SEGUNDA PARTE

 

SEGUNDA PARTE.. 1

HOMEM DA IGREJA E PARA A IGREJA... 1

1.  A IGREJA... 2

A) CONTINUAÇÃO DA ENCARNAÇÃO... 2

B) NOSSA MÃE.. 4

C) A IGREJA É SANTA... 5

D) A IGREJA É UNA... 6

E) A IGREJA É MESTRA... 10

F) A IGREJA É SOBERANA... 12

G) A LEI DA IGREJA É O AMOR!. 13

 

2.  O PAPA... 14

a) PEDRA FUNDAMENTAL DA IGREJA... 14

b) PAI QUE SE DEVE AMAR... 15

c) PAI A QUEM SE DEVE OBEDECER... 17

 

3. O BISPO... 18

a) “SEI QUE SOU BISPO”. 18

b) PATERNIDADE E SERVIÇO... 21

c) ANEL DA HIERARQUIA ECLESIÁSTICA... 22

d) NÃO POSSO CALAR... 25

e) IGREJA UIVERSAL E IGREJA PARTICULAR... 27

 

4.  O SACERDOTE.. 29

 

a) O MINISTÉRIO SACERDOTAL.. 29

b) A SANTIDADE DO SACERDOTE.. 32

c) A ORAÇÃO DO SACERDOTE.. 34

d) A CIÊNCIA DO CLERO... 36

e) A PROMOÇÃO DAS VOCAÇÕES.. 38

 

5.  O LEIGO... 39

a) O SACERDÓCIO DOS FIEIS.. 39

b) A AÇÃO DO LEIGO... 41

c) A CONFISSÃO DA FÉ.. 43

 

 

 

 

 

HOMEM DA IGREJA E PARA A IGREJA ()

 

 

A eclesiologia de Scalabrini deve ser lida à luz das conquistas teológicas de sua época, codificadas nas duas constituições do Con­cílio Vaticano I, mas já animadas pelos fermentos precursores do Vaticano II, não suficientemente expressos no primeiro Concílio Vaticano por causa de sua forçada interrupção.

Nas numerosas páginas dedicadas à Igreja, convém elucidar os pontos da eclesiologia corrente, que o Bispo escolheu como princípio inspirador da vida e da ação episcopal. Num quadro substancialmente vertical da eclesiologia, estão ressaltados a concepção da Igreja como extensão da Encarnação de Cristo, continuação de sua vida terre­na, sua manifestação permanente, entre os homens, família de Deus, corpo de Cristo, comunhão dos Santos.

São elementos que iluminam a “paixão” de Scalabrini pela Igreja, pela Igreja universal, da qual sente a total solicitude e pela Igreja particular, amada como esposa, zelosamente defendida ias ingerências estranhas (“extra-hierárquicas”), em base a um con­to de episcopado mais teologal que jurídico: o bispo é o media­r da graça.

Baseado na doutrina do Concílio Vaticano 1, a atenção do Autor se concentra sobre as “prerrogativas” do Papa: primado e infabilidade, com o amor e orgulho de filho que sente como pró­pria a glória do Pai e com a fé do Cristão, que no Papa glorifica Cristo. Fé e amor se traduzem em obediência filial, não servil, nem aduladora.

Scalabrini “sabe que é bispo” e reivindica para si a autoridade divina, modelada sobre “bispo das nossas almas”. A autoridade é serviço, paternidade, dedicação, responsabilidade e co-responsabili­dade “para a glória de Deus e a salvação das almas,” para os “inte­resses de Jesus Cristo e da Igreja”. A mesma natureza sacramental da Igreja é expressa na hierarquia. O “princípio hierárquico” é garantia da transmissão da graça, mediante os canais instituidos por Cristo:Papa, bispo, sacerdote.

O leigo é mais beneficiário que protagonista, mas também ele sacerdote e apóstolo, mediador do bispo e do sacerdote no mun­do, como o bispo é mediador de Deus e do Papa junto aos pres­bíteros e leigos.

A doutrina da “mediação”, isto é, do bispo, único mediador le­gítimo entre o Papa e os fiéis, hoje redimensionada, é sustentada por D. Scalabrini, para afirmar e defender o princípio, colocado praticamente em discussão pela corrente “intransigente”, que no campo da consciência, o único legislador e juiz competente é o Papa para a Igreja universal e, para a Igreja particular o bispo, em comunhão com o Papa.

A pertença e a união à Igreja, isto é, o conjunto de todos os cristãos eclesiásticos e leigos não é fruto de mera “sujeição”, mas se realiza plenamente, mediante a “tríplice união de fé, de comu­nhão, de obediência” ao Papa e à Igreja, que assegura a união de vida e de graça com a cabeça: Cristo.

 

 

1.  A IGREJA ()

 

A Igreja é a extensão da Encarnação, ao longo dos séculos, continuação da obra do Redentor, retrato de Cristo, prolongamento do Pentecostes, corpo de Cristo.

A Igreja é mãe, como tal devemos amá-la, abandonando-nos em seus braços com filial confiança.

A Igreja é Santa na doutrina, nos sacramentos, nas leis, é mãe de santidade e comunhão dos santos.

A Igreja é una na fé, na comunhão, na doutrina, nos meios de salvação. Ë a família de Deus, a cidade de Deus. É una, mas várias: um atentado à sua unidade não reconhecer a variedade dos carismas e das funções. É una na caridade, fundamentada sobre a verdade que não pode ser traída, nem calada.

A Igreja é mestra infalível, imutável na fidelidade, às verda­des, da fé, dinâmica na fidelidade ao Espírito. Esposa do Cordeiro, é rainha, a quem se deve obedecer, se quiser obedecer a Cristo, também a preço da própria vida e do sacrifício das próprias idéias. Sua lei é a caridade, sua vida é o amor. Quem não ama e não per­doa, não está com a Igreja.

 

 

a) CONTINUAÇÃO DA ENCARNAÇÃO ()

 

“A Igreja é a extensão da Encarnação no decorrer dos séculos.”

 

Igreja é a extensão moral da Encarnação, no decorrer dos Séculos. Assim como em Cristo, a humanidade e a divindade, em­bora distintas, são intimamente unidas e inseparáveis, assim a Igreja, que O representa, continua a sua obra, produz os mesmos efeitos sobre-humanos; é ao mesmo tempo divina e humana. Mais clara­mente: a Igreja considerada quanto ao seu fim é uma sociedade espiritual, destinada à santificação e salvação eterna das almas; tem todavia uma parte material, visível e externa, principalmente em razão dos membros que a compõem, isto é, dos homens que não são puros espíritos, mas seres compostos de alma e de corpo. Como a missão reparadora do Homem-Deus, entendida como res­gate e salvação das almas, foi sob as formas corpóreas e sensíveis da encarnação, pregação, paixão, morte, ressurreição, assim em formas materiais e sensíveis, Ele quis ligar os atos de sua religião e os meios ordinários de santificação: culto, magistério, Sacramen­tos. Por isso nesta sociedade religiosa discerne-se uma parte espiri­tual, definida como alma da Igreja. É a que vivifica, informa e encaminha todos os membros místicos e coloca-os em comunicação com seu Divino Chefe e entre si, e opera aquela feliz reciproci­dade de méritos e de riquezas, chamada comunhão dos Santos, que abraça todos os justos e amigos de Deus, não só peregrinos no mundo, mas também os que, superada a carreira mortal, já chega­ram à pátria, ou temporaneamente estão detidos no Purgatório, pu­rificando-se de suas culpas.

Desta comunhão dos Santos faz parte tudo o que a Igreja pos­sui de interno e espiritual: a fé, a caridade, a esperança, os dons da graça, os carismas, os frutos do Divino Espírito e todos os te­souros celestes, que pelos méritos de Cristo Redentor e de seus servos, lhe são derivados.

A outra parte forma o corpo da Igreja, que consiste no que ela tem de visível e externo, ou seja, as sociações dos congre­gados, culto, ministério do ensino, em sua ordem e diretrizes externas.

A maneira como estas duas partes essenciais, que constituem a Igreja, são inseparavelmente unidas entre si, como o é a alma ao corpo, assim entre membro e membro, pela caridade deve reinar tal harmonia e reciprocidade de serviços que visibilizem a imagem da unidade, da qual consta o indivíduo físico, como o descreve o Apóstolo dizendo que “de Cristo cabeça, todo o corpo coordenado e unido por conexões que estão ao seu dispor, trabalhando cada um conforme a atividade que lhe é própria, — efetua esse cresci­mento, visando sua plena edificação na caridade.”[1]

 

“A Igreja é a verdadeira imagem do seu fundador.”

 

A vida da Igreja emana. diretamente de um princípio divino, que informa e governa o seu organismo humano, a totalidade dos fiéis, no qual se posiciona, sublimando-a. Assim, a sociedade de na­tureza inteiramente diversa das outras, porque sociedade terrena--celeste, portanto verdadeira imagem do seu Fundador, Homem e Deus ao mesmo Tempo.

Ela é quase viva encarnação de Cristo na terra, uma conti­nuação de sua vida mortal; Jesus Cristo difundido e comunicado, em toda a sua plenitude. De fato a vida da Igreja é radicalmente o espírito de Deus, segundo o apóstolo: Embora muitos, somos um só corpo em Cristo: este tudo opera num mesmo Espírito.[2]

 

“A Igreja é a continuação perpétua da obra do Redentor.”

 

A Igreja é a depositária e a dispensadora dos Sacramentos, continuação perpétua da obra do Redentor e do Santificador dos homens, sobre a terra. A Igreja tem as chaves deste canal; por meio dos Sacramentos, Ela haure do seio de Deus a graça santifi­cante e derrama-a na alma do cristão (Is 44,3). Que dom inesti­mável, fez-nos Jesus Cristo, ao fundar aqui na terra a sua Igreja e em ter-nos feito crescer no seu seio? É no seu seio que Ele distribui seus carismas. Objeto de suas complacências, pupila de seus olhos, palpitar do seu Coração, a Igreja é sua única pomba, a única sua perfeita esposa e irmã ao mesmo tempo (cant. passim). Saiu do seu lado aberto, purpureada com seu divino sangue; é santa e imaculada (Ef 6,25).

Oh! Igreja, oh! Igreja, quanto sois querida de Jesus! Felizes somos nós por sermos teus filhos! Na Igreja temos tudo o que pode nos guiar à salvação eterna; fora dela, obscuridade, desolação e morte.[3]

 

“Jesus Cristo se retratou na sua Igreja.”

 

Na criação do universo Deus estampou rastros de sua glória, sobretudo na criação do homem que é seu chefe. Ele o fez à imagem viva de seu Ser. Jesus Cristo retratou-se na sua Igreja. Fez o mundo das almas à sua imagem, deu-lhe a unidade, Porque é uno; a santidade porque Ele é santo, a autoridade, porque Ele é o Senhor, a universalidade porque Ele é o Deus imenso, a per­petuidade, porque é o Deus eterno. Como criando os mundos ele Colocou em atividade a força de atração, em torno da qual gravita tudo num centro comum, assim, na criação da Igreja Ele difundiu Sua graça, esta lei de atração espiritual, que também faz gravitar a alma para Aquele, que é o centro comum das inteligências: Deus.

Colocou na Igreja a sua graça, força profunda que lhe imprime o movimento e a vida.[4]

 

“Os destinos de Cristo e da Igreja são inseparáveis.”

 

Os destinos de Cristo e de sua esposa são inseparáveis. O que acontece ao corpo físico e material de Jesus Cristo é prenúncio do que acontece e sempre acontecerá, ao seu corpo espiritual e mís­tico, que é a Igreja. O corpo de Cristo foi entregue às injúrias, aos flagelos, às pancadas; e às injúrias, às pancadas, aos flagelos é en­tregue a Igreja freqüentemente. O corpo de Jesus Cristo foi suspenso na cruz, agonizou, morreu, foi sepultado; e crucificada, agonizante e quase moribunda aparece, às vezes, a Igreja. Vede: Jesus Cristo sai do sepulcro glorioso, impassível, imortal, exatamente do sepulcro em que seus inimigos acreditam tê-lo sepultado para sempre; e neste momento em que os hodiernos inimigos acreditam apagar para sempre a Igreja católica, ei-la erguendo-se mais gloriosa, mais forte, mais bela do que nunca.[5]

 

“A Igreja é um Pentecostes prolongado.”

 

A Igreja católica teve sua origem no Pentecostes, e por isso ela é um Pentecostes permanente, através dos séculos. Assistida continua­mente pelo Espírito Santo, faz ouvir a todos sua respeitável voz; prega as mesmas verdades, ordena os mesmos preceitos. Alguns inclinam profundamente a fronte, adoram e obedecem. Outros, ao contrário, ridicularizam-na e se orgulham de não crer. Por que tal diferença? Por que muitos em nossos dias, mancham sua língua e sua pena, com erros e blasfêmias inacreditáveis e perdem a fé? É porque, seus corações estão manchados. Tal é a sentença infalível de Jesus Cristo (...) a luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas que a luz, por isso suas obras são más. É da corrupção que nasce a incredulidade.[6]

 

“Somos em Jesus Cristo, um só Corpo.”

 

Somos em Jesus Cristo um só corpo, e como no corpo huma­no, nem todos os membros têm a mesma atividade, assim cada membro da Igreja não exerce a mesma função. No corpo huma­no, a cabeça é colocada no alto, domina todos os membros, anima-os, dirige-os e os governa. Na Igreja, como corpo místico de Jesus Cris­to (...) o Romano Pontífice, cabeça visível deste grande Corpo, tem o governo supremo e universal sobre todos os membros, que se unem a ele. Existem os Bispos, subordinados ao Romano Pon­tífice, mas governantes supremos da parte do rebanho católico que dele, pastor Universal, receberam para cuidar e dir-se-ia os olhos deste mesmo corpo. Seguem-se os sacerdotes e os outros ministros inferiores que são, por assim dizer, os braços. Por último todos os fiéis que são a plenitude e o complemento.

Surge assim uma corrente que, partindo do papa, chega orde­nada e hierarquicamente até o último camponês, que enquanto con­duz penosamente o arado, no seu campo e tem o espírito de Jesus Cristo, sente-se unido, do mesmo modo que nos sentimos unidos nós mesmos, na fé, na caridade, na obediência ao Papa e à Igreja. Oh! quanto desejaríamos que vos deliciásseis freqüentemente, com estes pensamentos, tão belos e comoventes! E não é maravilhoso e comovente o fato desta imensa família de fiéis espalhados por todo o mundo, que recitam o mesmo credo, que se alegram com as mesmas esperanças, que freqüentam os mesmos Sacramentos, que reconhecem o mesmo sacerdócio, que oferecem o mesmo sacri­fício, que obedecem à mesma lei, que ouvem a mesma voz do Pai comum? (...)

E não é doce para vós, ó pobrezinhos, nossos filhos amadíssimos quando vos recolheis, nos dias festivos, no templo, para assis­tir aos divinos mistérios, não é doce saber que estais em comu­nhão com todo o mundo, todos filhos da mesma mãe, que todos igualmente, sem distinção de nascimento, de grau e de educação, todos chamados a ganharem, com o exercício das boas obras, a mesma bem-aventurada imortalidade? Não é bom para vós, saber-vos em comunhão de afetos não só com a Igreja, que combate aqui na terra, as gloriosas batalhas do Senhor, mas com aquela que exulta triunfante no céu? Saber que aquilo que acredi­tais é o mesmo que acreditaram todas as gerações, em todos os séculos? (...)

Oh! Salve, una, santa, católica, apostólica Igreja! Tu Mestra, tu rainha, tu mãe, tu Corpo místico de Jesus Cristo, vivo nos séculos. De ti vem nossa salvação, nossa glória, nossa paz, nossa alegria, nossa felicidade, nossa vida. Ouviremos a ti nossa mes­tra, obedecer-te-emos nossa soberana, amar-te-emos nossa mãe, aju­dar-te-emos e te defenderemos, como o corpo, do qual somos os membros.[7]

 

 

b) NOSSA MÃE ()

 

“Olhemos a face de nossa Mãe!”

 

Somos filhos da Igreja Católica; isto não deveria ser suficiente para nos fazer vibrar? Olhemos no rosto a nossa Mãe, e envergo­nhemo-nos de ter feito até agora tão pouco por Ela!

O que é Ela? É a obra do milagre, é ela mesma, um mila­gre. Milagre extraordinário na sua origem, milagre singular na sua propagação, milagre permanente na sua duração. De fato, como nasceu? Nasceu, por força de milagres, sem o mínimo apoio huma­no, apesar dos esforços de todo o inferno fremente ao redor do seu berço e apesar dos imensos obstáculos, inacreditáveis, insupe­ráveis por força humana. Sustentada unicamente pelo braço de Deus, não obstante todas as potências, todos os preconceitos, todas as paixões, todos os erros do mundo, juntos conspirados para seu dano; não obstante as perseguições de toda sorte, que contra ela foram movidas, pelas barbáries, pela astúcia e pelo orgulho, como relâmpago que corta do Oriente ao Ocidente, ela se propaga admi­ravelmente, se estende pelo mundo todo; e, sempre em meio aos mais terríveis assaltos, em meio aos contrastes mais insidiosos, tran­qüila e serena avança, atravessa majestosa o curso dos séculos, subsiste imutável, mantém-se invencível, conserva-se incorrupta e triunfa gloriosamente de toda espécie de inimigos. (...)

E não é esta uma contínua corrente de portentos inenarráveis, que nos fazem tocar com a mão a obra do Eterno, o poder de Cristo, a força, a virtude, a onipotência divina, comunicada, transfundida, encarnada na Igreja? E não devemos dobrar a fronte e curvar os joelhos diante desta Rainha imortal dos séculos, diante da Imaculada Esposa de Cristo, diante da soberana Senhora de todos os remos, de todas as idades, de todos os povos? Não nos sentiremos altamente honrados de pertencer a ela? Não queremos eficazmente colocar mãos à obra pela sua glória?[8]

 

“A Igreja é verdadeiramente nossa Mãe.”

 

Esteja sempre fixa em nossas mentes, ó caros filhos, a sentença do mártir S. Cipriano: não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por Mãe.

E a Igreja é verdadeiramente nossa mãe, irmãos e filhos ca­ríssimos. Esta não é uma frase de retórica; é uma doutrina estrita­mente dogmática.

Como na ordem, entre nós e Deus criador estão os pais e está a série de nossos pais, através dos quais chegamos ao primeiro homem, Adão, assim, escreve um grande, entre nós e Jesus Cristo, na ordem sobrenatural da fé e da graça está uma mãe, que é vir­gem e é exatamente a Igreja. Ela, através da ininterrupta série de geração espiritual, remonta aos apóstolos e a Jesus Cristo.

Como a onda da vida natural se expande de Deus sobre toda a criação, pela obra necessária dos pais, segundo a carne, assim a onda da vida sobrenatural e divina se expande de Cristo em todos os fiéis pela obra igualmente necessária da Igreja, que é sua Esposa, por isso nossa mãe, destinada a nutrir-nos com o leite de suas doutrinas, a alimentar-nos com a vida espiritual da graça, a nos enriquecer com todos os tesouros do céu e a conduzir-nos à idade perfeita de Cristo.[9]

 

“Amemos esta mãe!”

 

Amemos esta mãe! Não esqueçamos de que quem não ama a Igreja não ama Jesus Cristo e por isso não possui aquele único amor que enobrece, eleva e nos faz amar tudo o que é digno de amor, no universo. Amemos a Igreja viva e presente dos nossos dias, que fala pela boca de seu augusto Chefe e de seus Bispos, que vive e sofre por nós, que conosco ora e espera. Amemo-la, como a coisa mais querida do mundo depois de Jesus Cristo. Ame­mo-la, como nossa família, nossa belíssima e afetuosíssima Mãe. Amemo-la, como aquela que melhor representa e exprime em si infinita beleza e bondade daquele Deus, que é todo o nosso amor. Abandonemo-nos confiantes, nos braços desta Mãe. Minha mãe me disse, exclama a criança e proferida esta palavra, prossegue segura seu caminho. O mesmo deve dizer cada um de nós: a Igreja disse e basta![10]

 

“Amar-te-emos sempre com amor de filhos.”

 

Ó Igreja Católica! O filha do céu! Como são belos os teus tabernáculos! Como são luminosas as tuas vias! Mãe dos Santos, imagem da cidade sempiterna, conservadora eterna do sangue in­corruptível, salve! Tu nos amas, com amor de mãe e nós te ama­remos sempre com amor de filhos. Como os nossos irmãos que colheram a palavra do triunfo, esperamos também nós, nesta peregrinação mortal santificar-nos, para não sermos indignos de ti. Seguiremos, dóceis, os teus ensinamentos, manter-nos-emos sempre unidos a ti, sabendo que fora de ti não há salvação. Militantes contigo sobre a terra, esperamos ser triunfantes contigo, no céu, pelos méritos de Jesus Cristo, nosso Deus, a quem seja dada a honra, a sabedoria, o império, as ações de graças, bênçãos, poder, fortaleza e glória pelos séculos dos séculos. Amém.[11]

 

 

c) A IGREJA É SANTA ()

 

“A  Igreja é Santa.”

 

A obra-prima de Deus Pai é Jesus Cristo e a maior obra de Jesus Cristo é a sua Igreja, que adquiriu e purificou com seu san­gue, santificou-a com seu espírito, enriqueceu-a com seus méritos, para apresentá-la a seu Pai isenta de toda ruga e toda mancha, e fazê-la reinar perpetuamente, com Ele, no céu. Ela é santa por seu Autor, que é a origem e a fonte de toda santidade: Santa por seus sacramentos, canais pelos quais chegam até nós todas as gra­ças; Santa pelo sacrifício incruento, com o qual oferece ao nome de Deus uma oblação pura; Santa pelo seu culto, tão grandioso, tão belo, que inspira a fé viva, o respeito mais profundo, a mais terna piedade, que vence todo raciocínio, que fala fortemente ao coração, também dos heterodoxos.

Santa, em suas doutrinas. Seu principal cuidado é conservá-las incorruptas, tais quais as recebeu do seu Fundador, para dar re­médio às enfermidades espirituais, dissipar as trevas que obstroem as mentes, incentivar seus filhos às boas obras, estimulá-los à prá­tica da pobreza voluntária, da obediência mais perfeita, da virgin­dade angélica, da vida austera e penitente, à coragem, ao sacrifício e ao martírio.

Santa nos seus filhos, porque o Salvador deu-se a si mesmo, a fim de resgatá-los de toda iniqüidade, para purificar para si um povo aceitável, zelador das boas obras (...). Vinde e vede. Os milhões de mártires generosos, de solitários penitentes, de virgens ilibadas, de heróis de toda espécie. O grande número de pastores e de sacerdotes, que ardem de Santo zelo pela glória de Deus e pela salvação das almas, que se deslocam para países longínquos, onde cintila a espada das perseguições e em todos os lugares um feroz mal-estar ceifa as vítimas. Os religiosos são muitos, de quem mesmo os inimigos admiram as virtudes, as austeridades, o espí­rito de recolhimento, de zelo, de caridade, de desprendimento de tudo o que é terreno. Tantas almas piedosas, ignoradas pelo mun­do, mas conhecidas e amadas por Aquele que perscruta os cora­ções, são todos filhos da Igreja Católica. Ela, santa em si e santa em todas as suas obras, jamais cessará de nutrir em seu próprio seio, portentos de santidade, dignos de suprema honra dos altares e de ser por isso mesmo, inesgotável fonte de todos os bens.[12]

 

“A Igreja é mãe de santidade.”

 

A Santidade é o caráter próprio e inseparável da verdadeira Igreja. Deus é a santidade por essência. Portanto, uma Igreja que vem de Deus deve trazer em si a marca da santidade. Santa, como escreve Agostinho, é exatamente a Igreja Católica: mãe de santi­dade (...).

Mananciais de santidade são, antes de tudo, as verdades que nos ensina, pois as doutrinas promulgadas pela Igreja Católica não são simples teoria, mas princípios eternos, dos quais emanam uma infinidade de conseqüências morais, que divinizam a nossa natureza (...). Um Deus justo e infinitamente misericordioso, a imortalidade da alma, a reparação da culpa por meio da penitên­cia, o perdão das ofensas, a paciência, a caridade, a humildade e assim por diante, são todas doutrinas, que em cada tempo servi­ram para criar inocentes e insignes heróis, sem número. Manancial de santificação são os sacramentos, administrados pela Igreja com afe­to de mãe.  Administra-nos o batismo, para limpar as manchas de nossa origem humana. Administra-nos a confirmação, para tornar-nos fortes para combater as batalhas do Senhor. Administra-nos a penitência, como meio de expiar nossos pecados. Administra-nos a Eucaristia e nos dá o mesmo Autor da santidade. Administra o matrimônio, que santifica a família. Administra a sagrada ordem, para perpe­tuar na terra o Sacerdócio de Jesus Cristo. Administra-nos a Unção dos enfermos e esparge sobre o leito de nossas agonias, as conso­lações do céu.

Mananciais de santidade são os preceitos que ela nos impõe, preceitos repletos de indulgência e de bondade, com os quais esta terna mãe nos guia, entre os perigos do mundo, ao porto da sal­vação, e se ocupa toda a fazer-nos felizes, nesta e na outra vida. Ordena-nos amar a Deus de coração, de referir a Ele, como ao fim último, os pensamentos, os afetos, as obras, tudo quanto somos e podemos e de amar o nosso próximo, como a nós mesmos, como o amor que vem de Deus.

Enfim, propõe-nos a imitar Jesus Crucificado, nosso Senhor, su­blime exemplo de resignação, de fortaleza, de glória, a fim de que, crucificados com Ele às vaidades deste mundo, sejamos unidos a Ele nos sofrimentos, como na alegria.

Manancial de santificação é a comunhão dos Santos, fruto da caridade perfeita, que une entre si a Igreja militante, a Igreja pa­decente e a Igreja triunfante, formando um só corpo, do qual Jesus Cristo é a cabeça. Somos chamados a participar dos merecimentos dos justos, ainda viandantes sobre a terra e da glória dos eleitos do céu.[13]

 

“Encontrai-nos qualquer coisa virtuosa que a religião não gere ou não inspire.”

 

Encontrai-nos algo virtuoso que a religião católica não gere ou não inspire. Talvez a amizade? Mas só a religião católica pode dar-nos amigos verdadeiros e fiéis. Talvez a gratidão? Mas é a religião católica que forma o coração verdadeiramente bom e tem­pera com alegria pura o consórcio civil. Talvez a união matrimo­nial? Mas é também verdade que a religião católica, elevando-a a grau de Sacramento, torna-a estável e santa e quer que reflita em si a imagem da união de Cristo com a Igreja. Talvez os deve­res da vida civil? Mas é igualmente o Evangelho que nos manda sejamos humildes, dóceis, afáveis, mansos, pacientes, caridosos. Tal­vez a coragem? Mas que heróis poderiam ser comparados aos que fazem o orgulho da religião católica? Talvez a boa administração do governo? Oh, se os povos, as repúblicas, os reinos fossem go­vernados unicamente com as máximas do Evangelho! Onde esta­riam os abusos, as injustiças, as calúnias, as ambições, os ódios, os furtos, os homicídios, os sacrilégios, as revoltas?[14]

 

“O tesouro da Igreja: a comunhão dos Santos.”

 

A comunhão dos Santos, ou seja, o tesouro comum de graças e de méritos que existe na Igreja, deve-se principalmente à cabe­ça (...). Portanto é a Jesus Cristo que a Igreja é devedora, pela plenitude de seus bens. Oh, eu não me admiro senão deste fundo de reservas inesgotáveis, infinito. O sangue de Jesus Cristo, este sangue adorável, do qual uma só gota instilada é suficiente para o mundo; suas lágrimas, suas orações, sua vida, suas obras, suas fadigas, suas dores, eis que o que forma e alimenta o tesouro da Igreja. É uma corrente de méritos, que se estende de uma a outra extremidade da terra; é um rio de graças, que escorre in­cessante sobre a humanidade e a fecunda (...).

Se é sobretudo da cabeça que deriva a vida dos membros, não se deve pensar que os membros sejam estranhos a esta vida. Pois o Apóstolo disse: Deus criou o corpo de tal modo, que os membros tenham necessidade recíproca uns dos outros, a fim de que a abundância de uns possa suprir a indigência dos outros.

Pois bem, se tal é a condição natural do corpo do homem, do corpo da família, do corpo da cidade, não deverá isto se veri­ficar na Igreja, que é o Corpo de Jesus Cristo, a família dos eleitos, a cidade de Deus?

Um olhar às inumeráveis multidões dos Santos, que passaram sobre a terra e que hoje triunfam no céu. Quantos sofrimentos, quantas orações e quantos sacrifícios vão desembocar, como tantos outros riachos, no mar infinito dos méritos de Jesus Cristo, que formam o tesouro da Igreja!

Eu vejo neste tesouro não só os méritos super-abundantes, sa­tisfatórios e impetrativos de Cristo, mas outrossim, da Virgem e dos Santos: vejo o sangue dos mártires, as austeridades dos anaco­retas, o zelo dos apóstolos, a fé dos confessores, as palmas das virgens; vossas boas obras, as orações, que hoje elevastes a Deus em união com vosso Bispo, estão lá. Em virtude da comunhão dos Santos, a nossa oração sai deste templo, voa nas asas dos Anjos, atravessa os Oceanos, vai direta ao coração de nossos irmãos distantes, de nossos irmãos impenitentes, de nossos irmãos separados. Ela lhes leva o bálsamo da consolação, a graça do re­morso, o dom da perseverança. A comunhão dos santos se estende por toda a parte. Para ela não existe limite, nem de tempo, nem de espaço.[15]

 

 “O dogma da comunhão dos Santos é doce, é consolador.”

 

Não ouvis os gemidos, que chegam a nós, do profundo? Tende Piedade de mim, ao menos vós que fostes um dia meus amigos. (...) São vozes de lamento e de dor. É a voz de um pai, de uma mãe, de um irmão, de uma irmã, de uma filha, de uma esposa, que sobe a nós do cárcere da expiação, para implorar os nossos sufrágios, pois nem a dor destrói a comunhão dos Santos. E por que a expiação dos justos romperia esta comunhão? Não pertencem eles, como nós, ao corpo de Jesus Cristo? Não são também membros vivos da família dos eleitos e da cidade de Deus? Por que então não teriam parte ao tesouro comum da Igreja, à nossa satisfação, aos nossos sacri­fícios, às nossas intercessões? Quão doce e consolador é o dogma da comunhão dos Santos! O céu reza, a terra reza, o purgatório reza. A Igreja padecente, a Igreja militante, a Igreja triunfante estão unidas por uma mútua troca de súplicas e de méritos. Do purga­tório a oração sobe à terra, da terra se eleva ao céu e lá através dos Santos, obtém o refrigério, a luz e a paz. O céu e purgatório rezam por nós e nós pobres exilados e peregrinos rezamos ao céu, entre os sofrimentos e a glória.

É por nosso meio que o grito daquelas almas prisioneiras chega até o trono de Deus. Do céu a abundância das divinas mi­sericórdias se derrama sobre a terra, da terra, qual celeste orvalho, cai até o purgatório, onde pousa sobre os lábios ardentes pelas chamas expiatórias.[16]

 

 

d) A IGREJA É UNA ()

 

“Unidade de fé, e de comunhão.”

 

A verdadeira Igreja de Jesus Cristo, prefigurada no antigo Tes­tamento pela Arca de Noé, pelo Monte Sião, denominada a vinha, o campo, a barca, o rebanho, a casa, o exército, o Reino de Deus, o Corpo de Cristo, deve levar na fronte coruscante de luz vivís­sima, o sinal da unidade. Como um é o Senhor, uma é a fé, um é o batismo, assim deve existir unidade de crença naqueles que pertencem à Igreja. Jesus Cristo morreu para reunir os filhos de Deus que estavam dispersos, assim deve manter a unidade de ca­ridade e de comunhão. A profissão da mesma doutrina, ou seja a unidade de fé; a inteira submissão ao mesmo chefe, representante de Deus, a unidade de comunhão, era o supremo pensamento do Divino Salvador, quando orava fervorosamente ao Pai, pelos seus seguidores presentes e futuros, a fim de que sejam todos uma só coisa, como Tu estás em mim; ó Pai e eu em Ti; que eles sejam uma só coisa em nós. Era a dúplice unidade que apregoava o Apóstolo com as palavras: sede solícitos em conservar a unidade do Espírito, mediante o vínculo da paz.[17]

 

“Unidade de fé, unidade de sistema, unidade de Sacramentos.”

 

Sendo Deus a verdade una, é necessário que também a verdadeira Igreja seja una. E a unidade é de fato o primeiro sinal que brilha na fronte da Igreja de Cristo. Unidade de fé, unidade de sistema, unidade de sacramentos, como exatamente Cristo a  constituiu! Unidade de fé, porque todos os membros que a com­põem devem crer as mesmas verdades, professar as mesmas doutri­nas, sob pena de deixarem de ser católicos. Nenhuma permissão de pensamento, nenhuma extravagância de interpretação pessoal e nenhuma ingerência do indivíduo, no que diz respeito à fé.

Unidade de regime, pois que a Igreja de Cristo forma uma só imensa família, um corpo conjunto, uma verdadeira sociedade orde­nada e formada por organismo interno e externo, perfeita em cada uma de suas partes.

Em cada Diocese um Bispo, que é o Pai, o Pastor, o Mestre. Acima de todos os Bispos, o Papa, que é o fundamento de todos, o Chefe, o monarca. Tudo se concentra no Papa e do Papa tudo emana para os fiéis, com admirável circulação de vida, que arranca admiração dos incrédulos e os leva a venerar a maravilhosa estru­tura, a surpreendente unidade da grande Hierarquia Social.

Unidade de sacramentos, pois, todos, na Igreja de Cristo, re­cebem os mesmos sacramentos substancialmente, do mesmo modo. Todos rezam com as mesmas palavras, todos oferecem a Deus o mesmo sacrifício de louvor, a mesma oblação pura, que fora pre­dita, que se deveria oferecer do oriente ao ocidente, em todo o mundo.[18]

 

“A Igreja é o Corpo de Cristo, uma família, uma cidade.”

 

A Igreja, disse o Apóstolo, é o Corpo de Jesus Cristo. Ora, às membros de um corpo estão unidos entre si por uma troca Contínua de mútuos serviços. Um membro sustenta e ajuda o outro e todos juntos participam dos mesmos bens, isto é, da força, da saúde, do movimento da vida. Um membro que deixasse de con­correr para o bem estar geral, ou de haurir desta nascente comum, tornar-se-ia impotente e deixaria de viver.

Por isso, não se pode dizer: eu não preciso de ti, pois que todos, a cabeça, como as mãos, como os pés contribuem para a beleza, para a harmonia do todo.

A Igreja é uma família. Ora, todos os membros de uma fa­mília estão unidos entre si, de maneira semelhante. O mais fraco se apoia no mais forte e o mais forte protege o mais fraco. O no­me, a fortuna, a saúde de um, se transforma em patrimônio de todos e forma uma reserva comum. O poder do Pai se comunica à mãe e aos filhos. O amor da mãe se divide entre os filhos e o pai. A inocência dos filhos se reflete nos pais. O ganho de um torna-se lucro dos outros; a sua pobreza, pobreza deles; sua de­sonra, desonra deles, sua glória, glória deles. Quando um membro da família sofre, todos sofrem com ele; quando um se alegra, to­dos se alegram com ele. Assim a família humana é como o corpo humano, uma troca de serviços e de funções recíprocas, em mútua ligação de amor.

A Igreja é uma cidade fundada no cume de uma alta mon­tanha. Ora, também aqui, a riqueza de uns é para o proveito dos outros e a abundância destes supre a carência daqueles. Uns con­tribuem com trabalho para o sustento comum, outros cuidam do bom andamento do bem público. Cada um tem seu valor pessoal próprio, os seus títulos, mas existe um tesouro comum do qual todos participam, conforme os seus direitos e as suas capacidades. Admirável harmonia na qual tudo se entrelaça, une-se, coordena-se em uma vasta comunicação de necessidades e de benefícios.[19]

 

“A variedade não prejudica a admirável unidade.”

 

Olhai este santo edifício e vede como a variedade não preju­dica em nada, a admirável unidade. Cada pedra tem a sua forma, a sua posição, o seu destino particular. Umas são colocadas na base, outras no cume. As mais ricas e belas adornam o santuário e o altar. As mais comuns, mas não menos úteis, colocadas em toda parte, formam o corpo principal do edifício. Umas sepultadas no solo e ignoradas, sustentam o peso de todo o edifício. Outras expos­tas aos olhos dos homens, muitas vezes não são senão acessórios, se forem tiradas, o templo não será menos belo, nem menos sólido.

Eis uma imagem viva da sociedade, da família, da Igreja, tal como fora instituída por Deus. Nela, cada um deve ocupar o pró­prio lugar, aceitar com docilidade inalterável a posição em que Deus o colocou, já que é Deus o Autor das honras, o distribuidor das dignidades, o árbitro supremo da nossa sorte. A verdadeira glória da alma cristã está em cumprir o querer divino, para edifi­car, como escreve S. Paulo, sobre o fundamento dos Apóstolos e dos profetas, sendo o mesmo Jesus Cristo pedra angular, sobre a qual todo o edifício se levanta, unido em templo santo do Senhor; sobre o qual, também, vós sois juntamente edificados em habita­ção de Deus, mediante o Espírito.

Mas como estas pedras (...) não formariam um sólido edifí­cio se não aderissem umas às outras, em uma certa ordem, se não estivessem unidas em paz e quase, em amor recíproco, assim os cristãos não formam verdadeiramente a casa de Deus, senão quan­do estão estreitamente unidos com vínculos de caridade: “Não formam a casa do Senhor senão quando unidos pela caridade”.

A caridade (...) é o nobre cimento da sociedade cristã. É a grande lei de atração, que aperfeiçoa e confirma o amor mútuo que devemos aos nossos irmãos, que dá ao coração humano a so­lidez e a elasticidade, enchendo-o de força, de compaixão e de misericórdia.[20]

 

“Fortes na verdade, fortes na caridade, fortes na unidade.”

 

Diremos a todos: sede firmes, impávidos, irremovíveis em sus­tentar e em defender os sacrossantos direitos da Igreja e do Augusto Chefe, mas sempre, como prescreve Leão XIII, com aquela mo­deração de atitude e de linguagem, que não tira, mas acrescenta força ao direito e à verdade e a torna acessível também às men­tes mais rebeldes. Se nós insistimos tanto sobre este ponto, é que infelizmente estamos em tempos, nos quais as máximas mais ele­mentares do cristianismo são por muitos desfiguradas ou minimi­zadas, não repetidas suficientemente.

Assim nossa fortaleza se torne amável, pela prudência e pela caridade, e a prudência e a caridade recebam eficácia da forta­leza. Resisti fortes na fé!

Fortes na verdade, fortes na caridade, fortes também, na uni­dade, que é o cumprimento e o efeito da caridade.

Unidade! É esta a última recomendação que nos fez o Santo Padre, com linguagem vibrante e afetuosa. E é exatamente esta recomendação que, em seu nome, vos fazemos com todo o ardor do nosso coração. Unidade! Unidade de mente, unidade de cora­ção, unidade de ação. Nos tempos difíceis que atravessamos, não podemos nos sustentar, senão permanecendo unidos, e não existe sacrifício de idéias próprias, que não devamos fazer, para manter esta unidade, única que possui o segredo da vitória.[21]

 

“Um sistema de liberalismo realmente novo.”

 

Que se deverá dizer daqueles, que, não satisfeitos com a parte de súditos, que lhe cabe na Igreja de Deus, acreditam poder ter também alguma parte no seu governo?

Sobre esta pretensão doentia foram fabricando um sistema de liberalismo novo, tanto mais perigoso, quanto mais procuram re­vesti-lo de belas aparências. Sistema farisaico, que infelizmente seduz tantas almas simples, e invade algumas mentes ainda não perversas. nem egoístas. Sistema anárquico, que acaba por dividir as nossas forças e lançar a discórdia entre os filhos do mesmo pai, entre os membros da mesma família. Sistema bárbaro, que não se constrange em magoar espíritos imortais, que mata todo germe de caridade no coração de muitos  (...)

Os maiores perigos para a Igreja não são as perseguições vio­lentas e bárbaras, para as quais está preparada desde século, e graças a Deus sabe tirar delas as suas vantagens; não são as dis­cussões da razão iluminada e da ciência, porque sabe certamente, sair vitoriosa. A razão, a história, as promessas divinas estão com ela. Os seus maiores e mais temíveis inimigos são a fraqueza de alguns dos seus, sua louca soberba, seus objetivos ambiciosos, suas artes hipócritas; são as suas atitudes, suas ações não conformes ao espírito dos verdadeiros e perfeitos católicos, que se orgulham de o ser.[22]

 

“Menosprezo das virtudes mais amáveis do cristianismo.”

 

Sentimos dever elevar a voz outra vez, contra a nova mani­festação do fatal sistema, e uma vez mais, recordar totalmente não conforme ao espírito puramente católico, aquele desfazer-se como costumam, em demonstrações de acatamento e de devoção ao Papa, ao mesmo tempo que ousam diminuir o respeito devido aos Bispos unidos a Ele, contrariando com modos indiretos, ou distorcendo ameaçadoramente, os atos e as intenções com o identificar, por as­sim dizer, a Santa Sé consigo mesmos, proclamando-se defensores, os únicos filhos devotos, os únicos seus porta-vozes fiéis. Apontam como rebeldes, à Igreja, pessoas devotíssimas à mesma, revestidas também de autoridade (...). Pretendem o monopólio exclusivo do catolicismo, afetando uma linguagem de mestres infalíveis, conde­nando e anatematizando em nome da religião e do Papa, quantos não partilham de suas opiniões, e freqüentemente de seus exageros e extravagâncias (...).

Pretendem resolver com plebiscitos mais ou menos espontâneos, feitos por pessoas sem autoridade e quase sem­pre incompetentes, as questões mais complexas, mais árduas e mais delicadas, que às vezes surgem no campo religioso ou científico­-religioso (...). Unem com os inimigos da religião, pessoas res­peitáveis sobre todos os pontos de vista. Não poucas vezes mo­vem-lhe acusações de violada ou suspeita fé católica, porque têm opiniões diferentes em matérias puramente políticas, ou deixadas ainda livres às discussões dos doutos da sábia moderação da S. Sé (...). Não vêem nada de bom, antes tudo de mal, no que se pensa ou se faz, por aqueles que são, ou se supõem, contrários às suas idéias (...). Simulam descuido pelas virtudes mais amáveis do Cristianismo e escarnecem quem as propaga e mostra tê-las como preciosissimas e caras (...).

Tudo isto está em franca oposição com o espírito que deve animar o católico sincero, e perde o sentido de Cristo quem não o compreende, e não o experimenta.[23]

 

“A unidade hierárquica é essencial.”

 

Não somente a unidade dogmática, mas também a hierárquica pertence à unidade essencial da Igreja. Por ela, Cristo rezou ao Pai, a fim de que os fiéis fossem um, “assim como Eu e o Pai somos um”.[24]

 

“Aí de quem ousa rompê-la!”

 

Nestes tempos de anarquia não será demais repetir: estejamos unidos! O povo com seus párocos; o pároco e o clero entre si na ordem hierárquica; todos, clero e povo, com o Bispo, em união perfeita com o Papa, supremo Monarca, anel que vos estreita ao Pastor invisível, Jesus Cristo. Eis a sagrada corrente que existe na Igreja de Deus. Ai de quem ousa rompê-la! Quem se separa do seu elo imediato, Deus o permitindo, torna-se joguete dos tristes e instrumento de perdição para muitos.[25]

 

“A Igreja tem necessidade de manter-se completamente unida, para vencer.”

 

O espírito de contestação sempre foi reprovável e sobre isto deve-se insistir hoje. Estamos diante de adversários orgulhosos, que não desejam  senão a ruína da Igreja e das almas. Na luta, que atualmente se enfrenta por coisas da mais alta importância, diz o Santo Padre, devem todos, com a mesma compreensão e com um mesmo espírito, orientar suas forças, para o bem comum, que e colocar a salvo os grandes interesses religiosos e sociais.

As disputas mais ou menos apaixonadas de certos espíritos irrequietos não levarão a isto; nem as discussões mais ou menos sutis, sobre o modo de organizar as forças; nem a submissão for­çada e aparente, que deixa subsistir no fundo do coração a des­confiança, a suspeita, a divisão; nem as competições, as invejas, as tendências exclusivas e egoístas; enfim, nem aquele zelo amargo e temerário, que confunde a força do sagrado ministério com a violência cega dos partidos, que acredita prestar homenagem a Deus atacando os homens, também os mais íntegros e devotados aos interesses da Igreja e do seu Chefe Augusto, devotados sem osten­tação, sem fingimentos e sem paixões humanas.

O que colocará a salvo as razões da Sé Apostólica, no seio da Igreja, reconduzirá à ordem e, como a ordem, a paz será, não nos cansaremos de repeti-lo, a observância da dependência hierár­quica, o abandono confiante e submisso, próprio dos filhos, à pa­terna autoridade que os governa; será a submissão plena da inteli­gência e da vontade aos próprios Pastares, e por eles e com eles, ao Pastor da Igreja que a todos guia.

A Igreja, para vencer, só tem necessidade de manter-se com­pletamente organizada. Nisto o segredo de sua força, nisto a garan­tia da vitória.[26]

 

“Também entre as Igrejas dissidentes, a Igreja Católica tem filhos.”

 

É evidente que os caminhos de Deus não são os nossos. En­tre as Igrejas dissidentes, a Igreja católica tem filhos, se não de fato, ao menos de desejo; almas generosas, que seriam dignas de ter nascido no seio da unidade, e que talvez lhe pertençam por meio de laços invisíveis e ocultos, que só Deus conhece (...).

Separados do corpo da Igreja, eles pertencem à sua alma, e quando a política não tiver mais interesse em conservar o muro de divisão, que mantém separada a grande família européia; quan­do os interesses da terra desaparecerem diante dos interesses do céu: quando a grande lei da caridade evangélica for melhor en­tendida e praticada por todos, oh! então, o Pastor universal verá, com feliz surpresa, ovelhas em grande número, que lhe perten­ciam lá onde talvez o olho não divisava senão lobos; então o Oriente e o Ocidente se abraçarão como irmãos, em um mesmo santuário e Santa Sofia de Constantinopla ouvirá ecoar sob suas abóbadas o Te Deum de outros tempos, enquanto exultarão de júbilo os ossos imortais dos Crisóstomos e dos Nazianzenos; então, de todos os pontos da terra, os povos mais distantes e diversos se voltarão para o centro da unidade, para Roma (...); então não teremos mais pressentimentos, mas a certeza de que todas as fa­mílias formarão uma só família, todos os povos um só povo, toda humanidade um só rebanho, sob a guia de um só Pastor.[27]

 

“A grande unidade para a qual caminhamos a passos largos.”

 

Há de chegar o dia, em que a justiça e a paz se beijarão na fronte, com nova luz sobre o mundo, o sol da civilização cristã, o edifício social se erguerá, sobre bases inabaláveis.

Cabe-nos antecipar este dia. De que maneira? Ganhando os irmãos para a verdade, mais com o exemplo, do que com as pala­vras; professando abertamente a nossa fé, agindo conforme a mes­ma, aplicando-nos a fazer com que no ânimo de todos, como já acontece para muitos, se imprima a convicção de que a Itália só pode esperar salvação e bem-estar verdadeiro do Romano Pontí­fice. Esta nobre e santa compreensão, inspirada no mais puro amor à Igreja e à pátria, deve desde agora, voltar-se à ação comum, es­quecendo toda competição de partidos. Todos, com a influência das virtudes que nos são impostas, devemos preparar um povo capaz de ser governado, com regime paterno, facilitando assim, aos governantes da obra pública, a sua árdua tarefa. Devemos, antes de tudo, recorrer a Deus com a oração; não nos esqueçamos de que, se o Senhor não guarda a cidade, em vão vigiam as senti­nelas (SI 126).

Oh! rezemos, diletíssímos. Rezemos, para que os errantes re­tomem à fé; se estenda sempre mais o Reino de Jesus Cristo, cumpram-se os desígnios de seu Vigário. Rezemos e esperemos. Já esta acontecendo um retorno a idéias sadias e justas. Desde há muito se refaz o caminho, se reconhece ao menos a necessidade de refazê-lo. As desilusões e os desenganas sacodem multidões, de forma sadia; percebe-se que a impiedade, apesar de mascarada, não é senão tirania, suas promessas são enganadoras, seus frutos são mortíferos. Os escritores mais lidos desdizem hoje aquilo que on­tem afirmavam, com arrogância e sobre os lábios de homens in­vestidos de poder ressoam, embora timidamente, palavras preciosas, há muitos anos em desuso. Tudo manifesta uma lenta, mas pro­gressiva evolução de idéias; tudo deixa antever que a sociedade, nauseada pelo mundo materialista, que a corrompe e degrada, en­caminha-se para a desejada renovação. Tudo anuncia, como dizia De Maístre, não sei a que grande unidade, para a qual caminhamos a passas largos.

É sem dúvida a unidade predita no Evangelho, a unidade re­ligiosa por meio da Igreja, a unidade de toda a terra no fim dos tempos onde haverá um  só rebanho e um só Pastor.

Meus queridos, o homem se agita, mas Deus o conduz. Re­zemos e esperemos.[28]

 

 

e) A IGREJA É MESTRA  ()

 

“A Igreja é Mestra infalível.”

 

A Igreja Católica, no seu conjunto, é a sociedade dos anjos e dos fiéis, que atravessa os séculos e passa sobre a terra para re­colher-se na santa unidade universal e perpétua e retornar com os seus filhos à eternidade de onde saiu. É ela a assembléia dos fi­lhos de Deus, o exército do Deus vivo, o seu reino, a sua cidade, o seu trono, o seu tabernáculo. É a nobre sociedade, que existe desde o princípio dos séculos e que aparece nas sombras e nas fi­guras com Adão, anunciada pelos Patriarcas, acreditada em Abraão, revelada por Moisés, profetizada por Isaías; no seu último período se manifesta em Jesus Cristo, como uma sociedade de homens, unidos pela profissão da mesma fé, pela participação aos mesmos sacramentos, sob o governo dos legítimos Pastares e principalmente do Romano Pontífice, Chefe visível, Chefe supremo, Pastor uni­versal desta feliz reunião, fundada pelo Homem-Deus.

Jesus Cristo se compraz em entregar-lhe o depósito da revela­ção, o conjunto total das doutrinas pertencentes à fé e à moral! Ele mesmo trouxe-as do céu, para ensiná-las a todas as gerações com certeza, com facilidade e sem mistura de erros. Era necessário que fosse enriquecida com a gloriosa qualidade de mestre infalível, a fim de transmitir, em todos os tempos, as verdades reveladas, tais como as recebeu de seus próprios lábios divinos (...).

Não acolher todas as definições do Concílio, com plena e pronta submissão de intelecto e de vontade, sem restrições, sem transações, hesitações ou compromisso é não só negar a verdade particular que contraria as próprias idéias, como negar o infalí­vel magistério, que no-la propõe a crer; é destruir o catolicismo e ferir mortalmente a mesma sociedade.

De fato, com o magistério infalível da Igreja, o Catolicismo ó divino, a filosofia é por ele conduzida à fé; o mundo é renovado por Ele; o martírio torna-se racional. Os Concílios são reconheci­dos e respeitados, as heresias destroçadas, a ciência e a sociedade fecundadas, a moral assegurada, a paz da consciência certa e tranquila, todos os frutos da santificação derramados abundantemente sobre os povos, a existência da Igreja invencível, a sua unidade indissolúvel. Tirai da Igreja católica esta gloriosa prerrogativa e ela se desmantelará e se destruirá, como se desmantelou e destruiu a fé naquelas almas infelizes, que combateram nestes últimos anos, as suas santas e solenes definições.[29]

 

“A Igreja docente e a Igreja discente.”

 

Se existe, por ordem divina, uma autoridade unitiva e dirigente, esta pertence à ordem sacerdotal; deveis, portanto, reconhecer que na Igreja existe distinção de classes, de serviços e de poder. Existe superior e súdito, existe pastor e rebanho; existe quem ensina e quem aprende, quem apascenta e quem é apascentado. Existe, em outros termos, a Igreja docente e a Igreja discente, as quais, em­bora distintas entre si, não formam senão uma só e mesma Igreja.

À primeira pertencem os sucessores dos Apóstolos, os Bispos e especialmente o sucessor do Príncipe dos Apóstolos, o Papa. À segunda pertencem todos os fiéis. Quanto aos simples sacerdo­tes, se de um lado parecem pertencer à Igreja docente, enquanto administram os Sacramentos e ensinam os fiéis, na realidade per­tencem à Igreja discente, porque não possuem a plenitude do Sa­cerdócio, porque não têm nenhuma jurisdição, porque não admi­nistram Sacramentos, nem ensinam os fiéis, senão enquanto são auto­rizados pelos bispos.[30]

 

“A infalibilidade do Papa não é separada da fé de Igreja.”

 

O Papa é pessoalmente infalível, mas a sua infalibilidade não pode ser pessoal e separada, de tal modo que sua fé seja desligada da fé da Igreja. A Igreja é um corpo vivo e não um cadáver, ne­nhum poder terreno pode roubar-lhe a força vital, porque é divina e reflete em si, a vida íntima de  Deus. O Papa é cabeça, os Bispos são os membros do corpo docente e vivo. Se a cabeça pu­desse se separar dos membros, teríeis um corpo morto, e a Igreja, contra as promessas de Jesus Cristo, seria destruída.

Portanto, o Pontífice, que em si mesmo une e concentra todo o episcopado, nunca poderá encontrar-se solitário e isolado, quan­do ensina a todos os fiéis as coisas da fé e da moral, porque o Espírito Santo, que assiste a cabeça e a defende de todo erro, opera e inspira a submissão aos Bispos, que unidos a Pedro for­mam a verdadeira Igreja (...).

O Papa é infalível, mas a sua infalibil