Seguindo a força do rio
Elisangela Dias Barbosa, mss
No espelho da vida
contemplo tua beleza natural:
água espelho,
espelho água!
Tudo reflete o verde intenso de tuas árvores:
grandes refúgios que garantem a vida
e que ao sopro do vento equatorial
acompanham os passos de dança
daqueles que cansados de caminhar
choram e gritam,
no silêncio da floresta,
o direito de viver em sua própria terra.
Nasci em Roraima, um dos sete estados brasileiros da Amazônia, uma terra que costumo definir com encanto e mistério. Encanto, porque com a sua imponência – reveste 45,3% do território nacional brasileiro e constitui a maior concentração hídrica do planeta, com 1/5 de toda a reserva mundial – impressiona pela natureza extraordinariamente rica de diversidade. Mistério, sobretudo por conta de seu povo nativo, os índios, que desde o princípio deram um nome a esse cenário natural, que para eles não era apenas uma grande floresta com seus rios "espelhos d’água", mas significava a própria vida.
Sim, falar da Amazônia é falar da vida! Vida para os nossos povos indígenas, que em tempos remotos a cantavam, enquanto hoje – estrangeiros em sua própria terra – são forçados a gritar para podê-la viver com dignidade em seu próprio ambiente natural. Vida, também, para os muitos migrantes que ali chegaram, a maioria proveniente do nordeste brasileiro, motivados por vários projetos de colonização organizados pelo governo em favor dos camponeses que sofriam com a seca e a fome. E como não dizer vida para mim que cresci neste universo quase único, tocando com minhas mãos realidades contrastantes de mundos que se encontraram na história de minha família?
A diversidade dentro de minha família
Meus pais casaram-se muito jovens e durante os primeiros anos enfrentaram muitas dificuldades, causadas em grande parte pela diversidade étnica existente entre eles: minha mãe, filha de índios e meu pai de migrantes do nordeste brasileiro, do Estado do Ceará. Muitos foram os matrimônios entre descendentes indígenas e migrantes internos e essas uniões muitas vezes foram acompanhadas por conflitos: o preconceito para com aqueles de origem indígena foi um dos principais fatores. Preconceito que, ainda hoje, é alimentado por uma sociedade que, movida pela busca da aparência, pelo impulso da moda, que não traz novidade em si mas a uniformidade, revela-se despreparada para o encontro com o novo, à abertura para com o diferente, à verdadeira acolhida do outro que na sua diversidade é uma chance viva para a verdadeira experiência do diálogo.
Minha mãe sentiu na pele o peso de sua diversidade. Tantas eram as humilhações que os indígenas sofriam, que chegava a dizer para si mesma e aos outros que não era índia porque não tinha nascido em uma tribo. Também para o meu pai não era fácil liberar-se da pressão social e dos comentários de sua família. Mesmo sendo ainda pequena percebia que entre meus pais existia alguma dificuldade de relacionamento. Muitas vezes vivi o silêncio para não me deixar levar pelo impulso de questionar, pois amava igualmente a todos os dois. Aquilo que me impressionava era o amor que minha mãe sentia por meu pai, um amor que, nas provações e sofrimentos, não diminuía.
Dia após dia, minha mãe vivia com fidelidade o seu amor por seus filhos, transmitindo-nos sempre esperança e muito afeto. E ao mesmo, com muita paciência, buscava construir com meu pai um futuro mais sólido que fosse alicerçado sobre o diálogo, a escuta e o perdão.
Hoje, ao relembrar a história de minha família e em particular a de meus pais, compreendo que quando uma pessoa descobre a verdadeira fonte do amor, toda a sua vida pode tornar-se um construir com o outro, um buscar sempre novamente o encontro com o outro, dia após dia, levada pela esperança em uma transformação que possa alcançar a ambos. Uma transformação que não é automática, mas que ao ser desejada, adquire uma força incrível e é capaz de romper com barreiras que sufocam o nosso coração e contaminam os nossos olhos.
A fonte do amor, aquela que nos garante a força da transformação, minha mãe a encontrou em Deus. Na sua fé simples nos ensinava as orações e o sinal da cruz, através do qual eu começava a intuir que somos abraçados pelo amor infinito de um Deus que no Seu Filho foi capaz de morrer por todos.
Meu pai, após um tempo, acabou descobrindo a verdadeira esposa que tinha ao seu lado e começou a mudar. Na experiência do perdão conseguiu abrir-se ao verdadeiro diálogo que é acolhida do outro e que fundamentalmente quer dizer uma única coisa:"eu te estimo na tua diversidade e singularidade". Um passo decisivo que cada um de nós deve fazer, pois a não acolhida da diversidade do outro é a negação também da própria diversidade. No encontro com o outro, em um êxodo interior que move todo o nosso ser e nos leva para fora de nós mesmos, podemos descobrir a nossa verdadeira identidade, aquela de filhos de Deus.
Como ponto de partida para um novo começo meus pais decidiram ter mais um filho. Desde então, meu pai tornou-se mais presente em casa e muito zeloso por sua família. Para nós a esperança brilhava mais forte. A nova vida pedia espaço para o amor verdadeiro e recíproco. Juntos buscávamos viver a união familiar nas pequenas coisas do cotidiano: no café da manhã antes de irmos para a escola, ao meio-dia quando papai voltava do trabalho e mamãe nos avisava para que pudéssemos ir ao seu encontro e acolhê-lo com um abraço e também nos passeios de fim de semana quando íamos pescar e dormir na praia sob a luz das estrelas.
A nossa casa, na cidade de Boa Vista, situava-se mais ou menos a 500 metros do grande rio que atravessa o Estado de Roraima por 548 km, o Rio Branco, cujas águas, após um longo percurso, confluem no Rio Amazonas. Antes, não tínhamos água encanada em casa e quando mamãe devia lavar nossas roupas a acompanhávamos até o rio. Para mim e meu irmão era uma grande diversão: apesar da profundidade e extensão do rio, o medo não fazia parte de nossas brincadeiras de crianças e, assim, desde pequenos aprendemos a nadar.
Aos meus olhos nosso pai, apesar de ser descendente de migrantes nordestinos, conhecia muito bem a natureza como um índio. Desde pequeno aprendeu os segredos da floresta e dos rios, como, por exemplo, reconhecer no escuro da noite os olhos de um jacaré. Quando durante a noite descíamos em nossa canoa o rio, algumas vezes, encontrávamos este amigo não muito desejado, então papai o imobilizava com o foco de luz da lanterna em seus olhos, para que cego não pudesse reagir contra nós. Esta é uma das mais belas leis da natureza: não matar um animal senão em caso de fome ou perigo de vida.
De minhas raízes indígenas... a fé
Durante as férias de fim de ano, nossa família se dirigia para uma pequena vila próxima de Boa Vista e, ali, passávamos o período das férias, sendo uma parte com os avós maternos e a outra com os avós paternos. Como meus avós maternos eram indígenas, a grande casa onde moravam era de argila e coberta com palha. Tudo era muito simples, sem água encanada e energia elétrica, porém a beleza daquele lugar era encantadora: tinha um canal de água cristalina, como um pequeno rio, onde podíamos brincar, nadar e pescar, árvores frutíferas, plantação de banana, mandioca, milho, cana-de-açúcar, café, cacau, feijão, e também, um pequeno espaço para a criação de animais domésticos.
Porém, o que mais gostava era dormir perto da minha avó Teresa. Ali não existiam camas, todos dormíamos na rede, uma pequena tradição indígena. Quando chegava a hora de nos recolhermos, pedia à minha avó para contar alguma coisa de seu tempo de criança e de como era a vida na aldeia indígena. Ela pertencia à tribo dos Macuxis, uma das tribos mais conhecidas no norte da Amazônia, especialmente em Roraima, uma tribo que nos tempos da colonização portuguesa sofreu a violência física e cultural como também as demais tribos indígenas do Brasil. Desde o princípio da colonização, os índios eram capturados e mantidos como escravos. Muitos foram os conflitos entre os povos indígenas e os colonizadores portugueses. A tribo dos Macuxis foi a que mais resistiu às mudanças impostas no decorrer do tempo. Apesar dos massacres ocorridos ao longo da história é a etnia mais numerosa dentro do Estado de Roraima, sendo a estimativa de 16.500 índios Macuxis. Um número pequeno se comparado com o índice de indígenas mortos durante estes 506 anos após o "descobrimento" do Brasil!
Embora minha avó tenha nascido no início do século XX a vida para ela e seu povo não foi muito diferente de seus antepassados. Com voz baixa, modo típico indígena de falar, contava-me a grande aventura de sua vida e eu exercitava os ouvidos para escutá-la. Quando menina, provavelmente na idade de 10 anos, foi adotada por uma família de migrantes colonizadores. A adoção de crianças índias por famílias não índias era uma forma de mantê-las como servas. Minha avó era responsável por cuidar de uma criança de colo. Um dia, porém, por causa de um pequeno acidente, a criança que trazia nos braços caiu por terra. A criança, assustada, começou a chorar forte. Isso chamou a atenção da mãe que puniu severamente minha avó. Ao anoitecer decidiu fugir atravessando a floresta e levando consigo um pedaço de queijo e uma pequena porção de farinha de mandioca. Sozinha, longe de seu povo, ela foi confiada a um orfanato que era mantido pelas irmãs beneditinas, onde passou a sua adolescência. Neste ambiente conheceu a fé católica e assim pôde receber os sacramentos: uma herança que, por meio de minha mãe, chegou até nós, seus netos.
Recebi a primeira comunhão aos 12 anos de idade, e logo após, decidi procurar minha catequista para oferecer meu serviço na catequese. A sua resposta foi negativa sendo que eu era muito nova e ainda não tinha recebido o sacramento da Crisma. Perguntei, então, quando poderia receber este sacramento e ela me respondeu que deveria completar os 15 anos. Não posso dizer que não fiquei triste, mas na idade em que estava, um mundo se abria diante de mim: escola, amigos, amores secretos, esporte. Pouco a pouco, fui me distanciando da paróquia.
Após a conclusão de uma das etapas dos estudos, o próximo passo era encontrar um trabalho e iniciar um curso universitário. Apesar da vida simples que vivia com minha família, como jovem começava a tocar outra realidade: não pensava que o "mundo" lá fora fosse muito duro e exigente com os jovens. Descobria, pouco a pouco, que algo estava errado e que muitas coisas em nosso país eram injustas. Passei a ser mais crítica com a realidade ao meu redor e tornei-me mais sensível às causas sociais, fazendo escolhas concretas que serviam como protestos às injustiças sociais colocadas sobre nós brasileiros: renunciei a continuar o estudo da língua inglesa, que no meu entender era a língua da globalização econômica e da opressão americana; organizava abaixo-assinados à prefeitura de minha cidade pedindo melhorias em meu bairro; ao contrário dos meus amigos, decidi estudar por conta própria sem freqüentar os cursos muito caros de preparação ao vestibular [n.d.r. uma prova de admissão à universidade muito seletiva], enquanto pensava que não era justo pagar um curso preparatório para usufruir um direito nosso.
Também os encontros de preparação para a Crisma me ajudaram a amadurecer e a fazer crescer o senso crítico. Após alguns anos afastada de minha paróquia voltava a ela e trazia comigo o antigo desejo de ser catequista. Um desejo que não pude realizar de imediato, porque três meses após a Crisma fui internada em um hospital por causa de uma doença que afetou toda a minha coordenação motora. Dependente dos outros em tudo, passei 15 dias de cama entre a vida e a morte, em uma situação que parecia não deixar perspectiva ao meu futuro.
Esta dura experiência me fez pensar sobre o verdadeiro valor da vida a ponto de me questionar: "Você tem 19 anos, o que você viveu? O que você faz de sua existência?" Na mente passavam tantos acontecimentos de minha história, mas descobria que ainda não tinha vivido nada. A dedicação e o sacrifício de minha mãe, que estava comigo dia e noite e que dormia por terra próxima ao meu leito, me provocavam. E naqueles dias fiz esta oração: "Senhor, a vida que de novo me darás é tua". Saí do hospital com o desejo imenso de viver e lembrei-me muitas vezes daquela oração. Tudo ao meu redor já não era como antes: aos meus olhos a natureza adquiria mais cor e luminosidade; contemplava com alegria minha família e meus amigos; as dificuldade e frustrações que vivi, como todos jovens de minha idade, tornaram-se relativas diante do grande dom da vida que Deus me concedia novamente.
Para ter certeza se estava totalmente curada, fui obrigada a viajar para São Paulo a fim de fazer um exame médico especializado, pois o hospital de minha cidade não usufruía os equipamentos necessários. Era a primeira vez que viajava para fora de Roraima. Meu pai acompanhou-me e, com ele, descobri uma realidade jamais vista: pobreza e riqueza lado a lado, prédios enormes e modernos, casas antigas e históricas, avenidas famosas e habitações desumanas sob viadutos, mendigos que dormiam pelas ruas da cidade e crianças abandonadas que pediam dinheiro nos semáforos. Foi uma experiência difícil que me questionava. Para mim, que vinha de um ambiente onde a natureza me falava de vida a todo instante, São Paulo se apresentava com um rosto desumano. Após ter recebido o resultado positivo de minha cura, estávamos contentes por retornar rapidamente para casa. No momento de entrar no avião, olhei ao redor e disse para mim mesma que jamais voltaria a essa cidade.
Uma ponte com a diocese de Placência
A doença e a viagem para São Paulo foram experiências que marcaram um novo início. Buscava de todas as formas viver uma completa doação de mim mesma. Assim, fui me envolvendo sempre mais nas atividades pastorais de minha paróquia. Ali, tinha grandes amigos, dos quais recebia o testemunho de que o amor de Deus é para todos. E como não recordar dos meus amigos da Diocese de Placência? A partir de 1997, com a chegada de dois sacerdotes, a Diocese de Placência tornou-se presença missionária viva no Estado de Roraima em favor dos povos indígenas e dos pequenos produtores rurais daquela região.
No encontro com os amigos de Placência, entre estes os colaboradores do Centro Missionário, outros sacerdotes e os jovens que nos visitavam para uma experiência missionária, experimentava emoção e alegria pelo fato de ter diante de mim cristãos tão especiais que vinham de tão longe a uma terra que era desconhecida aos olhos do mundo. Chegava até mesmo a exprimir o meu desejo de conhecer o país de onde vinham, a Itália, e sobretudo Placência. Em clima de amizade me falavam de sua diocese, da sua história, de seus lugares, como por exemplo a Catedral, onde se encontrava a urna com o corpo do grande bispo da diocese de Placência, João Batista Scalabrini, que o Papa recentemente tinha beatificado. Uma diocese que pouco a pouco entrava em minha vida e despertava em mim o desejo de viver a missionariedade. E tudo se transformava na experiência daquele amor universal de Deus que descobria dia após dia, também através de meu trabalho.
Trabalhava como secretária em um sindicato dos docentes da Universidade de Roraima, um ambiente onde o ateísmo era muito forte e as pessoas se dividiam conforme suas idéias políticas. E ainda que o ambiente fosse um contínuo desafio para mim, era um trabalho que me fascinava e pelo qual me empenhava, porque me dava a possibilidade de conhecer sempre mais as causas das injustiças sociais existentes no país. Gostava de participar das manifestações públicas em favor do ensino gratuito e de qualidade para todos; apoiava o Movimento dos Sem-Terra e com eles levantava a bandeira de que o Brasil necessitava com urgência de uma reforma agrária para favorecer os pequenos produtores rurais; ajudava no trabalho de sensibilização sobre a situação dos povos indígenas, para uma justa demarcação das reservas indígenas em Roraima, uma luta que conta com o forte apoio da Igreja Católica. A luta sindical me fazia descobrir que a fé cristã deve ser expressa também no campo político e pode encontrar respostas para situações que, aos nossos olhos, não têm resposta.
Um retorno diferente a São Paulo
Entre os excessivos empenhos pastorais e atividades políticas ligadas ao meu trabalho percebi que dentro de mim crescia a sede: tudo aquilo que fazia necessitava de um sentido mais profundo. Junto a essa sede apareceram também tantas perguntas e dúvidas. Lendo um periódico especial de Pelas estradas do êxodo [n.d.r. uma publicação das Missionárias Seculares Scalabrinianas], que um sacerdote de Placência providencialmente me emprestou e que apresentava a vida do Bem-aventurado João Batista Scalabrini por ocasião de sua beatificação, me impressionou o seu testemunho: um homem que respondeu até o fim e também nas mínimas coisas ao amor de Deus. Sua vida me falava que a fé em Cristo é capaz de abraçar a tudo e a todos sem distinção de cor, nacionalidade, religião, etnia; sobretudo nos torna capazes de acolher a nós mesmos em nossa diversidade e, ainda mais, de fazer a paz com a nossa história também quando esta se revela um pouco dura. De fato, com Ele, o Senhor da vida, podemos construir a mais bela história. Nele tudo quanto existe no mundo é já envolvido pelo Seu amor que une realidades contrastantes como alegria e dor, morte e vida, a natureza e seu Criador, o pecado e a graça da salvação. Em cada um pode crescer a semente de vida nova, como cresceu em Scalabrini: um homem que, partindo de uma vida plena de oração e contemplação, foi capaz de responder às exigências sociais, políticas e pastorais, porque era movido pela fé, pelo Espírito do Crucificado e Ressuscitado.
Uma espiritualidade que no tempo soube interpelar tantas pessoas também por meio do testemunho das duas congregações por ele fundadas, a dos Missionários e das Irmãs Missionárias, e do Instituto Secular que nele se inspira, aquele das Missionárias Seculares Scalabrinianas que pude conhecer na minha segunda visita a São Paulo, quando participei, junto a outros jovens, de um campo internacional.
Por meio delas descobri uma nova face desta cidade: um novo modo de olhar me permitia de não me prender aos aspectos exteriores de uma realidade dura e me fazia entrar em uma compreensão nova das mesmas realidades contrastantes. Escutando-as, aprendia a percorrer a história de um povo que era formado pelos mais variados rostos, provenientes de todas as partes do Brasil e do mundo e que transmitiam, apesar das dificuldades, um sorriso de esperança.
Olhando o estilo de vida das Missionárias Seculares Scalabrinianas, percebia que a fé cristã não tem fronteira e quer se fazer presente em todos os ambientes como sal e fermento que, misturados à farinha, desaparecem para que toda a massa fermente: algo que se torna concreto quando a nossa vida encontra na Eucaristia o segredo e a força para viver em todas as coisas a relação filial com Deus. O que me fascinou foi sobretudo o testemunho simples e alegre de uma vida totalmente entregue a Deus na consagração secular, uma expressão da vida consagrada que até aquele momento não conhecia, mas que após aquele encontro não podia permanecer indiferente aos meus olhos: o chamado a testemunhar que o verdadeiro fermento não somos nós, mas é Jesus e a fazer espaço em cada ambiente e situação, por meio das vias humildes da pobreza, da castidade e da obediência, à Sua vida e à Sua potência de transformação que age a partir de dentro.
Deixei minha terra para caminhar junto com elas no desejo de viver como Scalabrini, que sabia unir fé e vida contemplando o rosto de Jesus Crucificado e Ressuscitado no mundo, com todo o seu mau e com todo o seu bem.
Há três anos moro em São Paulo. Não tenho ao meu redor as árvores, os rios e os animais da floresta amazônica, o cenário é totalmente diverso. Nesta nova vida junto com as missionárias no Centro Internacional para Jovens – J. B. Scalabrini, vejo que a nossa casa imersa entre os arranha-céus de São Paulo, pode ser um sinal, um lugar de encontro, no meio de uma selva...de pedra. A coisa mais bonita é a presença da Eucaristia em nossa capela, situada no ponto mais baixo de nossa casa sob um pedaço do céu retalhado entre vertiginosos edifícios. Sua localização nos diz que a vida se torna mais vida quando, na sua pobreza e pequenez, se abre para receber o amor infinito de Deus que vem até nós. Ele, de fato, em seu Filho Jesus, desceu no ponto mais baixo de nossa miséria humana para nos presentear a vida nova, fruto de uma semente que morre por amor.
Nesta experiência cotidiana, que atravessa as ruas de nosso bairro – especialmente marcado pela diversidade com algumas ruas tipicamente japonesas - e nas visitas às famílias mais pobres que habitam em desumanos cortiços [n.d.r. edifícios, muitas vezes em péssimas condições, destinados a habitações coletivas], o meu coração está se dilatando em uma abertura que vai além dos grandes rios de minha região de origem. Como diz uma canção de Maria Grazia Luise: "hoje percebo que vivo no universo, cada país é meu e o meu país é o mundo".
Realmente, sinto que não pertenço a um só povo - no meu caso ao povo indígena - ou somente a um país que sofre com as exclusões sociais, como o Brasil, mas pertenço a toda a humanidade e não existe nada que permaneça do lado de fora. É uma certeza que encontro na Eucaristia: um mistério grande e vivo, que une todas as fronteiras e que atravessa o tempo com o seu amor eterno. É assim que Cristo se faz companheiro de viagem de cada homem e é por Ele que também Scalabrini, enamorado pela Eucaristia, fez-se bom samaritano, companheiro de viagem do homem, do migrante.
Hoje, aquela oração feita em um leito de hospital assumiu uma dimensão maior, tornou-se um sim para sempre ao Pai da Vida no seguimento de Seu Filho, Jesus pobre, virgem e obediente, no êxodo da humanidade migrante. Um sim de total pertencer a Deus nesta Sua comunidade de Missionárias Seculares Scalabrinianas com os votos de pobreza, castidade e obediência que pronunciei, juntamente com Mariagrazia, proveniente de Brescia (Itália), no dia 16 de abril de 2005, em Solothurn (Suíça). Um sim para deixar-me conduzir a cada dia pelo rio de água viva que é Jesus Crucificado e Ressuscitado.
Quanto ao meu desejo de conhecer Placência, pude realizá-lo em fevereiro de 2002. Entrando na Catedral com as Missionárias que me acompanharam, percebi que o momento que estava vivendo não era por acaso: tantos acontecimentos me levaram até ali, àquele encontro com Scalabrini e sua história. Estava profundamente comovida. Carregava em meu coração uma gratidão pela vida de Scalabrini, por seu empenho missionário como bispo que não se limitou aos confins de sua diocese, mas abraçou o mundo e todos os migrantes, lançando ao vento sementes que em um futuro germinariam. Sementes que, por meio do testemunho dos Missionários Scalabrinianos, chegaram também até Solothurn... onde, em 1961, com Adelia, pôde-se iniciar o caminho de nosso Instituto Secular na Família Scalabriniana e na Igreja. Sementes que foram capazes de chegar em pontos distantes do mundo, como Roraima.
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[Traduzione dall’orig. portoghese in: Collana Traditio Scalabriniana
n. 4 (novembre 2006)]
Seguendo la forza del fiume
Elisangela Dias Barbosa, mss
Nello specchio della vita
contemplo la tua bellezza:
acqua specchio,
specchio acqua!
Tutto riflette il verde intenso dei tuoi alberi:
grandi rifugi che garantiscono la vita
e che al soffio del vento equatoriale
accompagnano i passi di danza
di coloro che stanchi di camminare
piangono e gridano
nel silenzio della foresta
il diritto di vivere nella propria terra.
Sono nata nel Roraima, uno dei sette Stati brasiliani dell'Amazzonia, una terra che uso definire incanto e mistero. Incanto, perché nella sua imponenza – copre il 45,3% del territorio nazionale brasiliano e costituisce la maggior concentrazione idrica del pianeta, con un 1/5 di tutta la riserva mondiale – impressiona per una natura straordinariamente ricca di diversità. Mistero, soprattutto a motivo del suo popolo nativo, gli indios, che fin dall’inizio hanno dato il nome a questo scenario naturale, che per loro non era soltanto un’estesa foresta con i suoi fiumi – gli "specchi d’acqua" – ma significava tutta la loro vita.
Sì, parlare dell’Amazzonia è parlare della vita! Vita per i nostri popoli indigeni che in tempi remoti la cantavano, mentre oggi – stranieri nella propria terra – sono costretti a gridare per poter vivere con dignità nel loro ambiente naturale. Vita anche per i molti migranti che lì arrivarono, la maggioranza proveniente dal nordest del Brasile, attratti dai diversi progetti di colonizzazione organizzati dal governo in favore dei contadini che soffrivano la siccità e la fame in altre regioni del paese. E come non dire vita anche per me che sono nata e cresciuta in questo universo un po’ unico, toccando con mano le realtà contrastanti di questi mondi che si sono incontrati nella storia della mia famiglia?
La diversità dentro la mia famiglia
I miei genitori si sono sposati molto giovani e durante i primi anni hanno dovuto affrontare tante difficoltà, causate in gran parte dalla loro diversità etnica: mia madre discendeva da indigeni e mio padre da migranti del nordest del Brasile, dello Stato del Ceará. Molti sono stati i matrimoni tra discendenti di indigeni e migranti interni e queste unioni spesso sono state accompagnate da conflitti: i pregiudizi nei confronti delle persone di origine indigena erano tra i motivi principali. Pregiudizi che, ancora oggi, sono alimentati da una società che, mossa dalla ricerca di apparenza, dalla rincorsa alle mode, che non portano novità in sé ma uniformità, si ritrova impreparata all’incontro con il nuovo, all’apertura nei confronti del diverso, all’accoglienza dell'altro che nella sua diversità è una chance viva per l’esperienza vera del dialogo.
Mia madre ha sentito sulla propria pelle il peso della sua diversità. Tante erano le umiliazioni che gli indigeni dovevano subire, che era arrivata al punto di dire a se stessa e agli altri che non era india perché non era nata in una tribù. Anche per mio padre non era facile liberarsi dalla pressione sociale e dai condizionamenti della sua famiglia. Io, pur essendo ancora molto piccola, percepivo che qualcosa tra i miei genitori non andava bene. Molte volte sono rimasta in silenzio trattenendo le mie domande perché volevo bene a tutti e due nello stesso modo. Ciò che mi impressionava era l’amore che mia madre aveva per mio padre, un amore che, nelle prove e nelle sofferenze, non diminuiva.
Giorno dopo giorno mia madre viveva con fedeltà il suo amore per i suoi figli, trasmettendoci sempre speranza e molto affetto. E allo stesso tempo, con pazienza, cercava di costruire con mio padre un futuro più solido, che fosse fondato sul dialogo, sull’ascolto, sul perdono.
Oggi, nel ricordare la storia della mia famiglia e in particolare quella dei miei genitori, comprendo che quando una persona scopre la vera fonte dell'amore, tutta la sua vita può diventare un costruire insieme all'altro, un cercare sempre nuovamente l’incontro con l'altro, giorno dopo giorno, portata dalla speranza di una trasformazione che può raggiungere entrambi. Una trasformazione che non è automatica, ma che nell'essere desiderata acquista una forza incredibile ed è capace di rompere le barriere che soffocano il nostro cuore e contaminano i nostri occhi.
La fonte dell'amore, quella che ci garantisce la forza della trasformazione, mia madre l'ha trovata in Dio. Nella sua fede semplice ci insegnava le preghiere e il segno della croce, attraverso cui io incominciavo ad intuire che siamo abbracciati dall'amore infinito di un Dio che nel Suo Figlio era stato capace di morire per tutti.
Mio padre, dopo un certo tempo, ha scoperto chi era la moglie che aveva al suo fianco ed ha incominciato a cambiare. Nell'esperienza del perdono è riuscito ad aprirsi al vero dialogo che è accoglienza dell’altro e che in fondo vuol dire una sola cosa: "Io ti stimo nella tua diversità ed unicità". Un passo decisivo che ognuno di noi deve fare, perché la non accoglienza della diversità dell'altro è anche la negazione della propria diversità. Nell'incontro con l'altro, in un esodo interiore che muove tutto il nostro essere e ci porta fuori da noi stessi, possiamo scoprire la nostra vera identità, quella di figli di Dio.
Come punto di partenza per un nuovo inizio i miei genitori decisero di avere un altro figlio. Da allora il papà incominciò ad essere più presente in casa e molto più sollecito nei riguardi della famiglia. Per noi la speranza brillava più forte. La nuova vita chiedeva spazio per l'amore vero e reciproco. Insieme cercavamo di vivere l’unità della famiglia nelle piccole cose del quotidiano: a colazione prima di andare a scuola, all’ora di pranzo quando papà veniva a casa dal lavoro e la mamma ci avvisava perché gli corressimo incontro per accoglierlo con un abbraccio e anche nelle passeggiate del fine settimana quando andavamo a pescare e a dormire in spiaggia sotto la luce delle stelle.
La nostra casa, nella città di Boa Vista, si trovava a circa 500 metri dal grande fiume che attraversa lo Stato del Roraima per 548 km, il Rio Branco, le cui acque, dopo un lungo percorso, confluiscono nel Rio delle Amazzoni. A quel tempo non avevamo l’acqua corrente in casa: allora, quando la mamma doveva fare il bucato, diverse volte l’accompagnavamo al fiume. Per me e per mio fratello era un divertimento: nonostante la profondità e l’ampiezza del fiume, la paura non faceva parte dei nostri giochi di bambini e così fin da piccoli imparammo a nuotare.
Ai miei occhi nostro padre, benché fosse discendente di migranti nordestini, conosceva bene la natura, come un indio. Fin da piccolo aveva imparato i segreti della foresta e dei fiumi, come, per esempio, il riconoscere nel buio della notte gli occhi di un coccodrillo. Quando durante la notte scendevamo lungo il fiume con la nostra canoa, qualche volta ci capitava di incontrare questo amico non molto desiderato, allora papà lo immobilizzava lanciando un fascio di luce nei suoi occhi perché, accecato, non reagisse contro di noi. Questa è una delle leggi più belle della natura: non uccidere un animale se non in caso di fame o di pericolo di vita.
Dalle mie radici indigene... la fede
Durante le vacanze di fine anno, la nostra famiglia andava in un piccolo villaggio vicino a Boa Vista e lì trascorrevamo le ferie, una parte con i nonni materni e un’altra con i nonni paterni. Siccome i nonni materni erano indigeni, la grande casa dove abitavano era d’argilla e coperta di paglia. Tutto era molto semplice, senz’acqua corrente in casa e senza energia elettrica, però la bellezza di quel luogo era incantevole: c’era un canale d’acqua cristallina, come un piccolo fiume dove potevamo giocare, nuotare e pescare, alberi da frutto, piantagioni di banane, manioca, mais, canna da zucchero, caffè, cacao, fagioli e anche un piccolo spazio per l’allevamento di animali domestici.
Tuttavia ciò che più mi piaceva era dormire vicino alla nonna Teresa; lì non c’erano letti, tutti dormivano nell’amaca, una tradizione indigena. Quando arrivava il momento di coricarci chiedevo alla nonna di raccontare qualcosa della sua infanzia e di come era la vita nel villaggio indigeno. Apparteneva alla tribù dei macuxis, una delle più conosciute nel Nord-Amazzonia, specialmente nel Roraima, una tribù che ai tempi della colonizzazione portoghese era stata oggetto di violenza fisica e culturale, come anche le altre tribù indigene del Brasile. Fin dall’inizio della colonizzazione gli indios erano stati catturati e tenuti come schiavi. Molti furono i conflitti tra i popoli indigeni e i colonizzatori portoghesi. La tribù dei macuxis fu quella che più resistette ai mutamenti imposti nel corso del tempo. Nonostante i massacri avvenuti lungo la storia, è rimasta nello Stato di Roraima l’etnia più numerosa. Si stima che siano circa 16.500. Pochi se paragonati al numero degli indigeni morti in questi 506 anni in seguito alla "scoperta" del Brasile!
Benché mia nonna sia nata all’inizio del XX secolo, la vita per lei e per il suo popolo non è stata molto diversa da quella dei suoi antenati. A voce bassa, il modo tipico indigeno di parlare, mi raccontava l’avventura della sua vita ed io, tutta orecchi, ero lì ad ascoltarla. Da piccola, probabilmente intorno ai 10 anni, era stata adottata da una famiglia di coloni. L’adozione di bambini indigeni da parte di famiglie non indigene era un modo per tenerli come servi. A mia nonna era stata data la responsabilità di curare un bambino di pochi mesi. Un giorno, però, a causa di un piccolo incidente il bambino che aveva in braccio cadde per terra. Il bambino, spaventato, cominciò a piangere forte. Questo richiamò l’attenzione della mamma che la punì severamente. All’imbrunire, mia nonna decise di fuggire attraversando la foresta e portando con sé un pezzo di formaggio e una piccola porzione di farina di manioca. Sola, lontana dal suo popolo, fu affidata ad un orfanotrofio tenuto dalle Suore Benedettine, dove trascorse tutta la sua adolescenza. In questo ambiente conobbe la fede cattolica per cui potè ricevere i sacramenti: un’eredità che, attraverso mia madre, era arrivata fino a noi, i suoi nipoti.
Ho ricevuto la prima comunione all'età di 12 anni e subito decisi di prendere contatto con la catechista per offrire la mia collaborazione. La sua risposta fu negativa perché ero molto giovane e ancora non avevo ricevuto la cresima. Chiesi allora quando avrei potuto ricevere questo sacramento e mi rispose che dovevo aspettare i 15 anni. Non posso dire di non essere rimasta male, del resto a quell’età il mondo si apriva davanti a me: scuola, amici, amori segreti, sport. A poco a poco mi allontanai dalla parrocchia.
Dopo la conclusione di una delle tappe di studio, il passo successivo era quello di trovare un lavoro ed iniziare l’università. Al di là della vita semplice che vivevo nella mia famiglia, come giovane iniziavo a toccare altre realtà: non avevo pensato che il "mondo" là fuori fosse così duro con noi. Scoprivo, a poco a poco, che c’era qualcosa di sbagliato e che molte cose nel nostro paese erano ingiuste. Cominciai ad essere più critica nei confronti della realtà che vedevo intorno e diventai più sensibile alle cause sociali, facendo scelte concrete come protesta alle ingiustizie sociali imposte a noi brasiliani: avevo rinunciato a continuare lo studio della lingua inglese, che secondo il mio modo di vedere era la lingua della globalizzazione economica e dell’oppressione americana; organizzavo raccolte di firme per chiedere al comune miglioramenti nel mio quartiere; diversamente dai miei amici, avevo deciso di studiare per conto mio senza frequentare i corsi molto costosi di preparazione al vestibular [n.d.r. un esame di ammissione all’università piuttosto selettivo], in quanto pensavo che non fosse giusto pagare un corso preparatorio per usufruire di un nostro diritto.
Anche gli incontri di preparazione alla cresima mi aiutarono a maturare e a far crescere il senso critico. Dopo alcuni anni di lontananza dalla parrocchia, vi ero tornata portando con me l’antico desiderio di diventare catechista. Un desiderio che non ho potuto realizzare immediatamente in quanto, tre mesi dopo aver fatto la cresima, fui ricoverata in ospedale a causa di una malattia che aveva colpito la mia coordinazione motoria. Dipendente dagli altri in tutto, trascorsi 15 giorni a letto tra la vita e la morte, in una situazione che sembrava non lasciar prospettive al mio futuro.
Questa dura esperienza mi provocava a pensare al vero valore della vita e a domandarmi: "Tu hai 19 anni, che cosa hai vissuto? Che cosa ne fai della tua esistenza?" Nella mente passavano tanti avvenimenti della mia storia, ma scoprivo che ancora non avevo vissuto niente. Il dono e il sacrificio di mia madre, che era con me giorno e notte e che dormiva per terra vicino al mio letto, mi provocavano. In quei giorni feci questa preghiera: "Signore, la vita che ancora mi darai è tua".
Uscii dall’ospedale con un desiderio immenso di vivere e mi ricordai spesso di quella preghiera. Niente intorno a me era più come prima: ai miei occhi la natura acquistava più colore e luce; contemplavo con gioia la mia famiglia e i miei amici; le difficoltà e le frustrazioni che vivevo, quelle di tutti i giovani della mia età, erano relative di fronte al grande dono della vita che Dio mi concedeva nuovamente.
Per avere la certezza di essere del tutto guarita, dato che l’ospedale della mia città non aveva le apparecchiature necessarie, fui costretta ad andare fino a São Paulo per sottopormi ad un esame medico specializzato. Era la prima volta che uscivo dallo Stato del Roraima. Mio padre mi accompagnò e con lui scoprii una realtà mai vista: povertà e ricchezza l’una accanto all’altra, grattacieli enormi e moderni, case antiche e storiche, famosi viali ed abitazioni disumane sotto i viadotti, mendicanti che dormivano per le strade e bambini abbandonati che chiedevano denaro ai semafori. Fu un’esperienza difficile, che mi interrogava. Per me, che venivo da un ambiente dove la natura mi parlava della vita ad ogni istante, São Paulo si presentava con un volto disumano. Dopo aver ricevuto l’esito positivo della mia guarigione, eravamo contenti di poter ritornare subito a casa. Al momento di salire in aereo, guardai intorno e mi dissi che mai sarei tornata in quella città.
Un ponte con la diocesi di Piacenza
La malattia e il viaggio a São Paulo furono esperienze che segnarono per me un nuovo inizio. Cercavo in tutti i modi di vivere nel dono di me stessa. E così mi coinvolsi sempre di più nelle attività pastorali della mia parrocchia. Lì avevo dei grandi amici, da cui ricevevo la testimonianza che l’amore di Dio è per tutti. Tra questi, come non ricordare gli amici di Piacenza? A partire dal 1997, con l’arrivo di due sacerdoti, la diocesi piacentina era diventata una presenza missionaria viva nel Roraima a favore degli indigeni e dei piccoli produttori rurali di quella regione.
Nell’incontro con gli amici di Piacenza, tra cui i collaboratori del Centro Missionario, altri sacerdoti ed i giovani che passavano da noi per una esperienza missionaria, sperimentavo emozione e gioia per il fatto di avere davanti a me cristiani tanto speciali che venivano da così lontano in una terra sconosciuta agli occhi del mondo. Arrivai perfino ad esprimere il desiderio di conoscere il loro paese, l’Italia, e soprattutto Piacenza. In un clima di amicizia mi parlavano della loro diocesi, della sua storia, dei suoi luoghi, come per esempio il Duomo, dove era custodita l’urna con il corpo del grande vescovo di Piacenza, G.B. Scalabrini, che il Papa aveva recentemente beatificato. Una diocesi che poco a poco entrava nella mia vita e risvegliava in me il desiderio di vivere la missionarietà. E tutto si trasformava nell’esperienza di quell’amore universale di Dio che scoprivo giorno dopo giorno, anche attraverso il mio lavoro.
Lavoravo come segretaria in un sindacato per i docenti dell’Università del Roraima, un ambiente dove l’ateismo era molto forte e le persone si dividevano secondo le proprie idee politiche. Nonostante l’ambiente fosse una continua sfida per me, era un lavoro che mi affascinava e per il quale mi impegnavo, perché mi dava la possibilità di conoscere sempre di più le cause delle ingiustizie sociali esistenti nel paese. Mi piaceva partecipare alle manifestazioni pubbliche a favore dell’insegnamento gratuito e di qualità per tutti; appoggiavo il Movimento dos Sem Terra e con loro alzavo gli striscioni per dire che il Brasile necessitava con urgenza di una riforma agraria a favore dei piccoli produttori rurali; aiutavo nell’opera di sensibilizzazione sulla situazione dei popoli indigeni, per una giusta demarcazione delle riserve indigene nel Roraima, una lotta che continua ancora oggi e che conta sul forte appoggio della Chiesa Cattolica. La lotta sindacale mi faceva scoprire che la fede cristiana deve esprimersi anche nel campo politico e che può trovare risposte a situazioni che ai nostri occhi non hanno risposta.
Un ritorno diverso a São Paulo
Tra i numerosi impegni pastorali e le attività politiche legate al mio lavoro, percepivo che dentro di me cresceva la sete: tutto quello che facevo necessitava di un senso più profondo. Insieme a questa sete si affacciavano anche tante domande e dubbi. Leggendo un numero speciale di Sulle Strade dell’Esodo [n.d.r. una pubblicazione delle Missionarie Secolari Scalabriniane], che uno dei sacerdoti piacentini provvidenzialmente mi aveva passato e che presentava la vita di G.B. Scalabrini in occasione della sua beatificazione, mi impressionò la sua testimonianza: un uomo che aveva risposto fino in fondo e anche nelle cose più piccole all’amore di Dio. La sua vita mi diceva che la fede in Cristo è capace di abbracciare tutto e tutti senza distinzione di colore, nazionalità, religione, etnia; soprattutto ci rende capaci di accogliere noi stessi nella nostra diversità e, ancor più, di fare pace con la nostra storia anche quando questa si rivela un po’ dura.
Infatti con Lui, il Signore della vita, possiamo costruire la più bella storia. In Lui tutto quanto esiste nel mondo è già avvolto dal Suo amore che unisce realtà contrastanti come gioia e dolore, morte e vita, la natura e il suo Creatore, il peccato e la grazia della salvezza. In ognuno può crescere il seme della vita nuova come è cresciuto in Scalabrini: un uomo che, partendo da una vita piena di preghiera e di contemplazione, era stato capace di rispondere a tante esigenze sociali, politiche e pastorali, perché mosso dalla fede, dallo Spirito del Crocifisso e Risorto.
Una spiritualità che nel tempo ha saputo interpellare tante persone, anche attraverso la testimonianza delle due Congregazioni da lui fondate, i Missionari e le Suore Missionarie, e dell’Istituto Secolare che a lui si ispira, quello delle Missionarie Secolari Scalabriniane, che ho potuto conoscere nella mia seconda visita a São Paulo, quando ho partecipato insieme ad altri giovani ad un campo internazionale.
Attraverso di loro ho scoperto un nuovo volto di questa città: un nuovo modo di guardare mi permetteva di non fermarmi agli aspetti esteriori di una realtà dura e di entrare in una comprensione nuova delle stesse realtà contrastanti. Ascoltando loro, imparavo a percorrere la storia di un popolo formato dai volti più diversi, provenienti da ogni parte del Brasile e del mondo e che trasmettevano, nonostante le difficoltà, un sorriso di speranza.
Guardando lo stile di vita delle Missionarie Secolari Scalabriniane, percepivo che la fede cristiana non ha frontiere e si vuol far presente in tutti gli ambienti come sale e lievito che, mescolati alla farina, spariscono perché tutta la pasta fermenti: qualcosa che diventa concreto quando la nostra vita trova nell’Eucaristia il segreto e la forza per vivere in tutte le cose la relazione filiale con Dio. Quello che mi ha affascinata è stata soprattutto la testimonianza semplice e gioiosa di una vita totalmente consegnata a Dio nella consacrazione secolare, un’espressione della vita consacrata che fino a quel momento non conoscevo, ma che da ora in poi non poteva più rimanere indifferente ai miei occhi: la chiamata a testimoniare che il vero lievito non siamo noi ma è Gesù e a fare spazio in ogni ambiente e situazione, attraverso le vie umili della povertà, della castità e dell’obbedienza, alla Sua vita e alla Sua potenza di trasformazione che agisce dal di dentro.
Ho lasciato la mia terra per camminare insieme a loro nel desiderio di vivere come Scalabrini, che sapeva unire fede e vita contemplando il volto del Crocifisso e Risorto nel mondo, con tutto il suo male e con tutto il suo bene.
Da tre anni abito a São Paulo. Non ho intorno a me gli alberi, i fiumi e gli animali della foresta amazzonica, lo scenario è totalmente diverso. In questa nuova vita insieme alle Missionarie nel Centro Internacional para Jovens "J.B. Scalabrini", vedo che la nostra casa, sprofondata fra i grattacieli di São Paulo, può essere un segno, un luogo d’incontro, in mezzo a una foresta... di cemento. La cosa più bella è la presenza dell’Eucaristia nella nostra cappella, situata nel punto più basso della casa, sotto uno squarcio di cielo ritagliato tra vertiginosi grattacieli. La sua stessa posizione ci dice che la vita diventa più vita se, nella sua povertà e piccolezza, si apre a ricevere l’amore infinito di Dio che viene fino a noi. Egli, infatti, nel suo Figlio Gesù è disceso nel punto più basso della nostra miseria umana, per regalarci la vita nuova, frutto di un seme che muore per amore.
In questa esperienza quotidiana che attraversa le strade del nostro quartiere particolarmente segnato dalle diversità – con alcune vie dal tipico stile giapponese – e nelle visite alle famiglie più povere che abitano in disumani cortiços [n.d.r. edifici, spesso in pessime condizioni, adibiti ad abitazioni collettive], il mio cuore si sta dilatando ad un’apertura che va oltre i due grandi fiumi della mia regione di origine. Come dice una canzone di M. Grazia Luise: "Oggi mi accorgo che... vivo nell’universo, ogni paese è mio e il mio paese è il mondo".
In realtà sento che oggi non appartengo più solo ad un popolo – nel mio caso al popolo indigeno – o solo ad un paese che soffre le esclusioni sociali, come il Brasile, ma appartengo a tutta l’umanità e non esiste niente che rimanga al di fuori. È una certezza che trovo nell’Eucaristia: un mistero grande e vivo, che unisce tutte le frontiere e attraversa il tempo con il suo amore eterno. È così che Cristo si fa compagno di viaggio di ogni uomo ed è per Lui che anche G.B. Scalabrini, innamorato dell’Eucaristia, si fece buon samaritano, compagno di viaggio dell’uomo, del migrante.
Oggi quella preghiera fatta in un letto di ospedale ha assunto una dimensione più grande, è diventata un sì per sempre al Padre della vita nella sequela del Suo Figlio, Gesù povero, vergine e obbediente, nell’esodo dell’umanità migrante. Un sì di totale appartenenza a Dio in questa Sua comunità delle Missionarie Secolari Scalabriniane con i voti di povertà, castità e obbedienza che ho pronunciato il 16 aprile 2005 a Solothurn in Svizzera. Per lasciarmi portare ogni giorno dal fiume di acqua viva che è Gesù crocifisso e risorto.
Quanto al mio desiderio di conoscere Piacenza, l’ho potuto realizzare nel febbraio 2002. Entrando in Duomo con le Missionarie che mi avevano accompagnato, percepii che il momento che stavo vivendo non era per caso: tanti avvenimenti mi avevano portato lì, a quell’incontro con Scalabrini e la sua storia. Ero profondamente commossa. Avevo nel cuore tanta gratitudine per la vita di Scalabrini, per il suo impegno missionario come vescovo che non si era fermato ai confini della sua diocesi, ma aveva abbracciato il mondo e tutti i migranti, lanciando nel vento semi che in futuro sarebbero germogliati. Semi che, attraverso la testimonianza dei Missionari Scalabriniani, erano arrivati anche fino a Solothurn… dove nel 1961, con Adelia, era potuto iniziare il cammino del nostro Istituto Secolare nella Famiglia Scalabriniana e nella Chiesa. Semi che sono stati capaci di andare anche in punti molto distanti nel mondo, come Roraima.