a) DEUS EM NÓS —
RECAPITULAR TUDO EM CRISTO
b) DEUS CONOSCO
— CRISTO NA EUCARÍSTIA
c) DEUS PARA
NÓS: CRISTO CRUCIFICADO
2. “VIVO NA FÉ DE JESUS CRISTO”
“HOMEM TODO DE DEUS E TODO PARA DEUS” assim foi definido D. Scalabrini. Sua vida foi
“Teologal”, consagrada a Deus e à causa de Deus. Seus pensamentos e os textos,
aqui citados, revelam a dimensão essencialmente cristológica de sua vida de fé.
Cristo
é o Deus-em-nós, o Amor encarnado na humanidade e difundido em nossos corações,
pelo Espírito.
Cristo
é o Deus-conosco, o Amor que veio colocar a sua tenda em nosso meio, na
Eucaristia.
Cristo
é o Deus para nós, o Amor “até o fim”, morto e ressuscitado, para fazer-nos
participantes da sua vida, morte e ressurreição.
O
cristão é justificado e santificado pela fé em Cristo. A fé é o dom, pelo qual
Deus se doa totalmente ao homem; o homem responde-lhe com o dom total de si,
orientando constantemente o coração e a mente para Deus, na oração e, recebendo
do Espírito, a luz que revela o mistério do homem e da história, a caminho para
a realização do Reino dos céus.
O
ideal de espiritualidade de D. Scalabrini é o de oferecer sua própria pessoa a
Cristo, para que Ele prolongue, por meio dela, a sua Encarnação, isto é,
continue, através de sua pessoa, amar, ver, falar e agir de modo visível e
palpável, como fez durante a sua vida terrena. “Vivo, mas não sou eu mais que
vivo, é Jesus Cristo que vive em mim.”
Cristo,
presente no mistério pascal, prolonga-se na realidade humana, caminha conosco,
faz-se nosso próximo, em nossos companheiros de viagem, especialmente em quem
imprimiu, de forma mais evidente, a sua imagem: Maria, os Santos, os pobres.
Cristo é tudo: divindade e humanidade,
transcendência e imanência, causa e fim de toda criação, centro do mundo
visível e invisível, primeira fonte e termo último da nossa vida, o Caminho, a
Verdade, a Vida. Deus é amor. Em um único ato de amor, abraça Cristo e os
homens, unificando a humanidade no Filho. Cristo é o Deus que se fez “nosso”
para fazer-nos “seus”. Nós somos “extensão” de Cristo. A vida cristã é Cristo
que vive em nós. Imitar Cristo é viver como membros da Cabeça, que recapitula
em si todas as coisas: é assemelhar-se a Ele no amor.
Cristo
é a Emanuel; na Eucaristia, o Verbo encarnado se prolonga em nós, é vida da
Igreja e dos membros, comida que alimenta o homem novo, viático na peregrinar
terreno, divinização da criatura humana, germe da vida eterna. A piedade eucarística
é a essência da piedade cristã: a participação no sacrifício e no sacramento;
na adoração, na reparação, torna-nos participantes do sacerdócio eterno de
Cristo.
Cristo morreu na cruz por nosso amor. O seu sacrifício pede
o nosso sacrifício. Para ressurgir com Cristo, devemos morrer com Ele. E este o
significado da penitência cristã, que nos despoja do homem velho, para
revestir-nos do homem novo, segundo Cristo. Só o Cruz redime e salva. O cristão
encontra nela a sua alegria: “fazei-me inebriar, á cruz!”
a) DEUS EM NÓS — RECAPITULAR
TUDO EM CRISTO ()
“E o Verbo de Deus, o Alfa e o Ômega, O Messias”
Quem é Jesus Cristo? É o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim (Ap 1,9). Ele
é anterior a todos, o primogênito e o príncipe de toda criatura (Col 1,15). Ele
é o herdeiro, o centro do mundo visível e invisível (Hb 1,2), o compêndio dos
séculos (Hb 13,8). Sem a luz que Ele irradia, tudo é escuridão. Sem seu trabalho, ordem da natureza e da graça, o homem
e o mundo, o passado e o futuro são um livro fechado com sete “chaves” (Ap
5,1).[1]
Jesus é o centro comum da criação, é o
anel precioso que une a obra do Onipotente ao Criador divino, é a meta de todas
as obras e dos desígnios todos da Providência, é a razão suprema, última, de todas as miras de Deus, na humanidade
redimida, de quem é a cabeça, é a norma de todos os nossos progressos, a única
verdade que ilumina cada homem e, consequentemente, toda humanidade.[2]
“O Verbo de Deus encarnou-se e fez morada entre nós.”
Grande mistério, mistério inefável, mistério dulcíssimo! O Verbo de Deus
se fez carne e colocou sua morada entre nós (Jo 1,14), a divindade se uniu à
humanidade e o invisível apareceu visivelmente, o Onipotente se tomou fraco, o
Eterno começou a existir, o Imenso tornou-se limitado, fez-se o que não era,
sem deixar de ser o que era (Fl 2,6). Quer dizer que, se há tempo, as nações
temiam ao ouvir o nome da divindade, nós temos um Deus que não quer ser temido,
mas amado (Rm 8,15). Por isso despoja-se da glória, oculta a majestade,
liberta-se de toda aparência de grandeza, para aparecer como homem (Fl 2,7).
Este é o que habita no alto dos céus, que passeia por sobre as asas do
vento e que mede, com um olhar a terra, Ele é Deus (lo 1,1); mas quase teme
aparecer como tal e parece estudar a maneira de não deixar transparecer, senão
sua humanidade, para tornar popular a sua demência (Tt 3,4).[3]
“N’Ele somos envolvidos pelo Pai num única ato de amar.”
Deus ama o seu Filho. Ama-o essencialmente. E impossível para Ele encontrar
complacência, fora d’Ele, porque o amor de Deus é infinito e não pode ter outro objeto a não ser um objeto infinito:
Este é meu filho amado, em quem pus toda minha afeição (Mt 17,5).
Mas este Filho dileto se fez homem. Então, n’Ele, ama o homem. Com um só
amor e complacência, em Jesus, abraça tudo, também o corpo e a alma. Ora, nós
somos esta carne, estes ossos, nós somos esta natureza, somos um corpo, com
Cristo e n’Ele e por Ele, nos tornamos filhos de Deus, pois o mesmo Filho de
Deus se prolonga, em nós. Portanto, nós, n’Ele, somos, igualmente, envolvidos e
inseridos no Pai, num único ato de amor e como em nós e por nós, se prolonga e
se estende a filiação, pela qual Cristo é
Filho de Deus, assim, também em nós, se prolonga e se estende o amor do Pai
e, portanto, em seu Filho, que lhe é agradável e querido, também nós nos
tornamos, para Ele, seres agradáveis e queridos. Amou-nos, em seu Filho muito
amado.[4]
“Temos tudo, em Jesus Cristo.”
Jesus Cristo é a luz do mundo (Jo 8,12), o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo
14,6). E o vínculo de união, o beijo da paz, entre o céu e a terra, entre o
homem e Deus. (Ef 11,14). É Jesus, nosso Redentor, nosso Mestre, nosso Advogado,
nosso Modelo, nosso Médico, nosso Chefe, nosso Companheiro, nosso Irmão, nosso
Amigo, nosso Conforto, nosso Abrigo, nossa Glória, nossa Alegria, nossa
Grandeza.
Ele é o Pontífice da nova Aliança, o Sacerdote
Eterno, o Mediador, entre Deus e os homens, a vítima pelos nossos pecados, a
nossa real e única felicidade. Ele é a
porta, pela qual entramos em seu reino, a Pedra angular e o fundamento sobre o
qual o edifício espiritual deve ser assentado. É o pão de nossas almas, o Autor
e o consumador da nossa Fé, nosso Prêmio, nossa Coroa, nossa Vida, nosso Tudo.
É a Ele, a Jesus, que devemos a graça e a amizade do Pai, a confiança e a
liberdade de filhos de Deus. É a Ele, é a
Jesus que devemos todos os bens que recebemos de Deus: natureza, graça e glória.
É n’Ele, é em Jesus, que somos
guardados, se Deus nos conserva, nos sustenta, nos defende, se não nos castiga,
como merecemos, se continua a nos suportar e nos esperar. É de Jesus que
recebemos as luzes, os conselhos, as inspirações, os bons pensamentos, os
desejos piedosos. De Jesus, a coragem nos perigos, a força nas tentações, os
sofrimentos nas dores, a paciência nas adversidades, a perseverança no bem, “enriquecei-vos
de tudo, em Cristo” (lCor 1). Sim, em Jesus temos tudo, com Jesus podemos tudo,
com Jesus tudo esperamos, tudo obtemos de Jesus, porque foi Jesus que quis
humilhar-se, por nós, sacrificar-se, por nós, fazer-se tudo, para nós. (lCor
1).[5]
“É nosso, verdadeiramente nosso, inteiramente nosso.”
Fazendo-se homem, eis que Ele, o Eterno, o Imenso, o Criador e Senhor do
Universo, o Rei imortal dos séculos, fez-se nosso amigo, nosso irmão, o
companheiro de nosso exijo. Desde este dia até o fim dos tempos, Ele não nos
abandonará jamais, vivendo por um espaço de trinta anos nossa vida mortal, e
permanecendo conosco sob o véu eucarístico, “nascendo, torna-se associado.”
Com ternura única de amor, far-se-á nosso alimento. Nada nos é mais íntimo
que o alimento. Assimilando-se à nossa substância, conserva e renova nossas
forças. E exatamente sob esta forma que Jesus quer pertencer-nos,
“transforma-se em comida”.
Não basta. Na Cruz Ele é nossa vítima. Para remir-nos do pecado e da morte,
Ele derrama até a última gota de seu sangue e sacrifica a sua vida,
constituindo-se preço do nosso resgate, “morrendo, nos resgata”.
Finalmente, depois de dar-se a nós, de todos estes modos, Ele coroa seus
benefícios, doando-se aos eleitos, nos esplendores da glória, para ser-lhes
recompensa eterna, “reinando, dá-se em recompensa.” Sim, Jesus, desde este
dia, é nosso, verdadeiramente nosso, inteiramente nosso. Seja Ele tudo para
nós. Feliz de quem chega a compreendê-lo, e compreendendo-o não busca, não
anseia, não quer, senão Jesus![6]
“É necessário que Jesus Cristo viva em nós.”
É necessário que Jesus Cristo viva em nós. E necessário que Ele opere
continuamente, em nós, pois só Ele pode reconciliar a terra com o céu, só Ele
pode amar a Deus, quanto é amável e prestar-lhe a honra que lhe é devida.
Mas, como pode Ele, Jesus Cristo, viver, em nós? Através do seu espírito,
nisto conhecemos que permanecemos n’Ele e Ele em nós, porque deu-nos o seu
Espírito (1 Jo 5,13) e o espírito de Jesus Cristo é o espírito de humildade, de
caridade, espírito de abnegação, de sacrifício, de penitência.[7]
“Vem à terra, para fazer-nos viver a sua vida”
Jesus vem à terra, para fazer-nos viver a sua vida, para tornar-nos uma
única coisa com Ele. Eu vim, Ele mesmo disse, para que tenham vida e a tenham,
abundantemente. Ora, esta vida que Jesus vem nos comunicar, unindo-se à nossa,
é sua mesma vida.
A união de Jesus, com a alma cristã é o fundamento de toda ordem
sobrenatural. Por ela, o homem se eleva até a participação da natureza divina
e nela eleva todo o mundo criado. Cada coisa é vossa, grita o Apóstolo, seja o
mundo, seja a vida, seja a morte, seja o presente, seja o futuro. Mas vós sois
de Cristo, e Cristo é de Deus, “tudo é vosso. Vós sois de Cristo, Cristo é de
Deus.”
Palavras admiráveis que nos revelam a sublime economia do Evangelho. Unida
ao Verbo, pela Encarnação, a humanidade sacrossanta de Jesus Cristo tornou-se,
n’Ele, uma só pessoa. Unindo-nos a Jesus Cristo por uma união menos perfeita
sim, mas todavia íntima, nós somos uma extensão d’Ele mesmo, nós lhe
pertencemos como os membros pertencem ao corpo. Somos um corpo, em Cristo.[8]
“Ele mesmo deve ser a nossa vida.”
Não somente devemos viver em Jesus Cristo, mas, ainda Ele mesmo deve ser
nossa vida e viver em nós. Viver em nós, com seu espírito, com sua graça, com a
marca de seus mistérios, com a aplicação de seus méritos, com a eficácia de
seus sacramentos e, sobretudo, com seu Corpo e seu Sangue, de maneira que podemos
dizer com o Apóstolo, “não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”. (Gl 2,20).
Isto quer dizer, escreve o melífluo doutor de Genebra, São Francisco de Sales,
Jesus habita em nosso coração e n’Ele reina, como Senhor e Rei; seu espírito se
estende, derrama-se em nós e como um calor vital nos conquista, endireita tudo,
aquece tudo, santifica tudo, diviniza tudo, e ama no coração, pensa na mente,
fala na língua, opera através das mãos e as forças se consomem n’Ele, os
estudos fazem-se para a sua glória. Por sua graça cumprem-se os deveres,
suportam-se os sofrimentos por amor. Os divertimentos e mesmo os alimentos se
tomam, para dar gosto a Ele. Seu trono ergue-se, em meio aos cristãos, “O reino
de Deus está no meio de vós” (Lc 17,21).
Uma moeda deve ter a imagem do seu soberano, caso contrário, não tem
valor, não pode circular, no comércio. As obras do cristão não servem para
comprar o céu, porque não agradam ao eterno Pai, se não se transformam na
imagem do seu Filho e não trazem, de certa maneira, o seu caráter. Nós mesmos,
ó veneráveis irmãos e filhos caríssimos, não seremos introduzidos na glória, se
não formos conformes a este modelo (Rm 8,29).[9]
“Jesus espelho, modelo e selo.”
A maneira de conversar seja a de Jesus (...), o olhar, o de Jesus, a
mansidão, a de Jesus; Jesus seja o espelho, Jesus, o modelo, Jesus, o selo.
Ele a proferir as sentenças, a traçar os caminhos, a decidir as escolhas; Ele a
governar, a dirigir, a dominar nossa vida. Ele, finalmente, nosso amor, nossa
alegria, nossa coroa, o pensamento da nossa mente, o pulsar de nosso coração,
as asas das nossas aspirações, o som melodioso, para nossos ouvidos, o bálsamo
que alivia nossas dores, o cajado que nos ampara, na terrena peregrinação, o
hino e o cântico que ecoa em nossos lábios e, do tempo presente, nos acompanha
até a eternidade.[10]
Um pintor que queira retratar fielmente, qualquer pessoa amada, na tela,
que faz? Tem sempre os olhos sobre aquela pessoa, para não fazer traços que não
se assemelhem ao original. Assim, devemos fazer nós. E necessário que todos os
nossos pensamentos, palavras, ações, nossos desejos, disposições, sofrimentos,
sejam como outros tantos traços de pincel, que formam e exprimem em nós, traços
da vida de Jesus Cristo, até nos tornar outras cópias suas.
Isto acontecerá, veneráveis irmãos e filhos caríssimos, sabeis quando?
Quando julgarmos todas as coisas, como Jesus Cristo julgou. Quando amarmos o
que Ele amou, do mesmo modo que Ele amou. Quando tivermos, em nosso coração, os
mesmos sentimentos, as mesmas disposições que Ele teve, em seu coração.
Nem todos, na realidade, somos obrigados a viver tamanha pobreza exterior,
como Ele a viveu; como, nem todos somos obrigados a sofrer os tormentos
inefáveis que Ele sofreu; — porém, todos, indistintamente, grandes e pequenos,
ricos e pobres, sacerdotes e leigos, somos obrigados a ter as suas disposições
interiores de pobreza, de humildade, de caridade, de sacrifício e de todas as
outras virtudes cristãs, de tal modo, que estejamos prontos a tudo sacrificar,
tudo sofrer, até a morte, antes que transgredir sua santa lei, “dedicai-vos
mutuamente a estima que se deve em Jesus Cristo” (Fl 11,5).
Porém, não nos iludamos, caríssimos; não teremos conformidade interior,
com Jesus Cristo, se não tivermos, com Jesus Cristo conformidade também
exterior. A vida de Jesus Cristo, disse o Apóstolo, deve manifestar-se na
nossa carne mortal (Cor 4,11).[11]
“Discípulos de um Deus pobre, humilde, crucificado.”
Devemos em nosso exterior, evidenciar que somos discípulos de um Deus
pobre, humilde, crucificado. Sem isto, de que serviria proclamar-nos e
vangloriar-nos de ser cristãos? Qualquer coisa que fizermos, terá sempre como
motivação, o espírito do homem velho, ou o espírito do homem novo. Se
regularmos o nosso exterior, pelos sentimentos do primeiro, somos culpados;
se, com o espírito do segundo, tudo em nós é santo, tudo em nós participa da vida de Jesus Cristo, pois Ele
vive em nós mediante o seu espírito (...).
Não basta pois, agir bem, ser honesto, viver como homem de bem, combater e
sofrer de qualquer maneira, para poder dizer que nossa vida é cristã; não
basta. E absolutamente necessário fazer tudo isto, com os olhos em Deus, com a
intenção, a submissão, o amor e o espírito de Jesus Cristo. Deve ser Jesus
Cristo o princípio e o fim das nossas ações, a alma da nossa alma, a vida da
nossa vida.[12]
A vida consiste, principalmente, no amor, sem o
qual, diz São João, se permanece na morte. E a graça do Salvador replena a alma
com este bálsamo de vida. E Cristo que acende este amor, mostrando o prodígio
incompreensível da sua morte, que impulsiona com doce violência a amar mais e
a sacrificar-se pela sua glória e pela salvação de nossos irmãos, “a caridade
de Cristo nos impulsiona.” É Cristo que acende este amor, doando-nos novamente
na Ressurreição, a prova mais fulgurante de sua divindade e o penhor mais
seguro de nossa ressurreição futura. E Cristo que acende este amor, com o
contínuo milagre da instituição Eucarística, o mistério do amor por
excelência, com o qual Ele se perpetua sobre nossos altares.[13]
Ele vela por nós com o mais ardente amor. E o amor nunca diz: basta. Para
nós, Jesus viveu uma vida de contínua ansiedade: não via hora de consumi-la,
por nós. (Lc 12,50) E chegou a hora do sacrifício e viu-se a trágica cena de
Deus que morre e morre crucificado, pelo homem! (Rm 5,9). O que se pode dizer
ou pensar de maior, de mais admirável, por excesso de caridade?
Ninguém, certamente, como afirma o mesmo Jesus Cristo, pode mostrar maior
caridade, que a de dar a vida por seus amigos (Jo 15,13). Mas que caridade não
foi a sua, de querer morrer por nós, seus inimigos, Ele, nosso Deus, nosso
Criador, por nós ofendido e ultrajado? Considerando isto, o Apóstolo dizia:
“encontra-se apenas quem queira morrer por um homem justo, mas Deus demonstrou
nisto sua grande caridade, para conosco, que sendo nós, ainda pecadores, Cristo
morreu por nós” (Rm 5,7). E por que morreu? Porque Ele quis. (Is 53,7); ninguém
teria podido obrigá-lo a isto (Jo 10,17). Mas, por que o quis? Porque nos
amava, “Porque nos amou e se entregou por nós” (Ef 5,2).[14]
Ó Jesus, tu és a verdadeira fonte de nosso bem, sempre o foste, foste
constantemente e ainda o és. Jesus, ao proferir este nome, o coração se
enternece, o espírito se comove, a alma alça o vôo da esperança. Jesus, este nome
é mais doce que um favo de mel, mais agradável ao ouvido que o som da harpa, ao
coração mais suave que a alegria mais pura! Oh! amemos, amemos Jesus! E a quem
amaremos nós, se não amarmos este dulcíssimo Salvador? (...)
Amai Jesus, permanecei unidos a Jesus. Toda a perfeição do cristão está
exatamente, na união com Jesus Cristo. Aqui, se encontra o princípio de todo o
bem, o fundamento e a origem de toda a nossa grandeza. Eu sou a videira, diz o
Senhor e vós os sarmentos, “Eu sou a verdadeira vinha, vós os ramos” (Jo 15,5).
Ora, como um ramo, separado da videira, murcha e morre, assim morrereis também
vós, se fordes separados de Jesus Cristo. A união com Jesus Cristo é algo vital
para nós. Sem esta, estamos mortos e mortas estão as nossas coisas e seremos
cadáveres, como é cadáver um corpo sem alma (...).
É um irmão querido, a quem devemos unir-nos no caminho da vida, apoiar-nos,
caminhar com Ele, porque d’Ele nos vem toda graça, o valor de cada ação, a
força para cumpri-la, enfim a vida, e o espírito da nossa alma.[15]
b) DEUS CONOSCO — CRISTO NA EUCARÍSTIA ()
“Aquele que crê na Eucaristia, crê em todas as verdades cristãs”
Aquele que crê na Eucaristia, acredita, pode-se dizer, em todas as verdades
cristãs. Crê na inefável Trindade das Pessoas, na absoluta unidade do Ser
divino; crê na Encarnação do Verbo, na sua imolação por nós, na gloriosa
ressurreição e ascensão ao céu; crê na maternidade divina da Virgem, e no envio
do Espírito Santo, sobre os Apóstolos reunidos com Maria; crê na instituição
divina da Igreja, na sua infalibilidade e na necessidade de sermos membros
vivos, para conseguir a vida eterna (. . .). Ela é obra-prima da mente e do coração de Deus, o centro da nossa
religião, o ponto de contato onde o finito e o infinito, a natureza e a graça
se unem, no inefável amplexo da verdade e do amor, por essência (...)
Aos pés dos nossos altares encontra-se o Gólgota, onde choramos abraçados
à cruz, e o Tabor, onde construímos tabernáculos, para inebriarmo-nos na paz
celeste; (...) onde acontece a agonia do Getsêmani e a manhã da ressurreição, a
morte mística e a fonte da vida.[16]
“A mais perfeita
solução do problema do Emanuel.”
Preconizada nas palavras: isto é o meu corpo, isto é o meu sangue, temos a
mais perfeita solução do problema do Emanuel, do Deus conosco, solução que por
muito tempo manteve suspenso o coração da humanidade que, sendo de origem
divina, procura sempre comunicar-se pessoalmente com seu princípio e fim
último. Através daquelas palavras, de fato, não só de Belém, Nazaré, Cafarnaum,
Tiberíades, Jerusalém, enfim a Palestina, mas toda a terra passou a ser
habitação do Homem-Deus. Agora Ele habita tanto nas basílicas das grandes
cidades, como na rústica igreja que lhe oferece o pobre camponês, ou na tenda
de folhas de árvore, onde o selvagem o adora; agora tornou-se acessível a
todos: aos gregos, como aos bárbaros, ao povo de Israel, como aos filhos do
deserto.[17]
“A eucaristia é o centro da Igreja.”
A eucaristia é o centro da Igreja, o compêndio do culto divino, a árvore
da vida plantada no meio da Igreja, cujas frondes dão descanso aos povos. É o
fermento escondido pela sabedoria Encarnada, neste sacramento. Se a alma fiel
aplica-a a suas três faculdades: a racional, a concupiscível e a irascível, ou
seja, à mente, ao espírito e ao coração, o homem todo torna-se espiritual. Além
disso, se este fermento for introduzido pela Igreja, através do ministério dos
sacerdotes, nos diversos estratos sociais, isto é, no corpo dirigente, na
juventude e na família, tornará mais maduro este mundo incipiente; reunirá os
povos dispersos, no único corpo da Igreja e tornará constantes, em obra
virtuosa, os que antes permaneciam inertes, diante do bem.[18]
“Tudo converge para a Eucaristia.”
A Eucaristia é, no mundo espiritual, o que é o sol, no mundo físico. Como
tudo gravita, no firmamento, para este astro magnífico, cuja luz e calor
difundem, por toda parte, fecundidade e vida, assim tudo gravita igualmente,
para a augustíssima Eucaristia. É por ela que a universalidade das coisas
criadas que descendem do Criador, a Ele retornam, incessantemente.[19]
“Eucaristia, extensão da Encarnação.”
Enquanto caminhamos peregrinos nesta terra, além de um auxílio
sobrenatural, que nos sustenta na dura luta da vida, é-nos necessária uma
vítima imaculada, para oferecer a Deus expiação pelos nossos pecados. A ajuda,
encontramo-la na Sagrada comunhão, e a Vítima, na Missa, que é o sacrifício da
cruz, através dos séculos, na presença de todas as gerações (...).
A Eucaristia é uma extensão da encarnação e também do sacrifício do
Gólgota. Este na verdade, foi oferecido uma única vez, em poucas horas, em
Jerusalém, enquanto a Missa é oferecida em todos os momentos do dia e em todos
os recantos da terra. Quem o ignora? Enquanto um hemisfério dorme, o outro está
vigilante, outros irmãos rezam por nós, outros sacerdotes suspendem, entre o
céu e a terra, a vítima Eucarística, da qual emana o sangue de Cristo, como
torrente misteriosa de vida, que percorre o universo de uma extremidade a outra
(...).
Se o Filho de Deus, na primeira oblação, entregou-se por todos, na Missa
oferece-se para cada um de nós, em particular. Isto acontece, em cada momento, a
cancelar o quirógrafo do decreto que é contra nós, por causa de nossos pecados
e elimina-o afixando-o, com seu corpo adorável, no altar da cruz. Se é grande
o débito que o homem, pecando, contrai com Deus, muito maior é o preço da
redenção. O resgate é feito não a preço de coisas corruptíveis: ouro, prata,
mas a preço do sangue do Cordeiro, sem mancha, sangue de valor infinito, porque
de Pessoa divina. Sangue do qual uma única gota seria suficiente para redimir o
mundo. Portanto, como o oceano está, para uma gota d’água, assim superabundam
às nossas culpas, os merecimentos de Cristo na Missa.[20]
“Na missa inflama-se a vida sobrenatural da Igreja.”
A missa não é somente a redenção quotidiana e a salvação do mundo, mas
também o alimento da verdadeira e sólida piedade, a fornalha que inflama a vida
sobrenatural da Igreja. Perguntai a esta virgem esposa do Nazareno, como nutre
e desperta em seus filhos o espírito de sacrifício, até o heroísmo, como a
pobreza, os sofrimentos que nos oprimem, sejam argumentos de especial amor para
conosco. Ela responderá, indicando-nos a inscrição que adorna o seu altar:
“Assim Deus amou os homens!” Palavras sublimes, que exprimem uma verdade ainda
mais sublime. E desde que a eternidade gerou o tempo, nunca o horizonte da
caridade cristã se dilatou tanto, como a partir do momento em que o Verbo de
Deus imolou-se a si mesmo, sob as espécies de pão e de vinho. Só a partir de
então, compreendeu que o sacrifício é a consumação da vida pura, nobre e santa;
desde então só desejou dar vida por vida, amor por amor.[21]
A Missa! É o compêndio de todos os sacrifícios antigos, nos quais se
desenvolvia a corrente dos atos religiosos, que a humanidade oferecia a Deus;
sacrifício único, holocausto, hóstia pacífica e vítima pelo pecado. A Missa! É
o sacrifício da cruz que se aproxima de nós, para poupar à nossa fé um retorno
cansativo, a um passado distante e esforços freqüentemente vãos, para a nossa
fraqueza e negligência. A Missa! É a imolação de um Deus que é colocado em
nossas mãos, a fim de que possamos apanhar a parte que nos convém nos tempos,
nas condições, na medida e para os fins determinados pela Providência. A Missa!
É um Deus que adora, um Deus que agradece, um Deus que aplaca, um Deus que
implora. A Missa! Ainda uma vez, ela é coroa do culto religioso, centro da vida
cristã, o carisma mais esplêndido da grandeza e poder do sacerdote.[22]
“Na Eucaristia temos um banquete admirável.”
Apelo à vossa experiência, veneráveis irmãos. Não é verdade que celebrado o
divino sacrifício, torna-se insípido tudo o que o mundo oferece de agradável?
Em tudo o que se vos apresenta, não vedes como um incentivo a serdes solícitos?
Não abraçais cada adversidade, como exercício de virtude?
É certo que da celebração da missa vem-nos uma suave propensão ao
recolhimento, um forte incentivo à oração, uma secreta doçura no desapego de
si, um desejo de perpétua imolação, a escolha da vida escondida em Cristo, as
maravilhosas experiências de Deus.
Na Eucaristia, temos um banquete admirável, o mais precioso e salutar. É a
comida que alimentou nossa infância espiritual, fez crescer a nossa
adolescência, corrobora a maturidade, impede o envelhecimento e conserva longe
de tudo, a morte (...).
A Eucaristia é o centro de toda a Religião, a síntese das obras divinas, o
sumário do Verbo, por este motivo, foi a devoção primeira e essencial dos
cristãos. Sem aceitar esta devoção, ninguém pode chamar-se cristão, porque lhe
falta a cabeça, que é Cristo.
A Eucaristia é a mais salutar de todas as devoções; através dela nos é
dirigido o convite de Cristo: “Vinde a mim, vós todos que sofreis e estais
sobrecarregados e eu vos aliviarei” (Mt 11,28). Nela acolhe à sua mesa os
pecadores, esquece todo pecado, reveste-os de graça. Nela Cristo, como águia
que incita ao vôo os seus pequeninos e esvoaça sobre eles, abre as suas asas
sobre os justos, recolhe-os e carrega-os sobre os ombros, e os eleva à
culminância da santidade (Dt 22).
Cristo, na Eucaristia, cria Apóstolos, fortifica mártires à coroa do
triunfo, suscita virgens, “de fato é o sagrado banquete, no qual se toma Cristo
em alimento, relembra-se sua paixão, a mente se replena de graça e nos é dado o
penhor da glória futura.” (Of. Corpus Christi).[23]
“Foi a primeira norma de vida na Igreja.”
A Eucaristia foi, verdadeiramente, a primeira norma de vida, na Igreja.
Cristo era tudo em todos; Cristo, na Eucaristia, era a vida de todos os
cristãos. Assim, nos primórdios da Igreja; agora, os tempos mudaram e outras
formas de piedade foram, em certo sentido, sendo substituídas à fé e ao amor
por Cristo; quero dizer, o culto dos santos e a devida homenagem de devoção
filial à Mãe de Deus.
Não digo isto para deplorar ou diminuir tais devoções, nenhum ciúme nas
minhas palavras. Louvo, ardentemente, estas manifestações e orientações de
piedade, antes trabalho e me esforço quanto posso, para que se firmem e se
difundam sempre mais. São, de fato, muito úteis à piedade e queridas pela
divina bondade.
Como a contemplação dos espíritos bem aventurados
tem uma dúplice “teologia”: a “matutina”, das perfeições divinas vistas em Deus
desce a contemplar a obra do Senhor; a “vespertina”, parte das obras divinas,
para subir à contemplação de Deus mesmo; assim é a piedade dos fiéis. Alguns,
apoiando-se, como a degraus, no culto dos Santos e da Mãe de Deus, querem
chegar a Deus; outros, em vez, mais utilmente, se apoderam do mesmo Cristo, mediante
a fé e mediante Cristo, sobem ao Pai, para abraçar, portanto também, os
Santos. Ambos os caminhos conduzem ao fim; mas é necessário prestar atenção
que, talvez, enquanto insistimos sobre mediações e sobre os exemplos dos
Santos, não diminuam a nossa fé e o nosso amor a Cristo.
Ardentemente, portanto, eu desejo que o amor de todos, por Cristo aumente e
supere a devoção que se professa à Mãe de Deus e aos Santos. Cristo de fato “é
o Caminho da Verdade e a Vida”, como Ele mesmo disse, ninguém vai ao Pai senão
por mim (Jo 14,6.17).
Também Paulo: “Por ele temos acesso, em um só Espírito, ao Pai.” (Ef 2,18).[24]
A comunhão é fonte da qual a alma extrai a água, que leva à vida eterna; é
o lugar onde se cicatrizam as nossas feridas; é o princípio e o fim da união
com Deus, elevada à mais sublime potência e, conduzida ao último grau de perfeição,
na ordem presente. De fato, se na Encarnação o Verbo de Deus uniu-se, pessoalmente,
à natureza humana, na comunhão se une, ainda mais, a nossa personalidade. De
tal maneira, Ele diviniza a nossa essência, cristianiza o nosso ser
individual, e sua união conosco, tem por símbolo aquela que transforma o
alimento, na substância do corpo que o nutre. Por isso os que comungam, como
deixou escrito um santo doutor: têm Jesus na mente, no coração, no peito, nos
olhos, na língua. O Salvador endireita, purifica, vivifica tudo. Ele ama com o
coração, entende com a mente, infunde vigor no peito, vê com os olhos, fala
através da língua, e movimenta todas as outras faculdades. Ele opera tudo, em
todos e estes não vivem mais para si mesmos, mas é o Verbo de Deus que vive
neles e fixa às suas ações, metas mais nobres e elevadas e motivos mais puros e
mais perfeitos.[25]
“Germe luminoso da ressurreição.”
O pão comum que vem da terra, diz São Macário, não nos pode dar a vida
eterna, mas aquele pão que tem origem no corpo santo de Cristo, unido à
divindade confere imortalidade a quem o recebe. A carne do Senhor, depois que é
comida não é destruída, nem o seu sangue, depois que é bebido acaba, porque
ambos são indissoluvelmente unidos à divindade. Portanto, o corpo glorioso do
Senhor, coloca um germe luminoso de ressurreição e de incorruptibilidade, no
corpo corruptível do homem e este germe, fecundado com o sangue d’Aquele que
venceu a morte, desenvolve-se e cresce, até que o homem renovado deponha, como
veste inútil, a carne mortal e mostrando todo o esplendor da sua vida oculta em
Deus, entre nos tabernáculos eternos.[26]
“Penetrar no espírito da Sagrada Liturgia.”
A instrução abstrata, especulativa, embora excelente, sozinha não basta,
deve ser acompanhada pela prática. Se tantos cristãos, enquanto celebram os
divinos mistérios, estão na Igreja desatentos, sem vontade e alheios a tudo
quanto ali se realiza, é exatamente, porque só vêem nos sagrados ritos a forma
exterior. Pois bem, ensinai-lhes a distinguir as diversas partes das sagradas
funções, fazei-os, penetrar no espírito da sagrada liturgia; logo sua mente se
concentrará em Deus e seus lábios, naturalmente, se abrirão em prece. Não
existe ânimo tão frio, que custe a subir do sensível ao intengível e não se sinta
arrebatado pelo culto católico, o que converge para a Eucaristia, do mesmo modo
que, nos templos levantados, pelos gênios cristãos, todas as linhas
arquitetônicas são coordenadas para o santuário.[27]
“Gastar tempo nas confissões?”
Nem aqui quero calar sobre sacerdotes, que julgam perder tempo, quando são
solicitados, no seu ministério, por almas privilegiadas, as quais gostam de
freqüentar o tribunal da penitência e, ainda mais freqüentemente, alimentar-se
da carne do Cordeiro Imaculado. O melhor que se pode dizer deles é, que não
pensam, ou não sabem que, como não se dá vida sem alma, assim não existe
paróquia animada pela vida de Cristo, até que esta não tenha um certo número de
fiéis, que se confessem, freqüentemente e comunguem quase todos os dias. São
estas almas que, com o exemplo de suas virtudes, estimulam os outros ao bem;
são elas que fazem resplandecer o ideal da perfeição cristã, são elas
finalmente, as zeladoras do bem que se inicia e se realiza na paróquia. Feliz o
pároco que souber formar tais almas, cultivando-as, com atenção toda
particular. O tempo que, com discrição, investe nisto, é o mais bem empregado,
pois elas farão descer sobre nossas populações a graça que as preservará da
corrupção e se já corrompidas, transformá-las-á como transformou o mundo grego
e romano, nos tempos apostólicos, e conduziu, através dos séculos, tantas
outras nações aos pés da Cruz.[28]
Um cristão adornado, com a graça santificante,
embora tenha imperfeições, e caia em faltas veniais, é todavia filho de Deus,
herdeiro do paraíso e portanto digno de aproximar-se também, quotidianamente,
do grande banquete que Jesus Cristo preparou em sua Igreja: participa do mesmo,
com fervor sempre crescente e com maior desejo de retornar. Por que então se
deverá exigir dos fiéis uma extraordinária pureza de mente, de coração e de
obras, antes de admiti-los a tal banquete? A melhor disposição para aproximar-se
dignamente da Eucaristia, não é exatamente a comunhão freqüente?
Oh! se todos tivessem bem alto, o conceito da beleza e da nobreza de uma
alma, em graça, certo a nossa comunhão freqüente, não tardaria acontecer, com
incalculável vantagem, para o povo cristão e ao próprio convívio civil.[29]
“A piedosa prática da visita quotidiana.”
Um meio eficaz, para estabelecer e desenvolver a devoção a Jesus
Sacramentado é a piedosa prática da visita quotidiana a Ele prisioneiro de
amor, nos nossos tabernáculos. A visita ao SS. Sacramento é um constante
testemunho do sincero amor dos povos, para com a divina Eucaristia, como pelo
contrário, o lamentável abandono, no qual é deixada por muitos, parece
desmentir a fé.
Quanto é belo colocar nossas almas, em freqüente e familiar colóquio com
Jesus, com uma prática tão salutar! Feliz, exclama o profeta, aquele que habita
junto ao santo tabernáculo! O Senhor é sua força e sua luz, o remédio para
todos os seus males, o bálsamo, para todas as feridas, o conforto para todo
sofrimento. Aos pés do altar, a alma esquece o mundo, as misérias da vida, pois
onde está Jesus, não existe mais dor, porém alegria, até entre as mais amargas
tribulações. Este é o lugar onde o fiel, no segredo do seu coração, ouve vozes
misteriosas e suaves e de onde sai com vivo desejo de retomar, com aquele santo
desejo que sempre o faz voltar-se, para onde encontra o seu bem e onde acumula
tesouro de forças sobrenaturais.
Todos, portanto, rendam esta homenagem quotidiana à divina Eucaristia.
Recomendo-a às crianças, para que Jesus as dirija, no caminho das virtudes; aos
jovens, para que Jesus lhes dê força, para resistir aos encantos e às seduções
do vício, recomendo-a a quem está no declinar da vida, para que Jesus o ajude a
encarar, com serenidade a morte.[30]
“Adoração diurna e noturna ao SS. Sacramento.”
Em algumas paróquias da Diocese, digo-lhe com viva satisfação, já foi
instituída a Associação para a Adoração diurna, ao SS. Sacramento. Gostaria de
vê-la surgir, também em todas as outras. Onde a população é numerosa,
conseguir-se-á, facilmente. Se a paróquia contar, com poucos habitantes e não
for possível estabelecer ali a adoração quotidiana, não poderia ser feita ao menos
duas ou três vezes por semana, especialmente, nos dias festivos? Confio no
zelo de meus ótimos colaboradores e na solicitude, que, em cada circunstância,
demonstraram os meus amados diocesanos, pelo culto eucarístico.
Mas, se é coisa sumamente cara, deter-se de dia diante de Jesus, é também
lindo velar a seus pés, no silencio e na calma da noite! Imita-se deste modo,
os habitantes da Jerusalém celeste, que não cessam de celebrar as glórias do
Senhor (...).
Vede, irmãos e filhos muito amados, a necessidade de compreender a
importância desta adoração noturna, de estabelecê-la, nas vossas paróquias e de
fazê-la, ao menos uma vez por ano (...).
No que se refere à Eucaristia, jamais saia de vossos lábios aquelas
inexpressivas palavras: Isto é impossível. A impossibilidade, neste caso, só
tem lugar, para os que fogem da abnegação e do sacrifício.[31]
“Diante da hóstia de perdão e de paz.”
É aqui diante da hóstia de perdão e de paz, que sentimos aquietar-se o
tumulto dos afetos terrenos, equilibrar-se a solicitação das coisas mundanas,
enfraquecer-se o orgulho, despertar-se o amor e a compaixão, para com o
próximo, estimular-se a competição para as obras santas, os desejos de vida
melhor. Não percebeis vir daquele tabernáculo, uma voz que enobrece e torna
preciosos os próprios sofrimentos, assegurando que as lágrimas derramadas sobre
o altar são recolhidas por aquele que cuida do lírio do campo, do pássaro do
bosque, do último cabelo de nossa cabeça? Oh! aqui se retemperam os ânimos, na
força da resignação e da esperança. Nada é perdido aqui, onde se encontra a
confiança em Deus; aqui, todos somos filhos de Deus; não é engano do acaso ou
da violência que atinge aqui a fortaleza, que jorra do divino Tabernáculo
(...).
O templo é o refúgio do pobre, abrigo das almas atribuladas e dos
oprimidos! Aqui, nos sentimos nós todos, verdadeiramente irmãos! aqui, diante
do Pai comum, desaparecem as distinções do luxo, da riqueza, do poder humano!
Aqui, nos proclamamos e nos sentimos todos iguais, no banquete comum de Jesus!
Aqui, na presença de um Deus, que no Sacramento se abaixa, igualmente ao
pequeno e ao grande e tudo eleva até Ele, consagramos, não a falsa democracia
do mundo, mas a verdadeira democracia de todos os redimidos![32]
“Unidos a Ele, sentir-vos-eis todos irmãos.”
Uni-vos, em santa aliança, em torno de Jesus, hóstia divina, em espírito de
fé, de reparação, de amor. A Ele unidos, vos sentireis todos irmãos, todos ligados por um pacto: o amor
recíproco, e a procurar um, o bem do outro. Daqui nascerá aquela perfeita
concórdia, que vos fará comuns as alegrias, como as dores, o sorriso, como as
lágrimas e por toda parte se espargirá o bálsamo da resignação e da esperança
cristã. Uni-vos e organizai-vos em Associações de adoradores, para as diversas
horas do dia, a fim de que a divina Eucaristia, nunca seja por vós abandonada.[33]
“Sois participantes do Sacerdócio eterno de Cristo.”
Compreendei a nobreza de vossa dignidade. Fostes feitos participantes do
mesmo sacerdócio eterno, que o Filho de Deus não usurpou para si mesmo, mas
recebeu do Pai (...).
Vós que tendes alcançado o sacerdócio, deveis, segundo o Apóstolo, ter
também alguma coisa para oferecer (Hb 8,3) e exatamente disto deriva a vossa
nobreza. Sabeis que a vítima do nosso sacrifício é o mesmo Filho de Deus, que
é, ao mesmo tempo, o sacerdote principal, que oferece, por meio de vosso
ministério, e o Deus ao qual é oferecido.
Deste sacrifício, a ação mais elevada e mais sublime da Igreja, avaliai
vossa dignidade.
O sacramento e o sacrifício eucarístico são o
tesouro da Igreja, o seu sumo bem, a sua suprema beleza: “Qual a sua bondade e
qual a sua beleza, se não o trigo dos eleitos e o vinho que gera as virgens?”
(Zc 9,17). Sob espécies diferentes, agora puros sinais, estão escondidas
realidades excelsas: carne que é alimento, sangue que é bebida. A Igreja é
formada por este sacramento, e todas as suas riquezas sintetizam-se, no pão e
no vinho. A vós, a ordem de enriquecer-vos de tal tesouro e de enriquecer os outros.
Assim instituiu este sacrifício, quis confiar sua administração só aos
sacerdotes, que o recebem e o dão aos outros (Of. Corpus Christi).
A Eucaristia, tesouro dos sacerdotes, é ao mesmo
tempo, tesouro confiado a sua fidelidade e a sua guarda. Mas trata-se de um
“tesouro” de natureza particular, bem diversa dos demais. Por lei, quem recebe
um “tesouro” deve custodiá-lo e conservá-lo fielmente, de modo a poder
restitui-lo íntegro ao requerente. Não é assim com a Eucaristia: é um depósito
de trigo, que seria delito escondê-lo; “quem esconde o trigo será amaldiçoado
pelo povo” (Pr 11,26). (...)
A Eucaristia é o sinal, sob o qual fostes reunidos: “O Senhor nos reuniu com
a comunhão do cálice, com o qual assumimos Deus mesmo, não com o sangue de
vitelos” (Of. Corpus Christi).
A Eucaristia é a vossa estrela. Apareceu-vos, na infância, e vos conduziu a
Cristo; guiou vossa adolescência, fortificou vossa juventude; seja na maturidade
e na velhice, o vosso “forte protetor, sustenta da virtude, refrigério e
sombra, prevenção dos obstáculos; ajuda em toda dificuldade, exaltação da alma,
luz dos olhos, saúde, vida e bênçãos!” (Ecl 34,19-20).
Tudo o que sois e tendes, veneráveis irmãos, provém da Eucaristia; de cada
lado, o sacerdote é entrincheirado pela Eucaristia, em tudo é marcado pela
Eucaristia.[34]
“Cristo na Eucaristia é o livro oferecido aos sacerdotes.”
Repensai nas palavras que ouvistes na vossa ordenação; Conhecei o que
fazeis. (Pont. Rom). Na realidade, Cristo na Eucaristia é o livro oferecido aos
sacerdotes, para que o devorem. Numerosos são os escritos dos Doutores e dos
Padres, dos quais podeis recolher messe abundante de doutrina. Tendes a Suma de
Sto. Tomás que trata de modo verdadeiramente angélico, do adorável Sacramento;
tendes a explicação da Sagrada Escritura, no catecismo do Concílio de Trento,
publicado, expressamente, para a vossa instrução. Tendes também os livros
ascéticos, primeiro dos quais, o livrinho da Imitação de Cristo, que no livro
IV fala, como nenhum outro, da Eucaristia. Numerosos escritores modernos têm
tratado sobre a Eucaristia, oferecendo-nos muitas sugestões úteis.
Recordem com o Apóstolo, “A mim, o mais insignificante dentre os Santos,
foi-me dada a graça de anunciar, entre os pagãos a inexplorável riqueza de
Cristo” (Ef 3,8). Não estão ocultas neste Sacramento todas as riquezas de
Cristo?[35]
“Vossa devoção seja interior e exterior.”
Se desejais verdadeiramente vivenciar a devoção eucarística em vossas
paróquias, mostrai com fatos, que vós a tendes radicada profundamente, no
coração. Vossa devoção interior e exterior, proceda de uma fé viva e de um
sincero amor a Jesus, hóstia divina.
Entretanto a fé, frequentemente, é lânguida e, muitas vezes, depois de
tantos anos de sacerdócio, não se ama ainda o divino Mestre, ou Ele é amado
com um amor sem vida. Não obstante, o verdadeiro sacerdote é o homem que
vive, trabalha e se sacrifica por Jesus
Sacramentado, única meta de todas as suas aspirações! Sois assim? O santuário,
o altar, o tabernáculo, que vos dizem? Que impressões vos fazem? Depois de ter
recebido o Corpo e o Sangue de Jesus, dizia São Vicente de Paulo, aos seus
padres, não sentis acender o coração de fogo divino? Pois bem, este fogo, que
ardia vivíssimo no peito daquele humilde sacerdote, herói da caridade cristã,
devora também o vosso, ou ele permanece frio, gelado? ... Como podeis ter zelo
para inspirar aos outros uma devoção, a mil milhas, longe de vós? Suplico-vos,
se não vos sentis chamados a uma vida profundamente interior e de alta
contemplação, ficai todavia com Jesus sacramentado no ser e no agir, sozinhos
e em público, agora e sempre. Freqüentemente vossa língua fale d’Ele, por Ele
suspire o vosso coração. Não passe uma hora do dia, sem que O tenhais lembrado
com carinho e reconhecimento.[36]
“A adoração perpétua dos sacerdotes.”
Outra coisa que eu desejo de coração é que vós todos, veneráveis irmãos,
vos inscrevais na Pia Sociedade de Sacerdotes, instituída em nossa Diocese,
para a adoração perpétua.
Se todos os fiéis devem retribuir a Jesus, amor com amor e reparar os
ultrajes que os ímpios, os mais cristãos lhe fazem, vós de modo particular,
deveis derramar lágrimas em sua presença e vos interpor entre o altar e os
pecadores, como ministros da paz e do perdão. Vós, especialmente, deveis viver
a vida eucarística e fazer vossa delícia o estar junto ao tabernáculo, de onde
tirareis a força para sacrificar-vos e morrer por Jesus, pela glória de Deus e
bem das almas. Eis o único ideal do verdadeiro sacerdote.[37]
Proponho que seja instituída em todas as Dioceses, a adoração permanente ao
SS. Sacramento, feita pelo Clero, obrigando-se a uma hora de adoração,
periodicamente (...).
Que pensamento comovedor saber que, em cada hora do
dia e da noite um padre está prostrado diante de Jesus Sacramentado a rezar por
si, por seus irmãos, pela Igreja, pelo Santo Padre, pela constância na fé, pela
perseverança final dos convertidos, pelos que estão prestes a morrer (...).
Um padre, adorador fervoroso do SS. Sacramento, será um eloquente Apóstolo,
infatigável, constante e abençoado pelo seu zelo. Tornar-se-à criativo, para
descobrir as inúmeras atividades próprias para fazer ressurgir e propagar esta
devoção nas almas. O zelo deste padre, deste bispo, será abençoado e fecundo.[38]
“Na comunicação, ter presente a Eucaristia.”
Na pregação a insistência sobre a Eucaristia exige que, apresentando-se
ocasião, ou qualquer circunstância, recordeis freqüentemente aos fiéis, Cristo
no seu Sacramento. O Apóstolo insistia, com o discípulo Timóteo, a fidelidade
na pregação: “Prega a palavra oportuna.” Fazei vós também assim. Em todas as
circunstâncias de tempo: inverno ou primavera, verão ou outono, podeis
encontrar motivos, para introduzir a pregação sobre a Eucaristia, como também
a chuva, o orvalho, as múltiplas necessidades e ocupações dos homens. Assim, o
Cristo Senhor aproveita as preocupações da multidão, pelo pão do corpo, para
falar sobre seu sacramento. “Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela
que permanece, que o Filho do homem vos dará” (Jo 6,27). Nisto, o Apóstolo
imitou-O no discurso aos atenienses, tomando como ponto de referência, o altar
do Deus desconhecido.
Existe outro ponto de máxima importância para
insistir na pregação eucarística: ter presente a Eucaristia, em cada pregação e
concluí-la com a Eucaristia. Falais sobre uma virtude? Proponde o exemplo
perfeito, Cristo na Eucaristia. Sobre o pecado? Mostrai Cristo no Sacramento,
propiciação pelos pecados de todo o mundo. Podeis apontar a Eucaristia como
antídoto que nos livra das culpas quotidianas e nos preserva dos pecados
mortais, Cristo médico e medicina. Ó mesa admirável, que nos provê a humildade,
contra a soberba, a caridade, contra a inveja, a esmola contra a avareza, a
castidade, contra a luxúria, as virtudes contra os vícios! (Tertul. De
Ressurrect.)[39]
“O século XX será chamado o século eucarístico.”
Cristo, por meio deste sacramento, torna presente, diante de quem teme a
Deus, os seus apelos ao Pai, isto é, o sacrifício
do seu corpo e do seu sangue, oferecido sobre a cruz. Qual será o fruto de tão
sublime sacrifício? “O que o Senhor fizer crescer será o ornamento e a glória,
e o fruto da terra será o orgulho e o ornato de Israel que foram salvos.” (Is
4,2). De fato comerão os pobres e serão saciados, viverão suas almas, pelos
séculos dos séculos. Reencontrarão em si os pecadores e toda terra se converterá
a Deus, e O adorarão todas as raças. Saciar-se-ão e adorarão todos os homens,
cairão de joelhos em sua presença, todos os mortais. Do nome do Senhor tomará
nome a geração futura; porque os céus, isto é, os sacerdotes, anunciarão a
santidade do povo, povo feito pelo Senhor, que está por nascer. Será o povo do
SS. Sacramento e o século XX, será chamado o século EUCARÍSTICO. “Por que do
Senhor é o reino e Ele dominará os povos” (Sl 21).[40]
Quando o Senhor, na sua infinita bondade e
misericórdia, ter-me-á concedido ver profundamente radicada a devoção eucarística,
na minha querida Diocese, então não me restará que exclamar com o profeta
Simeão: “Agora deixa, ó Senhor, que vá em paz o teu servo, porque os meus olhos
viram o Salvador que nos deste, amado, reconhecido e venerado por aqueles que
estão no tempo, e serão na eternidade, a minha alegria e a minha coroa”.[41]
Nada poupeis, meus veneráveis cooperadores, para que eu, vindo, possa
dispensar a todos os meus filhos, o pão dos anjos, a todos, desde as crianças
da primeira comunhão, àqueles que estão às portas da eternidade. Esta será,
meus irmãos e filhos, a mais doce consolação que podereis proporcionar ao vosso
Bispo, em meio aos cuidados incessantes e às graves preocupações do seu ministério
pastoral.[42]
c) DEUS PARA NÓS: CRISTO CRUCIFICADO ()
“Banido o Crucifixo? O Crucifixo é o fundamento.”
Em nosso século uma voz desprendida de cem peitos, fez a volta ao mundo, gritou
e grita: fora o Crucifixo! E desgraçadamente, conseguiu, em parte, tão
infernal intento. Há tempos o Crucifixo era o mais belo ornamento das casas
cristãs; hoje, outras imagens tomaram o seu lugar. Há tempos, a família cristã
se inspirava no Crucifixo e dele tomava nome e exemplo: hoje outros são os
objetivos em que se inspira; bem diversas as normas, que têm diante de si. Mas,
banido o Crucifixo dos ambientes, das escolas, dos parlamentos, desterrado o
único que poderia remediar seus males, que aconteceu à pobre sociedade? Não
quero negar alguns dos títulos de que se orgulha o nosso século: o progresso
das ciências, o desaparecimento das distâncias, as muitas descobertas, pelas
quais o homem é capaz de arrancar da natureza os segredos mais ocultos, mas com
tantas maravilhas é queixa universal que, em nenhuma época, a sociedade foi
mais terrivelmente abalada e agitada, do que o é na época hodierna (...).
Moveu-se guerra ao Crucifixo. Eis a causa de tantos infortúnios. É uma
verdade que alguns não querem compreender. Culpa-se a injustiça dos homens, a
maldade dos tempos. Ah! Não. Convém rasgar as vendas que escondem a verdade,
aos nossos olhos. Convém penetrar mais fundo. O crucifixo é o fundamento de
todas as coisas, escreve São Paulo. Quem desdenha construir sobre tal
fundamento só pode acumular ruínas, sobre ruínas (...).
Jesus crucificado é o centro do universo. É a aliança preciosa que une a
obra do Onipotente ao Criador Divino. É a meta de todas as produções e de todos
os desígnios da Providência. É a razão suprema, última de todos os alvos de
Deus sobre a humanidade redimida, que longe d’Ele, toma-se em si mesma, imagem
de um cego, que vacila e cai sob os raios do mais esplêndido sol; é a norma de
todo verdadeiro progresso social, sendo Ele a verdadeira luz que ilumina todo
homem, e a sociedade toda.[43]