TESTIMONIANZE
«Cada passo na espiritualidade scalabriniana produz fruto lá
onde nós estamos e trabalhamos»
Rita Bonassi, mss
Desde muitos anos, caminho pelas estradas do êxodo dos migrantes e dos refugiados como uma companheira de viagem. Levada pela experiência do amor de Deus e pela comunhão na minha comunidade, as Missionárias Seculares Scalabrinianas, desejo responder ao chamado para anunciar o Seu amor, para servir e testemunhar a Sua verdade em todo lugar, na alegria e na esperança, possíveis em qualquer situação. Pois Jesus, o «companheiro de viagem», o «estrangeiro», o «diferente dos diferentes» – que o saibamos ou não – partilha nossa vida e não se cansa de nos chamar a segui-lo na realidade de nossa história cotidiana. «Nele vivemos, nos movemos e existimos» (Atos 17,28).
Ao longo desse caminho, deparei-me com situações fortes, dramáticas, bem como com sonhos, alegrias e esperanças e muita solidariedade. Por meio das feridas dos migrantes pude tocar as feridas da humanidade, tomar parte do gemido e da dor do homem. Assim me encontrei, e me encontro cada dia, a suplicar o dom de um coração simples, de criança, um coração sem limites. A pedir o dom de um olhar contemplativo, a fim de poder perceber com fé e maravilha o mistério de Sua presença em cada pessoa e em cada ambiente e reconhecer a vida nova que abre espaço mesmo dentro das vicissitudes da migração.
Frente a situações aparentemente sem saída experimentei muitas vezes de não poder fazer nada. Assim, dava-me sempre mais conta de que aquilo que permanece é o encontro com a pessoa, vivido na escuta e na estima, até nos encontrarmos juntos a acolher a realidade e atravessá-la com confiança e esperança.
Em Porto Alegre nos anos ‘80
Um grupo de jovens latino-americanos - que teve início em 1981, em Porto Alegre, com o objetivo de organizar um show latino-americano, a fim de recolher fundos em favor dos imigrantes mais necessitados - era formado por imigrantes provenientes de diferentes países, entre eles muitos irregulares. Desde 1980, quando o CIBAI-Migrações (Centro Ítalo-Brasileiro Assistência e Integração), situado na Paróquia N. S. da Pompéia, dos Missionários Scalabrinianos, acolhia sempre mais imigrantes e refugiados latino-americanos, ampliando assim o serviço desenvolvido até então entre os imigrantes italianos e migrantes internos, eu também iniciei ali uma presença missionária, um serviço sócio-jurídico-pastoral entre esses novos imigrantes.
O grupo dos jovens tinha como nome: «América sem fronteiras». Um nome que expressava o seu programa de vida e fazia lembrar o sonho latino-americano de um único povo formado pelas diferentes etnias, todas profundamente pertencentes a esta terra nascida sem fronteiras.
Mesmo na provisoriedade, que não nos fazia faltar as ocasiões de êxodo, pois apresentavam-se continuamente recém chegados, enquanto muitos outros se recolocavam em viagem, foi possível caminhar juntos rumo a um objetivo comum: a solidariedade com quem sofre, sobretudo com os imigrantes irregulares, aquela solidariedade autêntica que exige uma constante reflexão e um contínuo êxodo do coração.
Nem sempre era fácil superar o conceito de identidade nacional, que geralmente se baseia mais em barreiras políticas que na riqueza das diversidades culturais. Muitas vezes, corre-se o risco de fazer coincidir a identidade cultural com o próprio egoísmo, enquanto cada dom – também o de nascer em outra terra – nos foi dado a fim de nos abrirmos ao outro: somente assim, de fato, o dom pode-se desenvolver como dom. Procurava ser uma presença ponte, comunicando o positivo de cada um e fazendo ressaltar a beleza das diversidades, ciente de que o acordo entre diferentes se alcança na escuta, na acolhida de cada pessoa, sem exclusões, e na disponibilidade a enfrentar juntos os conflitos.
Por meio desses passos de diálogo, podíamos nos preparar a acolher algo maior, o projeto de Deus para o mundo, um projeto que conta justamente com as nossas relações cotidianas. Em muitas ocasiões, experimentei que a maneira melhor para viver o serviço aos migrantes era viver o serviço do projeto de Deus para eles.
O fato de eu ser estrangeira, proveniente de outro continente, que no início eu sentia como uma dificuldade, revelou-se uma oportunidade concreta no encontro com muitos imigrantes e de modo especial com os refugiados, que conseguiam superar o temor de encontrar um espião – temor difundido então, a motivo do inseguro contexto latino-americano – e sentiam, como eles diziam, o sabor da proximidade, de sua mesma experiência de migrantes, de estrangeiros. Uma acolhida recíproca, então, na qual se podia fazer próximo o «estrangeiro» por excelência: «Eu era estrangeiro e vocês me acolheram» (Mt 25,35), Aquele que se pode revelar no encontro verdadeiro entre diferentes.
A migração nos provoca «alargando o conceito de pátria além dos confins materiais, fazendo pátria do homem o mundo»: essas palavras de J. B. Scalabrini se tornaram vida em mim presenteando-me a alegria de me sentir brasileira com os brasileiros, chilena com os chilenos, boliviana com os bolivianos, angolana com os angolanos; isto é, a alegria de me reencontrar dentro de cada povo ou grupo étnico, em cada pessoa, reconhecendo o outro como parte de mim, na certeza da presença do Cristo crucificado e ressuscitado que nos atrai a si e nos reúne na única família humana, na qual nenhum povo ou pessoa pode faltar.
As muitas dificuldades encontradas, sobretudo por causa das restrições da lei, ajudaram-nos a aprofundar as relações, a fazer um passo além, a sondar as profundezas do coração humano, a não considerar nada como óbvio, a nos colocar em movimento no coração e a descobrir que a vida é um contínuo procurar, um contínuo êxodo. Cada vez que nos perguntamos o «por que» de uma injustiça, de uma lei discriminante, de uma rejeição, no fundo não fazemos que exprimir nossa sede de relações verdadeiras, a nossa busca da verdade em cada coisa: é justamente nesse momento que nos descobrimos a procurar a Deus na vida concreta de cada dia, aquele Deus que está presente em cada passo de nosso cotidiano, para se revelar como o Amigo que caminha conosco. «Va Dios mismo en nuestro mismo caminar», diziam muitas vezes os imigrantes.
Em diversas ocasiões, pude descobrir que existem ambientes e situações nos quais, como Igreja, somos chamados a entrar como filhos de Deus que encontram outros filhos de Deus, sem necessariamente falar nEle, especialmente quando está em jogo a liberdade do outro, mas procurando permanecermos nEle e trazendo no coração a certeza de Seu Amor concreto para cada pessoa, qualquer seja sua proveniência ou religião e em qualquer maneira se apresente. Essa certeza nos coloca em um serviço humilde, pequeno, sem pretensões e desperta no outro a exigência da reciprocidade.
O fato de nos apresentarmos como Igreja infundia segurança e coragem nos imigrantes, havendo muitos deles já experimentado na pátria como a Igreja pagava na própria pele a defesa dos pequenos, dos perseguidos, dos excluídos. E a Igreja remetia a Deus: para alguns, justamente a experiência de serem acolhidos de maneira desinteressada se tornou o espaço para um encontro pessoal, inesperado, com aquele Pai que sempre espera de braços abertos seus filhos, ou permitiu descobrir a presença de Deus justamente naquelas situações que muitas vezes parecem uma prova de sua ausência. O migrante, de fato, deseja encontrar uma igreja viva, uma comunidade unida e fraterna que testemunhe o Evangelho, um Deus próximo que nos acompanha, nos ama, nos salva e nos conduz.
Um jovem chileno chegou transtornado no escritório de Porto Alegre, onde recebia os imigrantes latino-americanos. Após uma xícara de café com leite, percebi que além de esconder um drama, estava também faminto, comunicou, de um fôlego, o peso que carregava dentro de si: numa improvisa incursão na sua casa – incursões desse tipo aconteciam muitas vezes no Chile durante a ditadura – três policiais armados de metralhadora o tinham imobilizado para levá-lo embora com a acusação de atividade subversiva. Após terem violentado a esposa sob seus próprios olhos, apontaram as armas em direção do seu menino de dois anos, que chorava gritando. Recolhendo todas suas forças, conseguiu liberar-se de quem o segurava e jogou-se com veemência encima de um deles e, roubando-lhe a arma, começou a atirar. Conseguiu fugir. «O que eu podia fazer? Diga-me, o que podia fazer?» repetia soluçando e escondendo o rosto entre os braços apoiados na mesa.
Em silêncio, eu supliquei a Deus de alcançar este jovem com Seu amor e, em seguida, encontrei-me a lhe dizer: «Deus ama a ti... assim como ama também a eles...». Depois de alguns instantes levantou a cabeça e sussurrou: «Eu sei, somente na Igreja posso sentir-me acolhido... com o perdão».
Em qualquer lugar nos encontrarmos
Em êxodo com os imigrantes, encontro-me hoje a percorrer o caminho, com passos pequenos e humildes, na alegria por essa vocação missionária, secular e scalabriniana, que o Espírito Santo tem suscitado na Igreja para se tornar presente, também por meio de nossa pequenez, no caminho deles. Ela nos envia a descobrir as sementes do Reino de Deus já presentes em cada pessoa, em cada ambiente e situação, na certeza de que a salvação não vem de nós, mas de Seu Amor crucificado e ressuscitado, chave que abre cada porta dentro e fora de nós.
Em uma sociedade homologante, saturada de individualismo e de consumismo, onde se exercem poderes, mas raramente se assumem responsabilidades, nossa consagração secular nos chama a testemunhar, em todo e qualquer lugar, aquele olhar de amor que gratuitamente recebemos na contemplação. Um olhar que nos faz perceber, com fé e maravilha, o mistério de Sua presença em cada pessoa, em cada realidade, na certeza de que a verdadeira acolhida do outro se exprime no tentar enxergar a sede mais profunda, que muitas vezes se esconde atrás de um pedido de serviço, atrás de uma questão, ou também atrás de uma pretensão. A necessidade mais profunda de cada pessoa é justamente a de se encontrar com Deus que é Amor, e de se encontrar consigo mesma e com os outros, a fim de juntos construirmos – ali onde estamos fazendo nossa pequena parte – uma convivência fraterna e solidária fundada nos critérios do Evangelho.
Enquanto caminho com os imigrantes, experimento que somente a relação viva e cotidiana com Deus, com o Filho crucificado-ressuscitado pode me ensinar a amar, a acolher, a dar a vida pelo outro como Ele a deu por mim.
A cada dia, faço a experiência que o êxodo autêntico é sempre um passo de acolhida em direção ao outro, em direção daquela estima que suscita a participação, a comunicação do melhor de si e torna possível a abertura humilde que conduz ao diálogo, à comunhão.
Frente a situações de dor e sofrimento, dificuldades e injustiças, exploração, nas quais nunca faltam momentos de esperança e de espera, a partilha se torna vida em êxodo dentro de mim. De fato, o caminho para participar daquela dor e daquele sofrimento, daquela dificuldade e injustiça, daquela esperança e espera, é o de procurar em mim os passos necessários para sair do meu óbvio, daquilo que é velho, do egoísmo, a fim de receber com o outro a vida nova do Cristo ressuscitado. De fato, o envio nos ambientes mais diferentes, vivendo uma presença secular, no estilo do fermento, antes de me pedir «o que fazer», me pede para tomar consciência do mistério do pecado do mundo, que também é dentro de mim, de todos nós e que se manifesta em suas «resistências»: em tudo aquilo que o pecado condiciona em minha própria história pessoal e de seguimento, nas relações e no pluralismo das mentalidades e das culturas diferentes, nos sistemas do mundo e nas estruturas.
É necessário pedir a cada dia o dom da vigilância, a fim de poder entrar nas diferentes realidades sempre um pouco como estrangeira; isto é, como quem não faz seus os critérios do mundo, mas procura em todo e qualquer lugar a presença do Senhor, o Crucificado ressuscitado, Aquele que vem sempre como Amor, que se faz próximo de todos e especialmente de cada pessoa marginalizada.
A acolhida, a universalidade, a fé, a esperança são dimensões que caminham juntamente com a certeza que o migrante, com sua diversidade, tem uma missão a cumprir e que sua condição traz em si as potencialidades para transformar o ambiente, o mundo. Para que tudo isso possa produzir seu fruto é necessário fazer muito espaço. Em primeiro lugar é necessário receber continuamente o dom da comunhão, a fim de podermos caminhar pelas estradas dispersas da migração, de nos deixar sempre de novo unificar por Jesus, o crucificado-ressuscitado, para descobrirmos em nossas relações a presença de Deus e alegrarmo-nos do mistério de Sua vida, isto é, da comunhão trinitária, na qual já estamos em casa.
Pelas estradas da sensibilização
É muito viva nos imigrantes a consciência da dignidade da pessoa, de serem cidadãos do mundo, de fazerem parte de uma única família e, por isso, ter os mesmos direitos e deveres da gente do lugar, da necessidade de participar ativamente na sociedade em que, de uma maneira ou de outra, são inseridos. «Pelos simples fato de ter atravessado a fronteira eu sou estrangeiro – reclamava um jovem – mas eu sou o mesmo de antes. Por que estas barreiras, estas leis que fracionam a humanidade?».
A sensibilização da sociedade é um aspecto fundamental, no tempo de J. B. Scalabrini como hoje. Os numerosos contatos com as entidades públicas, as instituições, os grupos de jovens, as escolas, as faculdades, os amigos, se tornam ocasião para interpretar a realidade dos migrantes e fazer conhecer a face positiva da migração, visto que muitas vezes dominam estereótipos propostos pelos meios de comunicação e confirmados pelos julgamentos apressados de quem olha somente os comportamentos exteriores.
Muitos são os caminhos e as veredas para sensibilizar sobre a real situação dos imigrantes. E em qualquer ambiente é possível encontrar pessoas abertas, com uma grande sensibilidade para com o outro e capazes de colocar sinais através de concretas mudanças no comportamento, jogando assim sementes de paz nas relações. Também dessas pessoas falava J. B. Scalabrini quando dizia:
«Os servidores de Deus que trabalham sem sabê-lo, inconscientemente, pelo cumprimento de seus desígnios, são numerosos em todos os tempos, mas nas grandes épocas históricas de renovação social existem mais do que se conheça, mais do que se pense: eles são inúmeros».
A migração nos força a mudar, a nos abrir, pede-nos para abandonar a idéia de integração que quer «fazer ordem» na sociedade, como se fosse o imigrante a trazer desordem e transtorno, ou melhor, como se fosse ele o culpado da desordem que já existe dentro de nós, e diante da qual, irresponsavelmente, queremos fechar os olhos e o coração.
Certamente, é necessária a integração que faz espaço ao diferente, que nos leva a superar cada conservação rígida da cultura, atrás da qual, muitas vezes, escondemos o nosso medo.
Encontrei, e encontro, também imigrantes que depois de haver aberto caminhos com muitos sacrifícios, olham agora para os recém-chegados, os novos últimos, com a pretensão de um merecido direito de precedência! Assim, também, acontece às vezes na família: quando nasce um irmãozinho podemos experimentar um pouco de mal-estar ao ver diminuído o nosso espaço! Mas também o mal-estar pode se tornar a oportunidade para um novo envolvimento com quem é menor e por isso mais necessitado e pode aproximar as pessoas, fazer crescer a solidariedade.
Cada homem, migrante ou não, quando acolhe com amor o imprevisto, a dor, um mal-estar, tudo aquilo que pode doer, sem percebê-lo faz espaço para uma nova humanidade, onde a dor pode ser atravessada pela festa, a dimensão mais verdadeira da vida cristã, própria do coração de Deus. É muito vivo o sentido da festa no povo latino-americano, para não dizer do povo africano e – mesmo em diferentes maneiras – de cada povo, já tocado, também sem saber, pela força da vida nova, fruto da morte e ressurreição de Cristo.
«A migração é divina». Assim iniciou um jovem refugiado congolês ao comunicar seu testemunho para um grupo de jovens no Centro Internacional para Jovens – J. B. Scalabrini, em São Paulo, e prosseguiu dizendo:
«Somente Deus pode pensar em unir a humanidade de margens tão distantes e inclusive através de seus dramas... Somente Deus pôde me conduzir até aqui ao Brasil em minha fuga, escondido no porão de um navio, enquanto eu era convencido de chegar à Europa...».
Conhecemo-lo quando passou a freqüentar o curso de português para refugiados, da mesma forma como outro refugiado, muito jovem, ao nos comunicar com tristeza que lhe fora negado o pedido de refúgio: «Não sei mais a quem pertenço, ninguém me quer, para onde irei? Por que tanta violência?». «Mas – continuava ele – sei que sem sangue não há liberdade, sem dor não há vida nova».
Na realidade, a migração é um grito para a vida. Os migrantes, com seu sacrifício e dor, com seus dramas e, especialmente, com sua esperança tenaz e fé que não desmorona, ajudam as sociedades a se abrirem para uma nova convivência, que não será sem conflitos, mas é justamente lá, onde as diversidades entram em diálogo, que se coloca em jogo o futuro da humanidade.
Com certeza, a migração abre horizontes impensáveis para a comunhão entre as diversidades, porque, como dizia Angel, um migrante argentino: «é justamente graças à diversidade que acontecem os grandes saltos qualitativos».
«Ogni passo nella spiritualità scalabriniana porta frutto lì dove siamo e operiamo»
Rita Bonassi, mss
Cammino da diversi anni sulle strade dell’esodo dei migranti e dei rifugiati come una compagna di viaggio. Portata dall’esperienza dell’amore di Dio e della comunione nella mia comunità, le Missionarie Secolari Scalabriniane, desidero rispondere alla chiamata ad annunciare il Suo amore, a servire, a testimoniare la Sua verità ovunque, nella gioia e nella speranza, possibili in ogni situazione perché Gesù, il «compagno di viaggio», lo «straniero», il «diverso dei diversi» – che lo sappiamo o no – condivide la nostra vita e non si stanca di chiamarci a seguirlo nella concretezza della nostra storia quotidiana. «In Lui viviamo, ci muoviamo ed esistiamo» (cf At 17,28).
Mi si sono presentate situazioni forti, drammatiche, insieme a sogni, gioie e speranze e a tanta solidarietà. Attraverso le ferite dei migranti ho potuto toccare le ferite dell’umanità, prendere parte al gemito e al dolore dell’uomo. Così mi sono trovata e mi trovo ogni giorno a supplicare il dono di un cuore semplice, bambino, un cuore senza limiti; a chiedere il dono di uno sguardo contemplativo per poter cogliere con fede e stupore il mistero della Sua presenza in ogni persona e in ogni ambiente e riconoscere la vita nuova che si fa spazio anche attraverso il travaglio dell’emigrazione.
Di fronte a situazioni apparentemente senza via d’uscita ho sperimentato spesso di non poter fare nulla. Così mi sono sempre più resa conto che quello che rimane è l’incontro con la persona, vissuto nell’ascolto e nella stima, fino a trovarci insieme ad accogliere la realtà e ad attraversarla con fiducia e speranza.
A Porto Alegre negli anni ‘80
Il gruppo dei giovani latinoamericani, che ha preso avvio nel 1981 a Porto Alegre per organizzare uno show latinoamericano con lo scopo di raccogliere fondi destinati ai migranti più bisognosi, era formato da migranti provenienti da diversi paesi, tra loro molti senza regolare permesso. Dal 1980, quando il CIBAI-Migrações (Centro Italo-Brasileiro Assistência e Integração) situato nella Parrocchia «N.Sra. da Pompéia» dei Missionari Scalabriniani, si era trovato ad accogliere sempre più migranti e rifugiati latinoamericani, ampliando così il suo servizio svoltosi fino allora tra i migranti italiani e interni, anch’io avevo iniziato lì una presenza missionaria, un servizio socio-giuridico-pastorale tra quei nuovi immigrati.
Il gruppo si era dato un nome: «America senza frontiere», un nome che esprimeva il programma di vita del gruppo e richiamava il sogno latinoamericano di un unico popolo formato dalle diverse etnie, tutte profondamente appartenenti a questa terra nata senza frontiere.
Pur nella provvisorietà, che non ci faceva mancare le occasioni di esodo – continuamente si presentavano dei nuovi arrivati, mentre tanti si rimettevano in viaggio... – è stato possibile camminare insieme verso un obiettivo comune: la solidarietà con chi soffre, specialmente con i migranti irregolari, quella solidarietà autentica che esige una costante riflessione e un continuo esodo del cuore.
Non era sempre facile superare il concetto di identità nazionale, che in genere fa leva più sulle barriere politiche che sulla ricchezza delle diversità culturali. A volte si corre il rischio di far coincidere l’identità culturale col proprio egoismo, mentre ogni dono – anche quello di nascere in una data terra – ci è dato perché ci apriamo all’altro: solo così infatti il dono si può sviluppare come dono. Cercavo di essere presente come ponte, comunicando il positivo degli uni e degli altri e facendo risaltare la bellezza delle diversità, cosciente che l’accordo tra diversi si raggiunge nell’ascolto, nell’accoglienza di ciascuno, senza esclusioni, e nella disponibilità ad affrontare insieme i conflitti.
Attraverso questi passi di dialogo potevamo prepararci ad accogliere qualcosa di più grande, il progetto di Dio per il mondo, un progetto che conta proprio sulle nostre relazioni quotidiane. In molte occasioni ho sperimentato che il modo migliore per vivere il servizio ai migranti è il vivere a servizio del progetto di Dio per loro.
Il fatto di essere straniera, proveniente da un altro continente, cosa che inizialmente sentivo come una difficoltà, si è rivelato una chance concreta nell´incontro con tanti migranti e specialmente con i rifugiati, che in questo modo riuscivano a superare il timore di incontrare una spia – un timore diffuso allora, dato l’insicuro contesto latinoamericano - e sentivano, come dicevano loro, il sapore della vicinanza, della loro stessa esperienza di migranti, di stranieri. Un’accoglienza reciproca, dunque, in cui si poteva fare vicino lo «straniero» per eccellenza: «Ero straniero e mi avete accolto» (cf Mt 25,35), Colui che si può rivelare nell’incontro vero tra diversi.
L’emigrazione ci provoca «allargando il concetto di patria oltre i confini materiali, facendo patria dell’uomo il mondo»: queste parole di G.B. Scalabrini si sono fatte vita in me regalandomi la gioia di sentirmi brasiliana con i brasiliani, cilena con i cileni, boliviana con i boliviani, angolana con gli angolani..., la gioia cioè di ritrovarmi dentro ad ogni popolo o gruppo etnico, ad ogni persona, riconoscendo l’altro come parte di me, certa della presenza del Cristo crocifisso e risorto che ci attrae a sé e ci raduna nell’unica famiglia umana, in cui nessun popolo o persona può mancare.
Le tante difficoltà, incontrate specialmente a causa delle restrizioni della legge, ci hanno aiutato ad approfondire i rapporti, a fare un passo oltre, a scrutare le profondità del cuore umano, a non dare niente per scontato, a metterci in movimento nel cuore e a scoprire che la vita è un continuo cercare, un continuo esodo. Ogni volta che ci si chiede il «perché» di un’ingiustizia, di una legge discriminante, di un rifiuto, in fondo non facciamo altro che esprimere la nostra sete di rapporti veri, la nostra ricerca della verità in ogni cosa: è proprio allora che ci scopriamo a cercare Dio nella vita concreta di ogni giorno, quel Dio che è presente nelle pieghe del nostro quotidiano per rivelarsi come l’Amico che cammina con noi. «Va Dios mismo en nuestro mismo caminar», come dicevano spesso i migranti.
In diverse occasioni ho sperimentato che ci sono ambienti e situazioni in cui come Chiesa siamo chiamati ad entrare da figli di Dio che incontrano altri figli di Dio, senza necessariamente parlare di Lui, specialmente quando è in gioco la libertà dell’altro, ma cercando di rimanere noi in Lui e portando nel cuore la certezza del Suo Amore concreto per ogni persona, qualsiasi sia la sua provenienza o religione e in qualsiasi modo si presenti. Questa certezza ci mette in un servizio umile, piccolo, senza pretese e risveglia nell’altro l’esigenza di reciprocità.
Il presentarci come Chiesa infondeva nei migranti sicurezza e coraggio, avendo molti di loro già sperimentato in patria come la Chiesa paga sulla propria pelle la difesa dei piccoli, dei perseguitati, degli esclusi. E la Chiesa è rimando a Dio: per alcuni proprio l’esperienza di essere accolti in modo disinteressato è diventata lo spazio per un incontro personale, inatteso, con quel Padre che sempre aspetta a braccia aperte i suoi figli, oppure ha permesso di scoprire la presenza di Dio proprio in quelle situazioni che normalmente sembrano una prova della sua assenza. Il migrante, infatti, desidera incontrare una Chiesa viva, una comunità unita e fraterna che testimonia il Vangelo, un Dio vicino, che ci accompagna, ci ama, ci salva e ci conduce.
Un giovane cileno era arrivato sconvolto nell’ufficio di Porto Alegre, dove ricevevo i migranti latinoamericani. Dopo una tazza di caffè e latte – avevo capito che oltre ad avere un dramma alle spalle doveva essere anche affamato – aveva comunicato tutto d’un fiato il peso che aveva dentro: con un’improvvisa incursione in casa – incursioni del genere succedevano spesso in Cile durante la dittatura – tre poliziotti armati di mitra l’avevano immobilizzato per portarlo via con l’accusa di attività sovversiva. Dopo aver violentato la moglie sotto i suoi occhi, avevano puntato le armi verso il loro bambino di due anni che piangeva forte. D’impeto si era svincolato e gettato su uno di loro: strappatagli l’arma aveva iniziato a sparare. Aveva dovuto fuggire. «Cosa potevo fare? Dimmi, cosa potevo fare?», ripeteva singhiozzando e nascondendo il volto tra le braccia appoggiate alla scrivania.
Dopo che in silenzio avevo supplicato Dio di raggiungerlo con il Suo amore, mi ero trovata a dirgli: «Dio ama te..., così come ama anche loro...». Dopo alcuni istanti aveva alzato la testa e aveva sussurrato: «Solo nella Chiesa posso sentirmi accolto, ...con il perdono».
Ovunque ci troviamo
In esodo con i migranti, mi trovo oggi a percorrere la strada con passi piccoli ed umili, nella gioia per questa vocazione missionaria, secolare e scalabriniana, che lo Spirito Santo ha suscitato nella Chiesa per rendersi presente, anche attraverso la nostra piccolezza, sul loro cammino, inviandoci a scoprire i semi del Regno di Dio già presenti in ogni persona, ambiente e situazione, con la consapevolezza che la salvezza non viene da noi ma dal Suo Amore crocifisso e risorto, chiave che apre ogni porta dentro e fuori di noi.
In una società omologante, satura di individualismo e di consumismo, dove si esercitano poteri ma raramente si assumono responsabilità, la nostra consacrazione secolare ci chiama a testimoniare ovunque quello sguardo d’amore che gratuitamente riceviamo nella contemplazione. Uno sguardo che ci dona di cogliere con fede e stupore il mistero della Sua presenza in ogni persona, in ogni realtà, nella certezza che la vera accoglienza dell’altro si esprime nel tentare di cogliere la sua sete più profonda, che spesso si nasconde dietro alla richiesta di un servizio, ad una domanda o anche ad una pretesa. Il bisogno più profondo di ogni persona è proprio quello di incontrarsi con Dio, che è Amore, e di incontrarsi con se stessa e con gli altri, per costruire insieme – lì dove siamo, nel nostro piccolo – una convivenza fraterna e solidale fondata sui criteri del Vangelo.
Mentre cammino con i migranti sperimento che è solo il rapporto vivo e quotidiano con Dio, con il Figlio crocifisso-risorto che mi può insegnare ad amare, ad accogliere, a dare la vita per l’altro come Lui l’ha data per me.
Ogni giorno faccio l’esperienza che l’esodo autentico è sempre un passo verso l’accoglienza dell’altro, verso quella stima che provoca partecipazione, comunicazione del meglio di sé e rende possibile quell’apertura umile che conduce al dialogo, alla comunione.
Di fronte a situazioni di dolore e sofferenza, difficoltà, ingiustizie, sfruttamento, in cui mai mancano momenti di speranza e di attesa, la condivisione si fa vita in esodo dentro di me. Infatti, la via per partecipare a quel dolore e sofferenza, a quella difficoltà e ingiustizia, a quella speranza e attesa, è quella di cercare in me i passi necessari per uscire dal mio scontato, da ciò che è vecchio, dall’egoismo, per ricevere insieme all’altro la vita nuova del Cristo risorto. L’invio negli ambienti più diversi per una presenza secolare nello stile del fermento, infatti, prima di chiedermi «cosa fare», mi chiede di prendere coscienza del mistero del peccato del mondo, che è anche dentro di me, di noi tutti e che si manifesta nelle sue «resistenze»: in tutto ciò che il peccato condiziona nella mia stessa storia personale e di sequela, nei rapporti e nel pluralismo delle mentalità e delle culture diverse, nei sistemi del mondo e nelle strutture.
È necessario chiedere ogni giorno il dono della vigilanza per poter entrare nelle diverse realtà sempre un po’ da straniera, cioè come chi non fa propri i criteri del mondo, ma cerca ovunque la presenza del Signore, il Crocifisso risorto, Colui che viene sempre come Amore che si fa vicino a tutti e specialmente ad ogni persona emarginata.
L’accoglienza, l’universalità, la fede, la speranza sono dimensioni che camminano assieme alla certezza che il migrante con la sua diversità ha una missione da compiere e che la sua condizione ha in sé le potenzialità per trasformare l’ambiente, il mondo. Perché tutto questo possa portare il suo frutto è necessario fare tanto spazio. E soprattutto è necessario ricevere continuamente il dono della comunione per poter camminare sulle strade disperse dell’emigrazione, lasciarci sempre di nuovo unificare da Gesù, il crocifisso-risorto, per scoprire nei nostri rapporti la presenza di Dio e gioire del mistero della Sua vita, cioè della comunione trinitaria, nella quale già siamo a casa.
Sulle strade della sensibilizzazione
È viva nei migranti la coscienza della dignità della persona, di essere cittadini del mondo, di far parte di un’unica famiglia e quindi con gli stessi diritti e doveri della gente del posto, della necessità di partecipare attivamente nella società in cui, in un modo o nell’altro, sono inseriti. «Per il semplice fatto che ho attraversato la frontiera sono uno straniero – reclamava un giovane – ma io sono lo stesso di prima. Perché queste barriere, queste leggi che frazionano l’umanità?».
La sensibilizzazione della società è un aspetto fondamentale, al tempo di G.B. Scalabrini come oggi. I numerosi contatti con gli uffici pubblici, le istituzioni, i gruppi di giovani, le scuole, le università, gli amici... diventano l’occasione per interpretare la realtà dei migranti e far conoscere il volto positivo dell’emigrazione, visto che spesso dominano gli stereotipi proposti dai mezzi di comunicazione e confermati dai giudizi affrettati di chi guarda solo ai comportamenti esterni.
Tante sono le strade e le stradine per sensibilizzare sulla reale situazione dei migranti. E in ogni ambiente è possibile incontrare persone aperte, con una grande sensibilità verso l’altro e capaci di porre dei segni attraverso concreti cambiamenti nel comportamento, gettando così semi di pace nelle relazioni. Anche di loro parlava G.B. Scalabrini quando diceva:
«I servitori di Dio che lavorano senza saperlo, inconsciamente pel compimento dei suoi disegni, sono numerosi in tutti i tempi, ma nelle grandi epoche storiche di rinnovamento sociale, ve ne sono più che non si conosca, più che non si pensi: essi sono innumerevoli».
L’emigrazione ci obbliga a cambiare, ad aprirci, ci chiede di abbandonare quell’idea di integrazione che vuole «fare ordine» nella società, come se fosse il migrante a portare disordine e scompiglio, o meglio, come se fosse lui colpevole del disordine che già c’è dentro di noi e davanti al quale vogliamo chiudere gli occhi e il cuore irresponsabilmente. Certamente invece è necessaria quell’integrazione che fa spazio al diverso e ci porta a superare ogni conservazione rigida della cultura, dietro la quale c’è spesso la nostra paura.
Ho incontrato e incontro anche migranti che, dopo essersi fatti strada con tanti sacrifici, ora guardano ai nuovi arrivati, ai nuovi ultimi, con la pretesa di un meritato diritto di precedenza! Così in effetti capita a volte in famiglia: quando nasce un fratellino possiamo provare un po’ di disagio vedendo diminuito il nostro spazio! Ma anche il disagio può diventare l’occasione per un nuovo coinvolgimento nei confronti di chi è più piccolo e quindi più bisognoso, può avvicinare le persone, far crescere la solidarietà.
Ogni uomo, migrante o no, quando accoglie con amore l’imprevisto, il dolore, un disagio, tutto ciò che può far male, senza accorgersi fa spazio ad una nuova umanità, dove il dolore può essere attraversato dalla festa, la dimensione più vera della vita cristiana, propria del cuore di Dio. È forte il senso della festa dentro il popolo latinoamericano, per non dire del popolo africano e – pur in modi diversi – di ogni popolo, già toccato – anche senza saperlo – dalla forza della vita nuova, frutto della morte e risurrezione di Cristo.
«L’emigrazione è divina», così ha iniziato un giovane rifugiato congolese nel comunicare la propria testimonianza ad un gruppo di giovani al Centro Internazionale per Giovani – G.B. Scalabrini a São Paulo, e ha proseguito: «Solo Dio può pensare di unire l’umanità da rive così distanti e persino attraverso i suoi drammi... Solo Dio può avermi portato qui in Brasile nella mia fuga nascosto nel fondo di una nave, mentre ero convinto di arrivare in Europa...». Lo abbiamo conosciuto quando ha incominciato a frequentare il corso di portoghese per rifugiati, così come un altro giovanissimo rifugiato che, nel comunicare con tristezza che gli era stata negata la richiesta di asilo, diceva: «Non so più di chi sono, nessuno mi vuole, dove andrò? Perché tanta violenza?». «Ma – aveva ripreso – so che senza sangue non c’è libertà, senza dolore non c’è vita nuova...».
È proprio vero che l’emigrazione è un grido alla vita e che i migranti, con il loro sacrificio e dolore, con i loro drammi e specialmente con la loro speranza tenace e una fede incrollabile, aiutano le società ad aprirsi per una nuova convivenza, che non sarà senza conflitti, ma è proprio lì, dove le diversità entrano in dialogo, che si gioca il futuro dell’umanità.
Certo è che l’emigrazione apre orizzonti impensabili alla comunione tra le diversità perché, come diceva Angel, un migrante argentino: «È proprio grazie alla diversità che avvengono i grandi salti qualitativi».