências, todos os preconceitos, todas as paixões, todos os erros do mundo,
juntos conspirados para seu dano; não obstante as perseguições de toda sorte,
que contra ela foram movidas, pelas barbáries, pela astúcia e pelo orgulho,
como relâmpago que corta do Oriente ao Ocidente, ela se propaga admiravelmente,
se estende pelo mundo todo; e, sempre em meio aos mais terríveis assaltos, em
meio aos contrastes mais insidiosos, tranqüila e serena avança, atravessa
majestosa o curso dos séculos, subsiste imutável, mantém-se invencível,
conserva-se incorrupta e triunfa gloriosamente de toda espécie de inimigos.
(...)
E não é esta uma contínua corrente de portentos inenarráveis, que nos fazem
tocar com a mão a obra do Eterno, o poder de Cristo, a força, a virtude, a
onipotência divina, comunicada, transfundida, encarnada na Igreja? E não
devemos dobrar a fronte e curvar os joelhos diante desta Rainha imortal dos
séculos, diante da Imaculada Esposa de Cristo, diante da soberana Senhora de
todos os remos, de todas as idades, de todos os povos? Não nos sentiremos
altamente honrados de pertencer a ela? Não queremos eficazmente colocar mãos à
obra pela sua glória?[8]
“A Igreja é
verdadeiramente nossa Mãe.”
Esteja sempre fixa em nossas mentes, ó caros filhos, a sentença do mártir
S. Cipriano: não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por Mãe.
E a Igreja é verdadeiramente nossa mãe, irmãos e filhos caríssimos. Esta
não é uma frase de retórica; é uma doutrina estritamente dogmática.
Como na ordem, entre nós e Deus criador estão os pais e está a série de
nossos pais, através dos quais chegamos ao primeiro homem, Adão, assim, escreve
um grande, entre nós e Jesus Cristo, na ordem sobrenatural da fé e da graça
está uma mãe, que é virgem e é exatamente a Igreja. Ela, através da
ininterrupta série de geração espiritual, remonta aos apóstolos e a Jesus
Cristo.
Como a onda da vida natural se expande de Deus sobre toda a criação, pela
obra necessária dos pais, segundo a carne, assim a onda da vida sobrenatural e
divina se expande de Cristo em todos os fiéis pela obra igualmente necessária
da Igreja, que é sua Esposa, por isso nossa mãe, destinada a nutrir-nos com o
leite de suas doutrinas, a alimentar-nos com a vida espiritual da graça, a nos
enriquecer com todos os tesouros do céu e a conduzir-nos à idade perfeita de
Cristo.[9]
“Amemos esta
mãe!”
Amemos esta mãe! Não esqueçamos de que quem não ama a Igreja não ama Jesus
Cristo e por isso não possui aquele único amor que enobrece, eleva e nos faz
amar tudo o que é digno de amor, no universo. Amemos a Igreja viva e presente
dos nossos dias, que fala pela boca de seu augusto Chefe e de seus Bispos, que
vive e sofre por nós, que conosco ora e espera. Amemo-la, como a coisa mais
querida do mundo depois de Jesus Cristo. Amemo-la, como nossa família, nossa
belíssima e afetuosíssima Mãe. Amemo-la, como aquela que melhor representa e
exprime em si infinita beleza e bondade daquele Deus, que é todo o nosso amor.
Abandonemo-nos confiantes, nos braços desta Mãe. Minha mãe me disse, exclama a
criança e proferida esta palavra, prossegue segura seu caminho. O mesmo deve
dizer cada um de nós: a Igreja disse e basta![10]
“Amar-te-emos
sempre com amor de filhos.”
Ó Igreja Católica! O filha do céu! Como são belos os teus tabernáculos!
Como são luminosas as tuas vias! Mãe dos Santos, imagem da cidade sempiterna,
conservadora eterna do sangue incorruptível, salve! Tu nos amas, com amor de
mãe e nós te amaremos sempre com amor de filhos. Como os nossos irmãos que
colheram a palavra do triunfo, esperamos também nós, nesta peregrinação mortal
santificar-nos, para não sermos indignos de ti. Seguiremos, dóceis, os teus
ensinamentos, manter-nos-emos sempre unidos a ti, sabendo que fora de ti não há
salvação. Militantes contigo sobre a terra, esperamos ser triunfantes contigo,
no céu, pelos méritos de Jesus Cristo, nosso Deus, a quem seja dada a honra, a
sabedoria, o império, as ações de graças, bênçãos, poder, fortaleza e glória
pelos séculos dos séculos. Amém.[11]
“A Igreja é Santa.”
A obra-prima de Deus Pai é Jesus Cristo e a maior obra de Jesus Cristo é a sua
Igreja, que adquiriu e purificou com seu sangue, santificou-a com seu
espírito, enriqueceu-a com seus méritos, para apresentá-la a seu Pai isenta de
toda ruga e toda mancha, e fazê-la reinar perpetuamente, com Ele, no céu. Ela é
santa por seu Autor, que é a origem e a fonte de toda santidade: Santa por seus
sacramentos, canais pelos quais chegam até nós todas as graças; Santa pelo
sacrifício incruento, com o qual oferece ao nome de Deus uma oblação pura;
Santa pelo seu culto, tão grandioso, tão belo, que inspira a fé viva, o
respeito mais profundo, a mais terna piedade, que vence todo raciocínio, que
fala fortemente ao coração, também dos heterodoxos.
Santa, em suas doutrinas. Seu principal cuidado é conservá-las incorruptas,
tais quais as recebeu do seu Fundador, para dar remédio às enfermidades
espirituais, dissipar as trevas que obstroem as mentes, incentivar seus filhos
às boas obras, estimulá-los à prática da pobreza voluntária, da obediência
mais perfeita, da virgindade angélica, da vida austera e penitente, à coragem,
ao sacrifício e ao martírio.
Santa nos seus filhos, porque o Salvador deu-se a si mesmo, a fim de
resgatá-los de toda iniqüidade, para purificar para si um povo aceitável,
zelador das boas obras (...). Vinde e vede. Os milhões de mártires
generosos, de solitários penitentes, de virgens ilibadas, de heróis de toda
espécie. O grande número de pastores e de sacerdotes, que ardem de Santo zelo
pela glória de Deus e pela salvação das almas, que se deslocam para países
longínquos, onde cintila a espada das perseguições e em todos os lugares um
feroz mal-estar ceifa as vítimas. Os religiosos são muitos, de quem mesmo os
inimigos admiram as virtudes, as austeridades, o espírito de recolhimento, de
zelo, de caridade, de desprendimento de tudo o que é terreno. Tantas almas
piedosas, ignoradas pelo mundo, mas conhecidas e amadas por Aquele que
perscruta os corações, são todos filhos da Igreja Católica. Ela, santa em si e
santa em todas as suas obras, jamais cessará de nutrir em seu próprio seio,
portentos de santidade, dignos de suprema honra dos altares e de ser por isso
mesmo, inesgotável fonte de todos os bens.[12]
“A Igreja é mãe
de santidade.”
A Santidade é o caráter próprio e inseparável da verdadeira Igreja. Deus é
a santidade por essência. Portanto, uma Igreja que vem de Deus deve trazer em
si a marca da santidade. Santa, como escreve Agostinho, é exatamente a Igreja
Católica: mãe de santidade (...).
Mananciais de santidade são, antes de tudo, as verdades que nos ensina,
pois as doutrinas promulgadas pela Igreja Católica não são simples teoria, mas
princípios eternos, dos quais emanam uma infinidade de conseqüências morais,
que divinizam a nossa natureza (...). Um Deus justo e infinitamente
misericordioso, a imortalidade da alma, a reparação da culpa por meio da
penitência, o perdão das ofensas, a paciência, a caridade, a humildade e assim
por diante, são todas doutrinas, que em cada tempo serviram para criar
inocentes e insignes heróis, sem número. Manancial de santificação são os sacramentos,
administrados pela Igreja com afeto de mãe.
Administra-nos o batismo, para limpar as manchas de nossa origem humana.
Administra-nos a confirmação, para tornar-nos fortes para combater as batalhas
do Senhor. Administra-nos a penitência, como meio de expiar nossos pecados.
Administra-nos a Eucaristia e nos dá o mesmo Autor da santidade. Administra o
matrimônio, que santifica a família. Administra a sagrada ordem, para perpetuar
na terra o Sacerdócio de Jesus Cristo. Administra-nos a Unção dos enfermos e
esparge sobre o leito de nossas agonias, as consolações do céu.
Mananciais de santidade são os preceitos que ela nos impõe, preceitos
repletos de indulgência e de bondade, com os quais esta terna mãe nos guia,
entre os perigos do mundo, ao porto da salvação, e se ocupa toda a fazer-nos
felizes, nesta e na outra vida. Ordena-nos amar a Deus de coração, de referir a
Ele, como ao fim último, os pensamentos, os afetos, as obras, tudo quanto somos
e podemos e de amar o nosso próximo, como a nós mesmos, como o amor que vem de
Deus.
Enfim, propõe-nos a imitar Jesus Crucificado, nosso Senhor, sublime
exemplo de resignação, de fortaleza, de glória, a fim de que, crucificados com
Ele às vaidades deste mundo, sejamos unidos a Ele nos sofrimentos, como na alegria.
Manancial de santificação é a comunhão dos Santos, fruto da caridade
perfeita, que une entre si a Igreja militante, a Igreja padecente e a Igreja
triunfante, formando um só corpo, do qual Jesus Cristo é a cabeça. Somos
chamados a participar dos merecimentos dos justos, ainda viandantes sobre a
terra e da glória dos eleitos do céu.[13]
“Encontrai-nos
qualquer coisa virtuosa que a religião não gere ou não inspire.”
Encontrai-nos algo virtuoso que a religião católica não gere ou não
inspire. Talvez a amizade? Mas só a religião católica pode dar-nos amigos
verdadeiros e fiéis. Talvez a gratidão? Mas é a religião católica que forma o
coração verdadeiramente bom e tempera com alegria pura o consórcio civil.
Talvez a união matrimonial? Mas é também verdade que a religião católica,
elevando-a a grau de Sacramento, torna-a estável e santa e quer que reflita em
si a imagem da união de Cristo com a Igreja. Talvez os deveres da vida civil?
Mas é igualmente o Evangelho que nos manda sejamos humildes, dóceis, afáveis,
mansos, pacientes, caridosos. Talvez a coragem? Mas que heróis poderiam ser
comparados aos que fazem o orgulho da religião católica? Talvez a boa
administração do governo? Oh, se os povos, as repúblicas, os reinos fossem governados
unicamente com as máximas do Evangelho! Onde estariam os abusos, as
injustiças, as calúnias, as ambições, os ódios, os furtos, os homicídios, os
sacrilégios, as revoltas?[14]
“O tesouro da
Igreja: a comunhão dos Santos.”
A comunhão dos Santos, ou seja, o tesouro comum de graças e de méritos que
existe na Igreja, deve-se principalmente à cabeça (...). Portanto é a Jesus
Cristo que a Igreja é devedora, pela plenitude de seus bens. Oh, eu não me
admiro senão deste fundo de reservas inesgotáveis, infinito. O sangue de Jesus Cristo,
este sangue adorável, do qual uma só gota instilada é suficiente para o mundo;
suas lágrimas, suas orações, sua vida, suas obras, suas fadigas, suas dores,
eis que o que forma e alimenta o tesouro da Igreja. É uma corrente de méritos,
que se estende de uma a outra extremidade da terra; é um rio de graças, que
escorre incessante sobre a humanidade e a fecunda (...).
Se é sobretudo da cabeça que deriva a vida dos membros, não se deve pensar que
os membros sejam estranhos a esta vida. Pois o Apóstolo disse: Deus criou o
corpo de tal modo, que os membros tenham necessidade recíproca uns dos outros,
a fim de que a abundância de uns possa suprir a indigência dos outros.
Pois bem, se tal é a condição natural do corpo do homem, do corpo da família, do corpo da cidade, não deverá isto se verificar na Igreja, que é o Corpo de Jesus Cristo, a família dos eleitos, a cidade de Deus?
Um olhar às inumeráveis multidões dos Santos, que passaram sobre a terra e
que hoje triunfam no céu. Quantos sofrimentos, quantas orações e quantos
sacrifícios vão desembocar, como tantos outros riachos, no mar infinito dos
méritos de Jesus Cristo, que formam o tesouro da Igreja!
Eu vejo neste tesouro não só os méritos super-abundantes, satisfatórios e
impetrativos de Cristo, mas outrossim, da Virgem e dos Santos: vejo o sangue
dos mártires, as austeridades dos anacoretas, o zelo dos apóstolos, a fé dos
confessores, as palmas das virgens; vossas boas obras, as orações, que hoje
elevastes a Deus em união com vosso Bispo, estão lá. Em virtude da comunhão dos
Santos, a nossa oração sai deste templo, voa nas asas dos Anjos, atravessa os
Oceanos, vai direta ao coração de nossos irmãos distantes, de nossos irmãos
impenitentes, de nossos irmãos separados. Ela lhes leva o bálsamo da
consolação, a graça do remorso, o dom da perseverança. A comunhão dos santos
se estende por toda a parte. Para ela não existe limite, nem de tempo, nem de
espaço.[15]
“O dogma da comunhão dos Santos é doce, é consolador.”
Não ouvis os gemidos, que chegam a nós, do profundo? Tende Piedade de mim,
ao menos vós que fostes um dia meus amigos. (...) São vozes de lamento e de
dor. É a voz de um pai, de uma mãe, de um irmão, de uma irmã, de uma filha, de
uma esposa, que sobe a nós do cárcere da expiação, para implorar os nossos
sufrágios, pois nem a dor destrói a comunhão dos Santos. E por que a expiação
dos justos romperia esta comunhão? Não pertencem eles, como nós, ao corpo de
Jesus Cristo? Não são também membros vivos da família dos eleitos e da cidade
de Deus? Por que então não teriam parte ao tesouro comum da Igreja, à nossa
satisfação, aos nossos sacrifícios, às nossas intercessões? Quão doce e
consolador é o dogma da comunhão dos Santos! O céu reza, a terra reza, o
purgatório reza. A Igreja padecente, a Igreja militante, a Igreja triunfante
estão unidas por uma mútua troca de súplicas e de méritos. Do purgatório a
oração sobe à terra, da terra se eleva ao céu e lá através dos Santos, obtém o
refrigério, a luz e a paz. O céu e purgatório rezam por nós e nós pobres
exilados e peregrinos rezamos ao céu, entre os sofrimentos e a glória.
É por nosso meio que o grito daquelas almas prisioneiras chega até o trono
de Deus. Do céu a abundância das divinas misericórdias se derrama sobre a
terra, da terra, qual celeste orvalho, cai até o purgatório, onde pousa sobre
os lábios ardentes pelas chamas expiatórias.[16]
“Unidade de fé,
e de comunhão.”
A verdadeira Igreja de Jesus Cristo, prefigurada no antigo Testamento pela
Arca de Noé, pelo Monte Sião, denominada a vinha, o campo, a barca, o rebanho,
a casa, o exército, o Reino de Deus, o Corpo de Cristo, deve levar na fronte
coruscante de luz vivíssima, o sinal da unidade. Como um é o Senhor, uma é a fé,
um é o batismo, assim deve existir unidade de crença naqueles que pertencem à
Igreja. Jesus Cristo morreu para reunir os filhos de Deus que estavam
dispersos, assim deve manter a unidade de caridade e de comunhão. A profissão
da mesma doutrina, ou seja a unidade de fé; a inteira submissão ao mesmo chefe,
representante de Deus, a unidade de comunhão, era o supremo pensamento do
Divino Salvador, quando orava fervorosamente ao Pai, pelos seus seguidores
presentes e futuros, a fim de que sejam todos uma só coisa, como Tu estás em
mim; ó Pai e eu em Ti; que eles sejam uma só coisa em nós. Era a dúplice
unidade que apregoava o Apóstolo com as palavras: sede solícitos em conservar a
unidade do Espírito, mediante o vínculo da paz.[17]
“Unidade de fé,
unidade de sistema, unidade de Sacramentos.”
Sendo Deus a verdade una, é necessário que também a verdadeira Igreja seja
una. E a unidade é de fato o primeiro sinal que brilha na fronte da Igreja de
Cristo. Unidade de fé, unidade de sistema, unidade de sacramentos, como
exatamente Cristo a constituiu! Unidade
de fé, porque todos os membros que a compõem devem crer as mesmas verdades,
professar as mesmas doutrinas, sob pena de deixarem de ser católicos. Nenhuma
permissão de pensamento, nenhuma extravagância de interpretação pessoal e
nenhuma ingerência do indivíduo, no que diz respeito à fé.
Unidade de regime, pois que a Igreja de Cristo forma uma só imensa família,
um corpo conjunto, uma verdadeira sociedade ordenada e formada por organismo
interno e externo, perfeita em cada uma de suas partes.
Em cada Diocese um Bispo, que é o Pai, o Pastor, o Mestre. Acima de todos
os Bispos, o Papa, que é o fundamento de todos, o Chefe, o monarca. Tudo se
concentra no Papa e do Papa tudo emana para os fiéis, com admirável circulação
de vida, que arranca admiração dos incrédulos e os leva a venerar a maravilhosa
estrutura, a surpreendente unidade da grande Hierarquia Social.
Unidade de sacramentos, pois, todos, na Igreja de Cristo, recebem os
mesmos sacramentos substancialmente, do mesmo modo. Todos rezam com as mesmas
palavras, todos oferecem a Deus o mesmo sacrifício de louvor, a mesma oblação
pura, que fora predita, que se deveria oferecer do oriente ao ocidente, em
todo o mundo.[18]
“A Igreja é o
Corpo de Cristo, uma família, uma cidade.”
A Igreja, disse o Apóstolo, é o Corpo de Jesus Cristo. Ora, às membros de
um corpo estão unidos entre si por uma troca Contínua de mútuos serviços. Um
membro sustenta e ajuda o outro e todos juntos participam dos mesmos bens, isto
é, da força, da saúde, do movimento da vida. Um membro que deixasse de concorrer
para o bem estar geral, ou de haurir desta nascente comum, tornar-se-ia
impotente e deixaria de viver.
Por isso, não se pode dizer: eu não preciso de ti, pois que todos, a cabeça, como as mãos, como os pés contribuem para a beleza, para a harmonia do todo.
A Igreja é uma família. Ora, todos os membros de uma família estão unidos
entre si, de maneira semelhante. O mais fraco se apoia no mais forte e o mais forte
protege o mais fraco. O nome, a fortuna, a saúde de um, se transforma em
patrimônio de todos e forma uma reserva comum. O poder do Pai se comunica à mãe
e aos filhos. O amor da mãe se divide entre os filhos e o pai. A inocência dos
filhos se reflete nos pais. O ganho de um torna-se lucro dos outros; a sua
pobreza, pobreza deles; sua desonra, desonra deles, sua glória, glória deles.
Quando um membro da família sofre, todos sofrem com ele; quando um se alegra,
todos se alegram com ele. Assim a família humana é como o corpo humano, uma
troca de serviços e de funções recíprocas, em mútua ligação de amor.
A Igreja é uma cidade fundada no cume de uma alta montanha. Ora, também
aqui, a riqueza de uns é para o proveito dos outros e a abundância destes supre
a carência daqueles. Uns contribuem com trabalho para o sustento comum, outros
cuidam do bom andamento do bem público. Cada um tem seu valor pessoal próprio,
os seus títulos, mas existe um tesouro comum do qual todos participam, conforme
os seus direitos e as suas capacidades. Admirável harmonia na qual tudo se
entrelaça, une-se, coordena-se em uma vasta comunicação de necessidades e de
benefícios.[19]
“A variedade
não prejudica a admirável unidade.”
Olhai este santo edifício e vede como a variedade não prejudica em nada, a
admirável unidade. Cada pedra tem a sua forma, a sua posição, o seu destino
particular. Umas são colocadas na base, outras no cume. As mais ricas e belas
adornam o santuário e o altar. As mais comuns, mas não menos úteis, colocadas
em toda parte, formam o corpo principal do edifício. Umas sepultadas no solo e
ignoradas, sustentam o peso de todo o edifício. Outras expostas aos olhos dos
homens, muitas vezes não são senão acessórios, se forem tiradas, o templo não
será menos belo, nem menos sólido.
Eis uma imagem viva da sociedade, da família, da Igreja, tal como fora
instituída por Deus. Nela, cada um deve ocupar o próprio lugar, aceitar com
docilidade inalterável a posição em que Deus o colocou, já que é Deus o Autor
das honras, o distribuidor das dignidades, o árbitro supremo da nossa sorte. A
verdadeira glória da alma cristã está em cumprir o querer divino, para edificar,
como escreve S. Paulo, sobre o fundamento dos Apóstolos e dos profetas, sendo o
mesmo Jesus Cristo pedra angular, sobre a qual todo o edifício se levanta,
unido em templo santo do Senhor; sobre o qual, também, vós sois juntamente
edificados em habitação de Deus, mediante o Espírito.
Mas como estas pedras (...) não formariam um sólido edifício
se não aderissem umas às outras, em uma certa ordem, se não estivessem unidas
em paz e quase, em amor recíproco, assim os cristãos não formam verdadeiramente
a casa de Deus, senão quando estão estreitamente unidos com vínculos de
caridade: “Não formam a casa do Senhor senão quando unidos pela caridade”.
A caridade (...) é o nobre cimento da sociedade cristã. É a grande lei de
atração, que aperfeiçoa e confirma o amor mútuo que devemos aos nossos irmãos,
que dá ao coração humano a solidez e a elasticidade, enchendo-o de força, de
compaixão e de misericórdia.[20]
“Fortes na
verdade, fortes na caridade, fortes na unidade.”
Diremos a todos: sede firmes, impávidos, irremovíveis em sustentar e em
defender os sacrossantos direitos da Igreja e do Augusto Chefe, mas sempre,
como prescreve Leão XIII, com aquela moderação de atitude e de linguagem, que
não tira, mas acrescenta força ao direito e à verdade e a torna acessível
também às mentes mais rebeldes. Se nós insistimos tanto sobre este ponto, é
que infelizmente estamos em tempos, nos quais as máximas mais elementares do
cristianismo são por muitos desfiguradas ou minimizadas, não repetidas
suficientemente.
Assim nossa fortaleza se torne amável, pela prudência e pela caridade, e a
prudência e a caridade recebam eficácia da fortaleza. Resisti fortes na fé!
Fortes na verdade, fortes na caridade, fortes também, na unidade, que é o
cumprimento e o efeito da caridade.
Unidade! É esta a última recomendação que nos fez o Santo Padre, com
linguagem vibrante e afetuosa. E é exatamente esta recomendação que, em seu
nome, vos fazemos com todo o ardor do nosso coração. Unidade! Unidade de mente,
unidade de coração, unidade de ação. Nos tempos difíceis que atravessamos, não
podemos nos sustentar, senão permanecendo unidos, e não existe sacrifício de
idéias próprias, que não devamos fazer, para manter esta unidade, única que
possui o segredo da vitória.[21]
“Um sistema de
liberalismo realmente novo.”
Que se deverá dizer daqueles, que, não satisfeitos com a parte de súditos,
que lhe cabe na Igreja de Deus, acreditam poder ter também alguma parte no seu
governo?
Sobre esta pretensão doentia foram fabricando um sistema de liberalismo
novo, tanto mais perigoso, quanto mais procuram revesti-lo de belas
aparências. Sistema farisaico, que infelizmente seduz tantas almas simples, e
invade algumas mentes ainda não perversas. nem egoístas. Sistema anárquico, que
acaba por dividir as nossas forças e lançar a discórdia entre os filhos do
mesmo pai, entre os membros da mesma família. Sistema bárbaro, que não se
constrange em magoar espíritos imortais, que mata todo germe de caridade no
coração de muitos (...)
Os maiores perigos para a Igreja não são as perseguições violentas e
bárbaras, para as quais está preparada desde século, e graças a Deus sabe tirar
delas as suas vantagens; não são as discussões da razão iluminada e da
ciência, porque sabe certamente, sair vitoriosa. A razão, a história, as
promessas divinas estão com ela. Os seus maiores e mais temíveis inimigos são a
fraqueza de alguns dos seus, sua louca soberba, seus objetivos ambiciosos, suas
artes hipócritas; são as suas atitudes, suas ações não conformes ao espírito
dos verdadeiros e perfeitos católicos, que se orgulham de o ser.[22]
“Menosprezo das
virtudes mais amáveis do cristianismo.”
Sentimos dever elevar a voz outra vez, contra a nova manifestação do fatal
sistema, e uma vez mais, recordar totalmente não conforme ao espírito puramente
católico, aquele desfazer-se como costumam, em demonstrações de acatamento e de
devoção ao Papa, ao mesmo tempo que ousam diminuir o respeito devido aos Bispos
unidos a Ele, contrariando com modos indiretos, ou distorcendo ameaçadoramente,
os atos e as intenções com o identificar, por assim dizer, a Santa Sé consigo
mesmos, proclamando-se defensores, os únicos filhos devotos, os únicos seus
porta-vozes fiéis. Apontam como rebeldes, à Igreja, pessoas devotíssimas à
mesma, revestidas também de autoridade (...). Pretendem o monopólio exclusivo
do catolicismo, afetando uma linguagem de mestres infalíveis, condenando e
anatematizando em nome da religião e do Papa, quantos não partilham de suas
opiniões, e freqüentemente de seus exageros e extravagâncias (...).
Pretendem resolver com plebiscitos mais ou menos espontâneos, feitos por
pessoas sem autoridade e quase sempre incompetentes, as questões mais
complexas, mais árduas e mais delicadas, que às vezes surgem no campo religioso
ou científico-religioso (...). Unem
com os inimigos da religião, pessoas respeitáveis sobre todos os pontos de
vista. Não poucas vezes movem-lhe acusações de violada ou suspeita fé
católica, porque têm opiniões diferentes em matérias puramente políticas, ou
deixadas ainda livres às discussões dos doutos da sábia moderação da S. Sé
(...). Não vêem nada de bom, antes
tudo de mal, no que se pensa ou se faz, por aqueles que são, ou se supõem,
contrários às suas idéias (...). Simulam
descuido pelas virtudes mais amáveis do Cristianismo e escarnecem quem as
propaga e mostra tê-las como preciosissimas e caras (...).
Tudo isto está em franca oposição com o espírito que deve animar o católico
sincero, e perde o sentido de Cristo quem não o compreende, e não o
experimenta.[23]
“A unidade
hierárquica é essencial.”
Não somente a unidade dogmática, mas também a hierárquica pertence à unidade
essencial da Igreja. Por ela, Cristo rezou ao Pai, a fim de que os fiéis fossem
um, “assim como Eu e o Pai somos um”.[24]
“Aí de quem
ousa rompê-la!”
Nestes tempos de anarquia não será demais repetir: estejamos unidos! O povo
com seus párocos; o pároco e o clero entre si na ordem hierárquica; todos,
clero e povo, com o Bispo, em união perfeita com o Papa, supremo Monarca, anel
que vos estreita ao Pastor invisível, Jesus Cristo. Eis a sagrada corrente que
existe na Igreja de Deus. Ai de quem ousa rompê-la! Quem se separa do seu elo
imediato, Deus o permitindo, torna-se joguete dos tristes e instrumento de
perdição para muitos.[25]
“A Igreja tem
necessidade de manter-se completamente unida, para vencer.”
O espírito de contestação sempre
foi reprovável e sobre isto deve-se insistir hoje. Estamos diante de adversários orgulhosos, que não
desejam senão a ruína da Igreja e das
almas. Na luta, que atualmente se enfrenta por coisas da mais alta importância,
diz o Santo Padre, devem todos, com a mesma compreensão e com um mesmo
espírito, orientar suas forças, para o bem comum, que e colocar a salvo os
grandes interesses religiosos e sociais.
As disputas mais ou menos apaixonadas de certos espíritos irrequietos não
levarão a isto; nem as discussões mais ou menos sutis, sobre o modo de
organizar as forças; nem a submissão forçada e aparente, que deixa subsistir
no fundo do coração a desconfiança, a suspeita, a divisão; nem as competições,
as invejas, as tendências exclusivas e egoístas; enfim, nem aquele zelo amargo
e temerário, que confunde a força do sagrado ministério com a violência cega
dos partidos, que acredita prestar homenagem a Deus atacando os homens, também
os mais íntegros e devotados aos interesses da Igreja e do seu Chefe Augusto,
devotados sem ostentação, sem fingimentos e sem paixões humanas.
O que colocará a salvo as razões da Sé Apostólica, no seio da Igreja,
reconduzirá à ordem e, como a ordem, a paz será, não nos cansaremos de
repeti-lo, a observância da dependência hierárquica, o abandono confiante e
submisso, próprio dos filhos, à paterna autoridade que os governa; será a
submissão plena da inteligência e da vontade aos próprios Pastares, e por eles
e com eles, ao Pastor da Igreja que a todos guia.
A Igreja, para vencer, só tem necessidade de manter-se completamente
organizada. Nisto o segredo de sua força, nisto a garantia da vitória.[26]
“Também entre
as Igrejas dissidentes, a Igreja Católica tem filhos.”
É evidente que os caminhos de Deus não são os nossos. Entre as Igrejas
dissidentes, a Igreja católica tem filhos, se não de fato, ao menos de desejo;
almas generosas, que seriam dignas de ter nascido no seio da unidade, e que
talvez lhe pertençam por meio de laços invisíveis e ocultos, que só Deus
conhece (...).
Separados do corpo da Igreja, eles pertencem à sua alma, e quando a
política não tiver mais interesse em conservar o muro de divisão, que mantém
separada a grande família européia; quando os interesses da terra
desaparecerem diante dos interesses do céu: quando a grande lei da caridade
evangélica for melhor entendida e praticada por todos, oh! então, o Pastor
universal verá, com feliz surpresa,
ovelhas em grande número, que lhe pertenciam lá onde talvez o olho não
divisava senão lobos; então o Oriente e o Ocidente se abraçarão como irmãos, em
um mesmo santuário e Santa Sofia de Constantinopla ouvirá ecoar sob suas
abóbadas o Te Deum de outros tempos, enquanto exultarão de júbilo os ossos
imortais dos Crisóstomos e dos Nazianzenos; então, de todos os pontos da terra,
os povos mais distantes e diversos se voltarão para o centro da unidade, para
Roma (...); então não teremos mais
pressentimentos, mas a certeza de que todas as famílias formarão uma só
família, todos os povos um só povo, toda humanidade um só rebanho, sob a guia
de um só Pastor.[27]
“A grande
unidade para a qual caminhamos a passos largos.”
Há de chegar o dia, em que a justiça e a paz se beijarão na fronte, com
nova luz sobre o mundo, o sol da civilização cristã, o edifício social se
erguerá, sobre bases inabaláveis.
Cabe-nos antecipar este dia. De que maneira? Ganhando os irmãos para a
verdade, mais com o exemplo, do que com as palavras; professando abertamente a
nossa fé, agindo conforme a mesma, aplicando-nos a fazer com que no ânimo de
todos, como já acontece para muitos, se imprima a convicção de que a Itália só
pode esperar salvação e bem-estar verdadeiro do Romano Pontífice. Esta nobre e
santa compreensão, inspirada no mais puro amor à Igreja e à pátria, deve desde
agora, voltar-se à ação comum, esquecendo toda competição de partidos. Todos,
com a influência das virtudes que nos são impostas, devemos preparar um povo
capaz de ser governado, com regime paterno, facilitando assim, aos governantes
da obra pública, a sua árdua tarefa. Devemos, antes de tudo, recorrer a Deus
com a oração; não nos esqueçamos de que, se o Senhor não guarda a cidade, em
vão vigiam as sentinelas (SI 126).
Oh! rezemos, diletíssímos. Rezemos, para que os errantes retomem à fé; se
estenda sempre mais o Reino de Jesus Cristo, cumpram-se os desígnios de seu
Vigário. Rezemos e esperemos. Já esta acontecendo um retorno a idéias sadias e
justas. Desde há muito se refaz o caminho, se reconhece ao menos a necessidade
de refazê-lo. As desilusões e os desenganas sacodem multidões, de forma sadia;
percebe-se que a impiedade, apesar de mascarada, não é senão tirania, suas
promessas são enganadoras, seus frutos são mortíferos. Os escritores mais lidos
desdizem hoje aquilo que ontem afirmavam, com arrogância e sobre os lábios de
homens investidos de poder ressoam, embora timidamente, palavras preciosas, há
muitos anos em desuso. Tudo manifesta uma lenta, mas progressiva evolução de
idéias; tudo deixa antever que a sociedade, nauseada pelo mundo materialista,
que a corrompe e degrada, encaminha-se para a desejada renovação. Tudo
anuncia, como dizia De Maístre, não sei a que grande unidade, para a qual
caminhamos a passas largos.
É sem dúvida a unidade predita no Evangelho, a unidade religiosa por meio
da Igreja, a unidade de toda a terra no fim dos tempos onde haverá um só rebanho e um só Pastor.
Meus queridos, o homem se agita, mas Deus o conduz. Rezemos e esperemos.[28]
“A Igreja é
Mestra infalível.”
A Igreja Católica, no seu conjunto, é a sociedade dos anjos e dos fiéis, que
atravessa os séculos e passa sobre a terra para recolher-se na santa unidade
universal e perpétua e retornar com os seus filhos à eternidade de onde saiu. É
ela a assembléia dos filhos de Deus, o exército do Deus vivo, o seu reino, a
sua cidade, o seu trono, o seu tabernáculo. É a nobre sociedade, que existe
desde o princípio dos séculos e que aparece nas sombras e nas figuras com
Adão, anunciada pelos Patriarcas, acreditada em Abraão, revelada por Moisés,
profetizada por Isaías; no seu último período se manifesta em Jesus Cristo,
como uma sociedade de homens, unidos pela profissão da mesma fé, pela
participação aos mesmos sacramentos, sob o governo dos legítimos Pastares e
principalmente do Romano Pontífice, Chefe visível, Chefe supremo, Pastor universal
desta feliz reunião, fundada pelo Homem-Deus.
Jesus Cristo se compraz em entregar-lhe o depósito da revelação, o
conjunto total das doutrinas pertencentes à fé e à moral! Ele mesmo trouxe-as
do céu, para ensiná-las a todas as gerações com certeza, com facilidade e sem
mistura de erros. Era necessário que fosse enriquecida com a gloriosa qualidade
de mestre infalível, a fim de transmitir, em todos os tempos, as verdades
reveladas, tais como as recebeu de seus próprios lábios divinos (...).
Não acolher todas as definições do Concílio, com plena e pronta submissão
de intelecto e de vontade, sem restrições, sem transações, hesitações ou
compromisso é não só negar a verdade particular que contraria as próprias
idéias, como negar o infalível magistério, que no-la propõe a crer; é destruir
o catolicismo e ferir mortalmente a mesma sociedade.
De fato, com o magistério infalível da Igreja, o Catolicismo ó divino, a
filosofia é por ele conduzida à fé; o mundo é renovado por Ele; o martírio torna-se racional. Os
Concílios são reconhecidos e respeitados, as heresias destroçadas, a ciência e
a sociedade fecundadas, a moral assegurada, a paz da consciência certa e
tranquila, todos os frutos da santificação derramados abundantemente sobre os
povos, a existência da Igreja invencível, a sua unidade indissolúvel. Tirai da
Igreja católica esta gloriosa prerrogativa e ela se desmantelará e se
destruirá, como se desmantelou e destruiu a fé naquelas almas infelizes, que
combateram nestes últimos anos, as suas santas e solenes definições.[29]
“A Igreja
docente e a Igreja discente.”
Se existe, por ordem divina, uma autoridade unitiva e dirigente, esta
pertence à ordem sacerdotal; deveis, portanto, reconhecer que na Igreja existe
distinção de classes, de serviços e de poder. Existe superior e súdito, existe
pastor e rebanho; existe quem ensina e quem aprende, quem apascenta e quem é
apascentado. Existe, em outros termos, a Igreja docente e a Igreja discente, as
quais, embora distintas entre si, não formam senão uma só e mesma Igreja.
À primeira pertencem os sucessores dos Apóstolos, os Bispos e especialmente
o sucessor do Príncipe dos Apóstolos, o Papa. À segunda pertencem todos os
fiéis. Quanto aos simples sacerdotes, se de um lado parecem pertencer à Igreja
docente, enquanto administram os Sacramentos e ensinam os fiéis, na realidade
pertencem à Igreja discente, porque não possuem a plenitude do Sacerdócio,
porque não têm nenhuma jurisdição, porque não administram Sacramentos, nem
ensinam os fiéis, senão enquanto são autorizados pelos bispos.[30]
“A
infalibilidade do Papa não é separada da fé de Igreja.”
O Papa é pessoalmente infalível, mas a sua infalibilidade não pode ser
pessoal e separada, de tal modo que sua fé seja desligada da fé da Igreja. A
Igreja é um corpo vivo e não um cadáver, nenhum poder terreno pode roubar-lhe
a força vital, porque é divina e reflete em si, a vida íntima de
Deus. O Papa é cabeça, os Bispos são os membros do corpo docente e vivo.
Se a cabeça pudesse se separar dos membros, teríeis um corpo morto, e a
Igreja, contra as promessas de Jesus Cristo, seria destruída.
Portanto, o Pontífice, que em si mesmo une e concentra todo o episcopado,
nunca poderá encontrar-se solitário e isolado, quando ensina a todos os fiéis
as coisas da fé e da moral, porque o Espírito Santo, que assiste a cabeça e a
defende de todo erro, opera e inspira a submissão aos Bispos, que unidos a
Pedro formam a verdadeira Igreja (...).
O Papa é infalível, mas a sua infalibil