PRIMEIRA PARTE

 

PRIMEIRA PARTE

HOMEM DE DEUS E PARA DEUS

 

1. CRISTO ALFA E ÔMEGA

a) DEUS EM NÓS — RECAPITULAR TUDO EM CRISTO

b) DEUS CONOSCO — CRISTO NA EUCARÍSTIA

c) DEUS PARA NÓS: CRISTO CRUCIFICADO

 

2. “VIVO NA FÉ DE JESUS CRISTO”

a) O MÁXIMO DOM DE DEUS

b) RESPOSTA AO DOM DE DEUS

c) A ORAÇÃO, ALIMENTO DA FÉ

d) A HISTÓRIA LIDA NA FÉ

e) FÉ E RAZÃO SÃO IRMÃS

 

3.  AS IMAGENS DE CRISTO

a) MARIA

b) OS SANTOS

c)  OS POBRES

 

 

HOMEM DE DEUS E PARA DEUS ()

 

 

“HOMEM TODO DE DEUS E TODO PARA DEUS” assim foi definido D. Scalabrini. Sua vida foi “Teologal”, consagrada a Deus e à causa de Deus. Seus pensamentos e os textos, aqui citados, revelam a dimensão essencialmente cristológica de sua vida de fé.

Cristo é o Deus-em-nós, o Amor encarnado na humanidade e difundido em nossos corações, pelo Espírito.

Cristo é o Deus-conosco, o Amor que veio colocar a sua tenda em nosso meio, na Eucaristia.

Cristo é o Deus para nós, o Amor “até o fim”, morto e res­suscitado, para fazer-nos participantes da sua vida, morte e res­surreição.

O cristão é justificado e santificado pela fé em Cristo. A fé é o dom, pelo qual Deus se doa totalmente ao homem; o homem responde-lhe com o dom total de si, orientando constantemente o coração e a mente para Deus, na oração e, recebendo do Espírito, a luz que revela o mistério do homem e da história, a caminho para a realização do Reino dos céus.

O ideal de espiritualidade de D. Scalabrini é o de oferecer sua própria pessoa a Cristo, para que Ele prolongue, por meio dela, a sua Encarnação, isto é, continue, através de sua pessoa, amar, ver, falar e agir de modo visível e palpável, como fez durante a sua vida terrena. “Vivo, mas não sou eu mais que vivo, é Jesus Cristo que vive em mim.”

Cristo, presente no mistério pascal, prolonga-se na realidade humana, caminha conosco, faz-se nosso próximo, em nossos com­panheiros de viagem, especialmente em quem imprimiu, de forma mais evidente, a sua imagem: Maria, os Santos, os pobres.

 

 

1. CRISTO ALFA E ÔMEGA

()

Cristo é tudo: divindade e humanidade, transcendência e ima­nência, causa e fim de toda criação, centro do mundo visível e invisível, primeira fonte e termo último da nossa vida, o Caminho, a Verdade, a Vida. Deus é amor. Em um único ato de amor, abraça Cristo e os homens, unificando a humanidade no Filho. Cristo é o Deus que se fez “nosso” para fazer-nos “seus”. Nós somos “ex­tensão” de Cristo. A vida cristã é Cristo que vive em nós. Imitar Cristo é viver como membros da Cabeça, que recapitula em si todas as coisas: é assemelhar-se a Ele no amor.

Cristo é a Emanuel; na Eucaristia, o Verbo encarnado se pro­longa em nós, é vida da Igreja e dos membros, comida que alimenta o homem novo, viático na peregrinar terreno, divinização da cria­tura humana, germe da vida eterna. A piedade eucarística é a es­sência da piedade cristã: a participação no sacrifício e no sacra­mento; na adoração, na reparação, torna-nos participantes do sacer­dócio eterno de Cristo.

Cristo morreu na cruz por nosso amor. O seu sacrifício pede o nosso sacrifício. Para ressurgir com Cristo, devemos morrer com Ele. E este o significado da penitência cristã, que nos despoja do homem velho, para revestir-nos do homem novo, segundo Cristo. Só o Cruz redime e salva. O cristão encontra nela a sua alegria: “fazei-me inebriar, á cruz!”

 

 

a) DEUS EM NÓS RECAPITULAR TUDO EM CRISTO ()

 

“E o Verbo de Deus, o Alfa e o Ômega, O Messias”

 

Quem é Jesus Cristo? É o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim (Ap 1,9). Ele é anterior a todos, o primogênito e o príncipe de toda criatura (Col 1,15). Ele é o herdeiro, o centro do mundo visível e invisível (Hb 1,2), o compêndio dos séculos (Hb 13,8). Sem a luz que Ele irradia, tudo é escuridão. Sem seu trabalho, ordem da natureza e da graça, o homem e o mundo, o passado e o futuro são um livro fechado com sete “chaves” (Ap 5,1).[1]

 

“O centro da criação”

 

Jesus é o centro comum da criação, é o anel precioso que une a obra do Onipotente ao Criador divino, é a meta de todas as obras e dos desígnios todos da Providência, é a razão suprema, última, de todas as miras de Deus, na humanidade redimida, de quem é a cabeça, é a norma de todos os nossos progressos, a única verdade que ilumina cada homem e, consequentemente, toda humanidade.[2]

 

“O Verbo de Deus encarnou-se e fez morada entre nós.”

 

Grande mistério, mistério inefável, mistério dulcíssimo! O Ver­bo de Deus se fez carne e colocou sua morada entre nós (Jo 1,14), a divindade se uniu à humanidade e o invisível apareceu visivel­mente, o Onipotente se tomou fraco, o Eterno começou a existir, o Imenso tornou-se limitado, fez-se o que não era, sem deixar de ser o que era (Fl 2,6). Quer dizer que, se há tempo, as nações temiam ao ouvir o nome da divindade, nós temos um Deus que não quer ser temido, mas amado (Rm 8,15). Por isso despoja-se da glória, oculta a majestade, liberta-se de toda aparência de gran­deza, para aparecer como homem (Fl 2,7).

Este é o que habita no alto dos céus, que passeia por sobre as asas do vento e que mede, com um olhar a terra, Ele é Deus (lo 1,1); mas quase teme aparecer como tal e parece estudar a maneira de não deixar transparecer, senão sua humanidade, para tornar popular a sua demência (Tt 3,4).[3]

 

“N’Ele somos envolvidos pelo Pai num única ato de amar.”

 

Deus ama o seu Filho. Ama-o essencialmente. E impossível para Ele encontrar complacência, fora d’Ele, porque o amor de Deus é infinito e não pode ter outro objeto a não ser um objeto infinito: Este é meu filho amado, em quem pus toda minha afei­ção (Mt 17,5).

Mas este Filho dileto se fez homem. Então, n’Ele, ama o ho­mem. Com um só amor e complacência, em Jesus, abraça tudo, também o corpo e a alma. Ora, nós somos esta carne, estes ossos, nós somos esta natureza, somos um corpo, com Cristo e n’Ele e por Ele, nos tornamos filhos de Deus, pois o mesmo Filho de Deus se prolonga, em nós. Portanto, nós, n’Ele, somos, igualmente, envolvidos e inseridos no Pai, num único ato de amor e como em nós e por nós, se prolonga e se estende a filiação, pela qual Cristo é Filho de Deus, assim, também em nós, se prolonga e se estende o amor do Pai e, portanto, em seu Filho, que lhe é agra­dável e querido, também nós nos tornamos, para Ele, seres agra­dáveis e queridos. Amou-nos, em seu Filho muito amado.[4]

 

“Temos tudo, em Jesus Cristo.”

 

Jesus Cristo é a luz do mundo (Jo 8,12), o Caminho, a Ver­dade e a Vida (Jo 14,6). E o vínculo de união, o beijo da paz, entre o céu e a terra, entre o homem e Deus. (Ef 11,14). É Jesus, nosso Redentor, nosso Mestre, nosso Advogado, nosso Modelo, nos­so Médico, nosso Chefe, nosso Companheiro, nosso Irmão, nosso Amigo, nosso Conforto, nosso Abrigo, nossa Glória, nossa Alegria, nossa Grandeza.

Ele é o Pontífice da nova Aliança, o Sacerdote Eterno, o Me­diador, entre Deus e os homens, a vítima pelos nossos pecados, a nossa real e única felicidade. Ele é a porta, pela qual entramos em seu reino, a Pedra angular e o fundamento sobre o qual o edifício espiritual deve ser assentado. É o pão de nossas almas, o Autor e o consumador da nossa Fé, nosso Prêmio, nossa Coroa, nossa Vida, nosso Tudo. É a Ele, a Jesus, que devemos a graça e a amizade do Pai, a confiança e a liberdade de filhos de Deus. É a Ele, é a Jesus que devemos todos os bens que recebemos de Deus: natureza, graça e glória. É n’Ele, é em Jesus, que somos guardados, se Deus nos conserva, nos sustenta, nos defende, se não nos castiga, como merecemos, se continua a nos suportar e nos esperar. É de Jesus que recebemos as luzes, os conselhos, as inspirações, os bons pensamentos, os desejos piedosos. De Jesus, a coragem nos perigos, a força nas tentações, os sofrimentos nas dores, a paciência nas adversidades, a perseverança no bem, “en­riquecei-vos de tudo, em Cristo” (lCor 1). Sim, em Jesus temos tudo, com Jesus podemos tudo, com Jesus tudo esperamos, tudo obtemos de Jesus, porque foi Jesus que quis humilhar-se, por nós, sacrificar-se, por nós, fazer-se tudo, para nós. (lCor 1).[5]

 

 

“É nosso, verdadeiramente nosso, inteiramente nosso.”

 

Fazendo-se homem, eis que Ele, o Eterno, o Imenso, o Criador e Senhor do Universo, o Rei imortal dos séculos, fez-se nosso ami­go, nosso irmão, o companheiro de nosso exijo. Desde este dia até o fim dos tempos, Ele não nos abandonará jamais, vivendo por um espaço de trinta anos nossa vida mortal, e permanecendo conosco sob o véu eucarístico, “nascendo, torna-se associado.”

Com ternura única de amor, far-se-á nosso alimento. Nada nos é mais íntimo que o alimento. Assimilando-se à nossa substân­cia, conserva e renova nossas forças. E exatamente sob esta forma que Jesus quer pertencer-nos, “transforma-se em comida”.

Não basta. Na Cruz Ele é nossa vítima. Para remir-nos do pecado e da morte, Ele derrama até a última gota de seu sangue e sacrifica a sua vida, constituindo-se preço do nosso resgate, “mor­rendo, nos resgata”.

Finalmente, depois de dar-se a nós, de todos estes modos, Ele coroa seus benefícios, doando-se aos eleitos, nos esplendores da glória, para ser-lhes recompensa eterna, “reinando, dá-se em re­compensa.” Sim, Jesus, desde este dia, é nosso, verdadeiramente nosso, inteiramente nosso. Seja Ele tudo para nós. Feliz de quem chega a compreendê-lo, e compreendendo-o não busca, não anseia, não quer, senão Jesus![6]

 

“É necessário que Jesus Cristo viva em nós.”

 

É necessário que Jesus Cristo viva em nós. E necessário que Ele opere continuamente, em nós, pois só Ele pode reconciliar a terra com o céu, só Ele pode amar a Deus, quanto é amável e prestar-lhe a honra que lhe é devida.

Mas, como pode Ele, Jesus Cristo, viver, em nós? Através do seu espírito, nisto conhecemos que permanecemos n’Ele e Ele em nós, porque deu-nos o seu Espírito (1 Jo 5,13) e o espírito de Jesus Cristo é o espírito de humildade, de caridade, espírito de abnegação, de sacrifício, de penitência.[7]

 

“Vem à terra, para fazer-nos viver a sua vida”

 

Jesus vem à terra, para fazer-nos viver a sua vida, para tor­nar-nos uma única coisa com Ele. Eu vim, Ele mesmo disse, para que tenham vida e a tenham, abundantemente. Ora, esta vida que Jesus vem nos comunicar, unindo-se à nossa, é sua mesma vida.

A união de Jesus, com a alma cristã é o fundamento de toda ordem sobrenatural. Por ela, o homem se eleva até a parti­cipação da natureza divina e nela eleva todo o mundo criado. Cada coisa é vossa, grita o Apóstolo, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro. Mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus, “tudo é vosso. Vós sois de Cristo, Cristo é de Deus.”

Palavras admiráveis que nos revelam a sublime economia do Evangelho. Unida ao Verbo, pela Encarnação, a humanidade sa­crossanta de Jesus Cristo tornou-se, n’Ele, uma só pessoa. Unindo-nos a Jesus Cristo por uma união menos perfeita sim, mas todavia íntima, nós somos uma extensão d’Ele mesmo, nós lhe pertencemos como os membros pertencem ao corpo. Somos um corpo, em Cristo.[8]

 

“Ele mesmo deve ser a nossa vida.”

 

Não somente devemos viver em Jesus Cristo, mas, ainda Ele mesmo deve ser nossa vida e viver em nós. Viver em nós, com seu espírito, com sua graça, com a marca de seus mistérios, com a aplicação de seus méritos, com a eficácia de seus sacramentos e, sobretudo, com seu Corpo e seu Sangue, de maneira que pode­mos dizer com o Apóstolo, “não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”. (Gl 2,20).

Isto quer dizer, escreve o melífluo doutor de Genebra, São Francisco de Sales, Jesus habita em nosso coração e n’Ele reina, como Senhor e Rei; seu espírito se estende, derrama-se em nós e como um calor vital nos conquista, endireita tudo, aquece tudo, santifica tudo, diviniza tudo, e ama no coração, pensa na mente, fala na língua, opera através das mãos e as forças se consomem n’Ele, os estudos fazem-se para a sua glória. Por sua graça cum­prem-se os deveres, suportam-se os sofrimentos por amor. Os divertimentos e mesmo os alimentos se tomam, para dar gosto a Ele. Seu trono ergue-se, em meio aos cristãos, “O reino de Deus está no meio de vós” (Lc 17,21).

Uma moeda deve ter a imagem do seu soberano, caso contrá­rio, não tem valor, não pode circular, no comércio. As obras do cristão não servem para comprar o céu, porque não agradam ao eterno Pai, se não se transformam na imagem do seu Filho e não trazem, de certa maneira, o seu caráter. Nós mesmos, ó veneráveis irmãos e filhos caríssimos, não seremos introduzidos na glória, se não formos conformes a este modelo (Rm 8,29).[9]

 

“Jesus espelho, modelo e selo.”

 

A maneira de conversar seja a de Jesus (...), o olhar, o de Jesus, a mansidão, a de Jesus; Jesus seja o espelho, Jesus, o mode­lo, Jesus, o selo. Ele a proferir as sentenças, a traçar os caminhos, a decidir as escolhas; Ele a governar, a dirigir, a dominar nossa vida. Ele, finalmente, nosso amor, nossa alegria, nossa coroa, o pensamento da nossa mente, o pulsar de nosso coração, as asas das nossas aspirações, o som melodioso, para nossos ouvidos, o bálsamo que alivia nossas dores, o cajado que nos ampara, na terrena peregrinação, o hino e o cântico que ecoa em nossos lábios e, do tempo presente, nos acompanha até a eternidade.[10]

 

“Tornar-nos suas cópias.”

 

Um pintor que queira retratar fielmente, qualquer pessoa ama­da, na tela, que faz? Tem sempre os olhos sobre aquela pessoa, para não fazer traços que não se assemelhem ao original. Assim, devemos fazer nós. E necessário que todos os nossos pensamentos, palavras, ações, nossos desejos, disposições, sofrimentos, sejam como outros tantos traços de pincel, que formam e exprimem em nós, traços da vida de Jesus Cristo, até nos tornar outras cópias suas.

Isto acontecerá, veneráveis irmãos e filhos caríssimos, sabeis quando? Quando julgarmos todas as coisas, como Jesus Cristo julgou. Quando amarmos o que Ele amou, do mesmo modo que Ele amou. Quando tivermos, em nosso coração, os mesmos sentimentos, as mes­mas disposições que Ele teve, em seu coração.

Nem todos, na realidade, somos obrigados a viver tamanha pobreza exterior, como Ele a viveu; como, nem todos somos obri­gados a sofrer os tormentos inefáveis que Ele sofreu; — porém, todos, indistintamente, grandes e pequenos, ricos e pobres, sacer­dotes e leigos, somos obrigados a ter as suas disposições interiores de pobreza, de humildade, de caridade, de sacrifício e de todas as outras virtudes cristãs, de tal modo, que estejamos prontos a tudo sacrificar, tudo sofrer, até a morte, antes que transgredir sua santa lei, “dedicai-vos mutuamente a estima que se deve em Jesus Cris­to” (Fl 11,5).

Porém, não nos iludamos, caríssimos; não teremos conformi­dade interior, com Jesus Cristo, se não tivermos, com Jesus Cristo conformidade também exterior. A vida de Jesus Cristo, disse o Após­tolo, deve manifestar-se na nossa carne mortal (Cor 4,11).[11]

 

“Discípulos de um Deus pobre, humilde, crucificado.”

 

Devemos em nosso exterior, evidenciar que somos discípulos de um Deus pobre, humilde, crucificado. Sem isto, de que ser­viria proclamar-nos e vangloriar-nos de ser cristãos? Qualquer coisa que fizermos, terá sempre como motivação, o espírito do homem velho, ou o espírito do homem novo. Se regularmos o nosso exte­rior, pelos sentimentos do primeiro, somos culpados; se, com o es­pírito do segundo, tudo em nós é santo, tudo em nós participa da vida de Jesus Cristo, pois Ele vive em nós mediante o seu es­pírito (...).

Não basta pois, agir bem, ser honesto, viver como homem de bem, combater e sofrer de qualquer maneira, para poder dizer que nossa vida é cristã; não basta. E absolutamente necessário fazer tudo isto, com os olhos em Deus, com a intenção, a submissão, o amor e o espírito de Jesus Cristo. Deve ser Jesus Cristo o princí­pio e o fim das nossas ações, a alma da nossa alma, a vida da nossa vida.[12]

 

“É Cristo que acende o amor.”

 

A vida consiste, principalmente, no amor, sem o qual, diz São João, se permanece na morte. E a graça do Salvador replena a alma com este bálsamo de vida. E Cristo que acende este amor, mostrando o prodígio incompreensível da sua morte, que impulsio­na com doce violência a amar mais e a sacrificar-se pela sua glória e pela salvação de nossos irmãos, “a caridade de Cristo nos im­pulsiona.” É Cristo que acende este amor, doando-nos novamente na Ressurreição, a prova mais fulgurante de sua divindade e o penhor mais seguro de nossa ressurreição futura. E Cristo que acende este amor, com o contínuo milagre da instituição Eucarís­tica, o mistério do amor por excelência, com o qual Ele se per­petua sobre nossos altares.[13]

 

“O amor nunca diz: basta!”

 

Ele vela por nós com o mais ardente amor. E o amor nunca diz: basta. Para nós, Jesus viveu uma vida de contínua ansiedade: não via hora de consumi-la, por nós. (Lc 12,50) E chegou a hora do sacrifício e viu-se a trágica cena de Deus que morre e morre crucificado, pelo homem! (Rm 5,9). O que se pode dizer ou pen­sar de maior, de mais admirável, por excesso de caridade?

Ninguém, certamente, como afirma o mesmo Jesus Cristo, pode mostrar maior caridade, que a de dar a vida por seus amigos (Jo 15,13). Mas que caridade não foi a sua, de querer morrer por nós, seus inimigos, Ele, nosso Deus, nosso Criador, por nós ofen­dido e ultrajado? Considerando isto, o Apóstolo dizia: “encontra-se apenas quem queira morrer por um homem justo, mas Deus demonstrou nisto sua grande caridade, para conosco, que sendo nós, ainda pecadores, Cristo morreu por nós” (Rm 5,7). E por que morreu? Porque Ele quis. (Is 53,7); ninguém teria podido obri­gá-lo a isto (Jo 10,17). Mas, por que o quis? Porque nos amava, “Porque nos amou e se entregou por nós” (Ef 5,2).[14]

 

“Amai a Jesus.”

 

Ó Jesus, tu és a verdadeira fonte de nosso bem, sempre o foste, foste constantemente e ainda o és. Jesus, ao proferir este nome, o coração se enternece, o espírito se comove, a alma alça o vôo da esperança. Jesus, este nome é mais doce que um favo de mel, mais agradável ao ouvido que o som da harpa, ao cora­ção mais suave que a alegria mais pura! Oh! amemos, amemos Jesus! E a quem amaremos nós, se não amarmos este dulcíssimo Salvador? (...)

Amai Jesus, permanecei unidos a Jesus. Toda a perfeição do cristão está exatamente, na união com Jesus Cristo. Aqui, se en­contra o princípio de todo o bem, o fundamento e a origem de toda a nossa grandeza. Eu sou a videira, diz o Senhor e vós os sarmentos, “Eu sou a verdadeira vinha, vós os ramos” (Jo 15,5). Ora, como um ramo, separado da videira, murcha e morre, assim morrereis também vós, se fordes separados de Jesus Cristo. A união com Jesus Cristo é algo vital para nós. Sem esta, estamos mortos e mortas estão as nossas coisas e seremos cadáveres, como é cadáver um corpo sem alma (...).

É um irmão querido, a quem devemos unir-nos no caminho da vida, apoiar-nos, caminhar com Ele, porque d’Ele nos vem toda graça, o valor de cada ação, a força para cumpri-la, enfim a vida, e o espírito da nossa alma.[15]

 

 

b) DEUS CONOSCO — CRISTO NA EUCARÍSTIA  ()

 

“Aquele que crê na Eucaristia, crê em todas as verdades cristãs”

 

Aquele que crê na Eucaristia, acredita, pode-se dizer, em to­das as verdades cristãs. Crê na inefável Trindade das Pessoas, na absoluta unidade do Ser divino; crê na Encarnação do Verbo, na sua imolação por nós, na gloriosa ressurreição e ascensão ao céu; crê na maternidade divina da Virgem, e no envio do Espírito Santo, sobre os Apóstolos reunidos com Maria; crê na instituição divina da Igreja, na sua infalibilidade e na necessidade de sermos membros vivos, para conseguir a vida eterna (. . .). Ela é obra-prima da mente e do coração de Deus, o centro da nossa religião, o ponto de contato onde o finito e o infinito, a natureza e a graça se unem, no inefável amplexo da verdade e do amor, por essên­cia (...)

Aos pés dos nossos altares encontra-se o Gólgota, onde cho­ramos abraçados à cruz, e o Tabor, onde construímos tabernáculos, para inebriarmo-nos na paz celeste; (...) onde acontece a agonia do Getsêmani e a manhã da ressurreição, a morte mística e a fonte da vida.[16]

 

 “A mais perfeita solução do problema do Emanuel.”

 

Preconizada nas palavras: isto é o meu corpo, isto é o meu sangue, temos a mais perfeita solução do problema do Emanuel, do Deus conosco, solução que por muito tempo manteve suspenso o coração da humanidade que, sendo de origem divina, procura sempre comunicar-se pessoalmente com seu princípio e fim último. Através daquelas palavras, de fato, não só de Belém, Nazaré, Ca­farnaum, Tiberíades, Jerusalém, enfim a Palestina, mas toda a terra passou a ser habitação do Homem-Deus. Agora Ele habita tanto nas basílicas das grandes cidades, como na rústica igreja que lhe ofe­rece o pobre camponês, ou na tenda de folhas de árvore, onde o selvagem o adora; agora tornou-se acessível a todos: aos gregos, como aos bárbaros, ao povo de Israel, como aos filhos do deserto.[17]

 

“A eucaristia é o centro da Igreja.”

 

A eucaristia é o centro da Igreja, o compêndio do culto di­vino, a árvore da vida plantada no meio da Igreja, cujas frondes dão descanso aos povos. É o fermento escondido pela sabedoria Encarnada, neste sacramento. Se a alma fiel aplica-a a suas três faculdades: a racional, a concupiscível e a irascível, ou seja, à mente, ao espírito e ao coração, o homem todo torna-se espiritual. Além disso, se este fermento for introduzido pela Igreja, através do mi­nistério dos sacerdotes, nos diversos estratos sociais, isto é, no corpo dirigente, na juventude e na família, tornará mais maduro este mundo incipiente; reunirá os povos dispersos, no único corpo da Igreja e tornará constantes, em obra virtuosa, os que antes per­maneciam inertes, diante do bem.[18]

 

“Tudo converge para a Eucaristia.”

 

A Eucaristia é, no mundo espiritual, o que é o sol, no mundo físico. Como tudo gravita, no firmamento, para este astro magní­fico, cuja luz e calor difundem, por toda parte, fecundidade e vida, assim tudo gravita igualmente, para a augustíssima Eucaristia. É por ela que a universalidade das coisas criadas que descendem do Criador, a Ele retornam, incessantemente.[19]

 

“Eucaristia, extensão da Encarnação.”

 

Enquanto caminhamos peregrinos nesta terra, além de um au­xílio sobrenatural, que nos sustenta na dura luta da vida, é-nos necessária uma vítima imaculada, para oferecer a Deus expiação pelos nossos pecados. A ajuda, encontramo-la na Sagrada comu­nhão, e a Vítima, na Missa, que é o sacrifício da cruz, através dos séculos, na presença de todas as gerações (...).

A Eucaristia é uma extensão da encarnação e também do sa­crifício do Gólgota. Este na verdade, foi oferecido uma única vez, em poucas horas, em Jerusalém, enquanto a Missa é oferecida em todos os momentos do dia e em todos os recantos da terra. Quem o ignora? Enquanto um hemisfério dorme, o outro está vigilante, outros irmãos rezam por nós, outros sacerdotes suspendem, entre o céu e a terra, a vítima Eucarística, da qual emana o sangue de Cristo, como torrente misteriosa de vida, que percorre o universo de uma extremidade a outra (...).

Se o Filho de Deus, na primeira oblação, entregou-se por to­dos, na Missa oferece-se para cada um de nós, em particular. Isto acontece, em cada momento, a cancelar o quirógrafo do decreto que é contra nós, por causa de nossos pecados e elimina-o afixan­do-o, com seu corpo adorável, no altar da cruz. Se é grande o débito que o homem, pecando, contrai com Deus, muito maior é o preço da redenção. O resgate é feito não a preço de coisas cor­ruptíveis: ouro, prata, mas a preço do sangue do Cordeiro, sem mancha, sangue de valor infinito, porque de Pessoa divina. Sangue do qual uma única gota seria suficiente para redimir o mundo. Portanto, como o oceano está, para uma gota d’água, assim superabundam às nossas culpas, os merecimentos de Cristo na Missa.[20]

 

“Na missa inflama-se a vida sobrenatural da Igreja.”

 

A missa não é somente a redenção quotidiana e a salvação do mundo, mas também o alimento da verdadeira e sólida piedade, a fornalha que inflama a vida sobrenatural da Igreja. Perguntai a esta virgem esposa do Nazareno, como nutre e desperta em seus filhos o espírito de sacrifício, até o heroísmo, como a pobreza, os sofrimentos que nos oprimem, sejam argumentos de especial amor para conosco. Ela responderá, indicando-nos a inscrição que adorna o seu altar: “Assim Deus amou os homens!” Palavras su­blimes, que exprimem uma verdade ainda mais sublime. E desde que a eternidade gerou o tempo, nunca o horizonte da caridade cristã se dilatou tanto, como a partir do momento em que o Verbo de Deus imolou-se a si mesmo, sob as espécies de pão e de vinho. Só a partir de então, compreendeu que o sacrifício é a consumação da vida pura, nobre e santa; desde então só desejou dar vida por vida, amor por amor.[21]

 

“A Missa!”

 

A Missa! É o compêndio de todos os sacrifícios antigos, nos quais se desenvolvia a corrente dos atos religiosos, que a huma­nidade oferecia a Deus; sacrifício único, holocausto, hóstia pacífi­ca e vítima pelo pecado. A Missa! É o sacrifício da cruz que se aproxima de nós, para poupar à nossa fé um retorno cansativo, a um passado distante e esforços freqüentemente vãos, para a nos­sa fraqueza e negligência. A Missa! É a imolação de um Deus que é colocado em nossas mãos, a fim de que possamos apanhar a parte que nos convém nos tempos, nas condições, na medida e para os fins determinados pela Providência. A Missa! É um Deus que adora, um Deus que agradece, um Deus que aplaca, um Deus que implora. A Missa! Ainda uma vez, ela é coroa do culto religioso, centro da vida cristã, o carisma mais esplêndido da grandeza e poder do sacerdote.[22]

 

“Na Eucaristia temos um banquete admirável.”

 

Apelo à vossa experiência, veneráveis irmãos. Não é verdade que celebrado o divino sacrifício, torna-se insípido tudo o que o mundo oferece de agradável? Em tudo o que se vos apresenta, não vedes como um incentivo a serdes solícitos? Não abraçais cada adversidade, como exercício de virtude?

É certo que da celebração da missa vem-nos uma suave pro­pensão ao recolhimento, um forte incentivo à oração, uma secreta doçura no desapego de si, um desejo de perpétua imolação, a esco­lha da vida escondida em Cristo, as maravilhosas experiências de Deus.

Na Eucaristia, temos um banquete admirável, o mais precioso e salutar. É a comida que alimentou nossa infância espiritual, fez crescer a nossa adolescência, corrobora a maturidade, impede o envelhecimento e conserva longe de tudo, a morte (...).

A Eucaristia é o centro de toda a Religião, a síntese das obras divinas, o sumário do Verbo, por este motivo, foi a devoção pri­meira e essencial dos cristãos. Sem aceitar esta devoção, ninguém pode chamar-se cristão, porque lhe falta a cabeça, que é Cristo.

A Eucaristia é a mais salutar de todas as devoções; através dela nos é dirigido o convite de Cristo: “Vinde a mim, vós todos que sofreis e estais sobrecarregados e eu vos aliviarei” (Mt 11,28). Nela acolhe à sua mesa os pecadores, esquece todo pecado, reveste-os de graça. Nela Cristo, como águia que incita ao vôo os seus pequeninos e esvoaça sobre eles, abre as suas asas sobre os justos, recolhe-os e carre­ga-os sobre os ombros, e os eleva à culminância da santidade (Dt 22).

Cristo, na Eucaristia, cria Apóstolos, fortifica mártires à coroa do triunfo, suscita virgens, “de fato é o sagrado banquete, no qual se toma Cristo em alimento, relembra-se sua paixão, a mente se replena de graça e nos é dado o penhor da glória futura.” (Of. Corpus Christi).[23]

 

“Foi a primeira norma de vida na Igreja.”

 

A Eucaristia foi, verdadeiramente, a primeira norma de vida, na Igreja. Cristo era tudo em todos; Cristo, na Eucaristia, era a vida de todos os cristãos. Assim, nos primórdios da Igreja; agora, os tempos mudaram e outras formas de piedade foram, em certo sentido, sendo substituídas à fé e ao amor por Cristo; quero dizer, o culto dos santos e a devida homenagem de devoção filial à Mãe de Deus.

Não digo isto para deplorar ou diminuir tais devoções, nenhum ciúme nas minhas palavras. Louvo, ardentemente, estas manifesta­ções e orientações de piedade, antes trabalho e me esforço quanto posso, para que se firmem e se difundam sempre mais. São, de fato, muito úteis à piedade e queridas pela divina bondade.

Como a contemplação dos espíritos bem aventurados tem uma dúplice “teologia”: a “matutina”, das perfeições divinas vistas em Deus desce a contemplar a obra do Senhor; a “vespertina”, parte das obras divinas, para subir à contemplação de Deus mesmo; as­sim é a piedade dos fiéis. Alguns, apoiando-se, como a degraus, no culto dos Santos e da Mãe de Deus, querem chegar a Deus; outros, em vez, mais utilmente, se apoderam do mesmo Cristo, me­diante a fé e mediante Cristo, sobem ao Pai, para abraçar, por­tanto também, os Santos. Ambos os caminhos conduzem ao fim; mas é necessário prestar atenção que, talvez, enquanto insistimos sobre mediações e sobre os exemplos dos Santos, não diminuam a nossa fé e o nosso amor a Cristo.

Ardentemente, portanto, eu desejo que o amor de todos, por Cristo aumente e supere a devoção que se professa à Mãe de Deus e aos Santos. Cristo de fato “é o Caminho da Verdade e a Vida”, como Ele mesmo disse, ninguém vai ao Pai senão por mim (Jo 14,6.17).

Também Paulo: “Por ele temos acesso, em um só Espírito, ao Pai.” (Ef 2,18).[24]

 

 “Cristianiza o nosso ser”

 

A comunhão é fonte da qual a alma extrai a água, que leva à vida eterna; é o lugar onde se cicatrizam as nossas feridas; é o princípio e o fim da união com Deus, elevada à mais sublime potência e, conduzida ao último grau de perfeição, na ordem pre­sente. De fato, se na Encarnação o Verbo de Deus uniu-se, pes­soalmente, à natureza humana, na comunhão se une, ainda mais, a nossa personalidade. De tal maneira, Ele diviniza a nossa essên­cia, cristianiza o nosso ser individual, e sua união conosco, tem por símbolo aquela que transforma o alimento, na substância do corpo que o nutre. Por isso os que comungam, como deixou escrito um santo doutor: têm Jesus na mente, no coração, no peito, nos olhos, na língua. O Salvador endireita, purifica, vivifica tudo. Ele ama com o coração, entende com a mente, infunde vigor no peito, vê com os olhos, fala através da língua, e movimenta todas as outras faculdades. Ele opera tudo, em todos e estes não vivem mais para si mesmos, mas é o Verbo de Deus que vive neles e fixa às suas ações, metas mais nobres e elevadas e motivos mais puros e mais perfeitos.[25]

 

“Germe luminoso da ressurreição.”

 

O pão comum que vem da terra, diz São Macário, não nos pode dar a vida eterna, mas aquele pão que tem origem no corpo santo de Cristo, unido à divindade confere imortalidade a quem o recebe. A carne do Senhor, depois que é comida não é destruída, nem o seu sangue, depois que é bebido acaba, porque ambos são indissoluvelmente unidos à divindade. Portanto, o corpo glorioso do Senhor, coloca um germe luminoso de ressurreição e de incor­ruptibilidade, no corpo corruptível do homem e este germe, fecun­dado com o sangue d’Aquele que venceu a morte, desenvolve-se e cresce, até que o homem renovado deponha, como veste inútil, a carne mortal e mostrando todo o esplendor da sua vida oculta em Deus, entre nos tabernáculos eternos.[26]

 

“Penetrar no espírito da Sagrada Liturgia.”

 

A instrução abstrata, especulativa, embora excelente, sozinha não basta, deve ser acompanhada pela prática. Se tantos cristãos, enquanto celebram os divinos mistérios, estão na Igreja desatentos, sem vontade e alheios a tudo quanto ali se realiza, é exatamente, porque só vêem nos sagrados ritos a forma exterior. Pois bem, ensinai-lhes a distinguir as diversas partes das sagradas funções, fa­zei-os, penetrar no espírito da sagrada liturgia; logo sua mente se concentrará em Deus e seus lábios, naturalmente, se abrirão em prece. Não existe ânimo tão frio, que custe a subir do sensível ao intengível e não se sinta arrebatado pelo culto católico, o que converge para a Eucaristia, do mesmo modo que, nos templos le­vantados, pelos gênios cristãos, todas as linhas arquitetônicas são coordenadas para o santuário.[27]

 

“Gastar tempo nas confissões?”

 

Nem aqui quero calar sobre sacerdotes, que julgam perder tempo, quando são solicitados, no seu ministério, por almas privile­giadas, as quais gostam de freqüentar o tribunal da penitência e, ainda mais freqüentemente, alimentar-se da carne do Cordeiro Imaculado. O melhor que se pode dizer deles é, que não pensam, ou não sabem que, como não se dá vida sem alma, assim não existe paróquia animada pela vida de Cristo, até que esta não tenha um certo número de fiéis, que se confessem, freqüentemente e co­munguem quase todos os dias. São estas almas que, com o exem­plo de suas virtudes, estimulam os outros ao bem; são elas que fazem resplandecer o ideal da perfeição cristã, são elas finalmente, as zeladoras do bem que se inicia e se realiza na paróquia. Feliz o pároco que souber formar tais almas, cultivando-as, com atenção toda particular. O tempo que, com discrição, investe nisto, é o mais bem empregado, pois elas farão descer sobre nossas popula­ções a graça que as preservará da corrupção e se já corrompidas, transformá-las-á como transformou o mundo grego e romano, nos tempos apostólicos, e conduziu, através dos séculos, tantas outras nações aos pés da Cruz.[28]

 

“A comunhão freqüente.”

 

Um cristão adornado, com a graça santificante, embora tenha imperfeições, e caia em faltas veniais, é todavia filho de Deus, herdeiro do paraíso e portanto digno de aproximar-se também, quo­tidianamente, do grande banquete que Jesus Cristo preparou em sua Igreja: participa do mesmo, com fervor sempre crescente e com maior desejo de retornar. Por que então se deverá exigir dos fiéis uma extraordinária pureza de mente, de coração e de obras, antes de admiti-los a tal banquete? A melhor disposição para aproxi­mar-se dignamente da Eucaristia, não é exatamente a comunhão freqüente?

Oh! se todos tivessem bem alto, o conceito da beleza e da nobreza de uma alma, em graça, certo a nossa comunhão freqüente, não tardaria acontecer, com incalculável vantagem, para o povo cristão e ao próprio convívio civil.[29]

 

“A piedosa prática da visita quotidiana.”

 

Um meio eficaz, para estabelecer e desenvolver a devoção a Jesus Sacramentado é a piedosa prática da visita quotidiana a Ele prisioneiro de amor, nos nossos tabernáculos. A visita ao SS. Sacra­mento é um constante testemunho do sincero amor dos povos, para com a divina Eucaristia, como pelo contrário, o lamentável aban­dono, no qual é deixada por muitos, parece desmentir a fé.

Quanto é belo colocar nossas almas, em freqüente e familiar colóquio com Jesus, com uma prática tão salutar! Feliz, exclama o profeta, aquele que habita junto ao santo tabernáculo! O Senhor é sua força e sua luz, o remédio para todos os seus males, o bálsamo, para todas as feridas, o conforto para todo sofrimento. Aos pés do altar, a alma esquece o mundo, as misérias da vida, pois onde está Jesus, não existe mais dor, porém alegria, até entre as mais amargas tribulações. Este é o lugar onde o fiel, no se­gredo do seu coração, ouve vozes misteriosas e suaves e de onde sai com vivo desejo de retomar, com aquele santo desejo que sem­pre o faz voltar-se, para onde encontra o seu bem e onde acumula tesouro de forças sobrenaturais.

Todos, portanto, rendam esta homenagem quotidiana à divina Eucaristia. Recomendo-a às crianças, para que Jesus as dirija, no caminho das virtudes; aos jovens, para que Jesus lhes dê força, para resistir aos encantos e às seduções do vício, recomendo-a a quem está no declinar da vida, para que Jesus o ajude a encarar, com serenidade a morte.[30]

 

“Adoração diurna e noturna ao SS. Sacramento.”

 

Em algumas paróquias da Diocese, digo-lhe com viva satisfa­ção, já foi instituída a Associação para a Adoração diurna, ao SS. Sacramento. Gostaria de vê-la surgir, também em todas as outras. Onde a população é numerosa, conseguir-se-á, facilmente. Se a paróquia contar, com poucos habitantes e não for possível estabelecer ali a adoração quotidiana, não poderia ser feita ao me­nos duas ou três vezes por semana, especialmente, nos dias fes­tivos? Confio no zelo de meus ótimos colaboradores e na solici­tude, que, em cada circunstância, demonstraram os meus amados diocesanos, pelo culto eucarístico.

Mas, se é coisa sumamente cara, deter-se de dia diante de Jesus, é também lindo velar a seus pés, no silencio e na calma da noite! Imita-se deste modo, os habitantes da Jerusalém celeste, que não cessam de celebrar as glórias do Senhor (...).

Vede, irmãos e filhos muito amados, a necessidade de com­preender a importância desta adoração noturna, de estabelecê-la, nas vossas paróquias e de fazê-la, ao menos uma vez por ano (...).

No que se refere à Eucaristia, jamais saia de vossos lábios aquelas inexpressivas palavras: Isto é impossível. A impossibilidade, neste caso, só tem lugar, para os que fogem da abnegação e do sacrifício.[31]

 

“Diante da hóstia de perdão e de paz.”

 

É aqui diante da hóstia de perdão e de paz, que sentimos aquietar-se o tumulto dos afetos terrenos, equilibrar-se a solicitação das coisas mundanas, enfraquecer-se o orgulho, despertar-se o amor e a compaixão, para com o próximo, estimular-se a competição para as obras santas, os desejos de vida melhor. Não percebeis vir daquele tabernáculo, uma voz que enobrece e torna preciosos os próprios sofrimentos, assegurando que as lágrimas derramadas sobre o altar são recolhidas por aquele que cuida do lírio do campo, do pássaro do bosque, do último cabelo de nossa cabeça? Oh! aqui se re­temperam os ânimos, na força da resignação e da esperança. Nada é perdido aqui, onde se encontra a confiança em Deus; aqui, to­dos somos filhos de Deus; não é engano do acaso ou da violência que atinge aqui a fortaleza, que jorra do divino Tabernáculo (...).

O templo é o refúgio do pobre, abrigo das almas atribuladas e dos oprimidos! Aqui, nos sentimos nós todos, verdadeiramente irmãos! aqui, diante do Pai comum, desaparecem as distinções do luxo, da riqueza, do poder humano! Aqui, nos proclamamos e nos sentimos todos iguais, no banquete comum de Jesus! Aqui, na pre­sença de um Deus, que no Sacramento se abaixa, igualmente ao pequeno e ao grande e tudo eleva até Ele, consagramos, não a falsa democracia do mundo, mas a verdadeira democracia de todos os redimidos![32]

 

“Unidos a Ele, sentir-vos-eis todos irmãos.”

 

Uni-vos, em santa aliança, em torno de Jesus, hóstia divina, em espírito de fé, de reparação, de amor. A Ele unidos, vos sentireis todos irmãos, todos ligados por um pacto: o amor recíproco, e a procurar um, o bem do outro. Daqui nascerá aquela perfeita concórdia, que vos fará comuns as alegrias, como as dores, o sor­riso, como as lágrimas e por toda parte se espargirá o bálsamo da resignação e da esperança cristã. Uni-vos e organizai-vos em Associações de adoradores, para as diversas horas do dia, a fim de que a divina Eucaristia, nunca seja por vós abandonada.[33]

 

“Sois participantes do Sacerdócio eterno de Cristo.”

 

Compreendei a nobreza de vossa dignidade. Fostes feitos par­ticipantes do mesmo sacerdócio eterno, que o Filho de Deus não usurpou para si mesmo, mas recebeu do Pai (...).

Vós que tendes alcançado o sacerdócio, deveis, segundo o Apóstolo, ter também alguma coisa para oferecer (Hb 8,3) e exa­tamente disto deriva a vossa nobreza. Sabeis que a vítima do nos­so sacrifício é o mesmo Filho de Deus, que é, ao mesmo tempo, o sacerdote principal, que oferece, por meio de vosso ministério, e o Deus ao qual é oferecido.

Deste sacrifício, a ação mais elevada e mais sublime da Igreja, avaliai vossa dignidade.

O sacramento e o sacrifício eucarístico são o tesouro da Igreja, o seu sumo bem, a sua suprema beleza: “Qual a sua bondade e qual a sua beleza, se não o trigo dos eleitos e o vinho que gera as virgens?” (Zc 9,17). Sob espécies diferentes, agora puros si­nais, estão escondidas realidades excelsas: carne que é alimento, sangue que é bebida. A Igreja é formada por este sacramento, e todas as suas riquezas sintetizam-se, no pão e no vinho. A vós, a ordem de enriquecer-vos de tal tesouro e de enriquecer os ou­tros. Assim instituiu este sacrifício, quis confiar sua administração só aos sacerdotes, que o recebem e o dão aos outros (Of. Corpus Christi).

A Eucaristia, tesouro dos sacerdotes, é ao mesmo tempo, te­souro confiado a sua fidelidade e a sua guarda. Mas trata-se de um “tesouro” de natureza particular, bem diversa dos demais. Por lei, quem recebe um “tesouro” deve custodiá-lo e conservá-lo fiel­mente, de modo a poder restitui-lo íntegro ao requerente. Não é assim com a Eucaristia: é um depósito de trigo, que seria delito escondê-lo; “quem esconde o trigo será amaldiçoado pelo povo” (Pr 11,26). (...)

A Eucaristia é o sinal, sob o qual fostes reunidos: “O Senhor nos reuniu com a comunhão do cálice, com o qual assumimos Deus mesmo, não com o sangue de vitelos” (Of. Corpus Christi).

A Eucaristia é a vossa estrela. Apareceu-vos, na infância, e vos conduziu a Cristo; guiou vossa adolescência, fortificou vossa juventude; seja na maturidade e na velhice, o vosso “forte protetor, sustenta da virtude, refrigério e sombra, prevenção dos obstáculos; ajuda em toda dificuldade, exaltação da alma, luz dos olhos, saúde, vida e bênçãos!” (Ecl 34,19-20).

Tudo o que sois e tendes, veneráveis irmãos, provém da Eu­caristia; de cada lado, o sacerdote é entrincheirado pela Eucaristia, em tudo é marcado pela Eucaristia.[34]

 

“Cristo na Eucaristia é o livro oferecido aos sacerdotes.”

 

Repensai nas palavras que ouvistes na vossa ordenação; Conhecei o que fazeis. (Pont. Rom). Na realidade, Cristo na Eucaristia é o livro oferecido aos sacerdotes, para que o devorem. Numerosos são os escri­tos dos Doutores e dos Padres, dos quais podeis recolher messe abundante de doutrina. Tendes a Suma de Sto. Tomás que trata de modo verdadeiramente angélico, do adorável Sacramento; ten­des a explicação da Sagrada Escritura, no catecismo do Concílio de Trento, publicado, expressamente, para a vossa instrução. Ten­des também os livros ascéticos, primeiro dos quais, o livrinho da Imitação de Cristo, que no livro IV fala, como nenhum outro, da Eucaristia. Numerosos escritores modernos têm tratado sobre a Eucaristia, oferecendo-nos muitas sugestões úteis.

Recordem com o Apóstolo, “A mim, o mais insignificante den­tre os Santos, foi-me dada a graça de anunciar, entre os pagãos a inexplorável riqueza de Cristo” (Ef 3,8). Não estão ocultas neste Sacramento todas as riquezas de Cristo?[35]

 

“Vossa devoção seja interior e exterior.”

 

Se desejais verdadeiramente vivenciar a devoção eucarística em vossas paróquias, mostrai com fatos, que vós a tendes radicada profundamente, no coração. Vossa devoção interior e exterior, pro­ceda de uma fé viva e de um sincero amor a Jesus, hóstia divina.

Entretanto a fé, frequentemente, é lânguida e, muitas vezes, depois de tantos anos de sacerdócio, não se ama ainda o divino Mestre, ou Ele é amado

com um amor sem vida. Não obstante, o verdadeiro sacerdote é o homem que vive, trabalha e se sacri­fica por Jesus Sacramentado, única meta de todas as suas aspira­ções! Sois assim? O santuário, o altar, o tabernáculo, que vos di­zem? Que impressões vos fazem? Depois de ter recebido o Corpo e o Sangue de Jesus, dizia São Vicente de Paulo, aos seus padres, não sentis acender o coração de fogo divino? Pois bem, este fogo, que ardia vivíssimo no peito daquele humilde sacerdote, herói da caridade cristã, devora também o vosso, ou ele permanece frio, ge­lado? ... Como podeis ter zelo para inspirar aos outros uma de­voção, a mil milhas, longe de vós? Suplico-vos, se não vos sentis chamados a uma vida profundamente interior e de alta contempla­ção, ficai todavia com Jesus sacramentado no ser e no agir, sozi­nhos e em público, agora e sempre. Freqüentemente vossa língua fale d’Ele, por Ele suspire o vosso coração. Não passe uma hora do dia, sem que O tenhais lembrado com carinho e reco­nhecimento.[36]

 

“A adoração perpétua dos sacerdotes.”

 

Outra coisa que eu desejo de coração é que vós todos, vene­ráveis irmãos, vos inscrevais na Pia Sociedade de Sacerdotes, insti­tuída em nossa Diocese, para a adoração perpétua.

Se todos os fiéis devem retribuir a Jesus, amor com amor e reparar os ultrajes que os ímpios, os mais cristãos lhe fazem, vós de modo particular, deveis derramar lágrimas em sua presença e vos interpor entre o altar e os pecadores, como ministros da paz e do perdão. Vós, especialmente, deveis viver a vida eucarística e fazer vossa delícia o estar junto ao tabernáculo, de onde tirareis a força para sacrificar-vos e morrer por Jesus, pela glória de Deus e bem das almas. Eis o único ideal do verdadeiro sacerdote.[37]

Proponho que seja instituída em todas as Dioceses, a adoração permanente ao SS. Sacramento, feita pelo Clero, obrigando-se a uma hora de adoração, periodicamente (...).

Que pensamento comovedor saber que, em cada hora do dia e da noite um padre está prostrado diante de Jesus Sacramentado a rezar por si, por seus irmãos, pela Igreja, pelo Santo Padre, pela constância na fé, pela perseverança final dos convertidos, pelos que estão prestes a morrer (...).

Um padre, adorador fervoroso do SS. Sacramento, será um eloquente Apóstolo, infatigável, constante e abençoado pelo seu zelo. Tornar-se-à criativo, para descobrir as inúmeras atividades próprias para fazer ressurgir e propagar esta devoção nas almas. O zelo deste padre, deste bispo, será abençoado e fecundo.[38]

 

“Na comunicação, ter presente a Eucaristia.”

 

Na pregação a insistência sobre a Eucaristia exige que, apre­sentando-se ocasião, ou qualquer circunstância, recordeis freqüente­mente aos fiéis, Cristo no seu Sacramento. O Apóstolo insistia, com o discípulo Timóteo, a fidelidade na pregação: “Prega a palavra oportuna.” Fazei vós também assim. Em todas as circunstâncias de tempo: inverno ou primavera, verão ou outono, podeis encontrar motivos, para introduzir a pregação sobre a Eucaristia, como tam­bém a chuva, o orvalho, as múltiplas necessidades e ocupações dos homens. Assim, o Cristo Senhor aproveita as preocupações da mul­tidão, pelo pão do corpo, para falar sobre seu sacramento. “Traba­lhai, não pela comida que perece, mas pela que permanece, que o Filho do homem vos dará” (Jo 6,27). Nisto, o Apóstolo imitou-O no discurso aos atenienses, tomando como ponto de referência, o altar do Deus desconhecido.

Existe outro ponto de máxima importância para insistir na pregação eucarística: ter presente a Eucaristia, em cada pregação e concluí-la com a Eucaristia. Falais sobre uma virtude? Proponde o exemplo perfeito, Cristo na Eucaristia. Sobre o pecado? Mostrai Cristo no Sacramento, propiciação pelos pecados de todo o mundo. Podeis apontar a Eucaristia como antídoto que nos livra das culpas quotidianas e nos preserva dos pecados mortais, Cristo médico e medicina. Ó mesa admirável, que nos provê a humildade, contra a soberba, a caridade, contra a inveja, a esmola contra a avareza, a castidade, contra a luxúria, as virtudes contra os vícios! (Tertul. De Ressurrect.)[39]

 

O século XX será chamado o século eucarístico.”

 

Cristo, por meio deste sacramento, torna presente, diante de quem teme a Deus, os seus apelos ao Pai, isto é, o sacrifício do seu corpo e do seu sangue, oferecido sobre a cruz. Qual será o fruto de tão sublime sacrifício? “O que o Senhor fizer crescer será o ornamento e a glória, e o fruto da terra será o orgulho e o ornato de Israel que foram salvos.” (Is 4,2). De fato comerão os pobres e serão saciados, viverão suas almas, pelos séculos dos séculos. Reencontrarão em si os pecadores e toda terra se conver­terá a Deus, e O adorarão todas as raças. Saciar-se-ão e adorarão todos os homens, cairão de joelhos em sua presença, todos os mortais. Do nome do Senhor tomará nome a geração futura; porque os céus, isto é, os sacerdotes, anunciarão a santidade do povo, povo feito pelo Senhor, que está por nascer. Será o povo do SS. Sacra­mento e o século XX, será chamado o século EUCARÍSTICO. “Por que do Senhor é o reino e Ele dominará os povos” (Sl 21).[40]

 

 “Agora deixai...”

 

Quando o Senhor, na sua infinita bondade e misericórdia, ter-me-á concedido ver profundamente radicada a devoção euca­rística, na minha querida Diocese, então não me restará que ex­clamar com o profeta Simeão: “Agora deixa, ó Senhor, que vá em paz o teu servo, porque os meus olhos viram o Salvador que nos deste, amado, reconhecido e venerado por aqueles que estão no tempo, e serão na eternidade, a minha alegria e a minha coroa”.[41]

 

“A mais doce consolação.”

 

Nada poupeis, meus veneráveis cooperadores, para que eu, vin­do, possa dispensar a todos os meus filhos, o pão dos anjos, a todos, desde as crianças da primeira comunhão, àqueles que estão às portas da eternidade. Esta será, meus irmãos e filhos, a mais doce consolação que podereis proporcionar ao vosso Bispo, em meio aos cuidados incessantes e às graves preocupações do seu ministé­rio pastoral.[42]

 

 

c) DEUS PARA NÓS: CRISTO CRUCIFICADO  ()

 

“Banido o Crucifixo? O Crucifixo é o fundamento.”

 

Em nosso século uma voz desprendida de cem peitos, fez a volta ao mundo, gritou e grita: fora o Crucifixo! E desgraçada­mente, conseguiu, em parte, tão infernal intento. Há tempos o Crucifixo era o mais belo ornamento das casas cristãs; hoje, outras imagens tomaram o seu lugar. Há tempos, a família cristã se ins­pirava no Crucifixo e dele tomava nome e exemplo: hoje outros são os objetivos em que se inspira; bem diversas as normas, que têm diante de si. Mas, banido o Crucifixo dos ambientes, das esco­las, dos parlamentos, desterrado o único que poderia remediar seus males, que aconteceu à pobre sociedade? Não quero negar alguns dos títulos de que se orgulha o nosso século: o progresso das ciên­cias, o desaparecimento das distâncias, as muitas descobertas, pelas quais o homem é capaz de arrancar da natureza os segredos mais ocultos, mas com tantas maravilhas é queixa universal que, em ne­nhuma época, a sociedade foi mais terrivelmente abalada e agitada, do que o é na época hodierna (...).

Moveu-se guerra ao Crucifixo. Eis a causa de tantos infortú­nios. É uma verdade que alguns não querem compreender. Culpa-se a injustiça dos homens, a maldade dos tempos. Ah! Não. Convém rasgar as vendas que escondem a verdade, aos nossos olhos. Con­vém penetrar mais fundo. O crucifixo é o fundamento de todas as coisas, escreve São Paulo. Quem desdenha construir sobre tal fundamento só pode acumular ruínas, sobre ruínas (...).

Jesus crucificado é o centro do universo. É a aliança preciosa que une a obra do Onipotente ao Criador Divino. É a meta de todas as produções e de todos os desígnios da Providência. É a razão suprema, última de todos os alvos de Deus sobre a humanidade redimida, que longe d’Ele, toma-se em si mesma, imagem de um cego, que vacila e cai sob os raios do mais esplêndido sol; é a norma de todo verdadeiro progresso social, sendo Ele a verdadeira luz que ilumina todo homem, e a sociedade toda.[43]